7ª. Redondilha
As Pegadas
dos Avós
Escolha aleatoriamente
um número entre 927 e 1141 inclusive.
Descubra o poema
correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
927
7ª. Redondilha
As pegadas dos
avós
Nos enlaçam a
aliança
Entre o que
detrás se alcança
E o que alcança
a nossa voz.
Do grande rio na
foz,
Ancestrais
passos de dança
Dançamos e não
nos cansa
Quanto o amor
talha de nós.
Canto os laços
que, enlaçados
Desde o mais
fundo das eras,
Passo a passo
aqui chegaram
Mais a paixão
que, enlevados,
Daqui nos lança
às esferas
Onde os deuses
por nós aram.
928
929
Não
Falas
Não posso cantar de
amor,
É de amor que falas
Que cantar de amor um
dia
E eu jamais te imito:
É cantar que
cantaria
- Como abrir em alas
O fogo onde há só calor.
Plagas do infinito?
930
931
Quimera Silêncio
Como falar-te de
amor
Falaste e um grande silêncio
Se me esqueci de quem
era
Entre nós cava a voragem.
E o que somos vem-se
opor
Dentre ela este abismo vence-o
Ao eterno desta
quimera?
Só o tamanho da mensagem.
932
933
Lições
Genealógica
A vida só nos
carece
Quem quer um lugar ao sol,
De algumas lições
discretas:
Previsão meteorológica,
- Quando o amor nos
acontece
Não busca à sombra o crisol
Viramos todos
poetas.
Duma árvore genealógica.
934
935
Famíl
Tempestade
Rostos de tua
família,
Na natureza o trovão
Mágico espelho das
eras
Explode com tempo quente;
Em permanente vigília:
No lar é o gelo, o nevão
Diz quem és e o que
veneras.
Que é tempestade eminente.
936
937
Valhas
Relação
Um bom
casamento
Quando a relação de afecto
Requer que lhe
valhas:
Entre vós melhora mais
Mais que
linimento
Logo o corpo oferta um tecto:
Quer novas
vitualhas.
No sexo vos ateais.
938
939
Neve
Fogo
O cabelo
branqueado
Só por si o amor não chega.
Não me deu nunca
canseira:
O amor é fundamental
Quando há neve no
telhado
Mas, prò fogo em que navega,
É que há lume na lareira.
Ter companhia é vital.
940
941
Nobreza
Condição
É sobretudo
importante
Vou jogando a História inteira,
Ter uma nobre
ascendência
Mais e mais senhor de mim,
A quem, pela vida
adiante,
Sem ver que eu, na brincadeira,
Nada fez de
referência.
É que sou jogado ao fim.
942
943
Paciência
Gradual
É um treino de
paciência
Via da educação mútua
Na bicha aprender a
andar.
Não é ralhar, por sinal:
É a mais antiga
ciência:
A sabedoria reputo-a
- Nasci nela e já a
gritar!
De saber ser gradual.
944
945
Progenitura
Mãe
Nossos pais mataram
francos,
Como é que Deus tem valor,
Nossas mães foram
forneiras.
Se três num não há nenhum?
Entre espadas e
tamancos
- Poesia, Mãe e amor,
Ando a arrotear
sementeiras.
Sendo três, é tudo um!
946
947
Familiar
Casamento
O meio
familiar
Desde sempre o casamento
É que murcha o
esquizofrénico:
É apenas trivialidade;
A vivência ao lhe
acusar,
Porque tal é o fundamento
Serve-lhe o copo de
arsénico.
Lhe sagram a realidade.
948
949
Arranjado
Asas
A mulher e o marido,
Em quase todas as casas
Num casamento
arranjado,
Habita a infelicidade,
Entre si tudo
entendido,
Por isso ninguém tem asas
Nada têm que seja amado.
P'ra voar p'la infinidade.
950
951
Flagrante Casamentos
Caso co'um apartamento
Os casamentos bem sucedidos,
Ou uma casa de
campo?
Por trás da perene união
- É em flagrante que o
momento
Guardam mistérios escondidos:
Me pega onde quer que
acampo.
- São sociedades de mútua admiração!
952
953
Ver
Inocência
Quanto aprendia de
vós,
Cora a inocência ao entender
De ouvir-vos contar e
ler!
O piropo que disseste.
E quão parca é a vossa
voz
Rir, porém, sem compreender
Ante o nada do meu
ver!
Mais inocência reveste.
954
955
Suspeito
Vinha
Todo o homem é um
suspeito
O meu amor tem gavinhas,
Pelo facto de
existir,
Cachos de uvas sumarentos.
Que existir é pôr-te ao
peito
Vindimar as minhas vinhas,
O punhal de
decidir.
Que prisões e que tormentos!
956
957
Trepadeira
Amizade
No meio da sala um
vaso,
Para a amizade não há
No vaso uma
trepadeira.
Como o modo que a concebe:
Porque com ela me
caso
Ignorar o que se dá,
Nela trepo a vida
inteira.
Lembrar o que se recebe.
958
959
Respeito
Tipo
Toda a amizade é
respeito,
Faz as amizades certas,
Respeito p'las
diferenças,
Amigos de todo o tipo.
P'los sonhos que levo a
peito,
Se em teu nível os apertas
Mesmo pelas más
sentenças.
Nunca contigo me equipo.
960
961
Amigo
Alicerço
Ter amigos, de
repente,
Alicerço uma amizade
Podem ser festas a
esmo:
Se aos outros dou bem-estar,
- Ter um amigo é um
presente
Se admiro a capacidade
Que eu me ofereço a mim
mesmo.
De cada amigo se dar.
962
963
Porta
Outros
Um amigo é
confiança,
Eles, os outros e aqueles
Gosta de nós, que é que
importa?
Foram criados por nós:
Ouve-nos, faz
aliança
A opinião pública a eles
Com quanto nos abre a
porta.
É o que ata ou desata os nós.
964
965
Outrem
Fronteiras
P'ra nos proteger a
nós
"Nós" e "eles" são fronteiras,
Falam do perigo deles,
Uns dos outros somos sombras,
Mas outrem que é tão
feroz
Para escapar às sangreiras
É aquilo com que o
impeles.
Só do humano nas alfombras.
966
967
Fortuna
Bela Adormecida
Contas amigos aos
montes
Longe vai um emigrante,
Quando a fortuna perdura.
Sonha a bela adormecida.
Nem sequer, porém, os
contes
Algema a saudade instante,
Se a sorte se torna
dura!
Logo se lhe algema a vida.
968
Crepúsculos
Ah, crepúsculos lentos em que aldeias morrem
Depois que regressaram aos pombais os pombos!
Moles dormem nos tempos que insensíveis correm,
Cegas às andorinhas deste mundo aos tombos...
969
Brado
Um amigo de
verdade
É o que me
atende ao meu brado
Quando, por sua
vontade,
Estaria noutro
lado.
970
971
Elogios
Dar
Um amigo apaga o
fogo
Melhor receber que dar
Com que se incendeiam
brios,
Deita a amizade a perder.
Joga um agradável
jogo:
P'ra a poder consolidar:
O intercâmbio de
elogios.
- Melhor dar que receber!
972
973
Saudade
Vida
Tenho saudades de
ti,
Mulher perdida não é
Magia aos pés te deponho...
A mulher da minha vida,
Saudades do que
vivi?
A minha vida é que é
- Tenho é saudade do sonho!
Sempre uma mulher perdida.
974
975
Condão Ausência
A varinha de
condão
Magoa-me a tua ausência
Te tocou, secreta, um
dia.
No silêncio dos meus dias.
Logo o sol
despontaria:
Isto é a minha dependência
- Teu rosto na
escuridão!
Ou tu que em mim principias?
Um amor no fim da
vida,
Velhice não é só idade,
Esperança ainda a
brotar:
São os sonhos que nos movem
Sendo já uma
despedida,
A perder velocidade:
Diz adeus mas quer
ficar!
- É o cansaço de ser jovem!
978
979
Velho
Filhos
Primeiro era o
bailarico,
Filhos são modo barato
Foi depois a festa a
ir-se,
De enganar a minha idade,
Nem com passeios eu
fico...
Neles compro ao desbarato
- Ficar velho é
despedir-se!
A sombra da eternidade.
980
981
Filho
Divindade
Ter um filho é
decisão
P'ra qualquer mãe a verdade
Com indecisões
envoltas:
Se resume no estribilho:
É escolher meu
coração
O filho é uma divindade,
Por fora do corpo às
voltas.
Divindade de ser filho.
982
983
Engravidar Maternidade
Mulher que não
engravida
Será que um amor de mãe
Sofre porque algo
morreu,
Dura toda a eternidade
Não do que já teve
vida
Ou dura sempre p'ra além
Mas do que nunca
existiu.
O amor da maternidade?
984
985
Cansado
Apoiar-se
Ai, filho, que
fatigado!
Mulher que, sob tensão,
Papas, fraldas, te
entreter...
Pelo seu marido apele,
- Quase a me
surpreender
Não tem preocupação:
Cansado de andar
cansado!
Busca só apoiar-se nele.
986
987
Atenções Nasceste
Quando uma esposa se
mostra
Este amor não era o teu,
Emotiva, está, de
facto,
Nem esta energia, mãe:
A pedir a tua amostra
- Quando um filho te nasceu
De atenções do vosso
pacto.
Nasceste, afinal, também!
988
989
Avô
Papagaio
O brinquedo mais
directo
Se te dei um papagaio
Com que cada qual
brincou,
Não foi p'ra ter alibi
Cheio dum sonho secreto,
Mas p'ra fazer um ensaio
Foi sempre um querido
avô.
Co'a criança que há em ti.
990
991
Vento
Descontraio
Os miúdos têm
jeito
Apenas me descontraio
Prò fluir do
pensamento
Com as crianças a sós:
Porque jogam a preceito
É que então de mim eu saio
Co'os dedos vários do
vento.
Co'a criança que há em nós.
992
993
Perfeito
Meu Amor
Tudo nela é tão
perfeito
Meu amor viu algo em mim
Que não me inspira
confiança:
Que jamais eu descobrira.
Nenhum manequim tem jeito
Nunca eu ia até ao fim,
P'ra gerar uma
criança.
Não fora o som desta lira.
Quando marido e
mulher,
Quanto mais eu confiar
Um noutro o mistério
oculto
Numa relação que é bela
Conseguem
reconhecer,
Mais sou livre p'ra mudar,
São deuses que prestam
culto.
Mudando por dentro dela.
996
997
Manipular Educar
Não me vens
manipular,
Educar uma criança
Só formar-me no que eu
valha...
Não será prática boa,
- Mas a fronteira a
encontrar,
Que, em geral, o que hoje alcança
De tão fina, é uma
navalha.
É matar uma pessoa.
998
999
Tabus Sufocantes
Entre os tabus da
família,
Há lares tão sufocantes
O mais ignoto, hoje em
dia,
Que, se alguém quer libertar-se,
É o que mais gera a
quezília:
Matá-lo preferem antes
Proibição da
autonomia.
Que retirar o disfarce.
1000
1001
À
Mão
Esvazia
Quanto mais um filho
cresce
Há muita mãe que esvazia
Mais quer ser
independente.
Do filho o íntimo em fumo
Tanto mais aos pais
acresce
E que depois se alivia
Querer tê-lo à mão e
tente.
Ralhando que não tem sumo.
1002
1003
Cuidado
Sinais
Ninguém de pai ou de
mãe
Ao falar na educação
Precisa a sério,
afinal;
São de adultos os sinais.
O que sempre falta a
alguém
Mas quando é que passarão
É cuidado
parental.
Crianças a educar pais?
1004
1005
Emprestado À Beira
O mundo, mais do que
herdado
Mesmo quando eu quero
Por nós todos de
ancestrais,
Outrem quer que eu queira;
É-nos antes
emprestado
É o meu desespero:
Pelos filhos pròs demais.
Nunca moro à minha beira!
1006
1007
Grupo
Nós
Num grupo aos olhos dos mais
O esquema das gerações
É o que nos fomos
tornando:
Nunca o pões perante nós
Grupo para nós
jamais
Nem antes de nós o pões,
Temos sido desde
quando?
Que em nosso imo ele ata os nós.
1008
1009
Oco
Hierarquia
Doi-me a dor do que está
oco:
Concentrar nas qualidades
De passado me
esvaziam,
Que são demais importantes
E o presente dá-me o
soco
(Amor, sensibilidades...)
Dum futuro em que me
enfiam.
É o que cria os bons amantes.
1010
1011
Música
Dela
Quando te a música eu
ouço
Na boca dela a palavra
Com que tu tanto me
irritas,
É música arrepiante,
Lembro-me então que é do
poço
É glaciar que escalavra
De teu amor que me
fitas.
Gargantas p'la vida adiante.
1012
1013
Nome
Nadas
Ouço-te o nome e me
fitas
Nosso amor é construído
E um cântico me
consome.
E destruído também,
Como é que afinal
habitas
Não pelo que escapa ao olvido,
No violino do teu
nome?
- P'lo que não vale um vintém.
1014
1015
Amável
Sinal
É porque ela é tão
amável
Quando almejas que te abrace,
Naquele jeito de
corça
Te estreite forte em meus braços,
Que se torna
inevitável
Dá-me um sinal desse enlace,
Quanto a imitá-la me
esforça.
Que em ti possa ler-lhe os traços.
1016
1017
Mudança Celebração
Com o tempo tudo
muda,
"Já não és com quem casei!"
Pessoas e
relação.
- Lamentam outros, sabemos.
O que um ao outro nos
gruda
Mas p'ra nós mudar é lei,
É ir na mesma
direcção.
Por isso, amor, celebremos!
1018
1019
Carga
Atracção
É nosso amor uma
carga
Ao correr pela auto-estrada,
Pesada que nem se
atreve!
Ou, lento, no carro eléctrico,
Mas não é tarefa
amarga:
Atrai-me o abraço da amada,
- Damos as mãos e ela é
leve!
- É um íman que não é métrico.
1020
1021
Irrupção
Adoração
O coração vê no
amor,
Devoto em adoração,
Faísca de
claridade,
Como articular palavras
Não o instante do
fulgor,
Se a Deus canto uma canção,
- A irrupção da
eternidade!
Mas és tu, mulher, que a lavras?
1022
1023
Coração
Amor
Quando o espírito é
apagado
Dizem que é de amor humano
Pela luz do
coração,
Raio com que te fulmino.
Louco dizem que é o
coitado
Mas como de ti dimano
Mas loucos é o que estes
são.
Teu olhar de amor divino?
1024
1025
Poder
Passeio
Se tens amor do
poder,
Pela tua realidade
Ao poder dás o
valor.
É que hoje irei passear,
Não vales o que
valer
Nela perco a virgindade
Quem tem o poder do
amor.
E aqueço nela o meu lar.
1026
1027
Mulher
Abismo
"Mulheres? São todas
vis!
A mulher é um abismo,
Moeda falsa é o que nos
trazem!"
Tudo ali se engolfa e morre,
- Por que tanto as
ressentis?!
Vida e morte, o amor que cismo,
São como os homens as
fazem...
- E, após, dela a vida corre!
1028
1029
Durmo
Presença
Durmo sem qualquer
desdouro
Mesmo o monge no deserto,
Juntinho à tua
cabeça:
O eremita na montanha,
Das peças de prata e de
ouro
Sentem a mulher por perto:
Esta é a minha melhor peça.
- Não há presença tamanha!
1030
1031
Natal
Juntos
Para o teu
Natal
"O que é o Natal?" - Todos juntos
Um poema
antigo
Perguntam os que o não sentem,
É o melhor
sinal:
Sem sentir que estes conjuntos
- Sou o teu amigo!
São o Natal dos que não mentem.
1032
1033
Ódios
Coração
De amores é a mais
comum
Se a poesia é coração
Cultura em nossos
terrenos.
E ao estômago não liga,
Dos ódios deles
nenhum
Morre o amor pelo desvão
Também gera tais venenos.
Que a sentá-lo à mesa obriga.
1034
1035
Poesia
Linguagem
Há um rumo prò desalinho
A linguagem comunica
Em pleno mundo
ignorado:
E cria o incomunicado:
Poesia é estar
sozinho
É um resguardo e tal implica
Fundamente
acompanhado.
Protegido e separado.
1036
1037
Unidade
Crescemos
Dum diálogo a
unidade
Dos da nossa opinião
Consiste em que
convergimos,
O consolo recolhemos,
Concordes numa
verdade,
Mas junto dos que o não são
E é nesta então que
existimos.
É que em verdade crescemos.
1038
1039
Mel
Procura
Tenho meu favo de
mel,
Sempre a música é um lavor
Doçura de corpo e de
alma:
Com que a vida tu te lavras:
É uma palavra sem
fel,
A música é nosso amor
Amável, a dar-te
calma.
À procura de palavras.
1040
1041
Erros
Dote
Os erros não são os
ferros
Para que um amor se adopte
Que alguém ferram de
lunático:
Custa sempre um dinheirão.
Sempre se perdoam
erros
Da mulher o melhor dote
A quenquer que for
simpático.
É o dote do coração.
1042
1043
Adão
Caça
Vem do profundo das
eras
A caça do caçador
Esta manhã
friorenta:
Tem um saber instintivo.
Que Eva me aqueça
deveras,
Como é que só para o amor
Que Adão sou e ela me
tenta!
Sou mais cego quão mais vivo?
1044
1045
Ambiguidade
Diferença
Vi-te distante e te
amei;
Consentimento ou desejo,
Presente, foi-se a
magia;
Tão subtil é a diferença
Disputada, já nem
sei,
Que na troca deste beijo
Tudo outra vez
principia.
Vou do prazer à presença.
1046
1047
Troca
Desconhecidas
Aquela a quem damos
tudo
Meninas desconhecidas,
É trocada tão depressa
Tocastes meu coração.
Que a mim mesmo
desiludo
Hoje morrem-lhe as batidas
Com tal porvir sem
promessa.
Em cada vosso aleijão.
1048
1049
Papel
Teatral
Adultério
Moça que acaso
adorei
O casamento é uma letra
É como um papel
teatral:
Que muitas vezes é morta.
Decai a actriz, como é
lei,
No adultério é que se impetra
Troco-a e o papel é
igual.
Que o espírito lhe abra a porta.
1050
1051
Esboços
Falar
Tantos amores
perdidos,
Tanto te quero falar
Esboços
abandonados,
Que me esqueço de te ver:
- Desejos já
falecidos
Se te não sei encontrar
A crer nos
ressuscitados.
É que em mim ando a correr.
1052
1053
Amor
Em Redor
A alegria de quem
ama
Explorando em meu redor
É de amar só pelo
amor.
De teu mar esta parcela
Conquistar o amor
conclama,
Sou ínfima caravela
Porém, festa ainda
maior.
No infindo de teu amor.
1054
1055
Vez
Primeira
Altar
Eu te vi a vez
primeira
Há vinte anos uma jovem
E foras uma
princesa.
Foi carne de meu olhar.
Onde é que, na
derradeira,
Hoje o que os olhos removem
Se escondeu tua
beleza?
São ossadas desse altar.
1056
1057
Faces
Encontro
Duas faces tem o
amor:
Em todo o primeiro encontro
A do agrado se me
escapa;
Morre sempre uma ilusão.
A sombria ao meu
dispor
Que importa, se nele encontro
Se o cotio a luz lhe
tapa.
P'ra cada sonho o meu pão?
1058
1059
Casal
Cineteatro
Um casal bem
sucedido
Se o teatro é a minha esposa,
Namora vezes à
toa,
O cinema era aventura:
P'ra a paixão não dar no
olvido,
Se aquela, fiel, se goza,
Sempre co'a mesma
pessoa.
Neste é o sonho que perdura.
1060
1061
Só
Saudade
Quando estou só, penso em
ti
Dor de saudade não mata,
E morde-me a tua
falta.
É verdade verdadeira,
Presente, tanto te
vi
Mas entre o que ata e desata
Que a mim fujo e me dou
alta.
Sempre é uma morte primeira.
1062
1063
Tantas
Ciúme
Tu és tantas numa
só
O ciúme é tão bizarro
Sempre inventando o
mistério
Que me leva a correr mundo
Que das demais tenho
dó,
E no fim o que eu agarro
Todas tenho em teu
império.
Será um buraco sem fundo.
1064
1065
Retardatário
Mortífero
O ciúme é
retardatário,
O ciúme é tão mortífero
Vem quando nos
separamos,
Que não mata só o porvir.
Tem um cheiro mortuário:
É que não há soporífero
Mata o amor, faz de nós
amos.
Que ponha a história a dormir.
1066
1067
Pista
Asas
Perco um tempo
precioso
O amor à mulher deu asas
Na pista do meu
ciúme:
E tão alto a levantou
Passo ao lado,
belicoso,
Que te chamuscam as brasas
Das verdades em
cardume.
Por mais que fujas ao voo.
1068
1069
Orvalhada
Lobos
Acordas tão
orvalhada
No inverno dos lobos,
Nessa frescura
louçã
A réstea de sol:
Que na tua
madrugada
Traz-me desafogos
Da noite sai a
manhã.
O teu arrebol.
1070
1071
Escultor
Desejo
Sou escultor de
pessoas,
Quando eu desejar alguém
Quero que a mulher que eu
amo
É, p'ra mim, tudo inocente;
Leve na fronte as
coroas
Se com meu amor advém
Dos sonhos de que me
inflamo.
É uma desgraça iminente.
1072
1073
Aposta
Senhor
A mulher é uma
pergunta,
Reconheces-me direitos,
A mulher é uma
resposta
Disponho de ti, mulher,
E no fim, toda ela
junta,
Sou o senhor de teus feitos
De tão vaga, é só uma
aposta.
Para teu escravo ser.
1074
1075
Viagem
Parentesco
O que procuro em
viagem
Entre o desejo e a viagem
Da cidade é
encantamento,
Há um estranho parentesco:
Por isso é que a tua
imagem
Se esta é daquele uma imagem
Projecto-a no
firmamento.
É que lhe traça o arabesco.
1076
1077
Rapariga
Queixa
Era só uma
rapariga
Queixo-me de ti
Montando uma
bicicleta,
E dos teus defeitos:
Mas que é que há nela que
diga
- Em ti vejo em si
Que tem dum anjo uma
aleta?
Os meus maus trejeitos.
1078
1079
Comigo
Atmosfera
O teu amor me
acalenta,
A atmosfera desta festa
Tão doce é o que em ti
persigo
É de estrelas que se abriram.
Que o prazer que me
alimenta
Que é que o ar nos desempesta?
É o prazer de estar
comigo!
- Raparigas que sorriram!
1080
1081
Impossível
Espaço-Tempo
O amor busca um
impossível,
Em teu passo te contemplo,
Não ama o que já
possui,
Hora a sós é imensidão,
Porque quer o
inacessível
O amor é o espaço-tempo
É que o infindo nele
aflui.
Sensível ao coração.
1082
1083
Presente
Primavera
Sem passado nem
porvir
Hoje eu tenho novos lábios
Só do presente me
encanto:
E perpétua primavera,
Para o eterno me
atingir
Meus pensamentos são sábios:
Basta, sereia, teu
canto!
- Tu, mulher, és nova era!
1084
1085
Core
Amo-te
É impossível
discutir
Confesso "amo-te" e então tu
Em dia prenhe de
cores:
Fechas o olhar saboreando:
- Venham daí
descobrir
- Eis-me aqui sozinho e nu,
De que se geram
amores!
Desde o sempre ao não sei quando!
1086
1087
Relógio
Gema
Olho-te e vejo o meu
tempo,
Tu és a gema ignorada
És o meu espelho
mágico,
Co'o segredo das origens.
Mas ocorre um
contratempo:
Toco-te e és tudo em nada:
Velha, és meu relógio
trágico.
Vertigem, não dás vertigens.
Já chegou a
Primavera.
Se o amor nos maravilha,
Tu me dás as
boas-noites,
Mais tem de maravilhar
Mas és tu ou antes
era
Pelo que só nele brilha:
Mundo novo onde me
afoites?
- Une-nos sem nos atar!
1090
1091
Beijos
Felicidade
Para haver um grande
amor
A felicidade é frágil
Mil beijos serão
precisos,
E dela não há viveiros.
Mas jamais serei
senhor
Ao passar, passa tão ágil
De seus mil e um
avisos.
Que nos torna os pés ligeiros.
1092
1093
Interessar-me Contradições
De que serve
interessar-me
O amor tem contradições,
Por alguém que irá
morrer?
Tantas sobre ele se acamam
Mas se do amor me
desarme
Que as pessoas com paixões
De que serve meu
viver?
Destroem aqueles que amam.
1094
1095
Bom
Destruímos
Tudo o que parece
bom,
Se sempre nos destruímos
No fundo pode ser
mau:
E destruímos os mais
O amor que é o supremo
dom
É que destruídos caímos
Usa a violência do
pau.
Pelo amor de quanto amais.
1096
1097
Insensatez
Banho
A nossa cultura é um
mar
Não tomo banho contigo
Tamanho de
insensatez
Porque preservo o mistério
Que até aprendemos a
amar
Que em ti sempre assim persigo,
Tudo quanto nos
desfez.
Amante do teu império.
1098
1099
Magia
Beleza
Um amor dá
sofrimento,
A beleza é um dom raro e precioso.
Outras vezes,
alegria:
Se é minha, tece teias com que enleio.
Como é que pode um
tormento Se é
doutrem, quantas vezes nem a gozo
Ter em si tanta
magia?
De louco que a saboreio!
1100
1101
Passarela
Breve
Passeaste na
passarela
Antes que o amor me mande
Tua beleza de
fora.
Me teve
Ninguém te viu como és
bela,
Como tudo quanto é grande:
Quanto por dentro em ti
mora.
- Foi breve!
1102
1103
Namorados
Ódio
Jovens
namorados,
Ao ódio não é com ódio
(Quanto amor
amigo!)
Que se põe cobro algum dia,
Tão novos, p'los
prados:
Que deste ódio ao negro bródio
- São o mais
antigo!
Só o amor sabor traria.
1104
1105
Solidão
Novo
É o terror da
solidão
- Eles não gostam de nós!
Que mais nos oprime o
peito;
- Gostas tu deles acaso?
Pior, porém, é a
união
- Por quê, se nos deixam sós?
De que só o ódio é o
sujeito.
- P'ra renovar todo o caso!
1106
1107
Acção
Fazermo-nos
Pela acção me
recupero,
Mesmo se acontece vermo-nos
Feliz, cheio de
esperança:
Na imagem com que nos leram,
- Minha salvação
tempero
O que importa é nós fazermo-nos
Dos outros com a
aliança.
Com o que de nós fizeram.
1108
1109
Egoístas
Colher
Todos somos
egoístas:
Ser homem ou ser mulher
Se nos toca a dor de
alguém,
Em amor é diferente:
Não é a que lhe turva as
vistas
Ela entra inteira a colher
Mas a que em nós doi
também.
Dele a luz evanescente.
1110
1111
Conta
Silêncio
Em amor diz que a
mulher
Trai-o até a voz do silêncio,
Como o homem tanto
monta,
Que o segredo aos olhos luz...
Mas só ela, ao
acolher,
- Segredo de amor, compense-o
Se se der, dá-se sem
conta.
Com quanto amor o seduz.
1112
1113
Falta
Sementeira
Morte de amor é tão
alta,
É terra de sementeira
Deserto tão
desolado,
Este meu leito de amor:
Que apenas um ser te
falta,
Do sonho tem rega a leira
Fica o mundo
despovoado.
E do sol mais que o calor.
1114
1115
Batalha
Leito
Leito é campo de
batalha
Uma mulher em meu leito,
Com armadilhas de
guerra.
Não, porém, no pensamento?
Armo o leito quando
calha?
- Afinal, quando me deito
Desarmo-o se dou em
terra.
É no meu isolamento!
1116
1117
Libertou
Candeia
Chamaste-a Maria, a
azul,
Contamos "tal mãe, tal filha",
Sente-se ela
azul-Maria:
São candeias da beleza.
Sem que o sentido se
anule,
Mas na apagada não brilha
Libertou-se a
poesia.
A luz da candeia acesa.
1118
1119
Enganos
Sentidos
Em mil línguas te
cantamos
Quero ver o que tu dizes
Há milhões e milhões de
anos
Para ouvir o que tu sentes,
E jamais te
deciframos,
Cheira-me que teus deslizes
Mulher de nossos
enganos!
Sabem a quanto me mentes.
1120
1121
Imagem
Divórcio
Quer eu durma quer
acorde,
Divórcio e separação,
Em teu convite me
ameias,
Fala-se como quem goza.
Que mo pinta em meigo
acorde
Não vêem do coração
O olhar de minhas
ideias.
Quanto a doença é perigosa.
1122
1123
Bordel
Coração
Solidão dos amores de
bordel!
Há muita gente p'ra quem
Por isso é que entre si conversam
tanto, Só com ver se tem razão.
Por tanta ausência dum amor
fiel,
Só se consegue ver bem
Tantos traídos a iludir o
pranto.
Se se vê co'o coração.
1124
1125
Despida
Desejo
Quando te vejo
despida
Eu tenho necessidade
De possuir-te o
desejo
Que necessitem de mim:
Todas as freimas da
vida
Meu desejo é a veleidade
Doces converte num
beijo.
De ser desejado enfim.
1126
1127
Morte
Sabor
Paremos de
destruir-nos,
Dantes nos faltava o pão,
Que outrem não
destruiremos:
Por ele era a luta a esmo;
A morte tanto
tememos
Hoje é o sabor que terão
Quanto amar-nos e
servir-nos.
Pão mais amor a si mesmo.
1128
1129
Erros
Gosto
Pesar os erros de
alguém
Quando quero descobrir
É peso que não se
alcança,
Se gosto mesmo de alguém
Que a tentação que se
tem
Em viagem co'ele ao fremir
Põe o dedo na balança.
Vejo o sonho que me tem.
1130
1131
Senso
Enleio
Senso é o mesmo que
sentido.
Quantas vezes meu enleio
Como o amor não há
nenhum
Vem da sequência sem par:
De sentido tão
fornido
Eu escrevo mas não leio
Menos de senso
comum.
O que ditas sem falar!
1132
1133
Cigarro
Acena
Se fuma, você se
mata
Tantas casas, tantas ruas!
E de seu cigarro o
fumo
Que falta de imensidão
A quem mais ama
desata
Me acena nas mulheres nuas
A matar com vil
aprumo.
Que me acenam com a mão!
1134
1135
Mentira
Réu
Toda a mentira
destroi
Em tribunal, qualquer réu
Ligações de
intimidade.
É inocente até à saída.
Educar sempre assim
foi
Se julgas um filho teu,
Pendurar-nos da
verdade.
Por que o culpas à partida?
1136
1137
Crer
Mente
Tão importante é
saber
Quando uma criança mente
Onde teu filho se
encontra
É muitas vezes dum lar
Como nele poder
crer,
Que semeou a semente
Em quanto ele expõe na
montra.
De mentir, de a enganar.
1138
1139
Importa
Íntimo
Primeiro, que os pais
decidam
Se o jornal íntimo escrevo,
Que é que lhes urge
saber.
Vem-me o gosto da aventura;
Só então os filhos
convidam
Se de mim sair prescrevo,
O que importa a
oferecer.
A introspecção me procura.
1140
1141
Nó
Pessoa
A consciência
ocidental Devir
pessoa é manter
É tanto um nó bem
atado
Relações e bem activas,
Que se lhe aumento o
sinal
Que os outros têm meu ser
Menos fico
aprisionado.
Com asas, sem mim, passivas.