DÉCIMO  TERCEIRO  VERSO

 

 

TRANSPOREMOS  SARCASMOS  E  IRONIAS

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1363 e 1456 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1363 – Transporemos sarcasmos e ironias

 

Transporemos sarcasmos e ironias

Com que medimos

Os troços que traímos

De amores escondidos atrás das gelosias.

 

Transporemos pés botos, noites frias,

Quando zurzimos dos cimos

Todo o mal que imos

Cevar, porcos nojentos, pelas pias.

 

Transporemos tempo novo,

Que, quando quero, me inovo

E agarro com alma os remos.

 

Atrás deixo o rasto

Que me foi nefasto

E transpor-nos-emos!

 

 

1364 – Casamento

 

Um casamento é aceitar

Passar o resto da vida

No meu quarto a tiritar

Junto à pessoa querida

Que, de calor, fica a assar!

 

Neste desencontro unidos,

Aqui mantas e cobertas

E acolá delas despidos,

É que então há descobertas.

 

 

1365 – Até

 

O casamento é tal como

Fazer uma pirueta,

Com fachis comer um pomo:

Quando nele repararmos,

Parece fácil receita,

Facílima… Até tentarmos!

 

 

1366 – Controlo

 

- Controlo de nascimentos?!

Os filhos são Deus quem dá!

- Também a chuva e os ventos,

E o guarda-chuva aqui está…

 

 

1367   - Rugas

 

Se rir muito, muito rir,

Quando for velho, decerto,

As rugas que então curtir

Curtirão no lugar certo.

 

1368   – Organizado

 

Aquele que é organizado

É que a preguiça é demais

Para andar por todo o lado

À procura dos dedais.

 

 

1369   – Inteligentes

 

Os que são inteligentes

Por experiência te falam.

Os que o são mais é que sentes

Que, por experiência, calam.

 

 

1370   – Destino

 

O destino é a mais fecunda

Imagem do desatino:

É que há muito quem confunda

Má cabeça com destino.

 

 

1371   – Nostalgia

 

A nostalgia é lembrar

Os preços de ontem, porém,

Esquecendo de hoje, a par,

O salário que se tem.

 

 

1372   – Riso

 

O riso é como a compota

Na torrada que é a vida:

Doutro sabor dá-lhe a nota,

Fica a secura delida

E, a quem enfrenta o porvir,

Mais fácil o é de engolir.

 

 

1373   – Mexer

 

Travando a vida a correr

Quantos asnos há que zurrem?

- Se acaso não se mexer,

Não espere que o empurrem!

 

 

1374   – Vizinhança

 

Toda a vizinhança espera

Ver-me envolvido em sarilhos.

Que prazer que isso lhe dera,

Quantos ditos para os filhos!

 

 

 

 

Um saco de caranguejos,

Todos lá dentro amarrados,

Andando ao acaso, vejo-os

Tolhidos de muitos lados.

 

Decide um tentar a fuga

E então os mais, de repente,

Tal do sono quem madruga,

Correm a fazer-lhe frente.

 

Andavam fazendo nada.

Doravante, porém, acho

Que deram rumo à jornada:

- É puxá-lo para baixo!

 

Toda a vizinhança espera

Ver-me envolvido em sarilhos:

Que labor que tal lhe dera,

Que sentidos para os filhos!

 

 

1375   – Conservar

 

Aos vinte anos temos só

Roupas, orgulho e apetite.

Dos vinte aos cinquenta o pó

Nem tempo tem que espevite

 

Quanto p’ra casa acarreto.

Aos sessenta delicio-me,

Desde o chão até ao tecto,

Com tanta tralha! Após rio-me

 

E, dos sessenta aos setenta,

O maior prazer é dar.

Depois disto o que alguém tenta

É só os dentes conservar!

 

 

1376   – Além

 

Meça além quanto haverá

Depois do gesto primeiro:

Coce um cão e encontrará

Um trabalho a tempo inteiro!

 

 

1377   – Dinheiro

 

O dinheiro nunca pode

Comprar a felicidade

Mas ajuda, quando acode,

A achar-lhe a localidade.

 

 

 

 

 

 

 

1378   – Xadrez

 

A tua cor favorita,

De tão indeciso que és,

Não fala nem geme ou grita,

A tua cor é o xadrez!

 

 

1379   – Fragrância

 

Económico, concentro

Duma pechincha a fragrância

Pelo menos a um centro

Comercial de distância.

 

 

1380   – Sarno-os

 

Melhor é evitar tormentos

(Muitos, viciosos, eu sarno-os)

E saltar à contramão:

- Pois com certos alimentos,

Nós podemos viciar-nos

Em boa disposição.

 

Alimentar-me equilibrado e bem,

Mais que alimento é festa que tem.

 

 

1381   – Truques

 

Os truques com a ilusão

Do desaparecimento

Mais rápidos jamais são

Que as oito horas que aumento

Às do trabalho outras oito,

Mais as oito em que pernoito:

- Duram, sem truque, um momento!

 

 

1382   – Propósitos

 

Bons propósitos dirão

Que nos servirão de cura…

- Os bons propósitos são

Mais cheques sem cobertura!

 

 

1383   – Organização

 

A organização atinge

O ponto de perfeição

No momento em que não finge,

- Cai em colapso no chão!

 

 

 

 

 

 

1384   – Nariz

 

Se tu tens o teu nariz

Só no trabalho enfiado,

A vida passa-te ao lado,

Do que vês não és feliz.

 

No teu mundo de não-ser

Apenas a ti terás

De teu nariz bem atrás…

E o trabalho por fazer!

 

 

1385   – Diferente

 

Pobre, rico, é diferente

Mais do que a bolsa lhes meça:

O pobre vai para a frente

Só quando mesmo tropeça!

 

 

1386   – Cego

 

Bem gostava de ser velho,

Sendo o novo que aqui vou,

Descansando o perro artelho

Atrás a ler longo o voo.

 

Crendo repentinamente

Que tinha feito e cumprido,

Que importara a muita gente,

Era o velho em novo erguido.

 

Ser, porém, um velho velho,

Deus me livre, te arrenego:

Não é mais que o mau conselho

De quem me quer de vez cego.

 

 

1387   – Festas

 

As festas infantis

São mais que cantos e danças,

Nelas é que descobris

Que mais que as vossas crianças

Outras há bem imbecis:

Como são aborrecidas!

 

- E é por isso que as convidas:

Como então te recompensa

Constatar a diferença!

 

 

1388   – Incenso

 

Nas espirais de incenso escuto os coros,

Reencontro ali dentro a mesma entrega,

O mesmo entressonhar distantes louros,

Fé que não se interroga e a que se apega

 

Um desejo obcecado do seguro,

De o responsável ser fumigação,

Tornado mais suave e talvez puro,

De esquecer a Cruzada, a Inquisição…

 

- Quando deixou de ser a perseguida

A Igreja usou da espada e da foguueira,

Com as torturas fez desde então vida

E é doravante o fruto desta asneira.

 

 

1389   – Lagostim

 

Nós somos o lagostim

Na panela de água fria

P’ra cozer, cozer sem fim,

Até que a morte sorria.

 

Chegam os cinquenta graus,

Gritamos todos em coro:

Como os tempos correm maus,

Quem nos dera o antigo choro!

 

Quando vêm os sessenta:

Ai que bem que nos faria

Retornarmos aos cinquenta

Que ainda há um nada se sofria!

 

E sempre assim por diante

O que nos marca a saudade

É que é o passado o garante

Da mais ínvia eternidade.

 

 

1390   – Sacrifício

 

Afinal a que conduz

O sacrifício de Cristo?

Sangrentas mortes na cruz,

Fanatismo jamais visto,

Às câmaras de tortura

E morte da Inquisição,

Ao suplício da fartura

De bruxas que inventarão,

Dos heréticos à morte…

- E tudo em nome do amor

Do próximo, cuja sorte

Salvou Deus Nosso Senhor!

 

Valha-nos Deus, Deus nos valha

Mais a sorte que nos calha!

 

 

1391   – Ocioso

 

Liberdade de ocioso:

Não tem qualquer profissão,

É um homem desocupado.

Todo inteiro entregue ao gozo,

Dia e noite na função…

…É como a pega do lado!

 

 

1392   – Esterco

 

Como é rude

Chamar de esterco a um filho!

E como o amor ilude!

Por mais que ofusque o brilho,

Que mais é que um poio de imundície

Que apenas tem dele em abono

Os brocados da superfície?

 

Somos um monte de esterco

Arreado de oiro e prata.

Se pelas sedas me perco,

Este é o erro que me mata.

 

 

1393   – Fogo

 

Dia de fogo na aldeia

É um palco de actuação:

À tragédia dar a mão

No prazer da dor alheia…

Depois cada qual é herói

A contar como é que foi.

 

 

1394   – Temas

 

As mulheres nunca tardam

A chegar aos grandes temas:

Vida, morte, liberdade, amor…

 

Os homens, só quando lhes ardam

Nas mãos os problemas.

O resto é política, futebol e a avaria no motor…

 

 

1395   – Poder

 

Quando um homem conquista o poder

A desgraça é que o poder é seu:

Até as galinhas e os cães que tiver

Sobem ao céu,

Como se não bastara a desgraça de a ele

Inchar-lhe de sapo a pele!

 

 

1396   – Civilizado

 

Num país civilizado

Eu caminho protegido,

Mas ai de mim se, de lado,

Rumo a um rumo proibido.

 

 

 

 

Se quero a verdade toda,

Troca o guarda a identidade,

Ata-me os grilhões em roda,

- Carrasco da liberdade!

 

Mas porque é civilizado,

Este discreto tropismo

Nem sequer mesmo é notado:

- De paraíso é que o crismo!

 

 

 

1397   – Político

 

Um político, em mercado,

Deteriora-se e se iguala

Ao que, podre, no passado,

Rejeitado fez a mala.

 

 

1398   – Prisão

 

Tem o mérito a prisão

De tornar deliciosos

Os dias que aí virão

Da vida livre e de gozos.

 

 

1399   – Desejo

 

O desejo carnal, mesmo escasso,

É um inimigo secreto, avassalador:

Quando não fora devasso,

É mesmo devassador.

 

Quer saltar da cerimónia

Ao rito da intimidade,

Da casca ao cerne sem acrimónia,

Da sala à alcova com alacridade.

 

Enquanto vai da rua ao quarto,

A deliciosa fatia inicial

Que me reparto,

Assim tão empenhado,

É um mero naco de animal

Sublimado.

 

 

1400   – Greve

 

A greve uma grande arma tem de ser

Para ter a fabricação

Por conta dela do pão

Que o grevista, afinal, deixa de comer.

 

 

 

 

 

 

1401   – Peles

 

Polícia, guarda, um soldado qualquer

Alugam peles vivas, as suas peles.

Depois outros convencem-nos a morrer

Por uma causa que não é a deles.

 

E, ao fim de tantos anos,

Nunca os convenceram de que são humanos.

 

 

1402   – Fome

 

A beleza como o mais

Que mundo além me retome

Só existe quando o anotais

Com a barriga sem fome.

 

 

1403   – Desculpa

 

Aos cacos da loiça partida

Com supercola os grudo.

Assim opera a desculpa na vida:

- Repara quase tudo.

 

 

1404   – Televisão

 

A televisão

Muito pode dar,

Porém tempo, não

Para alguém pensar.

 

 

1405   – Celebridade

 

Os heróis revelarão

A humana potencialidade:

A celebridade

Apenas é dos meios de comunicação.

 

 

1406   – Difícil

 

É fácil no lugar

Ficar sentado a observar.

Difícil, a seguir,

É levantar-se e agir.

 

 

1407   – Mapa

 

O mapa da estrada indica

Os caminhos do regalo,

Mas não te dá qualquer dica

De como deves dobrá-lo.

 

 

 

1408   – Saber

 

Devias casar com ele,

Que sabe bem o que quer.

O outro prefiro: aquele

Que o que eu quero quer saber.

 

 

1409   – Adolescente

 

Instruir o adolescente

Sobre os eventos da vida

É dar ao peixe, demente,

O banho com que ele lida.

 

 

1410   – Jornalistas

 

Outrora, os jornalistas

Falavam de acontecimentos,

Hoje correm noutras pistas:

De Deus são novéis portentos.

 

As novas que irão ser nosso amanhã

Clamam agora, omniscientes.

Mas, se a pretensão resultar vã,

Do nada criam tais entes,

E assim, sendo omnipotentes,

O acontecimento inventado

Comentam por todo o lado.

 

Fazem mal e caramunha,

Ninguém contratestemunha.

 

São deus:

Quem pode tocar nos céus?

 

 

1411   – Obelisco

 

Um obelisco,

Imponente falo artificial

De pedra, em que risco

Um complexo de castração:

Sinal

Em alta

Duma potência de erecção

Que à civilização falta.

 

 

1412   – Latinos

 

Latinos, a maioria

Como gosta de falar!

Que bom convívio seria

Se escutaram tanto a par!

 

 

 

 

1413   – Fuzilaria

 

A eterna posição do democrata:

Dos extremistas a fuzilaria

Se conjuga, baleia e o maltrata

Apenas porque traz a luz do dia

E só de escuridão vive a barata.

 

 

1414   – Porcelana

 

Pensamentos eróticos nutrir

Por uma donzela tão frágil e tão lhana

É querer dormir

Com uma boneca de porcelana.

 

Embora haja a considerar

Que um minúsculo transístor oriental

É tanto ou mais operacional

Que um rádio vulgar…

 

Tudo vem do que o pretendente

Quiser,

Jamais de ser

Oriente ou ocidente.

 

Quem disseca

O erotismo que emana

Duma boneca

De porcelana?

 

 

1415   – Demais

 

Quem não teve pai nenhum

Buscará segundos pais.

Contudo, pai há só um

E, às vezes, um é demais!

 

 

1416   – Patife

 

Na vida nunca encontrei

Um patife

Com a cara que é de lei

E corpo mesmo de esquife.

 

Isto é que jamais é prático,

Torna a imagem perigosa:

- Todo o patife é simpático,

Pessoa mesmo amorosa!

 

Caso o não fora,

Bem fácil era a justiça

Que nele se enguiça

A toda a hora.

 

 

 

 

1417   – Semi

 

Em tudo serei semi:

Semi-poeta, semi-artista,

Semi-gente, semi-cientista…

Semi-satisfeito aqui

Porque além me semi-falta.

E o pior de tudo

É que assim também sou semi-sortudo.

Depois cá vou, semi-ave pernalta,

Ambulando em todo o lado

Só semi-envergonhado!

 

 

1418   – Fêmeas

 

Duas fêmeas em disputa

Pelo mesmo homem

Apontam os seios em luta,

Canhões armados,

Para que de assalto o tomem,

Finalmente, os couraçados.

 

Uma da outra diante,

Aprestando-se à batalha,

Ora é a cena canalha,

Ora, a cena galante.

 

Silentes embora, clamam,

São um grito,

Em ambos os casos pelos homens chamam:

Este é o derradeiro fito.

 

A diferença de cariz

É mero verniz:

Cairá logo se, na estrada,

Tiverem de disputar à bofetada.

 

 

1419   – Preto

 

- Apresentou-me, indiscreto,

A um preto! Deu-me uma gana!

- Não será que, antes de preto,

Ele é criatura humana?

 

 

1420   – Nostalgia

 

O mundo ainda haveria

De sentir a nostalgia

De quando o Sol se não punha

Do colono onde ia a unha.

 

Os culpados indirectos

Dos políticos fantoches

Intelectuais são selectos,

Imperitos em deboches.

 

 

Defendem, mui liberais,

A autodeterminação

Sem que prevejam jamais

O que requer tal função.

 

Sem responsabilidade,

Que liberdade haveria?

Senso comum persuade

A não ter fé na magia.

 

Que nações deformações

São viáveis onde as tribos

Se comem às refeições,

Umas doutras feitos cibos?

 

O pior é que, com isto,

Eternos se comerão

Sem jamais terem o visto

De que devirão nação.

 

Que chatice! Que chatice!

Se não fora coisa séria,

Não passara de sandice,

Tudo ria da pilhéria!

 

 

1421   – Três

 

Cada qual são três pessoas:

O que insulta com a raiva,

O insultado, sempre às boas,

E o que nunca entre ambos caiba.

 

 

1422   – Imprensa

 

Onde é livre a livre imprensa?

No Estado totalitário

O poder nela condensa

O poder discricionário.

 

Porém, na democracia,

O económico poder

Nos controla a fantasia,

Conta o facto e o dever-ser.

 

Quando não mexe no ter

Aqui resta a liberdade

De dizer quanto quiser,

Seja mentira ou verdade.

 

Acolá, nem esta faixa:

Tudo na monotonia

Do idêntico acorde encaixa.

A mentira? É todo o dia.

 

 

 

 

 

1423   – Pouco

 

A gente pode inventar

O que o Senhor esqueceu.

Seis dias para aprontar

Um mundo, como é que deu?

 

Seis dias é muito pouco,

Por isso de tempo a falta

Deu com este mundo em louco.

- De nós pende dar-lhe a alta.

 

 

 

1424   – Estábulo

 

No estábulo nasceu Cristo.

Por no estábulo nascer

Não quero dizer com isto

Que alguém Cristo venha a ser.

 

Esse é o erro permanente

Que perde a revolução:

Crer que alguém fecunde a gente

Só porque é estrume do chão.

 

Quando na terra enterrado,

O estrume então fertiliza

E jamais quando é jogado

Nas ventas de quem se visa.

 

 

1425   – Vergonha

 

Vergonhoso é descrever

As vergonhas da Nação

Ou é uma vergonha haver

Vergonhas dela em função?

 

 

1426   – Patas

 

Com a cabeça e as mãos

O que ergues, o que desatas,

Se não medes os teus chãos

Desfarás com tuas patas.

 

 

1427   – Bem-aventurados

 

Bem-aventurados os mansos

Porque possuirão a terra?

- Coitados dos tansos!

Pelos rebentamentos cavos

Da guerra,

A terra é dos bravos.

Os mansos terão de seu,

Quando muito, o céu.

E, mesmo assim, mesmo assim,

É o que se há-de ver no fim:

- Ou então as igrejas,

Sempre aliadas e donas do poder,

Que rumo nisto dão ao que almejas

Vir a ser?

 

 

1428   – Assim

 

O nacionalismo é assim:

Pela pátria, honra e tradições,

Vai pôr fim

À pátria, honra e tradições

Duma nação afim.

 

E nisto não verá quaisquer senões.

 

O partidarismo é assim:

Ao vencer, ajeita o ninho

Cortando as cabeças que, enfim,

Pertencerão ao partido vizinho

E reina solitário no confim.

 

E o crime chama augúrio de adivinho.

 

O clubismo é assim:

Em lugar do desporto,

O adversário é, para mim,

Um homem morto,

Morto, sim!

 

Nenhum vê qualquer senão

No que atropele.

E tem razão:

- O senão

É ele!

 

 

1429   – Cretino

 

Bem conhece as mulheres, diz o cretino,

Realista indivíduo terra a terra:

Dormir com a mulher é o mais divino

Saber de quem viveu a pior guerra.

 

Contudo, só colisões

Teve com o outro sexo.

Da maquilhagem as sobreposições

É que dum saber passam por nexo.

 

Careca de ideias até à nuca,

Confrontado com uma mulher,

Enfia a psicológica peruca:

É tão ridículo como qualquer

Velho a tentar parecer jovem.

 

E tais trejeitos nem sequer

Já nos comovem.

 

 

 

1430   – Pensar

 

Pensar é aquilo que dá mais trabalho.

Talvez seja por isso que tão poucos

Se meterão a tal. O valor dá-lho

Isto de sermos, afinal, bem loucos!

 

 

1431   – Preocupação

 

A preocupação

Custa menos do que quanto

Vier resolver a situação.

E tanto

Que escolhemos o problema que mais aterra

Para que nossa preocupação o mundo oiça:

Todos queremos salvar a Terra;

Ninguém ajuda a mãe a lavar a loiça!

 

 

1432   – Cortesão

 

A primeira qualidade

De quem quer ser cortesão

Sempre é que a memória lhe há-de

Falhar em cada questão.

 

Cortesão quer um saber

Que é o de saber esquecer.

 

 

1433   – Fome

 

Quem come

Não tem fome.

A quem não come

O come a fome.

 

Da fome em redor

Se tece das vidas o teor.

 

Afinal,

Esquecemos depressa

Que tudo começa

Por que o homem é mesmo um animal!

 

 

1434   – Jumento

 

O sacerdote é tal qual seu paramento

Que o tempo não perturba.

Diante da turba

Ventrudo jumento,

Caminha à frente da manada

De camelos obedientes.

As seitas desviam grupos da estrada

A incitar estes azelhas

Dementes

A puxarem a corda,

A puxarem ao jumento as orelhas

- A ver se acorda.

 

 

1435   – Loucos

 

Há loucos e loucos.

Se todos o somos,

Há loucos com juízo

E sem juízo loucos.

Daqueles os gomos

Contam-se bem poucos

Na laranja do siso.

 

Quando o louco com juízo

Responde ao louco parvo,

Onde se lhe nota o aviso

Não é no garbo,

É que decora com cuidado

O termo com que lhe moldou o fado.

 

 

1436   – Partido

 

Um partido político

Em toda a parte

É o negócio já paleolítico

De camuflar com arte

Os membros nele envolvidos

Com interesses pessoais

Como sendo os mais destemidos

Cavaleiros das causas nacionais.

 

Queixam-se então,

Quando caem no esgoto

Que são,

Da infidelidade do voto

Que lhes dão.

 

Já têm muita sorte!

Por muito menos

Foram outrora levados à morte

Criminosos bem mais pequenos!

 

Político sem mentira

É tão raro

Que quem o crê é que o faro

Lhe delira.

 

 

1437   – Cruzada

 

A cruzada contra o aborto

Ocupa bem mais lugar

Do que o que mais nos tem morto:

A corrida a nos armar.

 

O objector de consciência

Que se recusa a matar

Não tem nenhuma eminência

A defendê-lo do altar.

O respeito pela vida

É só no estado fetal?

Fica a do adulto esquecida…

…Que é que era fundamental?

 

 

1438   – Excepto

 

As ciências humanas ensinam

Do homem tudo em redor,

Quantos mundos nele se combinam…

- Tudo, excepto o que o homem for!

 

 

1439 – Borra

 

O psicanalista lê

Na borra de café

Do inconsciente

Que a pintura de Picasso é

Uma pulsão erótica.

 

Como se tal pulsão não estivera presente

Em qualquer de nós,

Sem nos obrigar à anedótica

Sorte, de destino deveras escasso,

De cada qual ter de ser um Picasso!

 

 

1440– Cimeiro

 

Aquilo que o mundo mais esquece

E que deveria ocupar em todas as actas

O lugar cimeiro:

- O que conhece

Não é um cérebro montado em duas patas,

É o homem inteiro!

 

 

1441 – Sacrifício

 

Vai pedir-me sacrifício

Um absoluto à medida:

O da Igreja, o Santo Ofício;

O do dinheiro, uma vida.

 

A nação, a classe, a raça,

A seita, seja o que for,

Em mim faz qualquer que nasça

Sempre um grande inquisidor.

 

Se em posse estou da verdade,

Duma verdade acabada,

Quem ma conteste então há-de

 

Ou ser doente, de entrada,

Ou um rebelde que engrade

Nas prisões que ergo na estrada.

 

 

1442 – Perseverar

 

Perseverar é o trabalho

Árduo que é feito em vez

Da canseira do trabalho

Árduo que já se fez.

 

 

1443 – Vingança

 

A vingança tem o efeito

Mitigador de emoções

Que, de água salgada, ao peito,

Se os bebo, fazem galões.

 

 

1444 – Retrato

 

A vida sempre a chamar-nos

E nós a virar-lhe as costas,

Para depois lhe tirarmos,

À vida, o retrato às postas.

 

 

1445 – Está

 

O que está, está bem,

Pelo facto de que está.

Porque ignora e desconhece,

Quem

De tal duvidará?

O dever moral aquece

O que está porque está lá.

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