8ª. Redondilha
Que pelos
Netos Devêm
Escolha aleatoriamente
um número entre 1142 e 1356 inclusive.
Descubra o poema
correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1142
8ª. Redondilha
Que pelos netos
devêm
Sonhos quantos
se sonharam,
De avoengos que
os contaram
Aos amanhãs que
os contêm,
É o que ao canto
nos advém
Dos recantos que
acenaram
De infinitos que
arroubaram
E que nos roubam
também
Os presentes do
presente
Por quanto o
porvir pressente
Já presente em
desafio:
Canto o sabor de
amanhã
Nesta frescura
louçã
Que ameia de
além do rio.
1143
1144
Comum
Poema
Contra os bonzos da
poesia
Um poema não cria nada,
Uso a voz de qualquer
um,
Abre-se ao dom do possível,
Digo neste dia a
dia
E assim é nele criada
Coisas fora do
comum.
Quanta vida for vivível.
1145
1146
Natureza
Vou
O livro da
natureza
A Primavera chegou,
Tem já folhas
amarelas
A cultivar-nos os sonhos.
Mas é nele que a
beleza
Para lá mesmo é que eu vou
Nos sonha as lendas mais
belas.
Do porvir com meus medronhos.
1147
1148
Pensar
Razão
Ainda não é grande
artista
A razão do homem não
Quem pensa quando
criar.
Chega à razão que há num verso,
Da natureza a
revista
E, se o Universo é razão,
Não pensa, dá que
pensar.
Bem estúpido é o Universo.
1149
1150
Firmamento
Num
É das multidões de
estrelas
Poema, corpo comum,
Que no firmamento
viajam
Nele nos reconciliamos,
Que a paz de quanto são
belas
Nele somos todos num,
Faz que dentro em mim
reajam.
Não mais escravos nem amos.
1151
1152
Partida
Ontologia
Poeta é viver o
engano
A única ontologia
De estar à espera da
vida
É o gérmen primordial
As quatro estações do
ano
Que enoita e ilumina o dia
- E o comboio sem
partida!
Do poeta original.
1153
1154
Progresso Escutar
Se nas ciências há progresso,
Como vou me habituar
Como é que em arte não
há
Dum mundo novo aos sentidos?
Se um verso quando
confesso
Com olhos como escutar?
Descubro o lado de
lá?
Como ver sons e ruídos?
1155
1156
Palavra
Feiticeiro
Poesia e
pensamento
Aprendiz de feiticeiro,
Lavram juntos uma
lavra.
Vou dedilhando palavras.
É o amor o seu
frumento:
Se não depuro dinheiro,
O mesmo amor da
palavra.
É que arroteio outras lavras.
1157
1158
Espelho
Perdura
Um espelho das
palavras
Pouco a vida dura
É o sentido delas
lidas.
Por mais que cometas,
O verdadeiro é o que
lavras:
Pois o que perdura
É o curso das nossas
vidas.
Fundam-no os poetas.
1159
1160
Poético
Guia
Enche-se o homem de
mérito
Escrevo e comando o mundo
Com quanto o espanta e o
aterra.
Ao sabor da fantasia.
É deste modo
poético
Se da vida vou ao fundo
Que habitamos esta
terra.
Ela ao fim é que me guia.
1161
1162
Voz
Poeta
Retomo o sabor
silvestre,
Percorre uma bala
Canto à madrugada um hino:
O Universo informe:
- Se escuto o íntimo
mestre
- O poeta fala,
Sou parteiro do
destino!
A criança dorme!
1163
1164
Linguagem
Gesto
Toda a linguagem é um
dom
Cada gesto é linguagem
Que apenas o homem
detém:
E mesmo depois de agires
Testemunha quanto é
bom
Não te deixa grande margem
O mais perigoso
bem.
P'ra que os efeitos lhe tires.
1165
1166
Fundação Justeza
A poesia é
fundação,
A justeza da palavra
Nela fundo o
permanente,
Não se encontra nunca nela:
Furto-o à
devastação
Outro senso nela lavra
Voraz do fugaz
presente.
De quem a acolhe à janela.
1167
1168
Olvido
Encantação
Este olvido na
escritura
Todo o nome é encantação,
Que me distrai deste
mundo
Nele sujeito um objecto,
É meu sossego à
procura
Faço dele a invocação:
De si mesmo no meu
fundo.
Mundo é o meu palco secreto.
1169
1170
Aberto
Procura
Torna-se o mistério
incerto,
De mim dentro sairei
Qualquer verdade,
evidente?
Em demanda dos demais?
- É que, p'ra quem for
aberto,
- Então de novo terei
Fica o mundo
transparente.
Transparências de cristais.
1171
1172
Destino
Primordial
O meu destino é
viver
Linguagem primordial
Em sucessiva
ruptura
Só mesmo a da poesia,
E ninguém pode
inverter
Nela se funda o real,
As etapas da
aventura.
Que o dia só lá foi dia.
1173
1174
Sintoma
Raios
Um sintoma é uma
verdade
Tu, poeta, estás exposto
Furando dentro o
discurso,
Aos raios todos de Deus
É um grito de
liberdade
E os crimes de fogo posto
Que só contra encontra
curso.
Dizem depois que são teus.
1175
1176
Essência
Historial
Qualquer poeta
poeta
A essência da poesia
O que põe em
poesia
Gera um tempo historial
Da poesia é a
concreta
E o que a história evidencia
Essência que ninguém
via.
É que esta essência é essencial.
1177
1178
Diálogo
Arte
Nós, homens, somos
diálogo:
Tudo em arte é um artifício
Se a fala me funda o
ser,
E o seu benefício parte
Só funda porque um
análogo
De encontrar-te o precipício
Rouba ao caos meu
viver.
No resquício onde talhar-te.
1179
1180
Medo
Isolamento
Se estás preso na
ansiedade,
Quanto mais cansado estás
A teu medo empresta a
voz:
Mais vives no isolamento,
Alcanças a
liberdade
Quando só alcanças paz
Se contigo formos
nós.
Se alguém for teu linimento.
1181
1182
Artista
Obra
Um artista é um
pormenor
Eu criei uma obra de arte,
Que vê o que ninguém
veria.
Janela para o infinito,
Por ele não tem
valor,
E o longe daqui se parte
Vale no que
principia.
E estrangula-me o meu grito.
1183
1184
Vive
Arcanos
Para que serve
arte?
Damos forma a dez mil anos,
- Ignora p'ra
quê
Somos arte em carne viva,
Quem a não
reparte,
Movem-nos velhos arcanos:
Quem não vive o que
é.
- Activo o que a mim me activa.
1185
1186
Pitágoras
Capaz
A soma dos quadrados dos
catetos
Eu sou capaz de falar,
Ao quadrado é igual da
hipotenusa
Capaz sou também de ouvir,
- Pitágoras ensina aos
arquitectos:
Com ambos andando a par
Traça o porvir, na praia, em
Siracusa. Sou
diálogo: estou a ir!
1187
1188
Epifania
História
Uma obra autêntica de
arte
Falando é que o tempo existe,
É do mundo
epifania:
Foi falando que o gerámos
Ela o ilumina em
parte,
E se a história ainda persiste
Noutra guarda-o e
vigia.
É que jamais nos calamos.
1189
1190
Coisa
Balbucia
Ser arte não é uma
coisa
Se o pensar nos balbucia,
Estagnada no
presente,
O sentir que também fala,
Mas antes a virgem
loisa
Quando uma obra de arte cria,
Que um milagre nos
pressente.
Diz-nos mais no que ali cala.
1191
1192
Fundo
Intimidade
Fundo o ser pela
palavra
Quando penso e me explicito
Dando um nome a cada
ente
Preparo um acesso ao ser.
Que fundo a casca lhe
lavra
Em arte, porém, se grito
Buscando a eterna
semente.
Sou ser mesmo a se viver.
1193
1194
Energia
Vigília
O mundo emerge da
imagem
Epifania do mundo,
No instante em que
transparece
A arte é também vigília:
E a arte, nesta
focagem
Se o alicerça bem fundo
Bem presa, jamais
perece.
Provoca sempre quezília.
A essência de qualquer
arte
Arte, porque é bela, deixa
É a epifania do
mundo,
Dela irromper a verdade:
Aqui, como em qualquer
parte,
Do ser ouve a surda queixa,
Na beleza que é no
fundo.
Cria-o mundo em liberdade.
1197
1198
Preparo
Inauguro
Ao pensar eu me
preparo,
Uma acção justificada
Ao poetar me proponho:
É aquela em que me inauguro,
Venha o deus que então eu
paro,
Que, em vez de ser a chegada,
- Ou melhor, serei meu
sonho!
Principia a ser futuro.
1199
1200
Fugaz
Eu
O permanente é
fugaz
Sou Homem,
portanto Terra,
Mesmo se nele me
iludo:
E Deus sou, que
busco o Céu:
Jamais um deus é
capaz
Com quatro dentes me ferra
De se dar dando-nos
tudo.
Assim o ser que sou eu.
1201
1202
Semeador &