Escolha um número aleatório entre 1076 e 1274 inclusive.
Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1076 – E cada qual viver do todo os temas
E cada qual viver do todo os temas
Será do todo dar a final conta
Ou, então, outra vez o que desponta
Será mero vislumbre doutros lemas?
E o todo irá ser nosso, um dos emblemas
Que nos vem indicar a quanto monta
Grandeza ou pequenez que nos defronta,
Ou além fica de quaisquer esquemas?
Palavras breves conterão o traço
De quanto nos abraça nesta abraço
Em que um somos com todos e com tudo.
Por mais que diminuto em mim me sinta,
Por mais que tudo em mim ao fim me minta,
É rumo o infinito que me mudo.
1077 – Embargo
É bem dura esta verdade,
Por isso sofre de embargo:
Quando falta integridade
Até um dom de Deus é amargo.
1078 – Compaixão
Pobres somos elementos
Por sobre inseguro chão,
Não façamos julgamentos
Sem ter demais compaixão.
1079 – Dividido
Apenas o amor, o amor,
Dividido ao infinito,
Não só não perde em valor
Como nem minga seu fito.
1080 – Competição
Em qualquer competição
De poder ou de ciência
Aposta que ganharão
Os que apostem na insistência.
1081 – Esperança
Naquilo que não se alcança
Vai todo o ter, todo o ser:
- Melhor é ter esperança
Que nem esperança ter.
1082 – Perigoso
Quem procurar a verdade
Não pode ser perigoso
Mas quem se antes persuade
Que dela tem selo e gozo.
1083 – Champanhe
Champanhe só nas vitórias?
- Bebe-o também nas derrotas:
Sempre é o mesmo e, sem as glórias,
Melhor sabe e mais o notas.
1084 – Justo
Aquele que ofende os mais
É que raramente tende
A dar do justo os sinais:
Não perdoa a quem ofende!
1085 – Inveja
Aprendo o que quer que seja
Quando o invejo, mal contido:
Se nunca tivera inveja,
Nunca teria aprendido.
1086 – Maior
Um grande homem é preciso
Para dele o erro admitir:
Se a razão nele diviso,
Maior é ao nem bulir.
1087 – Trabalho
Não há jamais um trabalho
Que indigno seja dum homem:
Se bem o faço, equivalho
Aos mais nobres que os mais tomem.
1088 – Conversa
Conversar busca um confim,
Requer uma razão tersa.
Dizer a tudo que sim
Destrói a boa conversa.
1089 – Velhice
Do que a velhice precisa
É mesmo de muito pouco,
Mas tal pouco tanto visa,
Tanto, tanto que é de louco!
1090 – Ressentimentos
Se tens desentendimentos,
Nunca fiques ressentido:
Sofres tu ressentimentos,
Anda o outro divertido.
1091 – Grupo
Irei morrer só? – perguntas.
Junta-te a um grupo e melhora:
Verás então, desde agora,
Se ao tempo a doença juntas!
1092 – Gostar
O cansaço provocado
Por não gostar do que faz,
Gasto, exausto, o põe de lado,
Mais mil doenças que traz.
1093 – Proezas
A mais grata das proezas
É lograres alegrar-te
Com o êxito que não prezas,
Que alguém contigo reparte.
1094 – Despreocupo
Quando me despreocupo
Com o que tenho a dizer,
Deveras então me ocupo
Em ouvir tudo o que houver.
1095 – Cabeça
Quando aquilo que alguém tem
A seu favor dentro está
Da cabeça, então ninguém
Pode roubar-lho de lá.
1096 – Normal
Parece um rapaz normal
Mas o seu zelo o destaca?
- Repara que ao genial
O génio pega de estaca!
1097 – Querer
Tanto nos preocupamos
De ensinar jovens a ler
Que até já nem nos lembramos
De lho ensinar a querer.
1098 – Actividade
Vela pela actividade:
Quando a idade nos reduz,
Mais que à vida nos conduz,
- Mantém a capacidade.
1099 – Hora
Uma hora de exercício
São duas ou três vitais
Que buscas com este vício
De vida alongada a mais.
1100 – Cadeia
Quando ensinas o teu filho,
Porque a vida é uma cadeia,
Juntas uma malha à teia,
Atas teu neto ao cadilho.
1101 – Canta
Quem canta seu mal espanta
E a prenda que aos outros traz
É igual à que a ele faz:
Quem canta também encanta.
1102 – Mais
Sejam quais forem teus fins
Procura os que sabem mais,
Copia o jeito de rins,
Depois cria o que sonhais.
1103 – Arco-íris
Para um bom vinho reter
Terás de pisar as uvas,
Quem o arco-íris quiser
Vai ter de aguentar as chuvas.
1104 – Contado
Ontem, cheque cancelado,
Amanhã, uma promissória,
Hoje é o dinheiro contado:
- Usa-o, cobra dele a glória.
1105 – Arcano
Grava no teu coração
O que é o mais fecundo arcano:
- Todos os dias serão
O melhor dia do ano.
1106 – Sol
O sol nasce hoje p’ra mim,
Tudo está vivo, animado:
Meu fascínio vem assim
A ser luz em todo o lado.
1107 – Poder
Rota de felicidade
É não me preocupar
Do campo que ultrapassar
O meu campo da vontade.
1108 – Abrigos
Felicidade: os abrigos
Onde eu encontro o conforto
Do que cultivo em meu horto,
- A companhia de amigos.
1109 – Lugar
Ocupa o tempo, que a felicidade
Vem de ocupá-lo sem deixar lugar
A arrepender-se duma vacuidade,
A elogiar-se por se ter vagar.
1110 – Perfume
Felicidade é o perfume
Que noutrem não posso pôr
Sem que umas gotas arrume
Que em mim espalhem odor.
1111 – Partilhar
Quem alcançar a alegria
Haverá de a partilhar:
Felicidade é vazia
Sem uma alma gémea a par.
1112 – Imo
Confia em ti, que o que é belo
É sentido no interior.
Responde ao último apelo:
É no imo que está o valor.
1113 – Felizes
Não chores em quanto dizes,
Nem todo o caminho é imundo:
Fala de coisas felizes,
De triste já basta o mundo!
1114 – Dever
Não há jamais um dever
Tão violado de raiz
Como o que viola quenquer:
- O dever de ser feliz!
1115 – Gasto
O pior dia da vida,
O mais mal gasto que vimos,
É o da freima consumida
Em que nós nunca nos rimos!
1116 – Magia
Felicidade é a magia
Secreta em todo o lugar:
- Dos outros com a alegria
Ser capaz de se alegrar.
1117 – Acorda
Um coração que transborda
De bondade e compreensão
Perpetuamente é que acorda
E salta alegre prò chão.
1118 – Pergunta
Pergunta, que então vais dar
Ao sonho que em ti houver.
Quem receia perguntar
Tem vergonha de aprender.
1119 – Primeiro
Uma relação feliz
Quer o primeiro lugar,
Antes do que um filho quis
E do mais que houver no lar.
1120 – Fortes
Os casais mais dedicados
Realçam os pontos fortes,
Tornam-se núcleos dos fados
Que ao mais ditam quais as sortes.
1121 – Cuidados
Os casais bem realizados
Empenham na relação
Tanta energia e cuidados
Como a um filho e à profissão.
1122 – Espinhos
As ocasiões condenas
Se ásperos vão os caminhos:
Os problemas são apenas
Ocasiões com espinhos.
1123 – Mães
São filósofas as mães
Com os sentidos mais vivos,
Isto porque nelas tens
Sábios dos mais intuitivos.
1124 – Fogo
O fogo não nos foi oferecido
Mas roubado antes foi por Prometeu.
A vingar, foi-lhe o fígado comido.
Deus comido: é o destino meu e teu!
1125 – Ausência
Cinco anos, como prolonga
Tua ausência cada um!
- A ausência é sempre mais longa
Do que um amor em comum.
1126 – Suspeita
Da suspeita tens receio?
Do vulgo reveste a pele:
De quem espera o correio
Quem vai desconfiar dele?
1127 – Pesadelo
Eis o eterno pesadelo:
Jamais um apaixonado
Consegue de vez ser belo
Enquanto não for amado.
1128 – Monumento
Não dói só por ser lamento,
Por estremecer o lar.
É triste uma mãe chorar:
- É a chorar um monumento!
1129 – Crê
Crê, que crendo te renovas,
E aprova o que então se vê.
Quem para crer requer provas,
Nisto prova que não crê.
1130 – Medida
São os mais medida feita
Da altura que houver em ti:
Aos mais quem os não respeita
Não tem respeito por si.
1131 – Cigano
Temos do cigano a asa
Que nos faz voar dos ninhos:
Cigano jamais é casa,
Cigano é sempre caminhos.
1132 – Sozinhos
Todos estamos sozinhos,
Não por mor das circunstâncias:
Quando voamos dos ninhos
Moram connosco as distâncias.
1133 – Credo
Não é de andar de mim cheio
Mas de sentir-me esvaindo:
- Bem não serve o credo alheio
Quem o seu vem desservindo.
1134 – Pele
Minha carne à própria pele
Menos ferrada se encontra
Do que a ideia que me impele
Do porvir a abrir a montra.
1135 – Divertimentos
Deixem-nos ler e dançar,
Que estes dois divertimentos
Ao mundo em nenhum lugar
Trarão dor nem sofrimentos.
1136 – Maduro
Como Deus sabe o que faz,
Quem deveras é maduro
É quem o acolher em paz
Sem cuidar que há mais seguro.
1137 – Paixão
Pôr-me a escrever com verdade?
- A escrever, é com paixão:
Esta é a vera identidade
Como a molda o coração.
1138 – Actrizes
Há quem na vida real
Imite as grandes actrizes
Que no palco imitam mal
Da real vida os matizes.
1139 – Remorso
Logo me pica o remorso
Se o preço de meu prazer
Doença, fome e desforço
Levar meu povo a sofrer.
1140 – Dormir
Tempo perdido a dormir
É roubado ao de viver
Ou é tempo, ao invés, de ir
Rumo ao sonho que aprouver?
1141 – Acostuma
Sem ir por um nada, em suma,
Contudo, sacrificar-se,
Como a tudo se acostuma,
É melhor não conformar-se.
1142 – Penitente
Porque jamais há evidência
E o mundo é todo daltónico,
Um homem de consciência
Será um penitente crónico.
1143 – Muito
Quem muito amar esta vida
Amará de toda a sorte,
Ama-a até na despedida:
Amará também a morte.
1144 – Empréstimos
Vou pedir, no que inauguro,
Empréstimos ao futuro
A suster a dor presente.
1145 – Punhais
Ganhar a mão da mulher
Sem lhe ganhar a paixão
É na casa recolher
Os punhais duma traição.
1146 – Caras
Ninguém usa duas caras,
Para si e a multidão,
Que não perca as anteparas:
Qual delas serei, qual não?
1147 – Gratuito
Para quê recontar seja o que for?
Por quê continuar por pouco ou muito?
- Porque no dom há oferta por amor:
Porque encontramos o prazer gratuito.
1148 – Escravo
A vida inteira convida
A me vender por inteiro:
- Ser escravo toda a vida
Só para fazer dinheiro!
1149 – Coração
É o coração a mais forte
Do corpo íntegra parcela:
A ternura marca a sorte
Nas mãos em que se revela.
1150 – Contas
Enquanto se ajustam contas,
Não podes mais avançar.
Pelo perdão tu remontas
Às metas que hás-de alcançar.
1151 – Cima
Serve de arrimo e te arrima
Como entre iguais, junto aos teus.
Posição de olhar de cima
Para qualquer um, só Deus.
1152 – Tortulho
Quem me dera distinguir
Do vero amor o faltoso,
Como ao tortulho que vir,
O que é bom do venenoso!
1153 – Peçonha
Quando se espalha a peçonha,
De vergonha, nem sinal.
O sentido da vergonha
É uma bússola moral.
1154 – Pequenos
Quem não chega mais além
É que objectivos pequenos
Demarcou pelos terrenos:
Só nada ao nada convém.
1155 – Aranha
Não é o mundo que me apanha,
De mim próprio é que sou presa,
Meus instintos são a aranha
Que me tece a natureza.
1156 – Segredos
Mais trágico entre os segredos
Este será que supões:
Quando tu queimas os dedos
Chamuscas as ilusões.
1157 – Mim
O problema é que de mim
Nunca sei que aconteceu.
Por mais que procure, ao fim,
Eu sou outro: um outro eu!
1158 – Interna
Quando a questão for interna
Que lhe podes contrapor?
Podes amputar a perna,
Nunca amputas uma dor.
1159 – Confidência
Se alguém te faz confidência
O segredo não é teu.
Guardo-o, que é ter sapiência
A seu dono dar o seu.
1160 – Roda
Quando o mais baixo da roda
Me calhar na minha vida,
Vai dar ela a volta toda,
Doravante é só subida.
1161 – Macia
Quando ouves a voz macia,
A melhor atenção presta
Ao silvo que esconderia
Da víbora na floresta.
1162 – Vez
Nunca mais se farão bem,
Que as coisas trocam de tez,
Quando as não fizer alguém
Cada qual de sua vez.
1163 – Lida
Corro toda a vida
E jamais condiz
Dum homem a lida
Com vê-lo feliz.
1164 – Coragem
Quem não tem coragem
P’ra si de viver
Retoma a viagem
Quando a outrem quer.
1165 – Convicção
Que haverá mais convincente
Que uma grande convicção?
Torna o incrédulo temente
E mais crente que um sermão.
1166 – Guloso
Ninguém pode ser guloso
Por gostar de comer bem:
O perfeito é que dá gozo,
Num prato ou doce também.
1167 – Ausência
Há quem sofra de carência
A sonhar, porém, a cura.
De sonhos mais sofre ausência
O que sofre de fartura.
1168 – Desilusão
Cá na terra vive tudo,
Só o homem com a dor lida,
Esta dor com que me iludo
Da desilusão da vida.
1169 – Lume
Recordar, eis o que aquece
Horas mortas da velhice
Como o lume que se esquece
Na lareira onde preguice.
1170 – Perda
É a perda que me convida
A sentir um valor firme:
Acho mais sabor à vida
Só quando a sinto fugir-me.
1171 – Grande
Quando o pequeno comande
Tudo é vício indecoroso,
Só quem deveras é grande
Será sempre generoso.
1172 – Leiva
Uma mente preparada
Para acolher uma ideia
É uma leiva arroteada
Sedenta de quem semeia.
1173 – Peso
Se te deixas de importar
Com o que te acontecer
E a um amigo dás lugar,
Teu peso então vai crescer.
1174 – Esperamos
Esperamos, esperamos…
E, afinal, nós preparados
Deveras jamais ficamos
Para os factos esperados.
1175 – Cãs
Canta sem mais fingimento
Os teus sonhos mais secretos,
Que, vida fora, o tormento
Cãs gera aos cabelos pretos.
1176 – Profetas
Não traz a ciência os lemas
Dos rumos por que te metas:
Coloca a história problemas,
Só dão resposta os profetas.
1177 – Sacrifício
Sacrifício é dom de si,
Mágico de agir destino,
Em que, humano, me atrevi
A enxertar-me de divino.
1178 – Estranho
Deus é tão estranho
Mesmo para os seus
Que têm este ganho:
Duvidam de Deus.
1179 – Perfeito
Um amor não é perfeito
Senão quando se expandiu
Dum ao outro de tal jeito
Que assim se tratam: “- Ó eu!”
1180 – Pacífico
Pacífico é todo o crente,
Mas não mero pacifista:
Devém fero combatente
Quando à violência resista.
1181 – Senhor
Um homem só é senhor
Do que lhe cabe em destino
Se souber se contrapor
Aos ventos do desatino.
1182 – Mulher
A mulher que os homens cria
E que os enche de regalos
É a quem melhor caberia
A força de transformá-los.
1183 – Ocupado
Todo o que não estiver
Bem ocupado em nascer,
Estará, como qualquer,
Sempre ocupado a morrer.
1184 – Motes
Ao dizer o que pensamos
Um leque maior de motes
De conversa estimulamos
Que do saber muitos dotes.
1185 – Capítulos
Na vida de todos nós
Capítulos há que lidos
Raro serão e sem voz
E nunca em voz alta ouvidos.
1186 – Homens
Homens há, mesmo em política,
Que como homens permanecem.
Outros, à venda, sem crítica,
De homens ser até se esquecem.
1187 – Alguém
Sejam quais forem os fins
A que chegues em teu voo,
Alguém há, de teus afins,
Alguém há que te ajudou.
1188 – Janela
Na vida, quando a janela
Te abre uma oportunidade,
A persiana que há nela
Não feches, que então se evade.
1189 – Chama
Só o amor, chama imutável,
Como as brasas permanece
Que da fogueira admirável
Serão o que sempre aquece.
Quando um homem diz “eu te amo”
E quer dizer “te desejo”,
Ao confundir o reclamo
À guerra vai dar ensejo.
1191 – Tarefas
Cumprir tarefas em casa,
Responder quando as viola,
Treina à criança a forte asa
Que a leva a voar na escola.
1192 – Alvos
Ter alvos bem nas alturas
E visá-los com firmeza:
Eis como a criança apuras
Para as vitórias que preza.
1193 – Caminhada
O mais velho e a vizinhança
São a família alargada
Com que nossa vida alcança
Mais além na caminhada.
1194 – Milagres
Os homens entrega o artista
Aos milagres da ilusão,
Porém, o que tem em vista
É o mundo lhes pôr na mão.
1195 – Fruto
Não te ponhas tão de luto
Ante a injustiça assanhada:
Árvore que dá mais fruto
É que leva mais pedrada.
1196 – Seguinte
Ao fim do dia, quem amo,
Luz que aquece com requinte,
Faz que valha, quando o chamo,
O claro dia seguinte.
1197 – Sementes
Aos velhos que não aprovas
Não faças apenas guerras,
Que fruto as sementes novas
Também dão nas velhas terras.
1198 – Aceitarem
Não entendes as pessoas?
Não é de se decifrarem,
De vê-las por más ou boas:
- É apenas de se aceitarem!
1199 – Cala
Quem cala mais que consente,
Pois consente de hora a hora
Que bem e mal vão em frente:
Quem cala, pois, colabora.
1200 – Baixa
Canta, enaltece o teu dia
Com quanta luz nele encaixa,
Menos alegre é a alegria
Se transmitida em voz baixa.
1201 – Satisfeito
Um amor bem satisfeito
Se esconde na intimidade.
Contrariado, é atreito
A gritar pela cidade.
1202 – Desamor
Um amor que é desamor,
Sem conserto, sem emenda,
Fato rasgado, é o terror:
Tais rasgões ninguém remenda.
1203 – Aletas
Em políticos, profetas
Nem um momento acredites.
Solta em teu imo as aletas,
Voa por ti, não hesites!
1204 – Egoísmo
Poderá ser um caminho
A perfeição que é só tua,
Mas o que nela adivinho
É que egoísmo em ti actua.
1205 – Maldade
A maldade que eu detesto
Deveras, profundamente,
É a pensada: já não presto
Se ao coração rói a mente.
1206 – Centro
Só vivemos uma vez
E cada qual, bem no centro,
O mundo inteiro através
De si vive lá por dentro.
1207 – Sismo
Ser apenas o algarismo,
A peça insignificante
Da História no imenso sismo…
- Serei tão irrelevante?
1208 – Raiz
A liberdade é a raiz
Que germina os húmus de homem:
É no seu traço de giz
Que as ditaduras se somem.
1209 – Alheia
Se a dor numa fronte alheia
For tão minha como dela
Doutrem ponho a vida cheia,
Rasgo em mim uma janela.
1210 – Cambiante
Tudo ou nada é o que quer quem
Não tem na vida cambiante.
Será mau gostar de alguém
Se não se gosta o bastante?
1211 – Corporizado
Objecto de amor não é
Nem o amante nem o amado:
É dar-se inteiro, de pé,
É dar-se corporizado.
1212 – Ferido
O soldado que é ferido
Crê o combate ver isento
Ao julgá-lo por perdido
E horrendamente sangrento.
1213 – Amigo
Maravilhoso e mui raro
É o momento em que lobrigo
O bem de todos mais caro:
- Que descobri um amigo!
1214 – Outubro
Outubro das noites frias…
À lareira me equilibro,
Serões fora, a sonhar dias
Mergulhado num bom livro.
1215 – Cariz
Comunhão buscando o fim
Para além de meu cariz,
Amor é sair de mim
Outrem a tornar feliz.
1216 – Anjos
Crianças que tocam banjos,
Crianças que pedem pão…
São vários os tipos de anjos,
Uns têm asas, outros, não.
1217 – Par
Como se pode esperar
Que quem só calor sentiu