2ª. Redondilha
Deste Povo
Que Tem Voz
Escolha aleatoriamente um número
entre 118 e 238 inclusive.
Descubra o poema correspondente como
mensagem particular para o seu dia de hoje.
118
2ª Redondilha
Deste povo que
tem voz
Tenho a voz que
a mim me canta
E de mim me
desencanta
Quanto encanta
todos nós.
Voz que ata e
desata os nós
Que nos desatam
de quanta
Ilusão nos ata a
tanta
Mentira que
canta a sós.
Que a sós não há
canto algum,
Que, enquanto
sou, sou perfis
Que subtis se
juntam num,
Das mesquinhezes
mais vis
Ao crime mais
incomum:
- De vós é que a
mim me fiz.
119
120
Povo
Temporal
Morreram os
poetas,
Eis-me aqui ao temporal
Já ninguém os
lê,
Das horas que relampejam
Os versos são
tretas:
Inundando o pantanal
-Vive a sério,
sê!
Enquanto as vidas arquejam.
Larga essas
muletas
É uma explosão sem igual,
Em que ninguém
crê!
Sejam os factos que sejam,
São vidas
concretas
Seja o passado que fale
- Dizem - que se
vê.
Ou hoje e amanhã que beijam.
Quando nenhum
ovo
Na terra finquei meu pé,
-Ponho-me a
gritar-
Sem apoio ou garantia,
Restar prò
renovo,
Acolhedor ao que vem.
Quem canta a
pensar
E o maior fascínio é,
Sou eu, voz do
povo
Fustigado à ventania,
Que pensa a
cantar!
Mais me atrair quanto advém.
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Indefeso
Pecado
Às intempéries me
exponho,
A poesia é o pecado,
Indefeso e
desarmado,
O pecado original
E só então começa o
sonho
Que à luz nos traz o recado
De talhar o comum
fado
Do valor que tudo vale.
Em que a humanidade
ponho
Assim tudo iluminado,
No lar cósmico, a meu
lado.
Tem consistência o real,
Alicerço-o no
medonho
Vem o sentido criado
Terramoto que me é
dado,
História além, vale a vale.
Em cada dia que
passa,
Expulsos do paraíso
Pelo turbilhão dos
factos
Do caos mais primitivo,
Que nos agride
impiedoso.
Atingimos o juízo.
Arroubado em plena
praça,
Base do existir humano,
Se há maravilha em meus
actos
Matando-me é que me vivo,
É a casa comum que
gozo.
Viver-me é ser inumano.
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Silêncio
Baloiçar
A voz do
silêncio
Ser poeta é baloiçar
Por trás da
palavra...
Instável entre dois mundos:
Acolha-o ou
pense-o,
Um deus ao alto a reinar,
Por mim fora
lavra.
Em baixo, os homens imundos.
A mim me
apalavra,
Incapaz de libertar
Fuja-lhe ou
incense-o.
Seu ser em haustos mais fundos,
E a vida
escalavra
É de banido o lugar
A voz do
silêncio.
Dos tentames infecundos
Silêncio que
fala
Que faça para fugir.
Rasgando-me a
pele
Ficar entre é seu destino,
Com mago
sentido.
Nem num nem noutro descansa.
E o sentido
cala
Poeta é não ter onde ir,
A voz que me
impele
Por isso um toque divino,
Do fundo do
olvido.
Sendo ele homem, sempre o alcança.
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Inofensivo
Exprimir
Ser poeta é
inofensivo,
Posso exprimir em palavras
Palavras voam no
vento,
O mais recôndito e puro
É ineficaz e
passivo,
Como adubar minhas lavras
Um mero
divertimento.
Do estrume que ao vulgo apuro.
Nunca toma um jeito activo,
O mais grave é que escalavras
No real que em sons
invento
O sublime que depuro
Jamais fora
interventivo,
Quando co'as massas te travas
Nunca lhe muda um
segmento.
Servindo-lho em vaso impuro.
Ser poeta é apenas
sonho
Nisto a mensagem se esbate,
Em que sonho a
realidade,
Cai da essência ao ordinário,
É só um jogo em que me
ponho
Devém vulgata comum.
Em palavras de
verdade.
Quando sem mais tal se acate
- Mas da acção a
seriedade
Em vão foi nosso fadário:
É o selo que aqui lhe
aponho.
Não resta sentido algum.
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128
Plataforma
Momento
A palavra é a
plataforma
Se o momento é do poder,
Em que estável ponho o
pé,
Convulsionado e bem tenso,
Tudo aqui se me
transforma
Ciência não é saber,
Naquilo que já não
é.
Publicita e já não penso.
A fala o presente
informa
Investigar é querer
E nele me finca
até
Fugir além do consenso,
Que eu não tema qualquer
forma
Determinar o meu ser
Que, fugaz, me abale a
fé.
Fatalmente e sem bom senso.
Inaugurado o
presente,
Busco em arte então remanso
Abro o passado e o
futuro
Que abrigue a verdade inteira,
Num irisado de
cores.
Prévia e mais originária,
E a palavra é que me
sente
Fiel ao ser quieto e manso,
Firmado em cima do
muro
Sem nome e que se me abeira
No arraial lançando as
flores.
P'ra ser minha luminária.
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Verdade
Técnica
Diz a escola que a
verdade
A técnica foi outrora
Adequa o
pensamento
Descobrir o resplendor
A qualquer
realidade
Do que aparece, da aurora
E acaba aí o tormento.
Que se esquivou do negror.
Mas verdade é que a
verdade
O que é verdadeiro apor
Jamais verga a nosso
intento,
Ao belo que nos namora
Negaceia a
claridade
Era a técnica maior,
E só num fugaz
momento.
Não um domínio de fora.
Rompe as trevas num
lampejo
Técnica era tão poesia
E logo se encobre
delas,
Que nos deixou o perfume
Parto nunca
consumado.
Duma eterna maresia.
E o que vejo é que não
vejo
Hoje eis no que se resume
Em tão furtivas
estrelas
A morte que se anuncia:
Que o sol enfim seja nado.
Morre à técnica este lume.
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Sítio
Dinheiro
Sítio é tornar-me
espaço,
Preço do dinheiro
É limpar a minha
eira
É o preço que meço
Para um deus que, passo a
passo,
Por vir ser inteiro,
Vem plantar-se à minha
beira.
Ser sem nenhum preço.
Espacializar é um
laço
Do preço que peço
Que por fora me
joeira
Por quanto requeiro
Tudo aquilo a que me
abraço
De parco me esqueço:
E aqui planta a vida
inteira.
O preço é leveiro.
Os deuses
abandonaram
O preço que custa
As ruínas dos
lugares
Aquilo que sou
Despidos de
coração
Jamais se me ajusta,
E as crenças que hoje nos
aram
Que quanto mais vou
Os vergéis de nossos
lares
Na via mais justa
É que nos trarão
perdão.
Mais mísero estou.
133
134
Eu sou um
desconhecido
Tenho o meu corpo marcado,
Que um dia serei um
génio
Pelo tempo envelhecido.
Quando já tiver
morrido.
Vem à voz de meu recado,
Instaurarei o
milénio
Calo-me e presto-lhe ouvido:
Dum homem novo
assumido
Será que ele está fadado
Que cumprirá o
convénio
A me falar do sentido
De o porvir já ter vivido
Que faz eu estar calado
Desde o nosso
miocénio.
A ver de quem é o gemido?
Inauguro o
cidadão
Nunca fui tão fraco assim.
Que aniquilou, pela
escola,
É que eu me esqueci de mim
Subserviências de
antanho.
Ou então não sou quem era.
Perdido na
confusão,
Espremi a primavera,
Toda a gente me viola
Bebi-a com frenesim.
E a morte em vida é meu
ganho.
- Que é que me espremeu de mim?
135
136
Professor
Ladrões
O professor, turma a
turma,
Isto é um país de ladrões
Ensina quanto
subsiste,
Que são quantos eu conheço
Tudo explica, tudo
esvurma,
Que me roubam aos milhões
P'ra, no fim, 'squecer que
existe!
As vitórias que mereço.
Nomeia o Universo
inteiro,
Roubaram-me as ilusões,
Do saber sabe ele a
fome!
Mesmo o tamanho que meço:
Depois, vário e sem
dinheiro,
De minhas inovações,
Perde até seu próprio
nome!
Mal as colho, me despeço.
Tanto se esvai no que
dita,
Carnaval de foliões,
Carne, voz e
coração,
Corso em que, forçado, ingresso
Relíquia afinal
maldita
Ao chicote de mandões,
Perdida no
corropio
Sempre que licença peço,
Da vida, infrene
cachão,
Curvam, em 'scárnio, os bordões
- Que nem sequer
existiu!
- E eu logo neles tropeço!
137
138
Ulcerado
Alteza
Para além da
polidez,
Ela era uma alteza!
Só questão de
cerimónia,
Para nos mostrar
O que nos fica é
acidez,
Que a ninguém despreza
Uma escondida
acrimónia
Vem a esmola dar.
Por quanto o mundo nos
fez,
Igual singeleza,
A nossa pátria
demónia
Encantador ar,
Que nos rasga de
través
Na banana à mesa
Co'a maior
sem-cerimónia.
Ou no lupanar.
Torno-me hostil aos
demais,
É a prenda ao macaco
Por dentro todo
ulcerado
Como ao pobretana,
Com a degradante
imagem
De sorriso crente.
Que de mim vejo nos
mais.
- Não valho um pataco
Sem apelo
condenado,
(Ou muito me engana)
Morre ali minha
viagem.
Por mim pessoalmente!
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140
Sedução
Loucos
É um jeito
particular
"O nosso é um mundo de loucos"
De aos outros dar a
impressão
Não é nunca um bom encómio.
De que o mundo vai
parar
Todos, aos poucos e poucos,
Quando vão em
procissão.
Caímos no manicómio.
A importância que lhes
dão
E mais por dentro ficamos
Vai de tal modo aumentar
Quanto mais de fora somos,
Que é o mundo inteiro em
roldão
Quando mal nos precatamos
Só para os
cumprimentar.
Somos da lista os mordomos.
E depois viram as
costas,
Podíamos esforçar-nos
Jamais alguém
reconhecem,
Por tentar nosso melhor
Aliás, nem
conheceram!
E lutar até ao fim,
Vê lá bem de quem tu
gostas:
Mas como capacitar-nos
Se aquecem e
arrefecem,
De seja lá quanto for
Já nem são,
aconteceram...
Se louco é quanto há em mim?
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Criança
Comunhão
Ser criança é ter os
deuses
A primeira comunhão:
Todos em redor de
nós.
A vida vai começar!
Eles talham os
adeuses,
Vou ser grande e ter na mão
Atam e desatam
nós.
Todos os reinos do mar!
Nesta inteira
dependência,
Vou ser luz em profusão,
Eles têm a
autoridade,
Ter o direito de amar,
Nem se discurte a
premência,
Germinar meu próprio pão
Cremos que ela é
liberdade.
Até no mundo reinar!
Mas nossa preguiça
infame
Mas depois nunca me dão
É o que escapa a nosso
exame.
Nem um círio dum altar,
E as crianças mais
crescidas
Nem para mim olharão
São nisto as mais
demitidas.
Mesmo sendo um avatar.
Ninguém vê o topar da
pedra:
Como vou manter-me são
- Dentro em nós por isso
medra!
Se me falta o próprio ar?
143
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Caixa
Louros
Mesmo se o dinheiro é
lei
Como manter a esperança
Sempre pelo mundo
fora,
Se reina a perversidade?
Jamais me
transformarei
Se o crime é que sempre alcança
Em caixa
registadora.
Os louros em sociedade?
Os valores que
apurei
Se quem floreia é que avança,
Se a chegarem nos
demora
Não quem o porvir invade?
É que o mundo que
instaurei
Como animar esta dança
Não será o fútil de
agora.
Que promete a liberdade?
Não me compram que eu não
vendo
Quando acaba a tirania
Meu coração nem o
sonho
Dos zeros que em tudo mandam
Às trapaças de
ninguém!
À caça de cada ideia?
Mas, já que o mundo, assim
sendo,
E quando é que se esvazia
Me rouba quanto
proponho,
A cartucheira dos que andam
A mim me rouba
também.
Co'a vida de esterco cheia?
145
146
Miniatura
Anões
Miniatura de
País,
Sou maior do que Camões
Portugal dos Pequeninos,
No que sonho em meu tamanho
Mesmo se fala não
diz,
Mas num País que é de anões
Quando age, são
desatinos,
Ninguém nos dá nosso ganho.
Se canta, são crentes
hinos,
Quer me chame de Pessoa
Quando aprende, o pau de
giz
Ou Sérgio, Egas Moniz,
Em pó lhe traça os
destinos,
Tenho alguma coisa boa
Um sopro apaga o que quis.