1ª. Redondilha
Na voz que
este povo tem
Escolha aleatoriamente um número
entre 1 e 117, inclusive.
Descubra o poema correspondente
como mensagem particular para o seu dia de hoje.
Apresentação
1
Humaníadas
As Humaníadas
são,
Não a história
universal,
Mas os feitos da
razão
Sondando o saber
total.
Primeiro foi o
animal,
Mas os passos
dados vão
Atingir em cada
qual
O fulgor da
reflexão.
Meu canto não
canta tanto
Recantos p’lo
tempo além
Mas este tempo
de encanto
Que nos encanta
também
E o saber, neste
entretanto,
Do sabor que
tudo tem.
Sumário
2
A Voz
Na voz que este
povo tem,
Deste povo que
tem voz
Recolho o que
todos nós
Fizemos mais
para além.
Que na terra de
ninguém
Frágeis ataram
os nós
As pegadas dos
avós
Que pelos netos
devêm.
Agora de cá do
cimo
Das serranias da
história
Miro o longe até
ao imo
Onde me alcança
a memória.
É do saber neste
arrimo
Que o Homem
retira a glória.
3
1ª. Redondilha
Na voz que este
povo tem
Canto o que o
canto me diz
Do que a nós nos
dá a matriz
Que do nada cria
alguém.
Primeiro quanto
nos vem
Da infância com
o matiz
Mais da fala
esta raiz
Que o mundo em
poema retém.
Daqui nos
arranca o sonho
Que nos rasga
céu na terra,
Dentre nós nos
dividindo,
E o que,
infindo, em mim deponho
E a que o
coração se aferra:
- Por ti além
meu ir indo.
4
5
Povo Aleixo
Maravilhas
P'ra que a leves a
sonhar,
No país das maravalhas
Este livro que te
deixo
Eu procuro maravilhas
Sonha a vida por
levar,
Mas o que encontro são ilhas
Meu povo poeta
Aleixo.
De sonho por entre as falhas.
E, porque assentas neste
eixo,
Todas as ilhas são
filhas,
Prendes nos olhos o
mar
Nas aventuras, de gralhas.
Quando só tens dele o
seixo
Golfo a golfo teço as malhas
Em que te vens
assentar.
Assim deste mar de Antilhas.
De quem amas as
madeixas
Sou Alice dum país
Cortas p'ra
recordação.
Em busca de independência
Tuas mãos são as
fateixas Mas ninguém fala nem
diz
Desta morte aos que te
são.
Que este é meu país de ausência:
Pára, povo, a tua
mão,
E a maravilha que quis
- Que eterno é aquilo que
deixas! Da maravalha é a falência.
6
7
Miniatura
Lembro
Portugal dos
pequeninos,
Eles não têm memória;
É tudo em
miniatura
Eu lembro as fomes e o frio.
E só nele
descobri-nos
Gozam a fútil vitória;
Em nossa vera
estatura:
Ao vivê-la eu me
arrepio.
Temos obra que
perdura,
Moram contentes na glória;
Génios por quem cantar
hinos.
Se de glória me glorio
Mas é sempre a escória
impura
É da que ri da vanglória,
Que tem feitos mais
ladinos
Corre de fio a pavio
E vivemos
acossados
Este meu corpo humilhado,
No país das
escondidas
Fruto de todos os pobres
Espreitando-nos à
esquina.
Que um dia saltaram lestos
Morrem assim
vitimados
Para o meio do tablado:
Quantos trazem novas
vidas
- Eu grito quanto são nobres
Que nos dão traça
divina.
Dos desprezados os gestos!
8
9
Testemunho
Pequenos
Ser homem é
testemunho,
Por mais que andes ou que mandes,
Manifesto aquilo que
é,
Prà sangria não há drenos:
Crispo bem alto meu
punho
Sofremos problemas grandes
Para assumir-me de
pé.
Homens sendo tão pequenos!
Sou quanto de que der
fé,
Problemas e desafios
Já que sou quanto
esgardunho
Aumentam de ganho em ganho
E assumir-me é ir-me
até
E nós, tolhidos dos frios,
Ao ponto em que me
desunho.
Sempre do mesmo tamanho.
Dizer-me não é o
efeito
Quando os riscos ameaçam
Ocasional de ser
homem
E os abismos são gritantes,
Nem de a mim me prestar
preito.
Sempre os desesperos grassam
É dispor-me tão
afeito
Se as forças não são bastantes.
Aos raios que me
consomem
E hoje os grandes homens passam,
Que amor e razão me
tomem.
Só os problemas são gigantes.
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11
Valer
Idiota
O mundo é cheio de
gente
Este mundo é governado
Que diz valer um
império
Por quem é mais idiota,
E o que tenta é
impunemente
Embora de peito alçado
Rebaixar quem vale a
sério.
A crer que é gente de nota.
Que quem vale a sério
viva
Porém, se alguém se conota
Na mais remota
ignorância
Com o génio, é eliminado,
É a liberdade
cativa
Prisioneiro da derrota:
Nos silêncios da
distância.
Que ele ofusca o iluminado!
Apenas o tempo
cria
A mediocridade impera,
O crivo da
qualidade
Desta vacuidade inchada,
E a justiça principia.
Mortas todas as cabeças.
Mas é sempre uma
ironia
E avançamos de era em era
Que só na tumba a
verdade
Co'a lixeira entronizada
Faça jus a quem
valia.
Em vez de lhe armarmos essas.
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13
Camões
Poeta
Ah! Camões, meu velho
irmão,
Ser poeta é apunhalar-me
Vós sabeis quão somos
parvos!
Com a dor do apartamento
Génio saldam-no a
tostão
Que nos murcha dentro o carme
E, imbecis, tentam comprar-vos!
Das clausuras no tormento.
Como poder
alegrar-vos
Pressinto o impulso a empurrar-me
Após tanta
humilhação?
Para além do ferimento
Como o valor imputar-vos
A exigir que o verbo se arme
Se nem vos chega prò
pão?
Das juntas com o cimento.
Mas o que mais nos
destrói
Todo o ser quer ser mais ser
Não é fome, nem
vergonha,
Mas nos múltiplos de si
Nem a ignorância
viloa.
Se dispersa rumo ao nada.
É que, de sempre, rei
foi
Ser poeta é compreender
Quem nos pisa e rouba e ponha
Que o abismo entre mim e ti
Estes louros na
coroa!
Tem lá sempre uma jangada.
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15
Demais
Piedade
Se de si fala o
poeta Ser
poeta é ter piedade
Ou fala de toda a
gente
Do tempo que por fim somos,
Ou toda a gente discreta
É ler a facticidade
No poeta não é
crente.
Como os domésticos pomos
O poeta se
desmente
Que colhemos nesta herdade,
Se a nossa vida concreta
Feita de dias e tomos,
No poema não
consente,
Onde a rega da verdade
Se de si enche a
paleta.
É o suor de que dispomos.
Se só de mim fala o
verso A
palavra concilia,
Não fala de nós
jamais
Leva à presença comum
Senão se abraça o
Universo,
E assim nos repousa em paz.
Se, nos cômputos
finais,
A discórdia é o fim da via,
O verso com que
converso
Não nos deixa fruto algum,
Me fala, afinal, demais.
Tudo o que faz nos desfaz.
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17
Essência
Pensador
A essência da
poesia
Poeta, chamo o pensador
Dizem que é o que há de
comum
Para em meu socorro vir.
No que veio à luz do
dia
Pensador, eu penso a dor
Em tempo e lugar
algum.
Do poeta a se exaurir.
Mas isto
indiferencia,
De minha fala ao calor
Ao juntarmos tudo
num,
Quando o creio conferir
O que arrouba e o que
agonia,
Arrebata-me o estupor
Não há critério
nenhum.
Deste vulcão a explodir.
Indiferenciadamente
A eclosão original
Válido é o
indiferente,
Da verdade fulgurante
Jamais é o
fundamental.
Deflagra no encantamento.
Onde tudo
principia
E já de nada me vale
É na essência da
poesia:
Salvar quem me vai adiante,
- É de nós no
essencial.
Que me perco em seu tormento.
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19
Sinais
Habitar
A vida escreve no
muro
Habitar poeticamente
Uma rede de
sinais.
Um mundo cheio de deuses
No poema eu só murmuro
É ser tocado na mente
Com que os
descodificais. Pelas sortes e reveses
E do palácio ao
monturo Da intimidade das coisas,
Soam os cantos
vitais
É acreditar que, por vezes,
Que inauguram
além-'scuro No coração delas poisas,
As auroras
boreais.
Vos cumprimentais, corteses.
Mas como é que tais cantares
É neste lar que me fundo,
Podem ser
contraditórios?
Quando o acolho e lhe dou voz
Os sonhos com que
sonhares De sangue fresco me inundo.
Serão todos
ilusórios?
Só então começo a ser nós,
- Ou vislumbro a estrela
Antares
Eu e tu a meio do mundo,
De todos os
promontórios? - E jamais ficamos sós.
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21
Arquipélago
Cada Qual
Nenhum homem é uma
ilha
É cada qual com seu sonho,
Perdida na solidão,
Cada qual com sua vida
Continente também
não
Quando minha orelha aponho
Onde só o ditador
brilha.
Pelas vidas repartida.
Em arquipélago
são
O outro é um longo deserto.
As ilhas que se
palmilha,
Cada qual ergue o seu fumo:
Separadas em
união
Quer ouvintes, mas decerto
Junto à distância da milha.
Nem vê noutrem igual rumo.
Ao homem não convém,
não,
E a história do viajante
Que sua voz seja
filha
Morre no silêncio eterno
De alguém de cuja audição
De quem cala sem ouvintes.
O coração não
partilha,
Somos o traído amante
Mas que alçada atinja um
som
Que sonha um lume de inverno
Que nos chame à comum trilha.
Mas que acorda entre pedintes.
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23
União
Olhar
Os outros são impermeáveis,
Quando olho para mim mesmo
Desconfiados,
subentendem,
Ou suporto o olhar de alguém,
Os dias são
intragáveis
A espontaneidade lesmo,
E os encontros nos
ofendem.
Vida, alegria também.
Com os nervos nos
contendem
À defesa me ensimesmo,
As raivas
irrefragáveis
Que nada passa ou ninguém
E os ares do campo
tendem
Ao tiroteio que a esmo
A tornar-se
irrespiráveis.
O olhar-polícia mantém.
E odiamos a
cidade
Táctica de morto-vivo,
Que nos impede a
expansão,
Eu então me petrifico
Sonhamos outro
horizonte.
P'ra ficar fora de alcance.
Mas não temos
liberdade
Mas como ficar passivo
De atingirmos a
união
Se por dentro de mim fico
A partir duma tal
fonte.
À espera que a mim me lance?
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25
Experiência
Viva
Quando é nossa a
experiência,
Toda a experiência que é viva,
Reveste p'ra cada
um
Tanto interna como externa,
Os sinais duma
evidência
Activa como passiva,
E a doutrem não tem
nenhum.
Ora exalta, ora consterna,
Mas também minha
vivência Vive
na mente e no corpo,
Não deixa sinal
algum A
história marca de eterna.
Quando noutrem a
aparência
Quanto mais com ela encorpo
Se lhe transmuda em
fartum.
Mais luz me entra na caverna.
Contudo, sempre
constato
É nela que me unifico
Quanto de mim nele
mora,
E todas as divisões
O que de mim entra em
acto,
Ali perdem o sentido.
Como ele em mim
comemora
É na experiência que fico
Quanto dele ato e
desato...
Unido a mim e aos milhões
- Sermos nós, quanto
demora!
Com que nem sei como lido.
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27
Linguagem
Pena
Prò poeta a
linguagem
Quando seguro na pena
Não é uma
matéria-prima,
Entra-me a pena na vida,
Já que é dele na mensagem
Que as letras que ela me ordena
Que a linguagem se
arrima.
São a minha dor ferida.
Há sempre uma
desfasagem
Mas quão mais nas folhas pena
Em quanto a palavra
oprima,
Mais a dor fica delida
Quem cria a livre
paisagem
Nas ondas desta melena
É do poeta uma
rima.
Das palavras em corrida.
Para o verbo
acontecer
Não sei se é da confidência
Teve o poeta de
nascer
Ou do mero desabafo,
Com a fala
original.
Que o papel não tem ciência
Matriz do bem e do
mal,
Nem me reanima o seu bafo.
O povo a colheu
aí
- Sei que é um pouco de paciência
E nela se encontra a si.
E já de dor não abafo!
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29
Ambiguidade
Arte
Palavra enquanto
palavra
Arte é ser-me o mais humano,
Não dá qualquer
garantia
Ser dum génio singular,
De ser um fogo que
lavra
Afinal tão desumano