DÉCIMO  VERSO

 

 

ATÉ  O  COMPASSO  SE  ACERTAR  DE  VEZ

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 882 e 1075 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

882 – Até o compasso se acertar de vez

 

Até o compasso se acertar de vez

Em quadra breve cantarei a quadra

Em que contigo a vida se me enquadra

Para me ir acertando em meu revés.

 

A vida no meu sonho é sempre ladra,

Contudo é dela enfim sempre através

Que os muros descobri que de viés

Assalto, feito o cão que em mim lhes ladra.

 

Então, neste compasso duma espera

Que é vida por mais vida de era em era

Forcejando, sem mais qualquer saída,

 

Em traços breves noto algum degrau

Que me permite olhar além do vau

E em minha brevidade estarei de ida.

 

 

883 – Ébria

 

Ébria com a informação,

A nossa era tacteia,

Presa à teia, e perde o chão

Do mundo que nos rodeia.

 

 

884 – Máquinas

 

As máquinas nunca podem

Reflectir, mas nos aprazem

Por mudar o tom, se acodem,

De como as gentes o fazem.

 

 

885 – Folha

 

De árvore, uma mera folha

De árvore da Humanidade

Ninguém há que de si colha

Sem os mais: não tem verdade.

 

 

886 – Consenso

 

Um consenso conseguido

Sempre requer aliança

E é negação num sentido:

Negação da liderança.

 

 

887 – Erros

 

Orgulha-se toda a gente

Dos erros que são pequenos,

Se calhar porque então tente

Que passem os mais por menos.

 

888-Mundo

 

O mundo é um livro infinito

E aquele que não viaja

Apenas lê deste escrito

A lauda só que à mão haja.

 

 

889 – Tartaruga

 

Tenta ser a tartaruga:

Mesmo se em lodo se atasca:

Nem sequer vinca uma ruga,

À vontade em própria casca.

 

 

890 – Paleta

 

Na paleta dum artista,

Como na vida, uma cor

Dá sentido a quanto exista:

A cor que tiver o amor.

 

 

891 – Acreditar

 

Por que acreditar em Deus?

A prova que não ilude

É que, além de abrir os céus,

Crer em Deus nos dá saúde.

 

 

892 – Amarmos

 

É o amor que mais valida

A vida que tem valor:

Se nós amarmos a vida,

A vida dá-nos amor.

 

 

893 – Raiva

 

Para a raiva jamais há

Explicações. E só penas

São o que a raiva nos dá.

Porquês? Desculpas apenas.

 

 

894 – Prenda

 

O Natal magoa, frio.

Porém, se uma prenda veio,

Enche o coração vazio

E aquece-o, depois de cheio.

 

 

 

 

 

 

895 – Doer

 

Quando o Natal te doer

Como vida que não vem,

A melhor coisa a fazer

Algo é fazer por alguém.

 

 

896 – Daninhas

 

Que serão ervas daninhas

Senão plantas a que ainda

Virtudes não adivinhas

Na procura que não finda?

 

 

897 – Contraste

 

Com os frios, de repente

O contraste tem lugar:

O Inverno torna mais quente

O calor que houver no lar.

 

 

898 – Família

 

A família verdadeira

Sangue do sangue não é,

Mas aquela que emparceira,

Do coração sempre ao pé.

 

 

899 – Aprender

 

Passam anos a aprender

A ler, escrever, contar.

Raramente ou nem sequer

De ouvir se encontra lugar.

 

 

900 – Negociante

 

Negociante eficaz

Procura ouvir questões quentes,

Aquilo que insatisfaz…

- E assim põe os pés assentes.

 

 

901 – Tamanho

 

Nunca ligues ao tamanho

Das árvores de Natal:

Pràs crianças tem de ganho

Que é sempre descomunal!

 

 

 

 

 

 

902 – Unida

 

Se a família for unida,

Não há nada, haja o que houver,

Que tente fazer da vida

E que não possa fazer.

 

 

903 – Milagre

 

Os filhos duma pessoa

Um milagre podem ser:

Pai e mãe serão a boa

Fada de ele acontecer.

 

 

904 – Chão

 

A família, em qualquer lado,

Será o chão de qualquer chão:

Se amar a família é errado,

Não quero estar na razão.

 

 

905 – Salto

 

Pai é o arco, o filho, a flecha:

Quando o pai visar bem alto,

Se conforme o filho mexa,

Vento algum lhes tolhe o salto.

 

 

906 – Futuro

 

Quem melhor a vida arruma,

Melhor precavê seu lar:

É que o futuro costuma

Vir mas sem anunciar.

 

 

907 – Traços

 

Da alegria os traços não

Se prevêem nem decoram:

- É quando os avós estão

Muito felizes que choram!

 

 

908 – Ciência

 

É a ciência exploração

Mas mistura um sentimento

Que anima toda a função:

É também divertimento!

 

 

 

 

 

 

909 – Divertido

 

O que lhe dará sentido,

À ciência, ao explorar,

É que espreitar um lugar

É deveras divertido.

 

 

910 – Charadas

 

É no céu primaveril

Entre o azul das madrugadas

Que as nuvens, às cem, às mil,

Andam brincando às charadas.

 

 

911 – Envelhecimento

 

Perco um terço da energia

Por mero envelhecimento.

Dois terços, por dia a dia

Não agir cada momento.

 

 

912 – Exercício

 

Físico exercício opera

Como uma inoculação

Que protege e retempera

Das mortes contra a invasão.

 

 

913 – Escava

 

Mal se escava qualquer peça,

Tal como a chocar um ovo,

A natureza começa

A preenchê-la de novo.

 

 

914 – Mercados

 

Dos mercados na invasão

Irmano-me e desirmano:

Consumidor é abstracção;

O cliente é um ser humano.

 

 

915 – Terroristas

 

Quando nas brenhas solta anda a alcateia

Poucas sendas verei nos intervalos:

Com terroristas se se negoceia,

Lidar com eles é sempre enfrentá-los.

 

 

 

 

 

 

916 – Oiro

 

É o oiro um bem valioso,

Mas de valor calculável.

A boa vontade é um gozo

E o que vale é inestimável.

 

 

917 – Escorregadio

 

Tal como de azeite um fio

Que se escoa em todo o lado,

O tempo, lubrificado,

O tempo é escorregadio.

 

 

918 – Convenções

 

As convenções de negócios

São boas p’ra demonstrar

Toda aquela gente em ócios:

É gente de dispensar!

 

 

919 – Emprego

 

Não de escravo elo a senhor,

Não o que alguém tem em paz,

Nem mesmo o trabalhador:

- Um emprego é o que se faz!

 

 

920 – Miopia

 

Não bastará ter sucesso:

- Os mais terão de falhar…

De miopia que excesso,

Quanta cegueira de olhar!

 

 

921 – Publicidade

 

Na publicidade somo

O egoísmo do produtor

Com o sabor, gomo a gomo,

Do gosto consumidor.

 

 

922 – Crepúsculo

 

Nem sempre é a noite o que vem

Duma vida destroçada:

O crepúsculo também

Anuncia a madrugada.

 

 

 

 

 

 

923 – Criança

 

A criança é tão bonita,

Tão feliz e graciosa

Que a vida inteira credita

Como o palco onde ela posa.

 

 

924 – Orgulho

 

Orgulho o que prenuncia

Dos grandes não é lição,

Antes diz que nalgum dia

Vai haver um tropeção.

 

 

925 – Hoje

 

Hoje é o dia de ser dia,

O dia de hoje não foge,

Nada tem maior valia

Do que vale o dia de hoje.

 

 

926 – Sentido

 

Não é nunca a permanência,

O poder, nem a verdade:

Ter sentido na existência

É a maior felicidade.

 

 

927 – Prazer

 

Sempre o prazer é o maior,

Bem ou mal seja entendido:

É o maior mal, se mal for;

Se for bem, é o mais subido.

 

 

928 – Descoberta

 

Busca de felicidade

É aquilo que não existe,

Mas descoberta do que há de

Alegria que me assiste.

 

 

929 – Sorrateiramente

 

Entra sorrateiramente

A felicidade à porta

Que aberta (nem vi, de ausente)

Deixei como coisa morta.

 

 

 

 

 

 

930 – Vitória

 

Vitória não é lograrmos

Jamais cair destes cimos,

Mas a de nos levantarmos

De cada vez que caímos.

 

 

931 – Dinheiro

 

Nunca o dinheiro impediu

Quem tão afanoso o quis,

Do destino que escolheu:

- Ser feliz ou infeliz!

 

 

932 – Alegria

 

A alegria no que dá,

Mais que prendas, dá uma voz:

A alegria morará

Não nas coisas mas em nós.

 

 

933 – Asas

 

Quem quer uma alegria cativar,

As asas se lhe corta, a mata em vida,

Mas quem lhe aflora o voo leve de ar,

Com o arrebol do eterno então já lida.

 

 

934 – Grau

 

Guarda teus dons, que meu grau

A feras não desce afeito:

Presentes de quem é mau

Não são de nenhum proveito!

 

 

935 – Dobrar-se

 

Um presente leva até

De brandura a um deus dobrar-se:

De oiro o poder maior é

Que da eloquência o disfarce.

 

 

936 – Ânimo

 

Suportar de ânimo leve

Os infortúnios, o mal,

É o preito que à vida deve

Todo aquele que é mortal.

 

 

 

 

 

 

937 – Mentira

 

Cultivamos a mentira

Que nos poderá manter

Enquanto a vida delira

Na vida de não-viver.

 

 

938 – Escolhe

 

Ninguém escolhe a família.

Temo-la por nosso umbigo

E por nós sempre em vigília:

É o padrão de ser amigo.

 

 

939 – Terror

 

O terror de último grau

De comum tem ao ciúme

Transformar ligeiro pau

Dum pinheiral no volume.

 

 

940 – Loisa

 

Ser sensível é uma coisa,

Outra será ser sensato:

O sensível põe na loisa,

O sensato põe-se em acto.

 

 

941 – Relação

 

Há uma relação fundida

Deste hoje com amanhã,

Entre erguer-me de manhã

E levantar-me na vida.

 

 

942 – Gostar

 

O sucesso é alcançar bem

Aquilo que desejamos.

Felicidade é também

Gostar de quanto alcançámos.

 

 

943 – Divertido

 

É muito mais divertido

Chegar a uma conclusão

Do que explicar-lhe o sentido

Justificando a função.

 

 

 

 

 

 

944 – Riscos

 

Riscos correr sempre implica

Que é provável o fracasso.

Pela certa só se explica

Um eterno marcar-passo.

 

 

945 – Nunca

 

Reter o que não pode ser retido,

Libertar-me daquilo de que não

Poderei libertar-me, eis o pedido

Que os sonhos nunca mais alcançarão.

 

 

946 – Sinal

 

Ficando aqui a olhar para o impossível,

Repito a cada instante o mal fatal.

Então não é melhor tê-lo acessível

À escala em que a esperança dê sinal?

 

 

947 – Saber

 

O saber, nico de espuma

Das ondas na vaga crista,

Uma aragem logo o esfuma,

Só restam ondas à vista.

 

 

948 – Ódio

 

O ódio corrói a alma,

Quer seja eu a odiar,

Quer o ácido leve a palma

Por ser outro em meu lugar.

 

 

949 – Caminhos

 

Sonhámos um dia a vida:

Mil caminhos de verdade,

De luzes quase acendida

Entrando na eternidade.

 

 

950 – Inocência

 

Não é um erro, é de experiência:

É o crime pago mais caro

E que é o de ser inocência,

Que hoje em dia é um bem bem raro.

 

 

 

 

 

 

951 – Justiça

 

Justiça com piedade!

- Que, sem piedade, a justiça

Rapidamente se enguiça

Vestida de crueldade.

 

 

952 – Abelha

 

O que distingue da abelha

O pior dos arquitectos

É que ele constrói os tectos

Na cabeça antes da telha.

 

 

953 – História

 

A história da natureza

Da dos homens é distinta

Porque esta de nossa tinta

Traz a marca que se preza.

 

 

954 – Negação

 

O Estado dito cristão,

Negação cristã do Estado,

Jamais é realização

Do cristão em nenhum lado.

 

 

955 – Estrada

 

Arte, mesmo mutilada,

Diz que sonhos são vivíveis:

Se viva lhe corro a estrada,

Corro a história dos possíveis.

 

 

956 – Pioneiro

 

O pioneiro prefigura

Caminho às apalpadelas.

Só mais tarde é que inaugura

A massa humana as janelas.

 

 

957 – Habita

 

No corpo que dança, habita

Um outro eu que é maior

E multiplica-o quem fita:

Dele os habita o esplendor.

 

 

 

 

 

 

958 – Tectos

 

Há lugares, como objectos,

Que se apoderam da mente:

Caixas, cinzeiros, são tectos,

Acordam cheios de gente.

 

 

959 – Correria

 

Toda a vida é poesia

Vivendo o lado de cá,

Sempre atrás em correria

Dum verso que jamais há.

 

 

960 – Viver

 

O acto de viver é um acto

Tão acto que é profissão:

A mais difícil que acato

Das que no planeta irão.

 

 

961 – Livro

 

Livro, marulhando

Como água corrente,

- Só tens força quando

Corres livremente.

 

 

962 – Espoliados

 

O sonhar de expoliados

Talha, à margem dos regatos,

Sob o céu cheio de estratos,

Do mundo futuro os fados.

 

 

963 – Ditador

 

O ditador oferece

Melhorias materiais

E a liberdade, refece,

Rouba em troca e então, jamais!

 

 

964 – Côdea

 

Vem cada côdea de pão,

Tanto mais quanto maior,

Muito mais do que do chão,

Do regueirão do suor.

 

 

 

 

 

 

965 – Impotência

 

A uma dor outra pospor

Outra dor traz que persigo

Mais angustiosa que a dor:

- A impotência ante o perigo.

 

 

966 – Dignidade

 

O que pode socorrer

Perante a fatalidade,

Não é o ter nem ser que houver,

- É apenas a dignidade.

 

 

967 – Envelhecimento

 

O mais estranho da vida

É que o envelhecimento

Não vem da vida vivida,

Começa no nascimento.

 

 

968 – Romantismo

 

Se a  noite de lua cheia

Num Verão morno falara,

Murmuraria a voz meia

Que o romantismo inventara.

 

 

969 – Jornalismo

 

O jornallismo é dinheiro

Só para a ignara memória:

Nele se escreve o primeiro

Rascunho ignoto da História.

 

 

970 – Gargalhada

 

Conter uma gargalhada

É deter uma maré:

Contranatura, de pé

Quem logrará tal parada?

 

 

971 – Violência

 

Eu sou contra a violência,

Por isso a violência aceito

Contra a violência, se a jeito

Lhe der cabo da existência.

 

 

 

 

 

 

972 – Muralha

 

Nunca as fronteiras serão

A muralha do jamais:

Para um grande coração,

Pequeno é o mundo demais.

 

 

973 – Mentiras

 

Imposturas e mentiras

Tomadas são por verdades

E por fábulas ouviras

Que tidas são realidades.

 

 

974 – Missões

 

Na vida os grandes senões

Não são as questões da sorte,

É que a vida tem missões

Só cumpríveis com a morte.

 

 

975 – Pérola

 

Sonhar com a prostituta,

Fingida pérola de ostra:

Não vale a jóia a disputa,

Só vende uma falsa amostra.

 

 

976 – Leitura

 

A leitura dos livros, tantos, tantos:

Encontros, desencontros, vias tortas,

Vida desencantada pelos cantos,

- E são acções humanas mas já mortas.

 

 

977 – Espelho

 

O espelho das experiências,

Para o poeta que interroga,

É um pego em cujas vivências

Ele é quem mesmo se afoga.

 

 

978 – Coragem

 

A vida é longa quando se complica,

Curta demais quando o prazer é algum.

A vida encolhe ou, ao invés, estica

Pela coragem que haja em cada um.

 

 

 

 

 

 

979 – Mentira

 

Porque o que é bom tanto esquece

E a memória o mau revira,

Quando o importante acontece

O silêncio é uma mentira.

 

 

980 – Desporto

 

O desporto nunca forma

O carácter da pessoa,

Antes revela, por norma,

O que tem de má ou boa.

 

 

981 – Liderança

 

A forma de avaliar

O poder de liderança

Será o nível que alcançar

Na companhia o que amansa.

 

 

982 – Cadeias

 

O que baralha as ideias

Mais que um trauma ou um revés

É ver o mundo através

Das grades que há nas cadeias.

 

 

983 – Fortuna

 

Vem por azar a fortuna,

Embora o jeito a conforme,

Como o vento forma a duna

Mesmo enquanto a gente dorme.

 

 

984 – Força

 

A força dum governo que o faz forte

Não é de governar com mão de ferro,

Nem a de ter por si a boa sorte,

É a de emendar publicamente um erro.

 

 

985 – Cantiga

 

Nós andamos toda a vida

A aprender uma cantiga,

Cantiga que, após cantada,

Afinal, era trocada.

 

 

 

 

 

 

986 – Pobre

 

O mistério não descobre

Ninguém à raiz do pranto:

Porque nasce gente pobre

Quando é para sofrer tanto?

 

 

987 – Fartura

 

Na vida muita mistura

Gere a vida e a vida gere-a,

Mas a principal fartura

É a fartura de miséria.

 

 

988 – Candeeiro

 

Na cidade não há estrelas,

Que as ofusca o candeeiro,

Nem há comunhão, que há telas

Murando-a do mundo inteiro.

 

 

989 – Pão

 

Se é a fé que nos sustenta,

O que no-la tem de pé

É o que melhor a alimenta:

A oração que é o pão da fé.

 

 

990 – Luz

 

Muita luz se faz num verso

Se é o da terra prometida:

Luz é a vida do Universo

Como o amor é a luz da vida.

 

 

991 – Sequela

 

Pior que uma guerra ganhar,

Será sempre esta sequela:

É viver, em seu lugar

O que advier de perdê-la.

 

 

992 – Movimento

 

Muita folga de seguida

Cansa e, demais, entorpece.

Em movimento anda a vida,

Quem parar é que envelhece.

 

 

 

 

 

 

993 – Clemente

 

Quem vence governará

Tao alheio a quem é gente

Que clemência não tem já,

Só o vencido é que é clemente.

 

 

994 – Muda

 

A história jamais perdoa

Homem, partido ou igreja

Que atrás se fiquem, à toa,

Quando a muda é o que se almeja.

 

 

995 – Eternidade

 

Se o presente traz em si

Criações da antiguidade

E o porvir que vem aí,

- É o germe da eternidade!

 

 

996 – Roda

 

O tempo roda que roda

Sobre vales e eminências

E as rodas que o tempo roda

São todas as existências.

 

 

997 – Não-violência

 

A não-violência é um combate

Com virtudes de guerreiro,

Mas uma da soma abate:

A do crime em que ele é useiro.

 

 

998 – Simultaneamente

 

Deus que, simultaneamente,

Mora em nós e mais adiante,

É um deus que chega ao presente

Para nos picar avante.

 

 

999 – Rosto

 

Se fundo mergulho os olhos

No vale fértil, nos céus,

No regato, nos escolhos…

- O Mundo é o rosto de Deus!

 

 

 

 

 

 

1000 – Fanal

 

Crescimento não é mal,

Mal é ser seu próprio fim:

O Homem não tem por fanal

Então Deus que mora em mim.

 

 

1001 – Fado

 

Todo o tempo dispensado

A cristandade a manter

É perdido para o fado

Do cristianismo que houver.

 

 

1002 – Ilegítimo

 

Ilegítimo é o poder

Se a cada qual não garante

Precisões satisfazer,

Tocar a vida adiante.

 

 

1003 – Crescimento

 

Crescimento verdadeiro

Não é o do lucro, da empresa,

Da nação, força ou dinheiro,

É o do homem que se preza.

 

 

1004 – Pontas

 

Ao porvir quando o passado

Dele pelas pontas ata,

Fica um homem manietado,

Transmudado em burocrata.

 

 

1005 – Magia

 

A magia da beleza

É a desta alegre vigília:

Um toque da natureza

Torna o mundo da família.

 

 

1006 – Grandeza

 

A grandeza deste mundo

Jamais vem da posição

Onde não haja segundo,

Vem da recta direcção.

 

 

 

 

 

 

1007 – Diferença

 

Dum esperto para um sábio

Há sempre uma diferença:

Que dizer, o esperto sabe-o;

Quando ou não, só o sábio o pensa.

 

 

1008 – País

 

Não pergunteis o que pode

O país fazer por vós,

Mas se vossa mão acode

Ao país que vos dá voz.

 

 

1009 – Modos

 

Quem agradar pretender

Em todos e quaisquer modos,

A nenhum apraz sequer,

Vai desagradar a todos.

 

 

1010 – Guerra

 

A guerra, por mais fundada

Nos motivos e locais,

Não se fundará jamais:

Toda a guerra é guerra errada.

 

 

1011 – Pior

 

Nunca ninguém sabe ao certo

Por que lhe coube o pior,

Mas o mundo bate certo

Graças duns poucos à dor.

 

 

1012 – Importância

 

Não poderemos julgar

Das coisas toda a importância

Do barulho pela instância

A que só derem lugar.

 

 

1013 – Apelo

 

O povo nunca atraiçoa

Dos poetas um apelo,

Que um poeta ao povo ecoa,

Com o além dele ata um elo.

 

 

 

 

 

 

1014 – Rosários

 

Os rosários são usados

Para encobrir interesses,

Não de Deus pelas benesses,

Mas dos mais gordos bocados.

 

 

1015 – Fantasia

 

Quando a vida principia

Da vida a matar o instinto,

Libertar a fantasia

É a côdea para o faminto.

 

 

1016 – Extingue

 

Não é que a história se vingue,

Que um morto amor ponha luto:

O passado não se extingue,

Nada morre em absoluto.

 

 

1017 – Primário

 

Num homem o que é primário

É que ele não raciocina,

De cor sabe o calendário,

Segue após a própria sina.

 

 

1018 – Trepa

 

A injustiça vai cavando

Os fossos em que se enterra.

Nova luz emerge quando

A vida trepa da terra.

 

 

1019 – Resquícios

 

Não restam de Deus resquícios

Dum pregador no caminho

Quando dos outros os vícios

Águas são de seu moinho.

 

 

1020 – Artista

 

O grande artista não vê

O mundo tal como exista,

Pois se assim for, já não é:

Deixa de ser grande artista.

 

 

 

 

 

 

1021 – Corpo

 

O corpo vive obrigado

O que é trabalho a fazer.

O divertimento, ao lado,

Não obriga, é só viver.

 

 

1022 – Oportunidade

 

A grande oportunidade

De ajudar outrem é rara,

Às pequenas quenquer há-de

Todo o dia ver a cara.

 

 

1023 – Resumo

 

Em três palavras resumo

O que a vida ensina, crua,

Da ilusão fora do rumo: