9ª. Redondilha
Agora de cá
do Cimo
Escolha
aleatoriamente um número entre 1357 e 1452 inclusive.
Descubra o poema
correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1357
9ª. Redondilha
Agora de cá do
cimo
Canto a grandeza
e a miséria
De cada jornada
séria,
De cada aresta
que limo,
Quanto
interminável rimo
O dispêndio com
a féria
Extorquida a
esta galdéria
De vida a que
mal me arrimo.
Canto a raiva e
o desespero
De ser este
infindo zero
Quando, infindo,
sou tamanho,
A humilhação de
cotio
Em que balanço
no fio
Onde me perco e
me ganho.
1358
1360
Andaimes
Aprender
Andaimes de
construção,
Eu aprendo ou me demito
Suportes do
edifício,
Quando à escola presto preito?
Somos aqueles que
não
Só aprendo quando o meu grito
Assistirão nunca à festa,
Gritar dentro do meu peito,
Cordeiros de
sacrifício,
E quando o meu peito aflito
Porque, completada a
obra,
For grito colhido a eito
Somos o que já não
presta,
Feito então da escola o fito!
O lixo que no fim sobra:
Só então não me demito!
- O mundo veste a romeira,
Nós ficamos na
lixeira!
1361
1359 Sentidos
Porta O domínio dos sentidos
É sempre o da utilidade
Quando uma porta se
fecha,
Quando os sentidos vividos,
Que
importa?
Mais do que úteis, são queridos
- O acaso dispara a
flecha,
Porque visam a verdade.
Logo aí nos rasga uma outra.
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1362
Contra os anjos que, de fora,
Na brancura da inocência,
Cristão
São quem a mim me devora,
Me abandona na indigência.
Ser
cristão
É mandar na própria
mão,
Mas há demónios também
É fixar os pés no chão
Que por dentro de mim bramam
E deste arrancar seu
pão,
E que, se os solto, ninguém
É aprender a dizer
não
Diria que em mim se acamam.
Ao que for mas sem
razão,
Ao que a final
comunhão
A todos, de fora ou dentro,
Troca por breve
ilusão.
Terei de impor o cabresto:
- Assim é que por mim entro
É ser eu do fundo do
coração,
E a qualquer obra me empresto!
Ser comigo em
união,
Ser tão eu,
tão
1365
Que ser eu e ser
cristão
É, no fim,
repetição.
Conhecer
Ou então
contradição:
Conhecer não é viver,
Se não for eu,
religião
Viver é criar raízes.
É de mim a
alienação.
Quem conhece vê nascer
Mas de fora das matrizes.
Por
isto,
Se só conheces, teu ser
É que, afinal, Jesus
Cristo,
Trocas pelo que tu dizes,
Nunca pôde ser
cristão!
Vais confundir teu crescer
Com dizer noutros matizes.
1363
Conhecer não é viver,
Coração Viver é
criar raízes.
Que o coração não
distorça
1366
O que força o
coração:
- Jamais é a razão da
força,
Pau de giz
Mas a força da
razão!
Era tão feliz
P'ra que a acção se me não
torça
No meu ingénuo provincianismo
Nesta força se reforça minha
acção!
Que precisei vir à cidade
Para me cultivar de infelicidade
1364
E me educar de cinismo
Alfabetizado.
Lutar
Era tão feliz!
Para ser um bom
artista
Mas vivia numa ânsia:
Urge lutar contra os
anjos:
- Fora tão empoeirado
Só nos rasgamos a
pista
O labrego pau de giz
Com incansáveis
arranjos.
Da minha infância!
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1367
1371
Educação
Muda
A única
educação
Se o poema se desnuda,
Que leva à
sabedoria
Se se despe até ao osso,
É a da
pedagogia
Ou muito depressa muda
Do coração.
Ou em breve é só o caroço
Com que o poeta se iluda,
Ser um bom
educador
No verso entale o pescoço.
Requer mais que um bom domínio:
Tem de evitar o
fascínio
E assim é que nunca posso
Sendo sempre um
sedutor.
Moldar a gosto a voz ruda:
O poema que é mesmo nosso
É aquele em que a voz é muda.
1368
1372
Palavras
Fácil
Dizem as palavras mais do que
dizem, Eu tenho uma
escrita fácil,
As palavras não são
puras.
Ideias em catadupa.
Quando deslizem,
Porém, crêem que o que é grácil
As palavras desenham
figuras.
É fruto de muita luta
Ou então não vale a pena.
E toma a
vida
A figura da palavra nela
repartida.
- Será que uma escrita à lupa
Faz grande a ideia pequena?
1369
1373
Letras
Desgraça
Perdes tempo a comer letras
Como se comem
maçãs.
Às vezes, é na desgraça
Se tarde te
compenetras,
Que germina uma obra-prima.
Tornam-se-te as fugas
vãs:
Da noite escura é que grassa
No mundo já não
penetras,
A luz que nos ilumina.
Viverás de
antemanhãs.
Das ovelhas que
soletras
No desespero mais fundo,
Só te ficam vagas
lãs.
Numa solidão sem dó
É que o homem gera o mundo,
1370
Argamassando-o do pó.
Falar
Cume da felicidade
É que sonhamos que dura
Se falares no
diabo
Por toda uma eternidade
Ele vai-te
aparecer,
- E só no instante é que é pura!
Falar não é só dizer,
Falar leva um sonho a cabo:
- Força mesmo a acontecer.
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1374
1378
Lugar
Acontece
Quando o artista vai
perdendo
Felicidade acontece,
Todo o seu lugar no
mundo,
Depois neste acontecer
É urgente
denunciar
Acontece que me esquece,
Que o que jamais
compreendo
Não me acontece viver.
É a arte a perder, no
fundo,
O mundo do seu
lugar.
Tal acontecer fenece
Enquanto em mim não crescer:
1375
Felicidade acontece
No que deste acontecer
Anestesia
Acontece que em mim cresce,
É
normal
Só então me acontece ser.
Que quem
tente
Ser feliz não me obedece,
Tornar-se
imortal
Obedece ao que eu colher.
Seja forçado,
Em todo o
lado,
1379
A tomar frequentemente
Anestesia
moral.
Felicidade
1376
Verás que a felicidade
Nunca vem do que acontece.
Peleja
A maior calamidade
Passa por nós e perece.
Que a palavra
soada
Nós é que damos os nós,
Pele me
seja!
Nunca é o que o destino quer,
Que se
veja
Mas o que acontece em nós
Quanto é uma palavra
suada
Daquilo que acontecer.
Nesta peleja!
1380
1377
Mar
Gaguez
O mar em vertigem,
Todo o sonho é uma
gaguez,
Bate que bate,
Ultrapassa o corpo e a
voz,
Coração do mundo,
Depois volta atrás de
vez.
Antes que o tempo nos mate:
Na hesitação do
entremez
- Pulsar da origem
Nunca consegue ser
nós.
De que me inundo.
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1381
A mirar-se, pura,
No rio.
Marés
E ali um pardieiro
Marés vivas sobre as
praias,
Dente podre do siso
As rochas a
despencar
A estragar por inteiro
No turbilhão da
areia:
O sorriso.
- Verbo
amar
1385
A conjugar-se nas longínquas
raias
Em que a vida se
ateia.
Sol
1382
A calma de que me inundo
Dum arrebol vem atrás,
Falésia
Por trás do monte fecundo
Que estes perfumes me traz..
O sol na amplidão
De céu e mar aberto
Quando o sol inunda o mundo
E as ondas a
enrolar
Inunda o mundo de paz.
Com risinhos nas
maretas.
1386
E o brusco
rasgão
Pela terra dentro,
perto.
Luar
Das alturas a
apelar
Quando o mar nos faz
caretas.
Luar
De Agosto
Quando o mais se nos
entorta,
No mar
Resta, afinal, uma
porta...
De Albufeira.
Vestígios da torreira
1383
Em que um grande sonho se afoite.
Restos de soalheira
Abandono
No rosto
Da meia-noite.
Corpo estendido na
areia
Esteira
À mordedura do
sol,
De mar,
Abandono das
origens...
Luar
Salvação?
Do rosto
Perdição?
De Albufeira
Vertigens
Em Agosto.
Que nos
ameia
Um sonhado
arrebol
Luar de mar,
Definitivamente em
vão:
Corpo de luar,
Sou este adiado sonho de
areia.
Sonho de soalheira,
Meia-noite
1384
Despida
Onde me acoite,
Lisboa
Sonho de vida:
Lisboa, a
brancura
- Albufeira.
Às gargalhadas do casario
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1387
E, enquanto prepara
Quermesse indivisa,
Lua
Não pára,
Recresce.
A
Lua
Não é minha nem é
tua,
Abismo insondável,
Dança na
rua,
Luisa, teu nome,
Nua, &nbs