4ª. Redondilha
Fizemos
Mais para Além
Escolha aleatoriamente
um número entre 358 e 494 inclusive.
Descubra o poema
correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
358
4ª. Redondilha
Fizemos mais
para além
Os traços de
nossos passos,
Pegadas pelos
espaços
Buscando o que o
infindo tem.
Canto o que dali
nos vem,
Que longe nos
ata os laços
E aqui nos canta
os compassos
Da canção que
nos convém.
Canto a lonjura
de perto,
Horizontes fora
e dentro
Que além de nós
já nos traçam.
Canto quanto é
céu aberto,
Novos céus onde
não entro
Mas que o
coração me enlaçam.
359
360
Zero
Infinito
Manhã
Quando o zero é
infinito
Como a manhã nos é linda!
Infinito é o
desespero
Como a noite de luar
Que a zero reduz o
grito
É nela luar ainda
Que grito quando sou
zero.
E já não, mas antes mar!
Mas quando o infinito
espero
Mar de luz, luzmar provinda
Encho o zero que
concito
Do mistério de sonhar...
De infinito e talho,
fero,
Como a ilusão é benvinda
O porvir em que
medito.
Enlevando este pasmar!
Rompo a fronteira em que
impero,
Dos abismos do infinito
Vago campo de
cultivo,
Brota a promessa da luz
E já não me
desespero.
Que me arrrebata além-mundo.
Sou um zero que,
furtivo,
E eu vivo este mudo grito
Roubarei, discreto e
vero,
Que por dentro me traduz
Do infinito quanto
vivo.
Como mistério sem fundo.
361
362
Vida
Desconhecido
A vida inteira é um
poema
Jamais podemos fugir
Quase mesmo a
acontecer.
A quanto é desconhecido,
Vem um mote, espreita um
tema,
Que o que temos no ouvido
E não chegamos a
ser.
É a música do porvir.
É um poema cujo
lema
Se é seguro recobrir
É deixar de
acontecer
Passos dados ao comprido,
Se acontece que eu me
tema
Logo perdem o sentido
Do temor de vir a
ser.
A quem os seus quer seguir.
Suicido-me,
primeiro,
De tanto me preservar
Se primeiro em mim não
crer
P'ra que a vida se não perca,
E depois, por
derradeiro,
Fugindo de quanto é ignoto,
Se me temer de
viver.
Acabo por me cercar
P'ra vir a ser por
inteiro
De quanto a vida nos cerca:
Primeiro vou ter de
ser.
Eu não vivo, eu me derroto!
363
364
Subir
Caminhos
Braçada a
braçada,
Os caminhos do infinito
P'la corda da
vida
São tantos e tão à toa
Tentei a
subida
Que, embora grite, o meu grito
Sem olhar a
nada.
Nunca à certa nele ecoa.
Mas, do chão
erguida,
E assim é que se esboroa
A minha
passada
A esperança no que fito
Ficou
balanceada,
Muito embora ela remoa
Incerta e
tremida.
Sempre além do que medito.
Quando estendo a
mão
E nem importam revoltas,
Não encontro
muro,
Que do fundo deste poço
Trepo já por
vício.
Ninguém trepa até à borda.
Cresce da
ilusão,
Se as águas forem revoltas
Quanto mais
procuro,
É tal o destino nosso
Maior
precipício.
Que ninguém nos lança a corda.
365
366
Vogar
Etapa
A vogar entre infinitos
Difícil, mesmo invencível
Um imensamente
grande
É o himalaia da vida,
Por onde o Homem se
expande,
Mas fácil e apetecível,
Vergando o espaço a seus
gritos,
Cada etapa da subida.
Outro tão pequeno que
ande
Felizmente é divisível
Perdido por entre os
ritos
Em segmentos a corrida
Da partícula aos
quesitos
Senão seria temível
Em que o pensar nos
cirande,
A maratona empreendida.
Somos o trágico
ser
Conquistar a eternidade,
Que se busca
rebuscando
Medir-se com o Universo,
Quanto promete e não
é.
Criar a partir do zero
Como me
reconhecer
É tanto que é insanidade.
Se o que busco por onde
ando
Mas o poema, verso a verso,
De mim nunca fica ao
pé?
Dirá no fim o que espero.
367
368
Conflito
Tempo de Deus
Entre os princípios e a
vida,
Procuro a perfeição impaciente
Se ambos entram em
conflito,
E a verdade decreto normativa,
É que àqueles dei
guarida
Sem dar conta de quanto em mim já mente
Sem auscultar desta o
grito.
De chegar esta fome que se aviva.
Deste modo me
desquito
Em cada ditador fico ciente
Duma incurável
ferida
Das mortes que carrego e rediviva
Que no peito trago,
aflito,
A memória me volta a ser cliente
Mas ela é que não me
olvida.
Do império milenar em recidiva.
Quando os princípios
conservo,
Carrego na consciência e aos milhões
Morro por dentro
depois
Gratuitos mortos deste mundo adiado:
E estendo a mortalha à
volta.
Por mim erram os erros que propões.
Se os largo, da vida servo,
Eu temo o tempo e o tempo torno um dado
Incerto dos
arrebois,
Que manipulo eterno de ilusões,
Sou eu ou uma fera à
solta?
- Mas Deus não pode ser antecipado!
369
370
Cabeçudo
As Rainhas Magas
Sou aquele
cabeçudo
Foi num luzir de oiro
Que pelas eras
além
Que ofertei o sol.
Tem vindo a jogar o
entrudo
De incenso o arrebol
Com quanto nos sabe
bem.
De nuvens aloiro.
E o carnaval não é
tudo,
Da mágoa o desdoiro
Que pelo Natal
também
Contigo não bole:
Há quem, perante um
miúdo,
Prà dor devir mole
Sonhe c'o mundo que
vem.
Te dou mirra e oiro.
Ora, o que vem não
será
Somos rainhas magas,
O que sempre foram
céus,
Transportamos sonho
Não qualquer outro
maná?
Ao futuro incerto
Neste Natal que é dos
meus
E ficamos pagas
O que sempre afinal
há
Quando aos pés te ponho
Ainda é um sonho de eu ser
Deus!
O longe mais perto.
371
372
Arauto
A Caminho
Sou sempre o
arauto
A caminho do infinito
Do tempo do
sonho
Na nave interestelar
E a qualquer
incauto
Por dentro de mim concito
As asas lhe
ponho.
Toda a ideia a navegar.
Do Natal um
auto
E, quando ela caminhar
À vida
transponho
Pelo meu corpo finito,
E por ele
pauto
Para além dele é o lugar
Quem nela
deponho.
P'ra que prolongo o meu grito.
As dores e as
lutas,
Fronteira da solidão,
Como vaga
escória,
Os limites fora e dentro
Já não as
disputas,
Desafio em quanto são.
São triste
memória.
É que p'ra além fica o centro
Lavro novas
frutas,
Onde explode este vulcão
Meu Natal é a
História!
Do mistério onde não entro.
373
374
Importância
Arte
O que não tem
importância
Aconteceu arte
Hoje, é o que mais tarde
adiante
Ou desacontece?
Vai gerar a
relevância
A chuva reparte,
Do que cremos
importante.
Gratuita, a benesse.
Perdemos, de tão
distante,
Como numa prece
Nesta nossa eterna
infância,
Do Além a cruzar-te
O princípio irradiante
Tudo te fenece
E do fim toda a
elegância.
Mal foi de ti parte.
E é neste nada que
somos,
Visita do todo,
Gigantesco prò que
foi,
Um todo que é nada
Anão para o que há-de
vir,
E que dura um grito.
Que amadurecem os
pomos,
E num grito mudo
Num silêncio que nos
doi,
Irrompe alumbrada
Onde germina o
porvir.
A voz do infinito.
375
376
Olhar
Contra
Há muito olhar que não
vê
Eu sou contra o cristianismo
E nem sequer é de
cego,
Porque afinal sou cristão.
É que perpassa e não
crê
Eu sou contra o hierarquismo
Que nada mereça
apego.
Porque o sagrado é o meu pão.
Porque ver mata o
sossego
Eu sou contra o maometismo
Que um olhar apenas
é
Porque creio em Abraão.
E ali começa o
degredo
Sou também contra o marxismo
Dos que apostam numa
fé.
Porque Marx é meu irmão.
No mero ver não se
encontra
Eu sou contra e não sou contra,
A chave dum outro
mundo
Que no fundo apenas sou
E só esta é
refrigério.
E por isso em mim se encontra
Terei de olhar e ver
contra:
Tudo quanto libertou:
Reparo então que me
afundo
- É que mostro em minha montra
- E só aqui toco o
mistério!
Que sou Eu quem aqui estou!
377
378
Si
Próprio
Ver
Sou de mim meu próprio
fim,
Não vejo porque não vejo
Nisto me sei
liberdade
Ou porque finjo não ver?
Porque me revelo a
mim
Qual é, afinal, meu desejo,
Em minha
autenticidade.
Ver, não ver, ou nem sequer?
Ser eu próprio de
verdade
E "não vejo porque finjo
É meu compromisso
assim:
Que não vejo" quer dizer
Para me cumprir ele
há-de
Que não percebo o que atinjo
De mim não falhar um
sim.
Ou que me cego a valer?
Sem medianeiros eu
salto
Luz à treva misturada,
De mim prò meio do
mundo
Jamais consigo entender
Com a luz
original.
Em mim clara a madrugada,
Com o meu facho bem
alto
Que, da noite entenebrada,
São clareiras o que
inundo
Se o lusco-fusco é o meu ser,
Em que é fértil cada
vale.
Só terror se me arrecada.
379
380
Catástrofe
Diálogo
Quando o olhar se me
habitua
O homem fez toda a experiência,
Vejo o mundo
desfocado
De deuses cria um catálogo
E a Lua já não é
Lua
Quando aprende a conveniência
Nem o Sol brilha
aloirado.
De ouvir-se e de ser diálogo,
Se tal me não dá
cuidado
Quando a si cria a existência
É que o sonho não
flutua
Através do seu análogo
Sob o peso
amarfanhado
Que em palavra gera a essência
Da rotina rasa e
nua.
Na partilha do diálogo.
Tenho de mudar de
olhar,
Aqui principia o mundo
Redescobrir a
paisagem
Que de mim sai e a mim vem
No instante da
criação.
Na conversa criadora.
E é da paleta ao
luar,
Ouço-te e então me fecundo
Do poema na
viagem
Dos sentidos que convêm,
Que eu me jogo à
imensidão.
Sou meu ser e minha hora.
381
382
Sofrimento
Artes
É quando o sofrimento encontra voz
Nas artes domino
Que toda a dor do mundo nos
atinge,
O que me domina,
Os nervos estremecem, ninguém
finge Inauguro um hino
Que é surdo nem que estamos aqui
sós. Que jamais termina.
É o apelo dos gritos que de
nós
E num desatino
Se apodera e de sangue já nos
tinge
Que quase fulmina
O rosto e o pensar, morta a
laringe
Eu rasgo o destino
Com a dor que apunhala mais atroz.
Que nos determina.
Chegue embora a tapar os meus ouvidos,
No porvir aberto
O apelo emocional daqueles
gritos
Que entremostra o sonho
De mim se apossa com maior
firmeza. É que eu me
liberto.
Por mim dentro é que ecoam os bramidos
Nele me proponho
Em que a raiva pagamos de
finitos
E o que nele ponho
Sermos olhando um céu que nos despreza. Torna o
longe perto.
383
384
Vigília
Escassez
Neste mundo da
vigília
Poesia sobre o poeta
É que eu encontro a
verdade,
É um risco de narcisismo,
Tudo é da nossa
família,
Esconde a escassez secreta
Conversamos
realidade.
De mundo a cair no abismo.
O sonho será
mentira,
Exageração discreta
O devaneio,
ilusão
Que redunda no cinismo
Com que o desejo nos
fira
Da perplexidade afecta
As pedras do nosso
chão.
Ao fim fatal com que cismo.
Mas, quando o artista
aparece
A não ser que seja a meta
E o cientista vira os
céus,
Aquém toda a ideologia
A vigília cai por
terra.
Em que reencontro a raiz,
Um novo mundo se
tece
A palavra enfim correcta
Onde ardem os
fogaréus
Em que me inauguro dia,
Em que é o sonho que nos ferra.
Que aquilo que sou me diz.
385
386
Tempestade
Incapaz
Ao poeta cabe
estar
O escritor é um incapaz,
Na tempestade
divina,
Incapaz de se fundir
A pé firme, com a
sina
No anonimato que faz
De com a mão
agarrar
Com um clã se confundir.
O raio que se
destina,
Sendo assim tal como ele é,
Desferido p'lo avatar,