5ª. Redondilha
Que na
Terra de Ninguém
Escolha aleatoriamente um número entre
495 e 710 inclusive.
Descubra o poema correspondente
como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
495
5ª. Redondilha
Que na terra de
ninguém
Se nos marcaram
as marcas
Com que nos
cortam as parcas
As vidas p'lo
sonho além
É quanto o canto
retém,
Que sempre as
forças são parcas
E pobres do
tempo as arcas
Prà lonjura que
nos tem.
Canto, pois,
quantos enganos
Nos enganam
nossos anos,
Quanto o longe
mora perto.
E canto quantos
encantos,
No entanto, nos
prendem tantos
Sonhos ao que é
tão incerto.
496
497
Aviso
Taça
Por não ser
ficcional,
Grandes poetas da praça,
Uma eventual
divergência
Em vossa praça não entro.
Entre esta história e o
real
Que importa o esplendor da taça
É mera
coincidência.
Se não tem nada lá dentro?
498
499
Poeta
Inocentes
Houve poetas cuja raça
Os outros são poetas inocentes,
Talhava leitos ao
rio.
Satisfeitos consigo e suas classes.
Hoje sempre enchem a
taça Só eu não gozo como
tais dementes
Toda cheia de
vazio. Que
o mundo tornam num bordel de impasses.
500
501
Ovelhas
Anões
Pascem sempre em qualquer
"ismo"
Vivo entre estes anões todos,
As pastagens mais
viçosas
Todos em bicos de pés,
Aqueles que, em meu
abismo,
Tão sem pés nestes seus modos
São as ovelhas
ronhosas.
Que os gigantes jamais vês.
502
503
Loucos
Eminentes
São
poucos
As pessoas eminentes,
Os cordatos e
decentes.
Por motivo das invejas,
Por isso os
inteligentes
Acabam sempre indigentes,
- São
loucos!
Pasto podre das varejas.
504
505
Solitário
Génio
Têm inveja e nunca
dó
Se eu jantei ontem contigo,
Do eminente em tema
vário
Por mais génio que tu sejas,
Mas, se ele sempre anda
só,
Contigo jamais consigo
Fica assim mais
solitário.
Ver-te no cume que almejas.
506
507
Tamanho
Fama
Sempre o génio há-de ser
génio
De alguém a fama é uma sombra,
Sem que ninguém o
conheça:
Ora o precede, ora o segue,
É que jamais há um
convénio
Tanto o alonga pela alfombra
Do tamanho em que se
meça.
Como encolhe o que persegue.
508
509
Herói
Esperto
De mim fizeram
herói,
Ser esperto não compensa,
Perdi-me como
pessoa:
Entendemos bem depressa.
Que é feito de mim, quem
foi
E a ferida de quem pensa
Feliz co'um naco de
broa?
Rasga-se e não há compressa.
510
511
Inocência
Aqui
Toda a inocência
ultrajada
Sou e, portanto, eis-me aqui
Nos impede de
enfrentar
Irrompido no presente.
O ultraje feito de
nada:
E, contudo, para ti,
- Não fere se se
ignorar.
Sou um aí tornando-se ente.
512
513
Grão
A Pulso
Sou aquele grão de
acaso
Ergo o meu poema a pulso,
Em busca de se
fixar:
Com grande esforço nele entro,
Sou tão livre que o meu
caso
Mas logo de mim o expulso,
É o de tão só me
encontrar.
Que nada encontro lá dentro.
514
515
Estrada
Claridade
Virás ter ao meu
deserto
Ser poeta é perigoso:
Se eu te der a boa
estrada?
As faíscas que em ti levas
- Não te quero de mim
perto,
São um lume tão fogoso
Quero quem venha por
nada!
Que até te lançam nas trevas.
516
517
Roubo
Antigos
O pensador ao
poeta
Prò velho escol a beleza
Rouba a verdade
solerte
Era o manto que ocultava
De nossa esfinge
concreta:
Da verdade uma inteireza
- Di-la assim: "não sei
dizer-te!"
Que só a ciência nos dava.
518
519
Fulgurar
Obra-prima
É o fulgurar dum
instante
Vizinho duma obra-prima,
Que irradia como o
belo.
De repente noutra parte,
Passa-lhe o cientista
adiante
Pairo leve sempre acima:
Sempre à pocura sem
vê-lo!
Tempo e espaço não têm arte.
520
521
Negócio
Ente
Na cultura do
negócio
Uma obra de arte é um ente,
Arte é só bem de
consumo,
Um ente que antes não era,
Serve p'ra informar o
ócio,
Que irrompeu pelo presente
Espremida não tem
sumo.
E após ser logo morrera.
522
523
Coisificada
Produto
Uma arte coisificada
Degradada num produto,
É um traste, um produto
mais.
Obra de arte é não-imagem,
De bem-'star
emburguesada,
Esconde no estar em bruto
Morre em símbolos sociais.
O mistério da mensagem.
524
525
Matemática
Ciência
A matemática é um ídolo
Uma história da ciência
Que adoramos
ignorantes:
Faz alguma vez sentido
Em arte, seu grito
estrídulo
Se não tiver a evidência
São fantasmas delirantes.
Da dos homens no ouvido?
526
527
Só Cego
Quem é mais digno de
dó
Um cego na multidão
É o que sofre as
multidões.
Co'a bengala da verdade...
Já não me sinto tão
só:
- Na multidão é que vão
- Nele ainda há mais
solidões!
Os cegos da humanidade!
528
529
Almoço
Banquete
Fui ao almoço de
festa
Ando por aqui sozinho
P'ra quebrar a
solidão.
Nesta sala de banquete,
Mas que maldição é
esta
Findaram danças e vinho:
Que estou só na multidão?
- É a vida e não se repete!
530
531
Solidão
Grandes
"Está já
desenganada!"
Nossos grandes sofrimentos
- Rezam numa
ladainha.
E as alegrias que tais
Da morte não 'speram
nada:
Cavam-nos isolamentos,
Ser pessoa é estar sozinha.
Não se partilham jamais.
532
533
Ganância
Medir
Se me aperta a
solidão,
O homem, como convém,
Vulnerável, morro de
ânsia.
Busca medir o seu pé:
Pior fico ao dar a
mão
Não vale pelo que tem
A uma insaciável
ganância.
Mas por aquilo que ele é.
534
535
Mós
Actuar
Com três mós o mundo
moi:
Quando uns actuam na vida,
Quem tudo faz
ocorrer,
Outros são espectadores.
Os que vêem
acontecer
Só aqueles dão a medida
E os que perguntam: "Que
foi?"
De que o que vale traz dores.
O homem é o senhor da
Terra
Alentejo, quem te pinta
Mas depois,
desfeiteado,
Com tão virente paleta?
Quando o cataclismo
aterra
Poema com tanta tinta
Não é mais que
estrangeirado.
Nem precisa de poeta!
538
539
Viver
Rimar
"Viver a
natureza
Mas por que é que a natureza
E não
percepcioná-la..."
Com beleza há-de rimar?
- Mas é a mesma
beleza,
É p'ra lembrar, com certeza,
A do amante e a da
bala?
Quanto a despreza meu ar.
540
541
Domésticos
Uivo
Nesta vida de
cansaços,
É um uivo de liberdade
Do cão ou gato a
influência
O que ouvi na serrania.
É acordarem-nos
espaços
Não é, não, ferocidade:
Prà doméstica
inocência.
- São ecos da humana via.
542
543
Pés
Museu
Pés terríveis e
pacientes,
"Vamos criar um museu,
Pés de gentes que
trabalham,
É qualidade de vida!"
Corpos franzinos,
doentes...
- E o povo honesto que é o meu
- Não vivem, só se
baralham!
A precisar de comida!
544
545
A
Cruz
Tradição
A Cruz de Cristo nas
naus
Ser português e boçal
Não foi muito p'ra
rezar.
É quinhão da tradição.
Desfizemo-la em dois
paus:
Não teria qualquer mal,
"Vamos a isto! É
malhar!"
Não fora ter-nos à mão.
546
547
Igreja
Montanha
Nesta igreja
vede
"Não subas para a montanha,
Como Cristo é
exangue:
Há lobos, podes perder-te..."
- Temos fome e
sede,
- Como é que a ameaça é tamanha
Mas de carne e
sangue!
Se não há que nos aperte?!
548
549
Racional
Burguesia
Se o homem é
racional
Valores da burguesia
Como é que Hitler tem
poder
São duma velha ciência:
Co'a finança
mundial
O dinheiro é o que os guia
A apoiar quanto vai
ser?
E uma serena inconsciência.
550
551
Ditador
Dever
Um ditador não se
impõe,
Entre dever e poder
Nós é que impomos que
seja:
Grande conflito se estende:
Se ele é que põe e
dispõe,
Se podes, vais empreender
O povo é que as mãos lhe
beija.
Contra o que o dever pretende.
552
553
Cinza
Mitos
Passaram anos
inteiros
Outrora, inteiro fui crente,
Obrigando-me a um
pensar.
Hoje sou crente sem ritos:
Hoje é a cinza dos
cinzeiros
Só cremos dificilmente
Que tem dogmas p'ra
adorar.
Na traição de nossos mitos.
554
555
Alegria
Sociedade
As longas horas de
emprego
A nossa sociedade
Conseguem
emurchecer,
Esconde no patológico
Muito p'ra além do sossego,
Faltas de maturidade:
A alegria de
viver.
Tudo então se mantém lógico.
556
557
Insucesso
Drogado
Para ser bem sucedido &nbs