DÉCIMO  PRIMEIRO  VERSO

 

 

E  CADA  QUAL  VIVER  DO  TODO  OS  TEMAS

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1076 e 1274 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

1076 – E cada qual viver do todo os temas

 

E cada qual viver do todo os temas

Será do todo dar a final conta

Ou, então, outra vez o que desponta

Será mero vislumbre doutros lemas?

 

E o todo irá ser nosso, um dos emblemas

Que nos vem indicar a quanto monta

Grandeza ou pequenez que nos defronta,

Ou além fica de quaisquer esquemas?

 

Palavras breves conterão o traço

De quanto nos abraça nesta abraço

Em que um somos com todos e com tudo.

 

Por mais que diminuto em mim me sinta,

Por mais que tudo em mim ao fim me minta,

É rumo o infinito que me mudo.

 

 

1077 – Embargo

 

É bem dura esta verdade,

Por isso sofre de embargo:

Quando falta integridade

Até um dom de Deus é amargo.

 

 

1078 – Compaixão

 

Pobres somos elementos

Por sobre inseguro chão,

Não façamos julgamentos

Sem ter demais compaixão.

 

 

1079 – Dividido

 

Apenas o amor, o amor,

Dividido ao infinito,

Não só não perde em valor

Como nem minga seu fito.

 

 

1080 – Competição

 

Em qualquer competição

De poder ou de ciência

Aposta que ganharão

Os que apostem na insistência.

 

 

1081 – Esperança

 

Naquilo que não se alcança

Vai todo o ter, todo o ser:

- Melhor é ter esperança

Que nem esperança ter.

 

1082 – Perigoso

 

Quem procurar a verdade

Não pode ser perigoso

Mas quem se antes persuade

Que dela tem selo e gozo.

 

 

1083 – Champanhe

 

Champanhe só nas vitórias?

- Bebe-o também nas derrotas:

Sempre é o mesmo e, sem as glórias,

Melhor sabe e mais o notas.

 

 

1084 – Justo

 

Aquele que ofende os mais

É que raramente tende

A dar do justo os sinais:

Não perdoa a quem ofende!

 

 

1085 – Inveja

 

Aprendo o que quer que seja

Quando o invejo, mal contido:

Se nunca tivera inveja,

Nunca teria aprendido.

 

 

1086 – Maior

 

Um grande homem é preciso

Para dele o erro admitir:

Se a razão nele diviso,

Maior é ao nem bulir.

 

 

1087 – Trabalho

 

Não há jamais um trabalho

Que indigno seja dum homem:

Se bem o faço, equivalho

Aos mais nobres que os mais tomem.

 

 

1088 – Conversa

 

Conversar busca um confim,

Requer uma razão tersa.

Dizer a tudo que sim

Destrói a boa conversa.

 

 

 

 

 

 

1089 – Velhice

 

Do que a velhice precisa

É mesmo de muito pouco,

Mas tal pouco tanto visa,

Tanto, tanto que é de louco!

 

 

1090 – Ressentimentos

 

Se tens desentendimentos,

Nunca fiques ressentido:

Sofres tu ressentimentos,

Anda o outro divertido.

 

 

1091 – Grupo

 

Irei morrer só? – perguntas.

Junta-te a um grupo e melhora:

Verás então, desde agora,

Se ao tempo a doença juntas!

 

 

1092 – Gostar

 

O cansaço provocado

Por não gostar do que faz,

Gasto, exausto, o põe de lado,

Mais mil doenças que traz.

 

 

1093 – Proezas

 

A mais grata das proezas

É lograres alegrar-te

Com o êxito que não prezas,

Que alguém contigo reparte.

 

 

1094 – Despreocupo

 

Quando me despreocupo

Com o que tenho a dizer,

Deveras então me ocupo

Em ouvir tudo o que houver.

 

 

1095 – Cabeça

 

Quando aquilo que alguém tem

A seu favor dentro está

Da cabeça, então ninguém

Pode roubar-lho de lá.

 

 

 

 

 

 

1096 – Normal

 

Parece um rapaz normal

Mas o seu zelo o destaca?

- Repara que ao genial

O génio pega de estaca!

 

 

1097 – Querer

 

Tanto nos preocupamos

De ensinar jovens a ler

Que até já nem nos lembramos

De lho ensinar a querer.

 

 

1098 – Actividade

 

Vela pela actividade:

Quando a idade nos reduz,

Mais que à vida nos conduz,

- Mantém a capacidade.

 

 

1099 – Hora

 

Uma hora de exercício

São duas ou três vitais

Que buscas com este vício

De vida alongada a mais.

 

 

1100 – Cadeia

 

Quando ensinas o teu filho,

Porque a vida é uma cadeia,

Juntas uma malha à teia,

Atas teu neto ao cadilho.

 

 

1101 – Canta

 

Quem canta seu mal espanta

E a prenda que aos outros traz

É igual à que a ele faz:

Quem canta também encanta.

 

 

1102 – Mais

 

Sejam quais forem teus fins

Procura os que sabem mais,

Copia o jeito de rins,

Depois cria o que sonhais.

 

 

 

 

 

 

1103 – Arco-íris

 

Para um bom vinho reter

Terás de pisar as uvas,

Quem o arco-íris quiser

Vai ter de aguentar as chuvas.

 

 

1104 – Contado

 

Ontem, cheque cancelado,

Amanhã, uma promissória,

Hoje é o dinheiro contado:

- Usa-o, cobra dele a glória.

 

 

1105 – Arcano

 

Grava no teu coração

O que é o mais fecundo arcano:

- Todos os dias serão

O melhor dia do ano.

 

 

1106 – Sol

 

O sol nasce hoje p’ra mim,

Tudo está vivo, animado:

Meu fascínio vem assim

A ser luz em todo o lado.

 

 

1107 – Poder

 

Rota de felicidade

É não me preocupar

Do campo que ultrapassar

O meu campo da vontade.

 

 

1108 – Abrigos

 

Felicidade: os abrigos

Onde eu encontro o conforto

Do que cultivo em meu horto,

- A companhia de amigos.

 

 

1109 – Lugar

 

Ocupa o tempo, que a felicidade

Vem de ocupá-lo sem deixar lugar

A arrepender-se duma vacuidade,

A elogiar-se por se ter vagar.

 

 

 

 

 

 

1110 – Perfume

 

Felicidade é o perfume

Que noutrem não posso pôr

Sem que umas gotas arrume

Que em mim espalhem odor.

 

 

1111 – Partilhar

 

Quem alcançar a alegria

Haverá de a partilhar:

Felicidade é vazia

Sem uma alma gémea a par.

 

 

1112 – Imo

 

Confia em ti, que o que é belo

É sentido no interior.

Responde ao último apelo:

É no imo que está o valor.

 

 

1113 – Felizes

 

Não chores em quanto dizes,

Nem todo o caminho é imundo:

Fala de coisas felizes,

De triste já basta o mundo!

 

 

1114 – Dever

 

Não há jamais um dever

Tão violado de raiz

Como o que viola quenquer:

- O dever de ser feliz!

 

 

1115 – Gasto

 

O pior dia da vida,

O mais mal gasto que vimos,

É o da freima consumida

Em que nós nunca nos rimos!

 

 

1116 – Magia

 

Felicidade é a magia

Secreta em todo o lugar:

- Dos outros com a alegria

Ser capaz de se alegrar.

 

 

 

 

 

 

1117 – Acorda

 

Um coração que transborda

De bondade e compreensão

Perpetuamente é que acorda

E salta alegre prò chão.

 

 

1118 – Pergunta

 

Pergunta, que então vais dar

Ao sonho que em ti houver.

Quem receia perguntar

Tem vergonha de aprender.

 

 

1119 – Primeiro

 

Uma relação feliz

Quer o primeiro lugar,

Antes do que um filho quis

E do mais que houver no lar.

 

 

1120 – Fortes

 

Os casais mais dedicados

Realçam os pontos fortes,

Tornam-se núcleos dos fados

Que ao mais ditam quais as sortes.

 

 

1121 – Cuidados

 

Os casais bem realizados

Empenham na relação

Tanta energia e cuidados

Como a um filho e à profissão.

 

 

1122 – Espinhos

 

As ocasiões condenas

Se ásperos vão os caminhos:

Os problemas são apenas

Ocasiões com espinhos.

 

 

1123 – Mães

 

São filósofas as mães

Com os sentidos mais vivos,

Isto porque nelas tens

Sábios dos mais intuitivos.

 

 

 

 

 

 

1124 – Fogo

 

O fogo não nos foi oferecido

Mas roubado antes foi por Prometeu.

A vingar, foi-lhe o fígado comido.

Deus comido: é o destino meu e teu!

 

 

1125 – Ausência

 

Cinco anos, como prolonga

Tua ausência cada um!

- A ausência é sempre mais longa

Do que um amor em comum.

 

 

1126 – Suspeita

 

Da suspeita tens receio?

Do vulgo reveste a pele:

De quem espera o correio

Quem vai desconfiar dele?

 

 

1127 – Pesadelo

 

Eis o eterno pesadelo:

Jamais um apaixonado

Consegue de vez ser belo

Enquanto não for amado.

 

 

1128 – Monumento

 

Não dói só por ser lamento,

Por estremecer o lar.

É triste uma mãe chorar:

- É a chorar um monumento!

 

 

1129 – Crê

 

Crê, que crendo te renovas,

E aprova o que então se vê.

Quem para crer requer provas,

Nisto prova que não crê.

 

 

1130 – Medida

 

São os mais medida feita

Da altura que houver em ti:

Aos mais quem os não respeita

Não tem respeito por si.

 

 

 

 

 

 

1131 – Cigano

 

Temos do cigano a asa

Que nos faz voar dos ninhos:

Cigano jamais é casa,

Cigano é sempre caminhos.

 

 

1132 – Sozinhos

 

Todos estamos sozinhos,

Não por mor das circunstâncias:

Quando voamos dos ninhos

Moram connosco as distâncias.

 

 

1133 – Credo

 

Não é de andar de mim cheio

Mas de sentir-me esvaindo:

- Bem não serve o credo alheio

Quem o seu vem desservindo.

 

 

1134 – Pele

 

Minha carne à própria pele

Menos ferrada se encontra

Do que a ideia que me impele

Do porvir a abrir a montra.

 

 

1135 – Divertimentos

 

Deixem-nos ler e dançar,

Que estes dois divertimentos

Ao mundo em nenhum lugar

Trarão dor nem sofrimentos.

 

 

1136 – Maduro

 

Como Deus sabe o que faz,

Quem deveras é maduro

É quem o acolher em paz

Sem cuidar que há mais seguro.

 

 

1137 – Paixão

 

Pôr-me a escrever com verdade?

- A escrever, é com paixão:

Esta é a vera identidade

Como a molda o coração.

 

 

 

 

 

 

1138 – Actrizes

 

Há quem na vida real

Imite as grandes actrizes

Que no palco imitam mal

Da real vida os matizes.

 

 

1139 – Remorso

 

Logo me pica o remorso

Se o preço de meu prazer

Doença, fome e desforço

Levar meu povo a sofrer.

 

 

1140 – Dormir

 

Tempo perdido a dormir

É roubado ao de viver

Ou é tempo, ao invés, de ir

Rumo ao sonho que aprouver?

 

 

1141 – Acostuma

 

Sem ir por um nada, em suma,

Contudo, sacrificar-se,

Como a tudo se acostuma,

É melhor não conformar-se.

 

 

1142 – Penitente

 

Porque jamais há evidência

E o mundo é todo daltónico,

Um homem de consciência

Será um penitente crónico.

 

 

1143 – Muito

 

Quem muito amar esta vida

Amará de toda a sorte,

Ama-a até na despedida:

Amará também a morte.

 

 

1144 – Empréstimos

 

Vou pedir, no que inauguro,

A esperança que haja em frente,

Empréstimos ao futuro

A suster a dor presente.

 

 

 

 

 

 

1145 – Punhais

 

Ganhar a mão da mulher

Sem lhe ganhar a paixão

É na casa recolher

Os punhais duma traição.

 

 

1146 – Caras

 

Ninguém usa duas caras,

Para si e a multidão,

Que não perca as anteparas:

Qual delas serei, qual não?

 

 

1147 – Gratuito

 

Para quê recontar seja o que for?

Por quê continuar por pouco ou muito?

- Porque no dom há oferta por amor:

Porque encontramos o prazer gratuito.

 

 

1148 – Escravo

 

A vida inteira convida

A me vender por inteiro:

- Ser escravo toda a vida

Só para fazer dinheiro!

 

 

1149 – Coração

 

É o coração a mais forte

Do corpo íntegra parcela:

A ternura marca a sorte

Nas mãos em que se revela.

 

 

1150 – Contas

 

Enquanto se ajustam contas,

Não podes mais avançar.

Pelo perdão tu remontas

Às metas que hás-de alcançar.

 

 

1151 – Cima

 

Serve de arrimo e te arrima

Como entre iguais, junto aos teus.

Posição de olhar de cima

Para qualquer um, só Deus.

 

 

 

 

 

 

1152 – Tortulho

 

Quem me dera distinguir

Do vero amor o faltoso,

Como ao tortulho que vir,

O que é bom do venenoso!

 

 

1153 – Peçonha

 

Quando se espalha a peçonha,

De vergonha, nem sinal.

O sentido da vergonha

É uma bússola moral.

 

 

1154 – Pequenos

 

Quem não chega mais além

É que objectivos pequenos

Demarcou pelos terrenos:

Só nada ao nada convém.

 

 

1155 – Aranha

 

Não é o mundo que me apanha,

De mim próprio é que sou presa,

Meus instintos são a aranha

Que me tece a natureza.

 

 

1156 – Segredos

 

Mais trágico entre os segredos

Este será que supões:

Quando tu queimas os dedos

Chamuscas as ilusões.

 

 

1157 – Mim

 

O problema é que de mim

Nunca sei que aconteceu.

Por mais que procure, ao fim,

Eu sou outro: um outro eu!

 

 

1158 – Interna

 

Quando a questão for interna

Que lhe podes contrapor?

Podes amputar a perna,

Nunca amputas uma dor.

 

 

 

 

 

 

1159 – Confidência

 

Se alguém te faz confidência

O segredo não é teu.

Guardo-o, que é ter sapiência

A seu dono dar o seu.

 

 

1160 – Roda

 

Quando o mais baixo da roda

Me calhar na minha vida,

Vai dar ela a volta toda,

Doravante é só subida.

 

 

1161 – Macia

 

Quando ouves a voz macia,

A melhor atenção presta

Ao silvo que esconderia

Da víbora na floresta.

 

 

1162 – Vez

 

Nunca mais se farão bem,

Que as coisas trocam de tez,

Quando as não fizer alguém

Cada qual de sua vez.

 

 

1163 – Lida

 

Corro toda a vida

E jamais condiz

Dum homem a lida

Com vê-lo feliz.

 

 

1164 – Coragem

 

Quem não tem coragem

P’ra si de viver

Retoma a viagem

Quando a outrem quer.

 

 

1165 – Convicção

 

Que haverá mais convincente

Que uma grande convicção?

Torna o incrédulo temente

E mais crente que um sermão.

 

 

 

 

 

 

1166 – Guloso

 

Ninguém pode ser guloso

Por gostar de comer bem:

O perfeito é que dá gozo,

Num prato ou doce também.

 

 

1167 – Ausência

 

Há quem sofra de carência

A sonhar, porém, a cura.

De sonhos mais sofre ausência

O que sofre de fartura.

 

 

1168 – Desilusão

 

Cá na terra vive tudo,

Só o homem com a dor lida,

Esta dor com que me iludo

Da desilusão da vida.

 

 

1169 – Lume

 

Recordar, eis o que aquece

Horas mortas da velhice

Como o lume que se esquece

Na lareira onde preguice.

 

 

1170 – Perda

 

É a perda que me convida

A sentir um valor firme:

Acho mais sabor à vida

Só quando a sinto fugir-me.

 

 

1171 – Grande

 

Quando o pequeno comande

Tudo é vício indecoroso,

Só quem deveras é grande

Será sempre generoso.

 

 

1172 – Leiva

 

Uma mente preparada

Para acolher uma ideia

É uma leiva arroteada

Sedenta de quem semeia.

 

 

 

 

 

 

1173 – Peso

 

Se te deixas de importar

Com o que te acontecer

E a um amigo dás lugar,

Teu peso então vai crescer.

 

 

1174 – Esperamos

 

Esperamos, esperamos…

E, afinal, nós preparados

Deveras jamais ficamos

Para os factos esperados.

 

 

1175 – Cãs

 

Canta sem mais fingimento

Os teus sonhos mais secretos,

Que, vida fora, o tormento

Cãs gera aos cabelos pretos.

 

 

1176 – Profetas

 

Não traz a ciência os lemas

Dos rumos por que te metas:

Coloca a história problemas,

Só dão resposta os profetas.

 

 

1177 – Sacrifício

 

Sacrifício é dom de si,

Mágico de agir destino,

Em que, humano, me atrevi

A enxertar-me de divino.

 

 

1178 – Estranho

 

Deus é tão estranho

Mesmo para os seus

Que têm este ganho:

Duvidam de Deus.

 

 

1179 – Perfeito

 

Um amor não é perfeito

Senão quando se expandiu

Dum ao outro de tal jeito

Que assim se tratam: “- Ó eu!”

 

 

 

 

 

 

1180 – Pacífico

 

Pacífico é todo o crente,

Mas não mero pacifista:

Devém fero combatente

Quando à violência resista.

 

 

1181 – Senhor

 

Um homem só é senhor

Do que lhe cabe em destino

Se souber se contrapor

Aos ventos do desatino.

 

 

1182 – Mulher

 

A mulher que os homens cria

E que os enche de regalos

É a quem melhor caberia

A força de transformá-los.

 

 

1183 – Ocupado

 

Todo o que não estiver

Bem ocupado em nascer,

Estará, como qualquer,

Sempre ocupado a morrer.

 

 

1184 – Motes

 

Ao dizer o que pensamos

Um leque maior de motes

De conversa estimulamos

Que do saber muitos dotes.

 

 

1185 – Capítulos

 

Na vida de todos nós

Capítulos há que lidos

Raro serão e sem voz

E nunca em voz alta ouvidos.

 

 

1186 – Homens

 

Homens há, mesmo em política,

Que como homens permanecem.

Outros, à venda, sem crítica,

De homens ser até se esquecem.

 

 

 

 

 

 

1187 – Alguém

 

Sejam quais forem os fins

A que chegues em teu voo,

Alguém há, de teus afins,

Alguém há que te ajudou.

 

 

1188 – Janela

 

Na vida, quando a janela

Te abre uma oportunidade,

A persiana que há nela

Não feches, que então se evade.

 

 

1189 – Chama

 

Só o amor, chama imutável,

Como as brasas permanece

Que da fogueira admirável

Serão o que sempre aquece.

 

 

1190 - Reclamo

 

Quando um homem diz “eu te amo”

E quer dizer “te desejo”,

Ao confundir o reclamo

À guerra vai dar ensejo.

 

 

1191 – Tarefas

 

Cumprir tarefas em casa,

Responder quando as viola,

Treina à criança a forte asa

Que a leva a voar na escola.

 

 

1192 – Alvos

 

Ter alvos bem nas alturas

E visá-los com firmeza:

Eis como a criança apuras

Para as vitórias que preza.

 

 

1193 – Caminhada

 

O mais velho e a vizinhança

São a família alargada

Com que nossa vida alcança

Mais além na caminhada.

 

 

 

 

 

 

1194 – Milagres

 

Os homens entrega o artista

Aos milagres da ilusão,

Porém, o que tem em vista

É o mundo lhes pôr na mão.

 

 

1195 – Fruto

 

Não te ponhas tão de luto

Ante a injustiça assanhada:

Árvore que dá mais fruto

É que leva mais pedrada.

 

 

1196 – Seguinte

 

Ao fim do dia, quem amo,

Luz que aquece com requinte,

Faz que valha, quando o chamo,

O claro dia seguinte.

 

 

1197 – Sementes

 

Aos velhos que não aprovas

Não faças apenas guerras,

Que fruto as sementes novas

Também dão nas velhas terras.

 

 

1198 – Aceitarem

 

Não entendes as pessoas?

Não é de se decifrarem,

De vê-las por más ou boas:

- É apenas de se aceitarem!

 

 

1199 – Cala

 

Quem cala mais que consente,

Pois consente de hora a hora

Que bem e mal vão em frente:

Quem cala, pois, colabora.

 

 

1200 – Baixa

 

Canta, enaltece o teu dia

Com quanta luz nele encaixa,

Menos alegre é a alegria

Se transmitida em voz baixa.

 

 

 

 

 

 

1201 – Satisfeito

 

Um amor bem satisfeito

Se esconde na intimidade.

Contrariado, é atreito

A gritar pela cidade.

 

 

1202 – Desamor

 

Um amor que é desamor,

Sem conserto, sem emenda,

Fato rasgado, é o terror:

Tais rasgões ninguém remenda.

 

 

1203 – Aletas

 

Em políticos, profetas

Nem um momento acredites.

Solta em teu imo as aletas,

Voa por ti, não hesites!

 

 

1204 – Egoísmo

 

Poderá ser um caminho

A perfeição que é só tua,

Mas o que nela adivinho

É que egoísmo em ti actua.

 

 

1205 – Maldade

 

A maldade que eu detesto

Deveras, profundamente,

É a pensada: já não presto

Se ao coração rói a mente.

 

 

1206 – Centro

 

Só vivemos uma vez

E cada qual, bem no centro,

O mundo inteiro através

De si vive lá por dentro.

 

 

1207 – Sismo

 

Ser apenas o algarismo,

A peça insignificante

Da História no imenso sismo…

- Serei tão irrelevante?

 

 

 

 

 

 

1208 – Raiz

 

A liberdade é a raiz

Que germina os húmus de homem:

É no seu traço de giz

Que as ditaduras se somem.

 

 

1209 – Alheia

 

Se a dor numa fronte alheia

For tão minha como dela

Doutrem ponho a vida cheia,

Rasgo em mim uma janela.

 

 

1210 – Cambiante

 

Tudo ou nada é o que quer quem

Não tem na vida cambiante.

Será mau gostar de alguém

Se não se gosta o bastante?

 

 

1211 – Corporizado

 

Objecto de amor não é

Nem o amante nem o amado:

É dar-se inteiro, de pé,

É dar-se corporizado.

 

 

1212 – Ferido

 

O soldado que é ferido

Crê o combate ver isento

Ao julgá-lo por perdido

E horrendamente sangrento.

 

 

1213 – Amigo

 

Maravilhoso e mui raro

É o momento em que lobrigo

O bem de todos mais caro:

- Que descobri um amigo!

 

 

1214 – Outubro

 

Outubro das noites frias…

À lareira me equilibro,

Serões fora, a sonhar dias

Mergulhado num bom livro.

 

 

 

 

 

 

1215 – Cariz

 

Comunhão buscando o fim

Para além de meu cariz,

Amor é sair de mim

Outrem a tornar feliz.

 

 

1216 – Anjos

 

Crianças que tocam banjos,

Crianças que pedem pão…

São vários os tipos de anjos,

Uns têm asas, outros, não.

 

 

1217 – Par

 

Como se pode esperar

Que quem só calor sentiu

Compreenda e fique a par

De quem só viveu no frio?

 

 

1218 – Chicote

 

Se a vida lhe foi madrasta

Basta apenas que se mostre

Ao cão o chicote e basta

Para que se doa e prostre.

 

 

1219 – Paga

 

Pagas pouco, o que é sinal

De poupar, mas nem sequer:

Quem pouco paga, afinal,

Bem pouco irá receber.

 

 

1220 – Doces

 

Há quem, guloso de doces,

Nem repare na ilusão:

Não é uma questão de posses,

É que os doces não são pão.

 

 

1221 – Auxílio

 

Quando um homem pede auxílio

Por que não ir ajudá-lo?

Todos vivemos no exílio:

Uma ajuda e salto o valo.

 

 

 

 

 

 

1222 – Ganha-pão

 

Quando um carro é ganha-pão

Requer artes de virtude

Que o mantenha sempre são

Tal quem cuida da saúde.

 

 

1223 – Coleira

 

Se nem os cães de estar presos

Gostam, de coleira em volta,

Mais os homens, quando tesos,

Que os homens querem-se à solta!

 

 

1224 – Chuvosos

 

Há pessoas que são dias

Chuvosos e pardacentos

A enervar as fantasias

Com invernos de tormentos.

 

 

1225 – Graça

 

O moço passa e perpassa,

Ora penetra, ora sai:

Será que o lugar tem graça,

Ou quem lá mora o atrai?

 

 

1226 – Completo

 

Quem casa casa completo,

Não com os restos que deixa:

Não é no mais ter um tecto

E ali, só uma vaga reixa.

 

 

1227 – Vazia

 

Do amor a imagem, sem ela

Vive alguém até ao fim

Uma vida sem janela,

Vazia de tudo enfim.

 

 

1228 – Matiz

 

Em amor, o que alguém diz

Importa mais a quem fala:

Outrem não ouve o matiz

Que fundo o deslumbra e cala.

 

 

 

 

 

 

1229 – Preferirás

 

Preferirás quem te ensine

Toda a técnica e ciência

Ou quem justo se define,

De amigo tem paciência?

 

 

1230 – Sozinho

 

Do que as solidões nos tomem

Isto ao menos adivinho:

Menos infeliz é um homem

Se infeliz não é sozinho.

 

 

1231 – Franzinas

 

Duas árvores franzinas

Uma à outra se apoiando,

Das tempestades às sinas

Vergam mas não vão quebrando.

 

 

1232 – Mal

 

Se dos males todo o mal

For mal de necessidade,

Não te queixes tu de tal,

Só o de amor mata em verdade.

 

 

1233 – Momento

 

O encontro a dois é o momento

Mais importante da vida.

Igual, depois, só o tormento

Dos dois quando é a despedida.

 

 

1234 – Apuros

 

Quando um homem for amado

Por uma grande mulher,

Dos apuros foge ao lado

Onde quer que ele estiver.

 

 

1235 – Fogem

 

Quantos no mundo haverá

Que fogem dos mais, padecem,

Só porque, no fundo, já

A si próprios não conhecem!

 

 

 

 

 

 

1236 – Correria

 

Mocidade é correria

De botas rotas atrás

Da ilusão que se inicia

E que à cova ao fim nos traz.

 

 

1237 – Quimera

 

A vida endureceu quem lhe quisera

Contrapor qualquer sonho no cadinho:

Pobre do que teimar numa quimera

Sem ver as duras pedras do caminho!

 

 

1238 – Quinhão

 

Nasci meu quinhão de sonho:

Mesmo tendo-o aniquilado,

Atrás dele ainda me ponho,

Miro o poente doirado.

 

 

1239 – Infrenes

 

Imaginários infrenes

Na história nunca se arquivam,

Por mais que só sonho encenes:

O sonho faz que eles vivam.

 

 

1240 – Ilusões

 

De ilusões entro na vida

Que se perdeu, com pedaços

De alma de morte ferida,

E depois não há mais traços.

 

 

1241 – Trucidado

 

É preciso se afazer,

Controlar mesmo a afeição,

Se trucidado quenquer

Não quer ser pela ambição.

 

 

1242 – Tresvariado

 

Tresvariado por dentro,

Olhar de quem segue um sonho,

Neste mundo já não entro,

Que ao acaso é que me oponho.

 

 

 

 

 

 

1243 – Esfinge

 

A mulher é uma esfinge,

Mas seja esfinge a mulher,

Não é esfinge quando finge

Que finge aquilo que quer.

 

 

1244 – Beco

 

Quando nas noites febris

Pelo beco os olhos ponho,

Bueiro de feridas vis,

Galopo mas tudo é sonho.

 

 

1245 – Ambição

 

Caminha uma ambição rente à parede

Com as unhas cravadas na quimera,

Botas rotas, pés frios e com sede,

Cérebro em chama – e sou eu quem tal era!

 

 

1246 – Cartaz

 

Somos na vida o palhaço

Que sonha mudar a sina

E não é mais do que o traço

Banal dum cartaz de esquina.

 

 

1247 – Ruim

 

Tanto cresce uma ruim planta

Ao lado da que tem graça

Que a desgraça alheia encanta

A nossa própria desgraça.

 

 

1248 – Sapo

 

O que mais valeu a pena

Num mundo que perde a cara:

- Por um sapo a paixão plena

Que lhe tem uma flor rara.

 

 

1249 – Seco

 

Depois de, por amor, ficares seco,

Morrerás, finalmente, com o encanto

De tua alma se cobrir, sendo tu peco,

De árvores mil em flor como teu manto.

 

 

 

 

 

 

1250 – Só

 

Eu nunca ficarei só,

Dado que, quando me isolo,

É que há, no meio do pó,

Mais pegadas em meu solo.

 

 

1251 – Grotesco

 

Bem grotesco não é o choro

Sulcando um fronte bela,

É que sou sapo e namoro

A mais cintilante estrela.

 

 

1252 – Pó

 

O conhecimento só

Do que em nós as coisas são

Apenas retira o pó

Àquilo que em si serão.

 

 

1253 – Tirania

 

A tirania da rima

Obriga o melhor poeta

Ao achado que, por cima,

O liberta da grilheta.

 

 

1254 – Hábito

 

Toma-me o hábito nos braços,

Depõe-me na manta minha,

De vez recolhido aos laços

Onde serei criancinha.

 

 

1255 – Cauda

 

Dá-se o amor todo o vagar

Para colher o que goza

E quando um focinho amar

O que vê nele é uma rosa.

 

 

1256 – Nunca

 

Nunca em nós nós conhecemos

O que noutrem são paixões:

Se as vemos, é que outrem temos

A espelhar-nos os senões.

 

 

 

 

 

 

1257 – Degredo

 

Não faz um inteligente

A um inteligente medo,

Mas o grosso incompetente

Que a luz remete ao degredo.

 

 

1258 – Palavra

 

Desinteresse à mulher

Não mata a ardente paixão

Se a palavra se esquecer

De lho afirmar rente e chão.

 

 

1259 – Amantes

 

Quem ama excessivamente

Entre amantes já dispensa

Quem é amado da sentença

De amar o suficiente.

 

 

1260 – Ensejos

 

Teus sorrisos e teus beijos

Tornam-se tão odiosos

De doces antes ensejos…

- É que a outrem dão tais gozos!

 

 

1261 – Rainha

 

Quando é o coração que tece,

Farás pela caixeirinha

A manta com que te aquece,

Mais que por uma rainha.

 

 

1262 – Lugar

 

As terras que desejamos

Mais lugar em nossa vida

Ocupam do que onde estamos

Nos ocupa nossa lida.

 

 

1263 – Ninguém

 

Num amor, eis a saúde:

Ninguém ama mais ninguém,

Que mais ninguém tem virtude,

Quando passa a amar alguém.

 

 

 

 

 

 

1264 – Urgente

 

Bem urgente é a confissão

De amor reciprocamente:

Um amor até lá não

Sente afinal o que sente.

 

 

1265 – Destino

 

Há quem creia que o amor

É fatal como um destino:

É por tanto isto supor

Que o amor é desatino.

 

 

1266 – Flor

 

Na aridez mais coerciva

Desabrochou à janela,

Morta que retorna viva,

Uma flor: - o riso dela!

 

 

1267 – Sentido

 

Para ver que te rodeia

Um valor desconhecido

Aos outros falta na teia

De meu amor o sentido.

 

 

1268 – Comilão

 

Eu não como, sabes, não,

Mas quero que toda a gente,

Tal se eu fora um comilão,

À minha mesa se sente.

 

 

1269 – Abrigos

 

Ninguém deve discutir

O que dá prazer a amigos,

Antes levá-lo a eclodir:

São da amizade os abrigos.

 

 

1270 – Conto

 

Conto o conto repetido,

Insistes que até ao fim,

Finges nunca o ter ouvido:

Uma amizade é assim.

 

 

 

 

 

 

1271 – Ausência

 

Catorze dias, que enorme,

Para quem ama, esta ausência

Toda aos segundos, conforme

Das saudades a premência!

 

 

1272 – Gata

 

Muitas vezes a mulher

Por que um homem vive e morre,

Em si ou para quenquer,

É gata que a viela corre.

 

 

1273 – Aprendiz

 

Num casamento feliz

O casal terá conflitos,

Mas sempre é um bom aprendiz

De eficaz limar atritos.

 

 

1274 – Progredir

 

A forma de progredir

É ajudar a promover

Meu superior que estiver

A tentar também subir.