6ª. Redondilha
Frágeis
Ataram os Nós
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como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
711
6ª. Redondilha
Frágeis ataram
os nós
Que nos atam
sonho à vida
As sementeiras
da lida
Que lidamos
sempre a sós.
Nesta solidão
atroz
Canto esta dor
dividida
Que eternamente
convida
A cantar a uma
só voz.
Canto estes
passos perdidos,
Gritos do
infinito ouvidos
Sempre além de
nossa senda,
Marcas perdidas
aos lados
Dos campos
arroteados
Que ao fim
lavram nossa lenda.
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713
Sino
Eu Ser
Nunca se pode ser
grande
Eu sou este ser no mundo,
Num País tão
pequenino:
Situado neste aqui.
Como aceitar que em nós
mande
Mas sou mais, de ser me inundo,
O badalo oco dum
sino?
Dou-lhe corpo e sou-o em si.
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715
Homem
Ser
Entre o ser e seu
aí
Entre o ser e o não ser
Há o elo em que se
consomem:
Mora o intermédio ir sendo.
Ao ser-me este ser em
si
Por neste meio viver
Inauguro-me a ser
Homem.
É que, afinal, eu aprendo.
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717
Aprender
Mestre
Se ninguém nasce
ensinado,
Qualquer mestre aos seus alunos
Nem ninguém sabe aonde
ir,
Sempre requer que conheçam,
Somos coxos no
tablado
Mas pròs saber's serem unos
E aprender é a bengala de
existir.
É no ser que eles começam.
718
719
Professor
Estudante
Professor é o
idiota
Estudante, se perguntas
Que àqueles se dá que o
comem,
O que terás de aprender,
Sempre a mando do
agiota
As respostas todas juntas
Que lhe recusa ser
homem.
Nunca te ensinam a ser.
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721
Utopia
Crer
Vivemos pela
utopia,
Tu não crês na lida
A do amor, a do
porvir...
E nada acontece:
- Mas quando o fim se
anuncia
- Quem não crê na vida,
Já lá ninguém mais quer ir.
Vida não merece!
722
723
Corrigir
Errar
Se você se não
corrige,
Sei que errar é humano
Isso é falta de
interesse.
E evitar não posso.
Quando alguém se não exige,
- Mas é um mero engano
Quanto valer
desmerece.
Quando o erro é nosso...
724
725
Erro
Mentira
O nosso erro é mais
teimoso
Como a mentira é suspeita,
Que mesmo um dogma de
fé,
Meia verdade convida,
Pois, mais do que esta
orgulhoso,
Mas faz-lhe sempre a desfeita:
Mantém a crendice em
pé.
Imita-a em toda a medida.
726
727
Sobressalto
Distância
Se alguém grita que é, bem
alto,
Quando me ponho à distância
Normal sem
hesitação,
É p'ra poder ver melhor:
Fico logo em
sobressalto:
- Neste novo olhar de infância
Duvidar é que é ser
são.
Aro o que gravei de cor.
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729
Preocupações
Veias
Do turbilhão das
preocupações
A correr não tenho ideias
Surge, repentina, uma débil
graça
E parado ainda menos.
E nela se renovam
ilusões:
Isto é porque nossas veias
- É a vida que
passa!
Secam do excesso aos venenos.
730
731
Espera
Perda
Vogamos entre a espera e o
desespero, Abro os olhos e não vejo,
Suicidas adiados, morte em
pé...
A boca e me calo mudo...
Instável no equilíbrio, que é que
quero? - E por mim passa
o cortejo
- Enfrento a vida p'ra adubar a fé!
Em que me perco de tudo!
732
733
Reconhecido Dizer
Quanto mais a mim me
ignoras
Dizer em prosa ou verso longamente
Com mais sanha te
persigo,
Este cansaço, a fome, aquele grito...
Que eu vivo de teus
emboras:
E para quê dizer, se o dizer mente?
- Ser é ser
reconhecido!
Mas como não dizer, silêncio aflito?
734
735
Verniz
Nomes
Subitamente estalou
Cremos nós na evolução
Das falas o verniz
vão
Por dares tu nome às coisas
E um tiquetaque
contou
E as coisas se esquecerão
Quanto o contar é ilusão.
P'los nomes em que repoisas.
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737
Dividido
Não
Dividido ao meio,
Custa tanto dizer não
Ignoro o que
incenso:
A quem, afinal, convida
- Eu penso que
creio
Que o sim que lhe digo então
E creio que
penso!
Diz que não à nossa vida.
738
739
Romance
Escritor
Feito escravo em
contratempo,
O bom escritor é igual
Ignoro a vida na ficção das
turbas:
Ao que entre os mais fracos cabe
Leio romances p'ra esquecer o
tempo Em tudo o que
nada vale.
Quando, tempo, me perturbas.
Por que é bom? Nunca se sabe!
740
741
Adulto
Obra
Fico de adulto
vestido
Se eu assinar uma obra
Com os fatos da
cultura,
Quem lhe põe a vista em cima?
Dispo-me e caio no
olvido,
Mas se um grande nome a dobra
Torno-me um bebé sem cura.
Ela é logo uma obra-prima!
742
743
Comunicar Importante
Comunicar é
importante,
Ao falar, ouve o ouvinte,
Mas o mais que então
suscito
Diz-lhe só o mais importante.
É aprender quanto é
instante
Para que melhor o pinte,
Ouvir o que não foi dito.
Pensa apenas o restante.
744
745
Comunicação Converso
Se ao falar dou meus
sentidos,
Contigo a estar eu aprendo,
Ao cantar é que te
acalmas,
Rasgo o silêncio, não calo,
Que a música em teus
ouvidos
Mas à evidência me rendo:
É a fusão das nossas almas.
Converso, sim, mas não falo.
746
747
Explicar
Ponte
Nunca ao fim nada se
explica
Toda a palavra é uma ponte
Senão com nada
explicar
Que tudo liga com tudo,
E assim tudo se
complica
Que o ser vem duma só fonte,
Quando bastava
aceitar.
Fala dela mesmo mudo.
748
749
Perguntar Linguagem
Pergunto o porquê de
tudo
Todo o ser da linguagem
Menos o de
perguntar.
É um andar sempre acabando
Ora, o porquê mais
bicudo
E, na intérmina viagem,
É o de aqui o
colocar.
Renascer principiando.
750
751
Perigo
Bordão
O perigo dos
perigos
Para que o ser aconteça
É a linguagem que nós
somos:
Necessita dum bordão
Fala do ser entre
amigos
Cujo tamanho nos meça
Quando só de entes
dispomos.
P'ra lhe darmos expressão.
752
753
Viatura
Signo
Muda a vida e se
estrutura
Todo o signo sobrevive
E a palavra se
mantém:
À coisa significada:
Hoje é um auto a
viatura,
A cabeceira ainda tive
Ontem foi cavalo e
trem.
Co'a cabeça já enterrada.
754
755
Termo
Escrever
Procuro e falta-me o
termo
Escrever é uma maneira
Quando esqueço o que procuro.
Talvez de melhor pensar:
E das palavras este
ermo
O esquecimento joeira
Arrepia de
inseguro.
O que o papel faz lembrar.
756
757
Língua
Percepção
Nós penetramos bem na
alma
Percepção imediata
Duma
civilização
Não passa de fantasia,
Quando tomamos a
palma
É uma percepção tardia
Da língua que lhe é seu
pão.
Tudo o que é ciência exacta.
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Cala
Ouvinte
Matemática da
fala,
A magia dum ouvinte
O zero em
conversação
Silencioso e atento:
É o momento em que se
cala
Todo o orador é um pedinte,
E um um eleva a um
milhão.
A esmola é nele ter tento.
760
761
Parecer
Sentido
Aquele que foi
vencido
Ler de modo diferente
Na disputa p'ra
entender
O incoerente vivido,
Mas que não foi
convencido
Mais que romper a corrente
Guarda o mesmo parecer.
É dar-lhe por fim sentido.
762
763
Perfis
Visão
Uma mesma
realidade
A teoria não é nada
Pode ser
interpretada
Separada em sua essência,
Por dois perfis de
verdade
Que é visão articulada
Conforme donde ela é olhada.
De quanto for experiência.
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765
Natureza
Tocador
Entre a arte e a
natureza
Gaita que não assobia
Há uma disputa
infinita:
É gaita de tocador,
Uma grita-me a
beleza
Festeja tanto que um dia
Que outra ignora mas
suscita.
Mais não canta, toca a dor.
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767
Retoque
Jogo
O pintor retoca os
olhos
A poesia é aquele jogo
Sete, oito, nove, dez
vezes,
Que, no entanto, não é.
Encalha em novos
escolhos...
No jogo sempre me afogo,
- Arte é feita de
reveses!
Na poesia encontro pé.
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Memória
Corrente
Arte funda a
história
Onde vai um pensamento,
E há uma história de
arte.
Onde chega esta avenida?
Esta é uma memória
Quando o ataca, o esquecimento
Daquela a
criar-te.
É uma corrente partida.
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Frio
Máquina
Na consciência de ser, um frio
súbito, A
máquina não se engana,
Um interior olhar que se
perdeu
Posso dormir descansado:
Desgarrado de seu próprio
decúbito,
E o progresso assim me irmana
- Esquecimento: em mim algo
morreu. Com o
olvido lado a lado.
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