11ª. Redondilha
Miro o
longe até ao imo
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1551
11ª. Redondilha
Miro o longe até
ao imo
Em que o sonho
de adultez
Redundou na
pequenez
Da criança aqui
no cimo
Desta vida a que
me arrimo
Como a um bordão
que uma vez
De coxo a
brincar me fez
E assim meu
sonho perdi-mo.
Canto a lonjura
de mim,
Este meu
princípio e fim
Que dá volta ao
Universo.
Canto quanto
esta distância
Me mata, fatal,
com ânsia
Dum além de todo
o verso.
1552
1554
Nunca
Semente
Nunca pertenci a
escolas,
Nós somos sempre a semente
Não me inscrevo em
movimentos,
Duma planta bem tenaz
Que, se naquelas te
atolas,
Que amadurece na gente
Nestes murcham
sentimentos.
E que só se satisfaz
Quando atinjo a plenitude
O movimento sou
eu
E o vendaval se me ferra
E a escola, quando
nasceu,
Em mim e minha virtude
Foi neste sopro de
vento
Espalhando-me na Terra.
Onde me integro e me invento.
1555
1553
Fundo
Neblina
Aqui me deito e me afundo
Somos aquilo que julgamos
ser,
No abismo da escuridão,
Somos o que outrem julga que
seremos. Quase paz se atinjo o fundo.
Nem nós nem eles, afinal,
sabemos
Porém, não há fundo, não.
O que em tudo isto se virá
conter:
O que aqui no escuro jaz
- Desta neblina se enevoa o
ser.
Não tem paz, procura a luz.
E o que este sono me faz
É medir se sou capaz
Do abismo a que me propus.
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1556
Na crista da onda em equilíbrio instável
Por ora e desde sempre vogarei.
Arrebol
Pesco ao destino a sardinha e o sável,
De dias me alimento que história me sei.
É sempre um nascer de sol
Quando tudo
principia
Tremo na prancha do tempo que muda,
E depois, esta
agonia,
De afogar-me em risco furto-me à lei,
Consumado o
arrebol.
Equilibro-me em fuga sobre a vaga ruda,
Além, sempre além,
Não era o vinho da
vida,
Fujo ao maremoto conforme convém
Apenas um cheiro a
mosto:
E às margens de além um dia darei.
- Sempre me perco em corrida
Neste nascer de sol
posto.
Ser, não ser,
Como o saberei?
1557
- Será a viver
Que um dia serei.
Passageira
Se o
Tempo acabar porque Tudo principiou,
A vida é tão
passageira
Aí, finalmente, sou o que sei
Que nunca se
justifica
E sei o que sou.
Viver nela a vida inteira.
Por isso é que sempre
implica
1560
Um salto além da fronteira
Mesmo se nunca me
diz
Mente
Que a algum lado chegarei
E que não quebro o
nariz
- Que é que tens em mente?
Por ser tão
fora-da-lei.
- Quando o encontrar
Estarei presente
1558
E, quando o olhar,
Esta é a minha lei,
Deus
- Aí saberei!
Deus morreu em Jesus Cristo,
1561
Desde então não há mais Deus,
Desde então só resta isto:
Ser
- Ser em mim todos os eus!
Serei Deus se, qualquer
dia,
Ser ou não ser
Por um salto de
magia,
Não é questão,
For isto o que então
existo.
Se calhar,
Que a razão
1559
De meu ser acontecer
É pensar ou não pensar.
Sei
Não só por pensar em ser,
Ser, não
ser,
Não só por pensar que penso,
Como é que me
desvendo?
Mero fruto dum azar,
- Sou apenas este
querer
Mas por ser este arco tenso
Ir
sendo.
Dum ser que é ser ao pensar.
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"Penso, logo
existo."
Antes pouco do que nada.
Mas
existirei?
Porém, se o pouco não chega,
- Ao pensar,
subsisto
Mais vale nada, que nega
Vendo se sou
isto
Toda esta vida alugada
Que, ao pensar,
serei.
Em que o sonho se me emprega
A adiar a madrugada.
1563
1567
Viver
Gaiola
O que importa é viver muito,
Por muito que esse
muito
Sou disparo duma mola,
Seja, afinal, muito
pouco.
Rasgo os espaços, sou raio!
Só o infindo me consola
- Pouco
importa:
Mas só por sonhos o atraio,
Importa
muito!
Que minha fome me imola:
Fugitivo papagaio,
1564
Fujo sempre na gaiola.
Vida
1568
A vida não é viver,
Chama
Viver é como estar morto
Até o anjo
acontecer,
O dia chegou ao fim
Até três vezes
bater
E eu aguardo aquela chama
No portal que abre prò
horto
Que me irá contar, enfim,
Onde minhas asas
corto
O sol que há p'ra além da rama.
Com frutos a emurchecer.
Bate o anjo e
principia
Mas meu galho é de tal trama
A romper por mim a
raiva
Que nele o sol não se acama
Até que o mundo em mim caiba:
E, pardal ferido na asa,
- E desde então nasce o
dia!
Jamais voo além de casa.
1565
Senão
Era uma noite de
cão
Em que o vento me
gania
Sempre a pular-me às
canelas.
Era da vida o
senão,
Todo inteiro uma razia,
Neste furtar-me as estrelas.
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1569 Mesmo
que morra em mim mesmo
É o mesmo de mim que em ti
As Voltas da
Vida Talhará
vias a esmo
P'ra amanhãs que não vivi.
Há muitas voltas à volta
Das voltas que a vida traz.
Mas viverei amanhã
Uma só volta não volta,
No sonho que viverás,
A volta que volta
atrás.
Manhã serei a manhã
Teu norte de vida e paz.
Porque esta volta não
volta,
Volta e meia
reparamos
Morrerei ressuscitando
Que só vivi meia
volta
No coração do porvir.
E a volta inteira
acabámos.
Amo a vida e há Vida quando
Toda a vida é ressurgir.
E qualquer reviravolta
Que as voltas da vida dão
Primeiro na evocação,
Deixa o travo da
revolta,
Grata herança em toda a gente.
Imita um sim mas é
não.
Depois bem no coração
Serei eu pessoalmente
Ah! Tantas voltas voltando
Neste instante
voltejar
Quando o tempo for tão nosso,
Não mudarão de vez
quando
Quando em ti formos tão nós
Toda a vida as
completar?
Que do Universo o colosso
Se tornará nossa voz.
Completá-las dando a volta
Às voltas que, sem
juízo,
Nele me renascerás,
São a vida
desenvolta
Criador da nova grei:
Não a vida que é
preciso.
Corpo cósmico de paz,
Todos num, aí serei.
Que eu sonho uma vida envolta,
Muito p'ra além da
saúde,
Seremos o Universo,
Numa volta que é tão
solta
Do Infinito o corpo quando
Que nos volta a plenitude.
Eu e Tu formos um verso:
Se Eu for Tu, tanto te amando
Que devenhas o meu berço.
1570
Aí não morro, estou chegando...
À Chegada
Dos abismos do passado
Aos páramos do porvir,
Eu não morro, estou
chegando.
Estou chegando, compassado:
Estou chegando e, enquanto
chego,
Eu não morro, estou a ir...
Crêem que é o fim, quando ando
Inaugurando o sossego.
Eu não morro, eu me inauguro,
Toda a vida foi preparo.
Se me fino é que o futuro
Principia aonde eu paro.
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1571
Sem ti
Nem mesmo seria.
Saudade
Porque te vivi
Meu ser principia.
Ter saudade é ter memória:
Ter memória do
passado
Mas és tu, afinal,
E do futuro
também.
Ou serei eu?
- Que importa? Real
É ter o tempo na
mão.
É o que, comum, se viveu.
Ter saudade é ter a
glória
Somos nós, enfim,
De ser tempo
acumulado
Que aí vivemos?
Não na mente mas além:
- Fomos Nós que aí nascemos:
- Por dentro do
coração!
Inaugurámos o Fim!
1572
Inaugurámos a via
Em que tudo principia:
Ruptura
- O Infinito desata a falar em mim!
Eu penso no que em
verdade 1574
Antes vivi mas perdura,
Que eu sou sempre esta
ruptura
Celebrar
Entre os tempos que me invade.
Celebrar é mais que festa,
Mesmo a minha
liberdade
É mesmo mais que vivência,
É o fruto desta
secura
Celebrar é abrir a fresta
De as nascentes de água
pura
Em que quebramos a ausência.
Ir procurar noutra
idade.
Aqui dos outros gostamos
E gostamos de aceitá-los,
Ferida sem dar
sinal
Rimos sem servos nem amos.
De algum dia ter mais cura,
Nesta alegria louçã
Perde-me no que
inaugura,
Até ao cantar dos galos
Não lhe descubro
hospital.
Hoje somos o amanhã.
E assim, na triste
figura
1575
De ser um num ser dual,
Sou o carnaval que mais dura. Sonho
1573 Os
outros são um inferno
Quando luto contra ti,
Amigo Mas eu
jamais te bati,
Foi o meu sonho de eterno.
Estou
Contigo.
Mesmo quando em beijo terno
Ser
Amigo
O infinito eu entrevi,
É o ser que
sou.
Não foi a ti que te vi
Mas a mim em quanto hiberno.
O inferno doutrem, por fim,
É via do céu p'ra mim.
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Com outrem na
relação
As ideias são carvão,
Conta primeiro a
vivência
Tua fonte de energia.
E o que sou em tal
função,
Mas jamais explodirão
Culminando a experiência
Se não houver, algum dia,
De mim co'a
confirmação.
Uma centelha de fora
Estes elementos
são
Que pegue fogo ao rastilho:
Constitutivos da essência
- É noutrem que, nessa hora,
Dum encontro, da
união
Descobrirás teu gatilho!
Que funde a mútua valência.
Com outrem o encontro não
Ocorre como
organismo,
Viagem
Que ele sonha e se projecta:
- Seus actos jamais
serão
Desta vida na romagem,
Um processo mas o
abismo
Todos à largada,
Que ele salta para a
meta.
O que importa é a viagem,
Não é a chegada.
1577