13ª. Redondilha
É do saber
neste arrimo
É do saber neste arrimo
Que consiste em quanto é
riso
Que canto a falta de siso
Do siso com que redimo,
Rindo, a queda lá do cimo
Donde, sendo com juízo,
Somos a espécie que viso
Com a razão em meu imo.
Com humor, com ironia,
Com sarcasmo, o canto
enfia
A lança em nossas
costelas.
Sorrindo no desencanto
Se nos aponta o recanto
Donde nos piscam
estrelas.
O bom humor de que eu
gosto
Não vos vou pedir desculpa
É tal que me leva a
rir
Por avançar para a luta,
Por uns momentos com
gosto
Que o homem é que tem culpa
- Mas faz pensar a
seguir.
De ser um filho da puta.
Enfeito-me co'o
alfinete
O violino, bem tocado,
Invisível pròs
sensatos
Chora. oferta incenso e mirra.
Com que lhes pico o
colete,
O meu não chora. Engasgado,
Forçando-os a
desacatos.
Em vez de chorar, embirra!
Toda a vida é uma
anedota
"Um artista ou é bêbado ou falido
Quee não tem graça
nenhuma.
Ou então as coisas ambas."
Porém, quando a gente a
adopta, - Como
as não sou, vês-te perdido,
Só a rir ela se
consuma. Crítico,
e descambas.
No carnaval desta vida,
Em férias de carnaval
Máscaras e
fantasia,
Vive sempre meu País
Teu marido te
convida
Por isso é que o que ele vale
P'ra com ele ir à
folia.
Um riso de momo o diz.
"Sinto-me mal", -
dissimulas- 1761
"Vai tu, vê se te divertes."
E a máscara lhe ragulas Nacionalidade
Com os teus jeitos solertes.
Minha
nacionalidade?
Mal ele sai, logo
vestes Cada
vez mais europeu!
Tua ignota
fantasia. Português
serei sempre eu
Depois atrás dele
investes,
Mas de naturalidade.
Clandestina, na alegria
Cidadão
do mundo? Sim,
De lhe ir fazer a
surpresa Um
pouco como quem sonha...
De uma aventura
amorosa - Ninguém contra mim deponha,
Que tanto melhor se
preza Que
eu sou sempre assim-assim...
Quanto impensada se goza.
Vês a máscara entre as mais,
Vais seduzi-la e levá-la
Suiça
Para a sombra dos pinhais:
Amam-se ambos numa
vala. A cobiça há quem me atiça
Por
ser muito muito viajado;
Anónima e
fugidia, Mas
eu vou sempre à "Suiça"
Somes quando te quer
ver.
Só p'ra comer um gelado!
Em casa, no fim do dia,
Perguntas-lhe o
parecer.
1763
"Acabei não indo à festa.
Ancião
Dei a máscara a um colega.
Diz que mulher como a
desta
- Por que choras, ancião, neste banco
Jamais viu com tal
entrega!"
de jardim?
- Porque sou centenário e uma jovem
- Ai Pátria do amor trocado!
apaixonada aguarda em casa por mim.
Quanto amor vens
celebrar - Isso é motivo de choro?!
E é sempre este amor
errado - É que me esqueci de onde moro...
Que me rouba meu
lugar!
- Quem és tu, afinal?!
-
Portugal!
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Somos o País das jornadas
adiadas,
O que mais nos asfixia,
Do avanço aos
poucos:
Teia que prende o País,
- Sofremos de falta de
estradas
É mesmo a burocracia
E de
loucos...
Que em tudo mete o nariz.
1765
Ora, para quem obvia
A uma tamanha prisão,
Turismo
Não
há como mais um dia
Celebrando,
em euforia,
- Oh, Céus! Por que é que Portugal é tão
bonito? Desburocratização:
- Para, atraindo-te, superar teu
conflito. Cem mil comemorações
- Por que é que os portugueses são tão
E mil resmas de papel
encantadores, tão
hospitaleiros?! Que sobre a vida depões,
- Para poderes amá-los e não os venderes
Fora as mil deslocações
por trinta
dinheiros. Que
nos tecem novo anel
- Adoráveis! Mas também tão estúpidos, tão
De novas imprecações.
estúpidos!... Quem iria imaginar?!
- Isso é para te poderem
amar... Para, por fim, concluir
Da
urgente necessidade
1766
De mais uns mil burocratas
Que
nos possam resumir
Inveja
Como
será que a gente há-de
Acabar
com tais empatas.
No estrangeiro, se alguém
vê
Um jardim crescendo em
frente E, com a força do malho
À casa de seu
vizinho
Garantindo eficiência,
Quer saber logo como
é Vem
já um grupo de trabalho
Que outro planta, bem
virente,
E mais uma presidência.
Para si, com mais
carinho. Como
o problema é tamanho,
Urge
ter a garantia
Em Portugal, ao
invés, De
que sairemos com ganho:
Se alguém olha, de
revés, Cria-se,
com arreganho,
O jardim que alguém
plantou,
De Estado a Secretaria
De inveja lhe
praguejou Que
tem por finalidade
E, de ciúmes
roído, Vir
a pôr fim, de verdade,
Mal o apanhe
distraído,
À maldição desta teia
Sem mais figuras de
estilo,
Que tanto mais nos enleia
- Corre logo a
destruí-lo!
Quanto mais a combatemos.
O País mais suas pratas,
Para que as não afundemos
Quer muito mais burocratas
Do que antes que por tal demos:
"Abaixo a burocracia!"
- Grita com papel selado,
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Mais o carimbo e a
mania
- Cama de casal. Veja, é o primeiro!
De que um passo, p'ra ser
dado,
- E só pelo seu peito inchado
Precisa de ter a
guia
O senhor fez-me interromper o meu chuveiro?!
Assinada e
conferida.
... Que lá o resto não é
vida!
1771
1768
Ignorância
Analfabeto Muitos que se crêem
cultos
Crêem-no
por compararem
Portugal, um País
analfabeto?!
Sua ignorância aos insultos
Ao preço a que os livros
vão, Da dos demais e ganharem.
Quem for poupado e discreto
Vai-os comprando a
intervalos,
1772
Co'eles faz decoração...
... Não lê só p'ra não gastá-los!
Intelectuais
1769
Nossos
intelectuais
São provincianos, mas nossos:
Trânsito
Quando falam, damos ais;
Se escrevem, servem-nos ossos.
Portugal é o tal País
Se um ditador arsenais
Onde a estrada mais nos
mata.
Do povo explode aos pescoços,
Com olhos celestiais
Conta-me um velho
feliz:
Eles oram pelos vossos.
"Já não chego até à
mata.
Se, porém, vos revoltais
Eu oiço mal, vejo mal...
E vos servis dos punhais,
Mas pode ainda
piorar:
Estrondeiam, fazem mossas
- Por agora, é bom
sinal,
Contra a guerra que animais.
Ao menos posso
guiar!"
Tal é a paz que, racionais,
Cultivam nas suas fossas.
Chuveiro Sapateiro
Um Rolls-Royce euroamericano
Pára ao
lado
Se és um sapateiro à peça,
Do
lusitano Não
queiras ser quem não és:
Automóvel
Sado. Crês que pensas co'a cabeça
E
depois pensas co'os pés!
"Telefone?! Telefax?! Televisão?!
Bar?!..."
- E o sim do ricaço a confirmar.
-
1774
"Mas não tem cama de casal!..."
Pés
Humilhado, o magnate corre a pô-la.
À próxima em que param num
sinal Neste mundo sapateiro
Dá uma
carambola
Como vais saber quem és
No vidro a escorrer, embaciado,
torrencial Se perdes teu ano inteiro
Do mísero
Sado. Sempre
a pensar com os pés?
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Eu sou careca de
ideias,
Há uma esquerda muito esquerda
Por sobre a minha
cabeça
Que à direita se traduz:
As aranhas armam
teias:
Come tudo quanto ela herda
Como há razão que em nós cresça?
E de ver nos suga a luz.
1776
Das
ditaduras o pus
Proletário vem comer da
Sensato
Mentirosa contraluz
Democrática de esquerda:
É um homem muito sensato
E a conversa, de primeira!
Toda a mentira é verdade
Só que diz, mal me
precato: E o retrocesso é progresso;
"Sou Nuno Álvares
Pereira!" Quando é mísera uma herdade,
1777
É dos ricos
um abcesso...
- Este esgoto de processo
Sábios
Desta esquerda é a identidade.
Sábios de cá só
compensam
1781
Vagos atrasos mentais:
Sabem quanto os outros pensam Contra-Revolucionário
Eles não pensam jamais!
Contra-revolucionário,
1778
Vai sofrer a
execução,
Nem deixam que coma os bróculos...
Diabo
- Capitalista primário,
O seu crime sem perdão
O pensamento é o diabo, É que se atreve a usar óculos!