3ª. Redondilha
Recolho o
que todos nós
Escolha aleatoriamente
um número entre 239 e 357 inclusive.
Descubra o poema
correspondente como mensagem particular para o seu dia de hoje.
239
3ª. Redondilha
Recolho o que todos nós
Somos no fundo
mais fundo,
Aqui donde nasce
o mundo:
O amor que nos
ata os nós,
O amor que nos
deu a voz,
Com que em
vergéis me fecundo
Do vale até o
mais profundo
Dos mais remotos
avós.
Amor de tudo o
que houver:
Que onde lhe
brilham os brilhos
Das pedras lavra
uma leira.
Amor de homem e
mulher,
Amor entre pais
e filhos,
A família é a
terra inteira.
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Gata
Homem
Minha gata
borralheira
Faz hoje anos que nasceste
Que ninguém vê
Cinderela,
Fadado ao sol e à lua.
Sou teu Príncipe
Encantado
Da chuva o inverno bebeste
Neste teu gato à
lareira
Mais as pedradas da rua.
Que na chama vê uma
estrela
Do ardor dos ventos do leste
Que em nós vive esse outro
lado.
Sofreste a violência crua.
Este canto por ti
vela,
Quanto a vida foi agreste
Já que, fada, és o meu
fado.
Agrediste, espada nua.
A ti é que me
dedico
Foste amigo e amaste quantos
Ao dedicar-te este
livro
Da vida se apaixonaram,
E muito além de mim
fico,
Enxugaste, atento, os prantos
Já que assim de mim me
livro.
Das vidas que se adiaram.
Só que ao dar-me a ti, no
fim,
Por serem teus cantos tantos
Me vim dar inteiro a
mim.
Sempre de amor te mataram.
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242
243
Te
amar-me
Brincar
Eu me sonho em
ti,
Porque amar é brincadeira
Num gesto
adivinho:
Caio sempre num engano,
Sempre te
vivi
Brinco logo co'a primeira
Quando me
acarinho.
Com que por dentro me irmano.
Erótico
vinho
É brincar de mim à beira
Fermentando em
si,
Até que me desengano.
Foi assim
sozinho
Busco então a derradeira
Que te
construí.
Em toda a roda do ano.
Primeiro na
imagem
Brinco em imaginação
Que o desejo
anima,
Até ver que em todo o mundo
Depois na
viagem
Ninguém o desejo cobre.
Pela vida
acima.
Procuro-te assim em vão.
- Solidão de
ti,
Onde enfim eu te fecundo
Foi lá que te
vi.
É quando o sonho me dobre.
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245
Sonhador
Além
Entre o jovem
sonhador
Quando vou romper além
E o seu sonho de
mulher
A rotina de cotio,
Vai haver o grande
amor
No passeio até mim vêm
Que a vida lhe
desfizer.
As fadas ao desafio.
Quando lhe apaga o
fulgor
A feiticeira que tem
Da ilusão que ele
tiver
Flores em braçados viu
A vida atinge
valor:
Uma Vénus que lhe vem
O valor de
acontecer.
Moldar do riso o feitio.
Torna-se então o
senhor
E são tantas na alameda
Do itinerário, p'ra
ser
'Spalhando o sol da manhã
Este súbito
fragor,
Em donairosos trejeitos
Derrocada do
prazer
Que são meu trigal em meda
Que dos factos ao
rigor
Na colheita temporã
Obriga a vida a
viver.
Que meus dias põe direitos.
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Diferentes
Mar
Vós sois sempre
diferentes,
Um desejo de levar
Raparigas que
passais
A vida de toda a gente
E em nós sempre são
iguais
Desperta em mim: sou o mar
Frémitos
irreverentes.
Original novamente!
À nossa espera
lançais
Novamente em mim se sente
Trejeitos
indiferentes
O imenso amor pulular
Onde sempre andam
presentes
Que amiba a amiba consente
Os apelos e os
sinais.
A toda a vida em chegar.
Como poder
conhecer-vos
Amo esta, aquela, aqueloutra,
No fluir
interminável
A todo o mundo e a ninguém:
Onde o mesmo é sempre
inverso?
Chego a um beco sem saída.
E, desta inconstância
servos,
A rota tem de ser outra:
Descobrimos o
admirável
Um único amor convém
De ir nascer em vosso
berço.
Tal que empenhe toda a vida.
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Coleccionar
Pinho
Tu coleccionas mulheres
Ai, copas do verde pinho
Como selos do
correio:
Debruçadas sobre as maias!
Por raridades as
queres
Ai, amor, quanto carinho
E vai-las folheando, alheio.
Quando em mim tu me desmaias!
Uma é a praia, outra, o
recreio,
O amarelo na verdura
São os mundos que
colheres
Das maias abrindo em flor,
Revividos neste
emmeio
Ai, amor, quanta fartura
Dos encontros que
tiveres.
De ternura neste amor!
Mas tais ecos vão
morrendo
O chilreio dos pardais
Na chateza do
cotio
Nos ninhos das alpendradas
E com isto
desnorteias.
Sombreando as soalheiras,
Do transitório,
tremendo
De amor quantas formas mais
É que se lhe esgota o
fio,
Enchem as vidas
paradas,
Ficas aranha sem
teias.
Quanto as tornam verdadeiras!
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251
Casar
Perdido
Não me vou casar
contigo
Por que é que será que quando
Que me estrago as
iguarias,
Vi que te perdia a ti
O sabor das
fantasias
Vi-me tão me esvaziando
E o prazer que em ti
consigo.
Que a mim é que me perdi?
E o silêncio meu
amigo
E como é que te encontrando
Em tuas falas
matarias.
Sempre além de quanto sei,
E comigo repartias
Não sei como nem sei quando
Todo o meu privado
abrigo.
A mim é que me encontrei?
Não vou contigo
casar,
Mas que encontro é este encontro
Mas pesa tanto esta
ausência,
Desencontrado em si mesmo
Tanto me falta teu
ar
Que de mim me desencontro
Que morro de
solidão:
Se em mim é que me ensimesmo?
De teus passos à
cadência
Como é que me encontro em ti
Pulsa, enfim, meu
coração.
Se em ti é que me perdi?
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Vida ou
Morte
Os Novos
É questão de vida ou
morte
O amor entre os novos
Que haja amor na
humanidade,
É coisa bonita:
Mas amor que à vida exorte
Desata-se a fita,
Tem da morte a
identidade.
Soltam-se os renovos
São heróis,
libertadores,
E todo ele grita
Foram sábios,
eremitas,
E germina os ovos
Todos, em parto de
dores,
De que nascem povos
Que no rio, em
palafitas,
P'ra uma nova dita.
Nos livraram das
cavernas,
O amor põe-me a rir,
Nos afugentaram
feras,
Fresco, na manhã
Lançando-nos às
eternas
Que em mim faz surgir.
Aventuras das
esferas,
Jogo fora a lã
- São, por estas prendas
ternas,
Da velhice vã
Mortos em todas as
eras!
E abro-me ao porvir.
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Bruxas
Amo
No reino das
bruxas
Quanto gostas que eu te diga
Procuro a
magia,
Quanto te amo quando te amo!
Pois tu me
debuxas
E o que em mim briga esta intriga
Uma bruxaria.
De ao amar-te ser teu amo.
Sempre que te
via
Nós ambos somos a biga
Logo tu me
embruxas:
Que,no bosque, atrás do gamo
Pobre,
sonharia
Perseguimos, figa a figa,
Quanto em mim tu
luxas?
O destino. E a sorte dá-mo
Numa
fantasia,
Dando-te a mim toda inteira,
Bela
feiticeira,
Porque inteira em corpo e sonho
Eu me
descobria
És dia a dia uma obreira
De teu sonho à
beira
Do porvir que te proponho.
E de ti
bebia
Amo o amanhã, mensageira
Minha vida
inteira.
Que mo dás no que em ti ponho.
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Amar
Confissão
Nos incêndios da
emoção,
Por que é difícil confessar-te,amor,
Como, amor, poder falar-te? Quando
me vives e confessas puro?
O cantar do
coração
Por que, onde sou mais, se levanta o muro
Um do outro é sermos
parte.
Que me estrangula a voz num estupor?
É de mim que de ti
falo
Por que é tão fácil confessar-te amor,
Quando te falo de
amor.
Se de amor fácil confissão impura?
E de silêncio me
calo
Como é que da mentira o véu depura
Quando é fala em mim
maior.
As tuas ilusões sem se te opor?
Nas solidões da
palavra
Como dizer-te, amor, como falar-te?
Grito amor por cada
prega,
Como em palavras ser, se o sou a amar-te,
Ara-me o corpo o
sentido.
Amor que vivo, amor que és, querida?
O sentimento me
lavra:
No mutismo nos vem falando a vida
- O inefável te me
entrega
Quando à raiz descemos e fiéis
Todo inteiro num gemido.
Do mistério nos tecem os anéis.
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Companhia
Traidor
Como estar em
companhia
É um traidor aquele que ama
Para além do mero
estar? Porque ele ama o que traiu:
Como acompanhar o
dia,
Tanto trai que até na cama
Se o dia não
despontar?
Ama o sonho que perdeu.
Ser uma luz que
alumia...
Deste sonho é tal a trama
Como nos
alumiar?
Que ama quem o enalteceu:
Entre mim e ti vigia
Tanto lhe enaltece a fama
Sempre um muro a
separar.
Que o torna porta do céu.
Tão juntos e tão
distantes,
E este pórtico perdido
De mãos dadas sobre o
abismo,
Que o dia a dia constata,
Amamo-nos por
instantes.
'Streiteza de amor ferido,
Depois, perdido no
mar
Ao invés torna querido
Solitário de mim, cismo:
Quanto o amor ata e desata:
- Estar junto é apenas 'star!
- Todo o amor é amor traído!
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Amor
Sorte
Como o amor é
louco!
Sorte de mulher
Quer teu corpo,
quer.
É a barra da saia:
Tua alma ainda é pouco,
Mesmo que lhe caia
Teu tempo,
mulher,
Não deita a perder.
Vem
comprometer.
Vem-lhe promover
A protestos
mouco,
A figura gaia.
Irá subverter,
Amores, amai-a,
No murmúrio
rouco
Que amareis o ser:
Da ternura
breve,
É festa primeiro,
Teu sonho e tua
vida.
É promessa infinda
Quando tudo
teve
Do que só suponho;
Repousa da
lida:
É, por derradeiro,
- Com um jeito
leve Toda
a História advinda,
Larga-te esquecida!
O
abismo além-sonho.
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262
263
Ver-t
Mulher
Olho-te mas não te
vejo
Mãe, mulher e minha amante,
Porque te vejo quando
olho
A mim, o pobre sem hora,
Não no que de ti
recolho
Vestes-me de diamante,
Mas no que em ti mais
desejo.
Tecendo a fímbria da aurora.
Pois não vou perder o
ensejo
Tua crença comemora
De depurar o que
colho;
Este anão que vês gigante:
De saborear o
molho
Tua mão me condecora
Da fome com que te
beijo,
Cada passo dado adiante.
Frágil ilusão de
azul
Mulher do prazer sonhado,
Branquejando a vida
escura,
Secreto íntimo de mim,
Voo de élitros
cortados...
Mãe da vida que me excede,
Mas por trás do véu de
tule
Em ti me livro do fado,
O que afinal se
afigura
Amante: princípio e fim,
É a face vera dos
dados.
- E o infinito sucede!
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Onde Neve