10ª. Redondilha
Das
Serranias da História
Escolha
aleatoriamente um número entre 1453 e 1550.
Descubra o poema
correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1453
10ª. Redondilha
Das serranias da
história
Canto quanto sou
produto
De quanto sonho
deu fruto
E de que sou a
memória.
Canto pequena
esta glória
Em que por todos
eu luto
Para manter-me
impoluto
Sinal da
ancestral vitória.
Sou chegada e
sou partida,
Transporto as
marcas da vida,
Lanço o passado
ao porvir.
Quando aos
quatro ventos canto,
Canto-me apenas
enquanto
Canto a vida
inteira a ir.
1454
Mas não me desembaraço
Deste jeito meu aflito
Viajantes
Com que ando trocando o passo
- E perco sempre meu fito!
Nós somos os viajantes
Do tempo no
oceano,
1456
A correr espaços fora.
Distância
As boleias são garantes
De que, livres, não há engano
Do uno infinito de Deus
Que traga maior
demora.
Ao uno múltiplo do Universo
Vai a distância dum verso
... Mas depois a eternidade
Que grita da terra aos céus
É sempre para uma outra
idade!
E em que nem os sons são meus.
1455
1457
Infinito
Universal
Neste infinito do
espaço,
É nesta aldeia global
Neste meu tempo
finito
Em que já não há fronteiras
Ando medindo a compasso
Que cidadão cada qual
O tamanho do meu
grito,
Do mundo em todas as jeiras
A ver quando me
desquito
Tem de devir, se afinal
Das marcas daquele
traço
Quiser ser universal
Dum infinito
infinito
Sem perder suas maneiras.
Que sempre me deixa
baço
P'ra a si próprio ser igual
Quanto dele aqui
repito.
Tem de saltar as barreiras.
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1458
1462
Reino
Saudades
Não queiras erguer aos céus
Saudades dos velhos tempos
O teu reino cá da
terra,
Só tem quem os esqueceu,
Antes leva os sonhos
teus
Quem ignora os contratempos
Dentro em ti a fazer guerra.
Com que a festa se teceu.
Bons tempos são os de agora
Das ilusões rompe os
véus:
E o melhor está p'ra vir:
Só germina o que se
enterra
O porvir é que melhora
Por ti dentro, em tua
vida
Toda a canção do porvir.
E esta é que é a bandeira erguida.
1463
1459
Escasseia
Lugar
Quando um produto escasseia
Todos lutamos por ter
Se nos aguça a inventiva,
O nosso lugar no
mundo:
São dez mil anos de ideia
É com medo de
perder
Comandando a iniciativa.
De nós o lugar mais fundo.
Não tenho lugar em
mim
A humanidade responde
Quando chego ao
desespero:
Com rasgos de inovações,
No mundo já tive
fim,
Abre novas fontes onde
É que me tornei num
zero.
Secaram as ilusões.
1460
Racionalmente utiliza
Os recursos degradados.
Mim
- E assim jamais finaliza
O seu tempo e os seus cuidados!
Aqui estou perante mim
Como de espelho
infiel:
Estrangeiro até ao fim,
Nunca moro em minha
pele.
Desconhecido a mim mesmo,
De minha alma até me olvido,
Pioro se me ensimesmo...
- Aqui d'el-rei! 'Stou perdido!
1461
Vento
O que vem depois de mim
Desde antes sempre existira.
Que é que serei eu assim?
Mero sonho que delira?
- Vou sendo eu, até ao fim,
Corda ao vento duma lira.
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1464
Amanhã, de quanto invistas
Colher, do cume ao sopé,
Sê!
Esses teus caules solistas,
De futuros lamiré.
Quando alguém não dá nas vistas,
Ninguém, nem mesmo ele
até
Para que amanhã existas,
Notará quão vivo ele é.
Carne da imensa ralé
Que hoje te bateu o pé,
A vida quer que
resistas,
Não desistas,
Estende-te bem ao
pé
Sê!
Mortes e mortes previstas:
É o sangue do dia, a
fé
Amanhã darás nas vistas,
A gemer em quanto
existas.
Amanhã serás quem é.
Quando alguém não dá nas vistas
Embora ignores que existas,
Por percorrer o que
é,
Embora morto, não crê
Todo aquele que o não
vê
Cada qual que não subsistas
É que lhe tapou as
vistas,
No sonho com que entrevê
Da soleira à
chaminé,
As recepções finalistas
O tamanho que
revistas.
Da vida. P'ra que resistas
Para além da morte, sê!
A grandeza não a lê
Quem da fama anda à
conquista
Hoje não dás tu nas vistas?
E assina o nome na
lista
Amanhã serás quem é!
Da recepção, do café...
Nem quem posa nas
revistas
Fora com os publicistas!
Que o míope só
treslê.
Tu, condenado às galés
Da vida, tens outras pistas:
Quando alguém não dá nas
vistas,
- O amanhã será quem és!
Se calhar é porque ele é
E os demais, ilusionistas
1465
A burlar a boa-fé.
Mas quem vai ao rapapé
Quem Sois
São estes truões, coristas,
Rabo ao léu, a armar
banzé,
Sábios, santos, meus heróis,
Do silêncio
terroristas
Levastes a vida inteira
Em que nasce aquilo que
é.
Sem jamais saber quem sois.
A unir-vos aos arrebóis
Do linguajar dos
sofistas
Nunca a vida foi certeira.
Sofres sempre. Não desistas,
Sê!
1466
Mesmo que não dês nas vistas,
Homem
O que importa é que resistas,
Só permanece o que
é.
Homem é animal político,
Os que adornam as
revistas
Homem é animal que pensa:
Serão o pó do teu
pé.
Aqui diverge por crítico;
Dos que tu lês pelas
listas
O gregário, lá, condensa.
Ninguém deles dará
fé
Ser único falta ali:
Quando das tuas
conquistas
Homem é animal que ri!
O mundo que te não vê,
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1467
António José, judeu,
Requeimado em fogo lento,
A Guerra
Antes que aos astros apeles,
Retoma o grito que é teu
Minha
gente,
Porque nosso é o teu intento,
Se vingar de
persistente,
Porque és tu melhor do que
eles!
Há-de vergar esta
guerra
De gerar a nova
Terra
Egas Moniz sem Nobel,
Com um homem
diferente.
Espinosa em Amsterdão,
Cavaleiro sem corcel,
Calejaremos a
vida
Sou meu povo em danação,
Até que a vida
decida
Provado em quanto atropeles.
Derrubar o muro em frente,
Abrir-nos, enfim, o
espaço
Sou a tua negação
Em que amanhã, passo a
passo,
Porque eu sou melhor do que eles!
Já nada mais nos aterra,
1469
Matar o tempo de vez
Que nos 'strangula a
garganta:
Comedoria
- Neste espaço que nos fez
Libertar nossa voz que muda canta.
"Que grande comedoria
Vai lá dentro do palácio!"
1468
Mas quem disto se enfuria
Porque
Quer ficar lá dentro um dia?
- Não vá jogar nele, passe-o!
Porque eu sou melhor do que eles
Não falo à
televisão,
Daquilo se vangloria?
Nem espalho a voz na
rádio,
- Não mais se sirva, antes cace-o!
Nem pelos jornais me impeles,
Nem discos me
cantarão.
Mas se o rumor principia
Meu valor o porvir há-de
o
No meio da romaria,
Gritar do pico dos
montes
Junte o fermento e amasse-o!
Alvorotando as
manhãs,
E ao que com isto sofria
Reverdecendo nos
vales.
E tombou na tropelia,
Antes que tu me
descontes
Não o chore, é hipocrisia,
Minhas sendas de
amanhãs,
Siga-o só e assim abrace-o.
Porvir que, alarve, repeles,
Melhor é que me não
cales:
Sente hoje as culpas? Amasse-o,
É que eu sou melhor do que
eles!
Que no amor se principia
A forjar o que uniria
Sou Camões do escravo
Jau,
A nossa aventura espácio-
Pessoa sem
editar.
-Temporal no dia a dia.
Tento em vão transpor a vau
Os macaréus do teu
mar.
- E assim somos a utopia!
Membro a membro rasgo as peles,
Tens-me aqui em carne viva:
Enquanto a dor se me aviva,
Vê que eu sou melhor do que eles!
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1470
1472
Ventos
Desconcerto do Mundo
Os ventos frios do
norte
No desconcerto do mundo
Morderam a minha
face.
Nada, afinal, bate certo,
Este foi o meu
transporte
Decerto porque, no fundo,
Para enfrentar vida e
morte,
O mundo não tem conserto.
Quanto no mundo se
passe.
Co'a dureza dum
biface
E é porque não tem conserto,
Em mim talharam o
corte.
Demos-lhe a volta que demos,
Por isso é que a minha
sorte
Que o mundo, afinal, 'stá certo,
É a de não pagar o
porte
Pois certo é o mundo que temos.
Resistindo até o trespasse,
Sem jamais fazer a
corte
É tão certo na incerteza,
Nem nunca comprar o
passe.
Concertado em desconcertos,
Que, a acertar-lhe, de certeza
Não, não quero
passaporte,
Desconcerto-lhe os acertos.
Que os ventos frios do norte
Saltam fronteiras de
impasse
E é se eu for desconcertante
E deles tenho o
recorte
Que poderei acertar
Em tudo quanto me
enlace.
Na incerteza que adiante
Se nos venha a deparar.
Não há raia que eu
suporte
Nem guarda-mor que me
cace!
O desconcerto do mundo
Por tal meio é consertável.
Livre sou e desta
sorte
A incerteza é o profundo
Que ninguém limites
trace
Concerto do que é saudável.
Nem as podridões amasse
Nas ameias do meu
forte,
É certo que tudo é certo
- Que lhe estoiro com a
face!
E esta certeza final
É a de que não tem conserto
1471
O concerto do real.
Param
1473
Param os barcos no
cais,
Terra Prometida
Ficam os braços caídos,
Ficam vidas sem
arrais
Nunca a Terra Prometida
Nos olhos
desiludidos.
Foi outra além desta aqui
Na dimensão escondida,
Mas à cidade não
doi,
Presente e jamais vivida
Que ignora os heróis de
antanho,
Que vivo e nunca aprendi.
De País que um dia foi
Do Mundo o maior tamanho.
E as pessoas que vão lendo
Como o País se definha
Crêem só no dividendo
De qualquer conta mesquinha.
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1474
Nosso abraço ata o destino,
Prolongamos nossos braços
Eterno Retorno
Porque quero acontecer.
Façamos o que
fizermos,
A sorrir geras a aurora
Fica tudo tal e
qual.
Em meu peito no horizonte,
Demos ao tempo o que
dermos,
Jamais há noite sequer.
Com o tempo todo o tempo é tempo igual.
Por mim dentro é que aqui fora
Entre as eras faz que aponte
Igual é na morte
tudo,
O que em arco ergue uma ponte
Tudo na vida é
diverso.
Que o longe faz encolher,
Quando falo estou já
mudo
Tempo-espaço, dentro agora,
Porque mudo, quando mudo, prò
inverso. Que me fez sempre ir embora
Porque quero acontecer.
O inverso de mim, porém,
É o que sou quando estou
sendo
No traço desse teu rosto
E é vivendo o que
convém
Está o princípio do fim
Que o que vivo é assim tão vivo que o
desvendo. E
foi ele que em mim posto
O fim colocou em mim.
E ao desvendá-lo
inauguro
Dentro-fora, é uno o ser
Um remo contra a
maré.
No pedregal que eu aposto
Em cada remada, um
muro.
Percorrer até ao fim
Nele auguro que o futuro já não
é.
Porque quero acontecer!
Jamais será o que
fora
1476
Se o meu gesto o não marcara.
Doravante estou de
fora,
Se
Que de fora, sendo a sério,sou-lhe a fonte
Ali
defronte
Ah! Se viesses o que não te contaria!
Que o mundo
dessedentara.
A ternura da nossa estrada,
Além-vida e morte, o fervor da romaria.
De fora traço-lhe a
fronte:
Ah! Se viesses, afinal que te diria?...
- Sendo a sério, sou-lhe a
cara!
Se viesses seria tal a euforia
Que não te diria nada
1475
E, no silêncio, então eu acontecia.
Acontecer
1477
Vida