Escolha um número aleatório entre 701 e 789 inclusive.
Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
701 – Doendo da pegada o calo experto
Doendo da pegada o calo experto
Cá vamos manquejando pelas trilhas,
Sangrando dos artelhos, das virilhas,
Sem nunca o longe ficar de vez perto.
Do desespero sentirei o aperto
Quando em minhas pegadas vir as filhas
Das outras que ante mim ficaram ilhas
Do continente longe a que me acerco.
Quantas traições e quantos bem maninhos
Terrenos ficarão donde haurir vinhos
Que as forças restauravam à jornada!
Ao fim, porém, como adivinho o preito
A quem prestar quando me vejo a eito
Condenado de vez a não ser nada?
702 – Falta
Doutrem a falta de apoio
Constitui factor de risco
Para a saúde, pois mói-o,
Ao solitário do aprisco,
Como o vai moendo o cigarro
Ou a falta de exercício.
Será o mortuário carro
Que enterra mais este vício.
703 – Emoção
Vai ser a nossa emoção,
Ao colorir o que ouvimos,
Que nos desliga a audição,
Pois então nos impedimos,
Ao concentrar-nos num grito,
De ouvir o que está a ser dito.
704 – Fim
Sozinha, no fim da vida,
Sem sequer ter o conforto
Da veneração devida
Ao que é o derradeiro porto,
Não guarda, porém, rancor,
Esquece quanto perdeu
E recolhe, com calor,
O nada que cai do céu.
Com o nada que ficou
Reconciliada, nem diz
O que, atento, alguém notou:
- É uma mulher tão feliz!
705 – Enganos
Ontem viu televisão,
Limpou o pó, puxou brilho?
Não teve tempo, pois não,
De ler um livro ao seu filho?
Pois veja o que são enganos:
Continua o pó no chão
Mesmo daqui a vinte anos,
- O seu menino é que não!
O mais vai permanecer.
- Ele, não, deixou de o ser!
706 – Descaro
Se uma pessoa mais velha
Se queixa pelo descaro
Da juventude, estará
A queixar-se, no reparo,
De incapaz, no que aconselha,
De impor-se ao respeito já.
É sempre comum a culpa
Se entre idades há sandice:
Juventude não desculpa
E, muito menos, velhice.
707 – Relação
O homem numa relação
É tal qual uma formiga
Sobre um pneu de camião.
É claro que ela lobriga
Que está sobre qualquer coisa
Muito grande, muito grande.
Mas nem por sombras lhe poisa
A miopia no que ande.
Se houver então movimento,
Com os pneus a rebolar,
A formiga sente o evento,
Algo de grave a passar.
Mas enquanto até ao solo
Não rolar, for esmagada,
O que pensa, p’ra consolo,
Minusculamente é nada.
708 – Cómico
A luta dá-nos antenas
Para descobrir o cómico
Nas conjunturas sinistras.
De sobreviver às penas
É o imprescindível tónico.
O burlesco traça as listras
Por onde navego, barco
De equilibração tremida:
Das tempestades é o marco
Que nos pontuam a vida.
709 – Sonâmbulas
As pessoas que vagueiam
Sonâmbulas pela vida
O dia-a-dia semeiam
De rotina desmedida.
Não param a perguntar:
Que é que eu ando aqui fazendo?
- E não há resposta a dar
Objectivos não havendo.
710 – Deveras
É estranho como esquecemos
O que importará deveras.
A roupa ou quanto comemos
Compramo-lo sem esperas.
Mas um sonho que se esvai
Em que praça, de que estilo
O compro, se a compra o trai?
Como, como readquiri-lo?
Com que moeda cunhada
Na Terra reaveremos
Essa visão adorada
Que perdemos, que perdemos?
711 – Cobertor
A vida é tal cobertor
Pequeno, curto demais.
Puxais acima e ficais
De pés frios de torpor.
Se o sacudis para baixo
É nos ombros que a tremer
Ireis de frio sofrer.
Da luz e calor o facho
É dos que são bem dispostos:
Vão encolher os joelhos,
Ficam quentes os artelhos
E os dias correm compostos.
712 – Plenitude
Enquanto o homem viver
Há-de sempre procurar
O que lhe der mais prazer
Por todo o modo e lugar.
Procurar não significa
Que aquilo a que então se aplica
Venha por fim a encontrar.
Da felicidade a base
É a plenitude da vida:
- Tão essencial e quase
Acaba sempre esquecida!
713 – Porta
Qundo uma porta se fecha,
Outra logo se abrirá.
Porém, fico preso à mecha
Que se apagou acolá.
Perco tanto tempo, tanto
A olhar o que se perdeu
Que nem reparo no encanto
Da porta que se me abriu!
714 – Fardos
Conseguimos facilmente
Suportar os nossos fardos
Se de cada dia os cardos
Sofro separadamente.
A carga pesa demais
Se hoje transporto outra vez
De ontem os negros sinais
De amanhã mais o revés.
Tanto fardo, antes de alguém
Me exigir que sobre a pele,
Como a pesado refém,
Carregue afinal com ele!
715 – Sozinho
Eu prefiro estar sozinho
De meu tempo a maior parte.
A companhia, adivinho,
Mesmo a que melhor reparte,
Breve devém cansativa
Todo o tempo que conviva.
O melhor é a solidão.
A maior parte dos casos
Ficam mais sós quantos vão
Junto aos mais quebrar acasos.
Quando alguém pensa ou trabalha
Estará sempre sozinho,
Mas, no aposento onde calha,
Porque, afinal, é seu ninho,
Quebra do mundo a muralha.
A solidão não se mede
Pelo espaço que medeia
Entre um homem e quem pede
Que se lhe junte em colmeia:
Se dum superpovoado
Arranha-céus morar perto,
Vive alguém mais isolado
Do que um monge no deserto!
716 – Arco-íris
Quem corre atrás da riqueza
Corre do arco-íris atrás,
Fascinado da beleza
Do que nunca alcançarás.
Quem o pretende alcançar,
Quem pelo arco-íris se tenta
Esfumar-se-á breve no ar
Numa neblina cinzenta.
Tão exigente é a riqueza
Que a luta por alcançá-la
Breve ignora o fim que preza
Ou tarda a festa de gala:
Quem busca ficou tão velho
Ou tão cansado ficou
Que ao se vislumbrar no espelho
A luz não vê que o guiou.
A felicidade, di-lo
O saber, tem os seus tramos
E só raramente aquilo
É aquilo que nós pensamos.
717 – Riqueza
Os meus bens exteriores
Com o íntimo em harmonia:
Quem tiver sabedoria
Tem da riqueza os primores.
O limiar da riqueza
Que um homem que é comedido
Pode suportar e preza,
É o que pode ter sentido.
Um pouco mais e de fora
Pesa o peso tanto mais
Que me vou de mim embora
E já não sou eu jamais.
718 – Cuidado
De que vale esta vida, se tanto cuidado
O tempo te retém, se nada for olhado?
Sem tempo de ficar à sombra das ramadas
Mal somos animais que pastam em manadas.
Pelos bosques andar sem tempo para ver
Nas ervas se um esquilo as nozes retiver,
Sem tempo para ver, ao sol e ao luar,
Dos céus a correnteza em rio a lucilar,
O rosto da beleza sem poder fruir,
Nem os passos da dança quando os pressentir,
Sem a boca poder, em compasso de espera,
Enriquecer sorrisos que um olhar venera,
Que vida miserável, com tanto cuidar,
Se nem tempo de a ver nela tiver lugar!
719 – Como
Como é que pode achar pouco
Alguém ter vivido o sol,
Ter gozado a Primavera,
Ter amado como um louco,
Ter pensado o que é que era,
Ter agido e ter gerado
Um mundo do outro lado?
Como é que pode achar pouco?
- Só se muito alguém for oco!
720 – Opulência
A opulência, quando aflui,
A um ou outro maior
Êxito conduz e influi…
- Só não logra sobrepor,
Mesmo se nos persuade,
Nada ao que é felicidade.
721 – Expectativa
Muitas coisas são geradas
Contra nossa expectativa.
As que eram mais esperadas
Jamais a vida as cativa.
Não contamos com aquelas
De que o sonho foi conviva…
- E somos só tais sequelas!
722 - Barco
Culpamos de tudo a vida
Sem forças para embarcar
No barco de qualquer ida
Que aportaria a um lugar.
Prisioneiros do importante,
Descuidamos. Permanece
Vivo algo por nós adiante:
A vida que nos esquece.
723 – Troços
Dói a condição humana
Que divide carne de alma
Em dois troços sem fusão.
Cada qual o corte traz,
Mas dele breve se acalma:
Como é fatal, fica em paz.
Por tal falta de união,
Aos mais, porém, guerra faz:
Multiplica a divisão.
De mais ser não é capaz,
Perdido na dispersão.
724 – Instante
Perdemos a cada instante
O que cremos possuir
Só porque passa adiante.
Quando deixa de existir
É que finda o movimento
E então fica-me o lamento.
De facto, pois, se bem vir,
Não terei nenhum momento
Em que eu esteja perante
O espelho do que me encante.
725 – Vez
Só nascemos uma vez,
Ninguém vai recomeçar
De experiências que já fez
Doutra vida um limiar.
Abandonamos a infância,
Que vai ser a juventude?
Casamos numa ignorância
Do casal, pois nos ilude.
Quando vamos para velhos
Quem sabe o que nos espera?
Não há da velhice espelhos,
Trepo inocente à galera.
A nossa história completa
É mais que duma existência:
É dos homens o planeta
Planeta da inexperiência.
726 – Assassino
Prefiro na consciência
Manter preso um assassino
De que não tenho a evidência
Que mantém da morte o tino,
Do que a morte de inocentes,
Homens, mulheres, crianças,
Da amnistia consequentes
Que para o assassino alcanças.
727 – Pânico
Do pânico a sensação
É a de que, de todo o lado,
De holofotes a visão
Sobre nós se haja focado.
Tal como se o mundo inteiro
Nada mais para fazer
Houvera que ver primeiro
O que eu de fazer houver!
728 – Ouvintes
Os ouvintes de rosto calmo e recolhido,
Acreditando firmes num altifalante,
A máquina aplaudindo, tal se fora ouvido
Um ser humano cego que os não vê diante.
Mostrador da cegueira que no mundo impera,
Impelido por medos, pelas histerias,
A multidão agarra uma banal quimera
Desde que se liberte do peso dos dias,
Do peso de pensar e do de responder,
Responsabilidade que em terror receia,
Que pretende evitar, embora sem saber…
-Serve-lhe então a máquina de panaceia.
729 – Nacionalismo
Nacionalismo exaltado
É uma pedra no caminho:
Ergue-se e, por todo o lado,
É de mil vermes o ninho.
E, perante a insanidade
Que dele mostram as prosas,
Cobrem a vulgaridade
De mil palavras pomposas.
Quem se deixar encantar
Pelo canto da sereia
Tomba decerto no mar
Nas vagas da maré cheia.
730 – Farsa
A farsa da humanidade:
Da vil força o detentor,
A presa e o espectador.
Esta última entidade,
Sempre presente e ausente,
Deixará pender os braços:
À presa matam-lhe os traços
Sem que libertá-la tente
E tudo porque receia
Pela própria segurança.
E eis porque jamais a alcança:
Nunca faz o que a grangeia.
731 – Emanação
É o tempo uma emanação
Da morte, porém, subtil.
Penetra com lentidão,
Com jeito em nós tão gentil,
Qual veneno inofensivo!
Gota a gota, dia a dia,
De início torna-me activo
De tal modo que eu creria
Ser quase mesmo imortal.
Mas a força acumulada
De cada gota o que vale
Num ácido é que é mudada
Turva-me e corrói meu sangue.
Com os anos que nos restam
Nem que tentáramos, langue,
A juventude, não prestam
Tais pretensões a tal fim.
O tempo muda o composto:
Sou sempre eu em meu confim
Mas jamais no antigo rosto.
732 – Só
Talvez a felicidade
Só para quem morra exista,
Tanto quanto a eternidade,
E não se as sentir à vista.
Do tempo fora da escala,
Tornam-se definitivas:
Cá mantê-las as entala
Nas engrenagens cativas
Do temporal, do passado…
Não mais fica em nossa mão
Impedir que as mate o fado
Que as dispersa em pó no chão.
733 – Ilusão
A morte que nos persegue
A cada momento obriga
A rumar ao que se segue,
Mesmo cansados da briga.
Nem ao menos um momento
Para guardar a verdade
Da ilusão, nosso tormento,
Da ilusão da eternidade!
734 – Injustiças
Não as grandes injustiças,
As pequenas é que são
As que mais ferem nas liças,
Mais dor a suportar dão.
O que se impõe esquecer
Quanto ao pedaço de pão
É o facto de nos caber
O mais pequeno quinhão.
E que sempre o mais seguro
É que vai cair-me em sorte
O labor que for mais duro
Hoje e sempre até à morte.
735 – Pobre
Não posso rasgar a roupa
Porque sou meu país pobre.
E quem os joelhos poupa
Poupa a roupa que o recobre.
Feridas que em mim fizer
Sempre acabam por sarar,
Mas as meias que romper
Novas terei de as comprar.
E a quem de génese é pobre
Onde há dinheiro que sobre?
736 – Demasiado
A música não me aquece…
Escuto-a demasiado,
Tal se atrás do pano houvesse
Condão mal adivinhado,
Condão que jamais se vê…
Por que é que será que nada
Nunca, nunca põe de pé
A perfeição desejada?
Esperamos, esperamos,
A chorar do corpo todo,
E a planta não deita os ramos
E a flor atola no lodo!
Nós no leito da alvorada
E não acontece nada,
E não acontece nada!
737 – Solidão
Certos dias, solidão,
És o vinho inebriante
Que embebeda cada instante
Até me librar do chão.
Noutros és tónico amargo
E noutros, um tal veneno
Que a vontade dá-me o encargo
De gritar todo o terreno
A bater, tal como vedes,
A cabeça nas paredes!
738 – Partida
Minha próxima partida…
Que é feito da liberdade?
Só deslumbra quando é ida
Vivendo amor em verdade,
Como alguém vive o primeiro
Em jeito de iniciação,
Quando o dou em gesto inteiro
A quem amo tão cimeiro
Que o darei sem contenção.
Novas regiões, cidades,
Vividas tão de relance,
Confundidas na memória,
Como serão liberdades
Se ficam fora de alcance,
Fora de qualquer história
De quem perde a vida toda
Sempre, sempre andando em roda?
739 – Sono
De que sono tão ausente
E com que asas me retorno
Para que tão lentamente
Me acolha, surpreso e morno,
Tão exilado, humilhado,
Que aceito estar deste lado?
740 – Pompa
Com toda a minúcia e pompa
Das armas a ordenação
Se estrondeia ao som da trompa
E o apocalipse não
Se vê na marcha em que rompa.
Mas o que deixa à passagem
É morte e destruição,
É o esbulho, a ladroagem,
O estupro, a violação,
Vida humana é agiotagem,
Aposta de mão em mão
Sem outro preço ou imagem.
Vão-se tornando os soldados
Em quadrilhas de assassinos,
Em piratas, paus mandados
A que se apõem destinos
Com nomes altos, doirados:
É honra, direito, glória…
E retiram da memória
Que igualmente os outros lados
Honra, glórias e direito
Iguais têm, de igual preito.
A verdade verdadeira,
Escamoteada na festa,
Fica mascarada nesta
Irracional brincadeira.
Ao fim quem mais é que vê
Que nos vai faltando o pé?
- E que a paga que é devida
É que é paga com a vida?
741 – Cortesãos
Os cortesãos do poder
De máscaras são um baile
Em que o perfil de quenquer
Se disfarça sob o xaile.
São de traição e peçonha
As mentirosas figuras,
Tudo fingimento e ronha
Quando o que forem apuras.
A caraça das caraças
Com que o mundo bem se ilude
É que escondem tais desgraças
Sob a capa de virtude.
742 – Perdoar
Ninguém pode perdoar
Ao criminoso, de intuito
Futuro sempre inseguro:
Quem uma vez abusar
Já não precisa de muito
P’ra saltar de novo o muro…
É por não ter isto em conta
Que hoje a justiça no mundo
Não é o justo nem fecundo,
Mas entontece e anda tonta.
743 – Teologia
Que importa a teologia
Se quanto a valida, apenas
É o acto que a igualaria?
As razões são bem pequenas:
Se Cristo prega a pobreza,
Como pode um cardeal
Arrebanhar a riqueza
Sem ver a míngua geral?
Verifico, quando cismo,
Em caso de desacato
Da palavra pelo acto,
Que o verbo não vence o abismo.
Que importa a teologia
Se na vida é fantasia?
744 – Idolatria
É sempre uma idolatria
Reduzir Deus ao sinal
Que uma cultura daria
Ou que a História erigiria…
- Assim lhe apago o fanal
Transmudando em noite o dia.
745 – Vergonha
Vergonha em pedir dinheiro,
Se a necessidade obriga,
Tão odioso é, tão rasteiro
Como ante uma rapariga
Formosa agradar-se inteiro
E depois, na desobriga,
Envergonhar-se dum mal
Que, ao fim, é um bem natural.
Quem quer a superstição
Que em mal muda quanto é bom?
746 – Miséria
A miséria, ilimitada
Torna a inulta humilhação
Da multidão explorada
Por quem, sem tê-la esmagada,
Não prosperaria, não!
É por isso que o chicote
(Que doutra vida não sabe)
Muito escravo há que o adopte.
Nunca outro mundo lhe cabe:
Nunca encontra o passaporte
Dum mundo que ele haja em sorte.
747 – Inimigo
O Partido do Congresso
(Que conduz à independência
A Índia dos grandes sonhos)
Dos ingleses foi egresso
Discordantes da violência
Que a crimes dos mais medonhos
Sobre os hindus indefesos
Perpetravam, sempre ilesos,
Os colonos de Inglaterra
Esventrando a alheia terra.
- Não foi o hindu violentado
Quem de tal teve o cuidado.
Também contra a escravatura
Quem as sementes lançou
De que após lhe veio a cura
Foi o branco: quem livrou
O negro da escravidão,
Mais que o negro, foi o não
Do branco livre, consciente,
Que a vida quis mais decente.
A mesma contradição
Dos caminhos da justiça
Leva a que alguns homens vão
Terçar as armas na liça
De libertar a mulher
Quando ela própria não quer,
De ancestrais habituada
A ser sempre utilizada.
Treinada na submissão
Milenarmente sagrada,
A mulher chega à agressão
De quem a quer libertada.
- Inelutável castigo
Da humana contradição
De o meu pior inimigo
Ser eu mesmo à minha mão.
748 – Ingresso
Por se não querer ingresso
No ideário da ditadura,
À Pátria não há regresso,
Devém a pátria da usura.
“Pátria de todos os filhos”
É o pendão de tais regimes,
Quando, afinal, só cadilhos
Prendem o tronco dos vimes.
Por uma fatalidade,
Devém a pátria somente
De quem governa a cidade
E que embolsa toda gente.
A ditadura supura
O pus que houver nas feridas,
Não as cura, do que cura
É de as manter bem podridas,
- Que moscas apodrecidas
São os cidadãos que apura!
749 – Martírio
Maior e mais prolongado
Do que o dos cristãos em Roma
É o martírio silenciado
Dos homens por quem os coma,
Membro a membro, de hora a hora,
Escravos, servos da gleba,
Operário que labora…
Para dar conta da leva
Da intérmina eploração,
“Ressuscita, expoliado!”
Se eu gritara ante um caixão,
Era um mundo alevantado!
Num esforço concertado
Dos mortos a maioria
Decerto que se ergueria
Sempre, sempre lado a lado!
750 – Coro
A reclamação em coro,
Fora embora ela a mais justa,
Mesmo feita com decoro,
Dela não convence à custa.
Ao invés ela endurece
Quem a puder atender:
A força unida entontece
A solitária que houver.
E, quanto mais solitária,
Tanto mais surda emudece
E mais é discricionária.
Em comum terás mais força?
- Mais o muro a que te opões
Bloco a bloco se reforça:
Só a tiro de canhões!
751 – Cães
Pertinazes cães vadios,
Farejando saguões
E pelos desvãos vazios
Ou do lixo nos caixões
Que são velhas oficinas,
Do trabalhador sucata,
Onde o labor, às esquinas,
Pouco alimenta e mais mata,
- Assim vamos procurando
Trabalho no desemprego,
O osso, que, em nos faltando,
Nos muda em cães sem sossego.
752 – Estátua
O político delira
Ou pretende um mundo a meias
E uma estátua que o encime.
Governante que prefira
A evolução das ideias
À mantença do regime,
Onde está, onde estará?
- Só no céu, como o maná,
Que na terra, em tantas teias
Se enreda que nenhum há!
Ou então é tão sublime
E veio de mãos tão cheias
Que ninguém o vê por cá…
Será nossa miopia?
- Como é boa a fantasia!
753 – Lágrimas
Das lágrimas tenho medo,
Um homem erguem de nós
Tão frágil que é de segredo,
Tão provisório que após
Apenas nos resta o credo
Nestes novelos de pós
Que somos: perco o sossego,
Nas traições a que me apego
Ao ver quanto estamos sós.
754 – Escombros
Dum século ante os escombros
Persiste esta ansiedade
De erguer, erguer sobre os ombros
Novos mundos de verdade.
Sob múltiplas versões
Das eras vem dos confins,
Inextinta, aos corações,
A luta do fim dos fins.
Crueldades, sacrifícios,
Heroísmos e traições,
Amor, ódio – nos inícios
De que lado é que te pões?
Do mesmo todos em busca
Sem ninguém saber por onde,
Terna ou brusca, - terna ou brusca? –
Onde é que a chave se esconde?
755 – Tutanos
Pelos direitos humanos
Um ou outro congressista
Fará um discurso de enganos.
O que tem por trás em vista
Será o suco dos tutanos
Que os fuzis terão na lista.
Quando se confiscam bens
Aí, sim, é que os protestos
Contra o céu e a terra tens.
Só se soltam dos cabrestos,
Não para ilibar reféns,
Mas atulhar os seus cestos.
Para os direitos humanos
Ficam, quando muito, os restos
- E é se não causarem danos!
756 – Padrões
Não sou famoso nem rico:
Pelos padrões dominantes
Sou fracasso e tal me fico.
Mas quam são os meliantes
Que impõem estes padrões?
Quem confirma e quais garantes
Lhes fundam tais pretensões?
São deuses? É um super-homem?
Vejo, ao ver-lhes as razões:
- São os ladrões que nos comem!
757 – Salário
O meu primeiro salário
Mal juntos nos permitia
Corpo e alma num calvário
Manter no meu dia a dia.
Trinta quase anos passados
Ainda não consegui
A união de ambos os lados
Sólida do que vivi.
Será justa, será justa
Toda esta iniquidade?
Quem a vida vive à custa
Da vida que se me evade?
758 – Sonata
Um homem ali tocando
A sonata em violoncelo
E pelos dedos, em pêlo,
A revolução passando…
As armas e as munições,
Fronteiras de contrabando,
As militares acções,
Onde emboscadas e quando…
E, contudo, é um pacifista
Que repele a violência,
Cujo ideal era a conquista
Dum canto a sós e de ausência.
Como é tal viável, como?
Como àquele homem se ajusta?
Tantos gomos num só pomo!
Deveras isto é que assusta,
Não é das armas a justa.
É que os exremos se tocam
E na morte desembocam
Do que é humano sempre à custa.
759 – Intelectuais
Sempre os intelectuais
Serão péssimos na acção.
Por não serem como os mais?
- Por serem mais o que são!
Repelem os absolutos
Filosóficos, políticos…
Das ideias os produtos
Não vêem como graníticos.
As coisas não podem ser
Apenas brancas ou pretas,
Têm um matiz qualquer,
São infindas, não completas.
Os homens e seus problemas
Têm tal complexidade
Que nem os temas nem lemas
Lhes mostram a identidade.
Isto é pedra de tropeço
Para uma revolução,
Com isto sempre enfureço
O dogmático da acção,
Até porque, em hecatombe,
Deveras espelha mais,
Por detrás de quanto tombe,
Complexos individuais.
O sonho então não é sonho:
São mas é doenças, taras
De que, encobertas, disponho,
A matar delas nas aras.
760 – Palavras
Palavras que o Criador
Espalhou pelo Universo,
Na natureza em redor,
Das cores dos céus no verso,
Das Galáxias na grandeza,
Nas pétalas das crianças
E dos lagos na pureza,
Na folhagem que há nas franças,
Dos pássaros na plumagem,
Nos mistérios que há no mar,
Da beleza na vantagem
Que vem de a amar, de a criar…
Que sentido é que terão
Nesta sintaxe divina
De dor palavras que são
Cancro, lepra, carabina?
E a guerra, a capacidade
Que o homem tem de odiar,
Que um dia se calhar há-de
Do mundo pôr fim ao lar?
761 – Insincera
Retomar a solidão
É bom esquisitamente
No meio da multidão
De gente que não é gente.
O prazer de vaguear
Entre sombas de ninguiém
Sem a ninguém ter de amar,
O gozo que isto não tem!
Sem a ninguém pertencer,
Ouvindo esparsos farrapos
Do que houver de fala ser
E é só uma manta de trapos.
A multidão, insincera,
A par da futilidade
Simula o ser que não era:
É o nada em maturidade.
762 – Trilha
Tempo nem capacidade
De gozar o que fazemos
Nós já nunca arranjaremos.