12ª. Redondilha

 

Onde me alcança a memória

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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1651

 

12ª. Redondilha

 

Onde me alcança a memória

Canto o traço que me traça

A profundeza que abraça

Minha derrota e vitória.

 

Além de toda a vanglória

Canto quanto a vida é lassa,

Como nos borbota escassa

Em cada passo da história.

 

A sabedoria canto

Com cada traço de encanto

Que nos encantou as eras.

 

Canto o mestre que, do olvido,

Me sustém na vida erguido,

Daqui me lança às esferas.

 

 

       1652

                                                  

Compreender

 

- Mestre, como compreender?

- Tentando e descobrindo que não compreendes. Quando aceitares que não compreendes, então saberás.

- Saberei?!

- Saberás, embora continues a não compreender.

- Nada mudou?

- Tudo mudou. Tu e o enigma então sereis um: abriste os portais do infinito!

 

       1653

 

Ser para Ser

 

- Mestre, que fazes de mim?

- Sou tua condição de ser.

- Posso prescindir de ti?

- Não! Deixarias de ser. Prescindirias, afinal, era de ti.

- És meu criador?

- Não, dou-te a chave da criação.

- Criação de quê?

- De ti próprio.

- A partir de ti?

- A partir de mim, não. Senão duplicar-me-ias e já não serias tu próprio.

- A partir do muno?

- A partir do mundo, não. Degradar-te-ias num objecto, serias o animal-máquina, o mais perfeito robô, mas apenas e só robô.

- A partir de mim?

- Sim. De ti és tu princípio e fim. Eu sou apenas o meio.

- Meio para quê?

- Para atingires o fim de ti.

- A morte?

- A plenitude.

- Plenitude de mim?

- De ti comigo.

- Então que plenitude?

- Conseguirmos vir a ser, algum dia, definitivamente Nós.

- Um Nós universal, sem retorno nem fronteiras?

- Integralmente Nós, isto é, o Infinito.

- Para a eternidade?

- Para a eternidade.

- Seríamos deuses...

- Seremos Deus!

- Num amanhã qualquer?

- Não, para além do tempo, quando lhe ultrapassarmos a fronteira,  quando mudarmos de natureza. Porque o tempo somos tu e eu enquanto não formos Nós.

 

       1654

 

 Enriquecer

 

- Mestre, é mau ser rico?

- Somos infinitamente mais ricos que o homem de Cro-Magnon. É bom.

- Então é um bem.

- Não, é um mal.

- Mas se melhoramos...

- Só melhoramos quando melhoramos em comum. O melhor só é quando é para todos.

- Isso não é enriquecer?

- Não. Rico só há onde há pobre. Se todos formos iguais, ninguém é rico.

- Não sentimos melhoria?

- Ninguém a valoriza.

- Ficamos então infelizes?

- Infelizmente.

- Por quê?

- Porque desatamos a querer ser ricos e aí principia todo o mal.

- Como assim?

- O rico explora apenas frémitos dos sentidos.

- Qual é o mal?

- Transforma tudo e todos em brinquedos.

- Brinquedos?!

- Sim, brinca aos automóveis e às mulheres, brinca às jóias e ao poder...

- Diverte-se!

- Não, transforma-nos em joguetes, somos marionetas com que se entretém.

- Isso é fatal?

- Fatal.

- Como assim?! Perde a liberdade?!

- Não. É livre de desenvolver até ao fim o mal original: o primeiro erro.

- Qual?

- Ser rico, em lugar de ter enriquecido em comum.

- Não pode ser o mesmo?

- Não, porque o rico, para sê-lo, empobrece outrem.

- O contrário, no ver dele, era ser pobre.

- Na realidade enriqueceria bem em bens.

- Sendo rico tem sempre mais bens também...

- Mais males: vai desenvolver sempre mais longe o mal que lhes dá origem.

- Jamais se libertará? Poderia renunciar a tal caminho...

- Sim. Mas não pode inflecti-lo.

- Por não inflectir o primeiro passo?

- Pois. Prosseguirá na lógica fatal dele até ao fim.

- Quanto mais rico...

- Pior!

- Para os outros!

- Também para ele: paga os bens com o ser. Quanto mais tem, menos é!

 

       1655

 

      Porvir

 

- Mestre, como será o futuro?

- Para mim, negro.

- Como para ti?

- É que, para ti, será azul.

- E nele próprio?

- Negro e azul. E todo o arco-íris.

- No nosso imaginário?

- Na realidade.

- Não pode ser. Ela é uma só.

- Uma só para cada um que a vive.

- No juízo que dela fazemos?

- Não. No que fazemos dela por causa dos nossos juízos.

- Mas se são contraditórios!...

- Aparentemente. Somos todos complementares.

- Mas se um quer preto e outro branco...

- Preta é a morte e é dela que alimentamos a vida...

- ...O arco-íris.

- Que quando se unifica é branco.

- É indiferente, então, o que eu quiser...

- Ao invés, é tão importante que, sem a tonalidade de cada um, jamais atingiremos um dia a pureza da brancura.

- Mas nada mudará...

- Mudará tudo, porque tudo será cada vez mais da cor que tu lhe deres.

- Terei tal poder?

- O porvir hás-de ser tu, o futuro seremos nós.  À medida  do  nosso sonho,  do  sonho  que formos capazes de sonhar.

 

       1656

      Morto

 

- Mestre, podemos recuperar um mestre morto?

- Jamais.

- Não sobrevive?

- Não.

- Não ressuscita?

- Não.

- Fica reduzido a um silêncio eterno?

- Dá voz a outros.

- Mas ele, pessoalmente?

- Morreu definitivamente.

- Sem esperança?

- A esperança, para ele, somos nós. Mas nem a esperança lhe resta: porque ele não é nada.

- Então?

- Nós é que damos sentidos aos sentidos que ele nos deu..

- Sobrevive-lhe a mensagem?

- Não, nós é que sobrevivemos pela nossa mensagem que nos chegou por ele.

- Só isso?

- Só, até que algum dia rompamos a porta dos limites.

- E então...?

- Vencido o espaço-tempo, vencido o relativo, a plenitude ficar-nos-ia ao alcance.

- E a morte?

- Vencê-la-emos: ressuscitaremos os mortos.

- Os mestres, queres dizer.

- Não, os mortos. Que todos somos mestres, mesmo jamais reconhecidos.

 

       1657

 

    Homem

 

- Mestre, que é o homem?

- Junção da eternidade e do tempo.

- Mas é mortal.

- Cada indivíduo.

- A espécie ocorre no tempo: pode sempre extinguir-se...

- Enquanto não criar um tempo eterno.

- A eternidade impossível...

- Não, seria ainda só meia eternidade possível.

- Mas inexequível...

- Não, sempre indefinidamente aproximável.

- A eternidade da alma?

- Do corpo e da alma, que cada homem é um só: ou se salva todo ou nada se salva.

- Estamos então perdidos!

- Enquanto a eternidade não assumir e consumar o tempo.

- Uma eternidade temporal?

- É a outra metade do tempo eterno.

- Jogos de palavras...

- Não, jogo do real que é simultaneamente a realidade jogando-nos.

- Somos joguetes?

- Enquanto o Universo inteiro se resume em nós e por nós joga a sorte do todo.

- Quais são nossas possibilidades?

- As dum campo de forças.

- Temos saídas?

- Infinitas.

- Com que poder?

- O do infinito.

 

       1658

 

      Tudo

 

- Mestre, o espaço é tão grande!

- Infinito.

- O tempo é tão extenso!

- Interminável.

- Como poderemos atingi-los?

- Jamais.

- O infinito não nos está ao alcance?

- Ninguém sabe. Mas visamo-lo.

- Mas se é impossível...

- Por aí.

- Há outra via?

- Tentar o infinito em cada coisa.

- Se o alcançarmos será diminuto.

- Ao invés, será tudo.

- Como assim?

- É que tudo está em tudo. Se abrires uma janela, entra-te por ela o mundo inteiro.

 

       1659

 

 Dilaceração

 

- Mestre, porque vivemos tão dilacerados?

- Desejamos a eternidade prisioneiros do tempo.

- Não podemos desistir?

- Seria encurralarmo-nos numa das opções.

- Pararia o sofrimento?

- Jamais. Torna-se no inferno.

- Não há, pois, libertação.

- Há. Mantemos a tensão, perdura o apelo a sermos deuses.

- Mas isso é que é o desespero...

- E a esperança!

- Como?

- A fúria do amor pode romper com a fatalidade.

- Matando-nos?

- Transcendendo-nos.

- Sem nos aniquilar?

- Pela morte que ressuscita.

- Após a morte é o nada.

- Donde o amor pode criar tudo.

- Quem morreu já não ama.

- Mas pode ser amado.

- E daí?

- Do nada o amor o fez nascer a vez primeira. Assim será também da segunda.

- Reencarnação? Seria outra pessoa!

- Não. Ressurreição: só lá chegaremos quando, no fim, cada um for ele mesmo, para a eternidade.

- Só por um acto de fé.

- Não, se for precisa a fé, ainda não chegámos lá.

- Mas com que evidência?...

- Com a da infinitude cuja fronteira conquistaremos um dia.

- Antes disso já estaremos todos mortos.

- É verdade.

- Então, não há saída!

- Pode haver, desde que morrer seja mudar de natureza.

- Uma metamorfose?

- Não: o fim do ser em todo o seu modo para assumir o Ser-em-Todos-os-Modos.

- Como será?

- Ninguém o sabe.

- Mas é possível?

- Ninguém o sabe.

- Então...

- Aqui principia e acaba a fé.

- Não vale a pena.

- Ao contrário, é a única coisa que vale a pena.

- A única?!

- Sem isto é que nada vale. Absolutamente nada!

- Fico de mãos vazias.

- De mãos vazias é que somos todos. Só nos resta a possibilidade de as manter abertas à eventualidade de se encherem algum dia.

- Isso é verdade?

- Tudo o mais é ilusão.

 

       1660

 

        Ver

 

- Mestre, não vejo e não estou cego.

- Tens de ver com o sentimento.

- Dei uma topada na pedra. Não a vi!

- Tens de vê-la vivendo-a.

- Tornando-me pedra?

- Tornando-a um membro de ti.

- Mas ela é morta...

- Vivendo-a dar-lhe-ás vida.

- Ao utilizá-la?

- Não, ao senti-la.

- Com os sentidos?

- Não, com o íntimo, com o eco do coração.

- Então ela ficará sempre fora de mim...

- Nada no Universo está fora de ti.

- Não pode ser! O universo é infinitamente grande. Não cabe em mim!

- A imagem dele, o valor que lhe dás, o êxtase que te oferta não ocupam espaço: o infinito só existe no teu íntimo. Cá fora é tudo muito limitado.

- Mas não é jamais a pedra em si que terei em mim.

- Enganas-te. A pedra em si é apenas justamente o que dela houver em ti. O mais é ilusão.

- Mas está aí.

- Apenas aí está o que alguém, no íntimo, dela viver e partilhar.

- Mestre, como é possível se ela existe antes de alguém ter existido?

- Antes de alguém ter existido, Alguém a existiu e continua existindo para que ela exista hoje para nós e para que, por ela, possamos existir para todos, sempre.

- Não creio que a pedra seja alguém.

- E não é, mas o que vês de Alguém que a vive.

- Mas é apenas ela!

- Evidentemente. Só que ela é a palavra que Alguém te dirige.

- Não ouço palavra nenhuma...

- Mas podes vê-la se quiseres ver com o coração. E só tal palavra vale a pena ver-se.

- A ciência não presta?

- Prestará quando a ouvirmos no íntimo. Então ir-nos-á revelando Alguém escondido na palavra do Universo. Até lá andaremos cegos vendo tudo.

- A ciência desvenda o segredo cada vez mais...

- E nós tanto mais cegos quanto mais virmos!

- Como prová-lo?

- Só pode provar-se o que não vale. O que vale não se prova, vive-se.

- Mas se não existir...

- De que prova precisas de ti, se te vives?

- De nenhuma. Sou eu.

- Só se prova o que não se vive. Vive o Universo e não precisarás de prova.

- Elimino a ciência?

- Não. Apenas a prova. É que precisas de conhecer para decifrar a palavra da imensidão.

- Sem prova não descortino a verdade.

- A prova torna-se o teu dicionário. Não demonstra, traduz-te a mensagem de Alguém. Não é muda, também fala de ti a outrem, através da palavra-pedra, através do discurso-Universo.

- Então o meu saber...

- Será o segredo desvelado de Alguém para todos; tu serás o porta-voz, o tradutor do Infinito.

- E o que eu fizer....

- Será tua palavra feita pedra e Universo, conversando com todos em todo o tempo.

- E com Alguém?

- Será tua resposta a Alguém, tornando-te corpo do Universo. Serás corpo alargando-te ao Infinito.

 

       1661

      

      À Toa

 

- Mestre, sabe o homem o que faz?

- Jamais.

- Não tem um sentido?

- Tem-no sempre e nunca é verdadeiro.

- Mas crê nele?

- Quando tem algo de sábio.

- Algo?

- O sábio verdadeiro crê e sabe que a crença é falsa. Irremediavelmente.

- Isso é estúpido.

- Estúpido é o vulgar: gesticular à toa.

- À toa?

- Ninguém sabe o que faz. Pensa que sabe e isto lhe basta.

- Por que não se pára de vez?

- Mexem-se apenas para não ficarem quietos.

- Que é que os move?

- O medo de enfrentarem o que são, o terror do que serão, o pesadelo do que lhes está fatalmente acontecendo.

 

       1662

 

 Sossegado

 

- É noite, mestre, tudo dorme sossegado.

- Tudo dorme sossegado, quer de noite, quer de dia.

- Em vigília, mestre?

- Em vigília é que se dorme a sério.

- Por distracção?

- Por concentração. Ninguém vê o que está para além.

- Mas vê o que vê.

- Não. Apenas vê o que quer ver e não acredita no que vê.

- Afinal, vê ou não vê?

- Vê quanto o deixa sossegado e ignora quanto o perturba.

- Simula não vê-lo?

- Não, torna-se cego.

- Voluntariamente?

- Inconscientemente. Por isso é que é cegueira a sério: não vê definitivamente.

 

       1663

 

     Peritos

 

- Mestre, estou divertido e alarmado.

- Com um comportamento bizarro?

- Com a obediência cega às regras e regulamentos.

- Os homens dependem dos sistemas que criaram para se libertarem.

- É contraditório.

- Se a cegueira for a norma.

- Mas são os mais lúcidos...

- Têm uma fé inabalável na lei; na ciência, fruto e norma da lei; na técnica, lei incarnada. Não são lúcidos.

- Mas se os sábios são escravos...

- Não são sábios mas peritos, peritos em escravidão. O sábio é livre e libertador.

- Estes de agora são servos da tecnologia. Vivem obcecados por ela.

- As máquinas são os novos senhores.

- Mas são mesmo eficientes.

- Pode não ser mau, enquanto tal for o sonho e a carência do homem.

- Liberta, então, mestre?

- Os demais, não os humanóides telecomandados.

- Como é possível? Todo o fruto da escravidão é desprezível.

- Quando a escravidão é forçada. Esta é voluntária e militante.

- E o fruto não degrada, como ocorreu através das eras?

- Só a quem creia nos dogmas das jaulas doiradas. Sem os dogmas, restam instrumentos, bens e serviços. Para libertar e promover ou para oprimir e marginalizar. Ao arbítrio e consciência de cada um.

- Até quando?

- Até ao dia em que as máquinas se avariem.

- Aí pararia tudo: seria um bem.

- Seria um mal. Para os escravos, que já não sabem viver sem dono. Para os libertos, que já não sabem viver sem hábitos.

- Mas tudo então seria recuperável...

- Ou tudo ficaria perdido: aí as máquinas poderão tomar o poder. Definitivamente.

- Como assim, mestre?

- A obsessão da ausência delas pode submeter-lhes de vez a humanidade inteira. Tudo e todos, humildes, ao serviço do novo deus ausente.

       1664

      Perdi

 

- Mestre, perdi o sonho!

- Mergulha em teu íman.

- Qual?

- Primeiro a água.

- Nadar, ir à praia...?

- Não.  Abandona-te inteiro ao abraço da água-mãe: deita-te nela, fecha os olhos e deixa-te embalar.

- Repousar?

- Reencontrarás a paz.

- Mas como viver?

- Segundo a árvore.

- Plantando-a?

- Não. Abraçando-a. Aperta-lhe os braços à volta do tronco.

- E daí?

- Sente a vida fluir, suave, dela para o teu corpo abatido.

- E terei força?

- A força da árvore passará, discreta, a robustecer a tua fragilidade.

- Basta uma?

- Primeiro, uma. Depois, a floresta inteira. Quando a força te embeber, poderás voltar ao seio dos homens. Ficarás ébrio de vida. Serás a alegria.

 

       1665

 

   Domínio

 

- Mestre, é feliz quem domina?

- Nunca.

- Então o ideal é a obediência.

- Depende.

- De quê?

- De ser ou não em consonância com teu íntimo, com o sonho de plenitude que te anima.

- Nesse caso não obedeço.

- Obedeces, em ti, ao que em ti te ultrapassa.

- Mas não a uma chefia.

- Obedeces a uma chefia que te mande obedecer à profundeza de ti próprio.

- E se não mandar assim?

- Impede-la de dominar-te. Libertando-a da perversão do domínio, leva-la a comandar em prol de tua plenitude: tua chefia também pode ser feliz.

- Como educarei meu filho? Aí sou eu que mando.

- Mandando-o ir dominando sua vida.

- Mas ele não a pode controlar.

- Por isso a infância é infeliz, contrariamente ao que julgam.

- Então?

- Dá-lhe cada dia mais participação em quanto lhe diga respeito.

- Se o fizer...

- ... Dás-lhe o sentimento de poder controlar a vida mais e mais.

- E daí?

- A esperança de algum dia atingir a plenitude principiou: passo a passo tem a prova de ir a caminho. Cada vez será maior o poder para realizá-lo. O infindo começa a ficar ao alcance.

 

       1666

 

   Pertença

 

- Mestre, ninguém gosta de mim.

- Faz algo por outrem.

- Mas fiquei abandonado...

- Apenas deixaste de dar-te a alguém gratuitamente.

- E quem o fará por mim?

- Tu!

- Como, se é por outrem?

- Se te dás a alguém, pertences-lhe, és parte dele.

- Alieno-me, despersonalizo-me...

- Ao invés, se é por gosto, seduze-lo, conquista-lo.

- Manipulo-o, manobro-o.

- Não serias gratuito, ficarias mais só.

- Então dominar-me-á...

- Ninguém dominará ninguém. Pertencereis um ao outro em reciprocidade.

- Acabará o vazio?

- O sentimento de pertença plenificará cada minuto de vossos dias.

- Dar-lhes-á sentido?

- Rumo ao Nós total sempre visado, jamais consumado. Germinareis toda a fecundidade da Vida.

 

       1667

 

   Apreciar

 

- Mestre, ninguém me aprecia.

- É que não aprecias ninguém.

- Se lhes der valor, valorizam-me?

- Não.

- Então?!...

- Faz que se apreciem a  si próprios.

- E eu?

- Aí apreciar-te-ão.

- Como?

- Em ti residirá, a partir de então, o valor deles.

 

       1668

 

     Alegria

 

- Mestre, como encontro a alegria?

- Dando-a.

- Como dá-la se a não tenho?

- Como o artista.

- Mas o artista não dá alegria.

- Pois não.

- Então?!...

- Ele encontra alegria ao partilhar o belo com todos.

- Mas se eu não for artista?

- Torna a vida inteira uma obra de arte!

 

       1669

 

      Gerar

 

- Mestre, a alegria é genética?

- Jamais, só a predisposição à serenidade.

- Vem do clima criado por pais felizes?

- Jamais, embora a corrobore.

- Como?

- Ajudando a aprender a atitude adequada para gerá-la.

- Como se gera, afinal, a alegria?

- Cada qual tem o poder de emaná-la das profundezas do próprio íntimo.

- Como?

- Vivendo-se inteiro a partir daí.

 

       1670

 

  Felicidade

 

- Mestre, a felicidade é possível?

- Jamais.

- Então seremos fatalmente infelizes.

- Nunca.

- Como assim?!

- A felicidade é aproximável.

- De que modo?

- Admira alguém.

- Que me adianta?