SEGUNDA REDONDILHA
A ESPERA RECRESCE
Escolha aleatoriamente um número
entre 162 e 341 inclusive.
Descubra o poema correspondente
como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
162 - A espera recresce
A espera recresce
Nos botões que brotam
E jamais se esgotam:
É o sonho e acontece!
163 -
Consciência
169
- Raciocínio
A consciência é
uma presença,
De raciocínio chamamos
Não dos freios
que me
domem,
Muito
a estes argumentos
Mas do passo além
que eu vença:
Em que nossos pensamentos
É já Deus
presente ao
homem.
Pensem
como já pensamos.
164 - Estrada
170 - Artista
Bem longa estrada
da vida
Todo
o artista começou
É a desta
estranha
ciência
Por nem sequer se supor
Que de longe nos
convida
Neste acto em que se gerou:
Da pendência à
independência.
- O ser um admirador!
165 -
Sonho
171 - Engano
Sonha e faz
acontecer
Um engano é só um engano.
O porvir que nos
convém.
O erro nele só perfilo
Tudo começa por
ser
Se o encobrir com o pano
Ao ser o sonho de
alguém.
De recusar corrigi-lo.
166 -
Injustiça
172
- Responsabilidade
Cometer uma
injustiça
Temos medo de assumir
Só desonra uma
parcela:
A
responsabilidade,
A de quem nela se
enliça,
Mas, sem ela, descobrir
Não a vítima ao
sofrê-la.
Não
logramos nossa idade.
167 -
Vidas
173 - Duas palavras
A vida são muitas
vidas,
São
duas palavras,
São mil
oportunidades,
De três letras são,
Todas as mil já
perdidas
Com
elas te lavras:
Em ilusões e
vaidades.
São o sim e o não.
168 - A matar
174
- Dia
Sensatez não é
lugar
Quando é que termino um dia
Único de alguém
vencer:
Satisfeito e não me iludo,
Um louco que
entre a
matar
Donde vem a mais-valia?
Às vezes logra o
que
quer!
- Dum sonho que incarne em tudo!
175 - Imagem mental
Vivemos tanto do sonho
Que a minha imagem mental
Me redobra quanto ponho
Em quanto aponho sinal.
176 - Fingir
A vida é a fingir,
Não é realidade:
Arte de mentir
A falar verdade!
177 - Nó
A vida dá muito nó,
Prova mil marcas de vinho:
Eu sou pobre como Job
Mas voo, tal passarinho.
178 - Vidas
Há tantas vidas na vida
Que a vida jamais viveram!
A vida, se é bem vivida,
Vive as mortes que a morreram.
179 - Orgulho
O orgulho nem sempre é perda
Por muitas perdas que o tomem,
Porque orgulho sem soberba
Não humilha, eleva o homem.
180 - Igreja
Toda a igreja é uma heresia,
Que o Deus que sempre procuro
Se esconde algures na via,
Obscuro, a meio do escuro.
181 - Beleza
A beleza está nas coisas
Ou em vê-las com amor?
Mora no que nelas poisas:
É nas tintas do pintor.
182 - Alma
Aos homens de maior alma
Numa coisa os não alcanças:
São, ao levarem-te a palma,
Mais crianças que as crianças.
183 - Pátria
Minha pátria é aqui ou lá,
Qual é o critério ou razão?
- A pátria sempre estará
Onde está meu coração!
184 - Raça
O lado dos caçadores
É o dos homens e o das feras,
Que ser homem são as dores
De ser caça nas esperas.
185 - Morte
O que a morte tem de bom
É enterrar no esquecimento
A vergonha que dá o tom
Com que a vida me atormento.
186 - Avatar
A vida pode ser vista
Como um eterno avatar:
E que, entretanto, eu exista,
Sou o eterno a caminhar.
187 - Álibi
Procuramos o alibi
Para sermos o que somos
E já nem somos aqui,
Uma vez que jamais fomos.
188 - Vitórias
Há vitórias que enobrecem
Mesmo até a parte vencida:
- As cujos louros se tecem
Com os dois lados da vida.
189 - Força
Há quem queira mostrar força
E afinal mostra fraqueza,
Que a força, quando alguém força,
Força como alguém que reza.
190 - Mundo novo
Construir um mundo novo
Não é só esquecer o antigo:
Só no espírito é que inovo
Co'os valores a que me obrigo.
191 - Aqui
Embora nascido aqui,
Daqui vivo expatriado,
Não porque daqui parti,
- Porque no mundo fui nado.
192 - Oportunidade
Terra da oportunidade,
Em que te mudou a luta?
É que, em vez de liberdade,
És só campo de labuta...
193 - Alma
Credos não erguem do chão,
A ideologia me espalma:
- A ânsia de superação
Tem de vir do fundo da alma.
194 - Lama
Amamos tudo o que é belo
Mas deitamo-nos na cama,
Tanto nos aterra o apelo
P'ra nos erguermos da lama!
195 - Fluxo
Lutamos de olhos fechados
P'ra não perder nosso luxo,
Perdendo o maior dos dados:
A vida é um perene fluxo.
196 - Sina
Temos marcada uma sina
Nu fundo do coração:
- Sempre em perca se termina
Lutar contra a evolução.
197 - Pouco
O poeta é amaldiçoado,
O pensador é um louco,
Um artista, um exilado...
- Ser homem, como ainda é pouco!
198 - Sábios
Como me estragam a lida
Quando procuro em seus lábios
Os oráculos da vida!
- Que ignorantes são os sábios!
199 - Liberdade
Nem dinheiro nem poder,
Segurança, autoridade
Podem por si nos prover
Nem dum grão de liberdade.
200 - Unem
Comunhão co'a natureza
E parco nível de vida
Só se unem em quem despreza
O que, longe, nos convida.
201 - Medonho
Medonho, mesmo medonho
É que reais muito mais
Que homem e mulher reais
São as criaturas do sonho.
202 - Tempo
Àqueles cujos pêlos mais se eriçam
Porque jogamos nós o tempo aos dados:
- Aqueles que mais tempo desperdiçam
São aqueles que estão mais ocupados.
203 - Aborto
A pátria faz-se
Ou é um aborto:
- A arte não nasce
Dum povo morto!
204 - Salva
Afinal, que é que nos salva?
Serão os actos de amor
Ou da ideia a atroz ressalva:
Pensar igual é o melhor?
205 - Interesse
Como desperta o interesse?
- Ou do ódio sob o império,
Ou, se o motor não é esse,
Bob o aguilhão do mistério.
206 - Funâmbulo
Nesta vida quem me ampara,
Quem me livra do ludíbrio?
Sou funâmbulo sem vara,
Nunca encontro o equilíbrio.
207 - Endireitar
Como na vida prover
P'ra endireitar membros tortos?
- Para uma árvore crescer
Podam-se-lhe os ramos mortos.
208 - Fado
Não é nunca impunemente
Que vou pôr rédeas ao fado,
Crime é andar pelo presente
Vendo apenas o passado.
209 - Acordando
Sonho que a vida acontece,
Sonho após que estou sonhando
E a vida não me arrefece,
Acontece ir acordando.
210 - Jogos
Decaem com o tempo as religiões,
Em vez da salvação dão-nos o olvido,
A fé e as crenças são vãs ilusões
Em jogos de palavras sem sentido.
211 - À porta
Conserva lá Marx ou Cristo,
Isso a mim pouco me importa.
O erro consiste nisto:
- E os que batem hoje à porta?
212 - Sonhos
Como os sonhos se realizam,
Os sonhos são de verdade,
Não só pelo que idealizam,
- Porque são a realidade.
213 - Realidade
À realidade a defende
Não a lei nem o canhão,
Mas o que irrompe e propende
A emergir, fundo, do chão.
214 - Guerrilheiro
Todo o artista é um guerrilheiro
De mão nua desarmada:
Uma ideia o veste inteiro
E nada vale mais nada!
215 - Buracos
Nossa música é feita de buracos,
Saltitamos de nota em nota ao frio.
Beirando os intervalos, eu ataco-os,
Mas o espaço interior já está vazio.
216 - Singrar
Singrar rumo ao mar ignoto
Para que os sonhos o domem,
Pintar quanto dele anoto
- Planta o sonho dentro do homem!
217 - Leão
Um leão enjaulado
Faz da raça humana
O perverso fado
Donde o mal emana.
218 - Escravo
Como dizer que não a uma criança?
Como ferir-me e não ficar exangue?
O que o sim me inaugura é o que me
alcança:
- Sou escravo de minha carne e sangue!
219 - Antes
Descobertas e invenções
Avançam ou recuaram?
Não tocando os corações,
Antes desumanizaram.
220 - Castiga
A obrigação nos obriga,
Não é preciso ter amos:
É que Deus não nos castiga,
nós próprios nos castigamos.
221 - Ligar
Quando nasce um grande artista
Vem-nos ao mundo ligar,
Ao mundo que a nossa vista
Parece ir repudiar.
222 - Causas
As causas das coisas
São as coisas todas:
- Quando numa poisas
As mais formam rodas.
223 - Educar
Que educação todos querem
É a magia de educar,
Mais que, quanto ali nos derem,
Com quem o deu vai ficar.
224 - Fonte
Sempre se mata o presente
Do passado no horizonte,
Por não beber da nascente,
De inebriado na fonte.
225 - Primeiro
Primeiro bebe na fonte:
Ausculta, calmo, a sapiência.
Depois conquista o horizonte:
Deita mão a toda a ciência.
226 - Espelho
Afinal, o imaginário
É um espelho deformante
Ou, de destro, é o que, diário
Me põe canhestro diante?
227 - Mística
Da razão o mais profundo
É a mística ter razão
E a razão, ao invés, não,
Quando na razão me afundo.
228 - Paisana
Discreto por entre os factos
A todos nós nos engana:
- Nossos actos não são actos,
Deus anda ali à paisana!
229 - Sábio
O que ao cientista fascina
É um campo a que se reduz.
Sábio, não: não discrimina,
Junta os farrapos da luz!
230 - Medidas
Medindo, a ciência sabe
E encaixa nas nossas vidas.
A sapiência jamais cabe,
Foge a todas as medidas.
231 - Segredo
O problema é que há um segredo.
Senão, para quê viver
Se tudo for mero credo
No que só parece ser?
232 - Descrença
A força que há nos ateus
Por vezes não há que a vença:
Há formas de encontrar Deus
Sem pôr em causa a descrença.
233 - História
História, enigma sangrento,
Quanto há nela de insensato!
...A não ser que seja o invento
Em que um sonho devém acto!
234 - Erro
O erro não é de temer,
Trata-o com urbanidade,
É que um erro pode ser
Um tradutor da verdade.
235 - Exílio
Mais a dúvida se adensa,
Mais a jornada persiste
Neste exílio sem sentença
Num lugar que não existe.
236 - Coragem
A realidade é perdida,
Não a encontro, é uma miragem:
No inventá-la lhe dou vida
E o medo obriga à coragem.
237 - Coração
Injecção não é conduto
Que alimente o que finou:
- Um homem novo é o produto
Dum coração que mudou.
238 - Arte
Um artista verdadeiro
Sofre a morte dia a dia:
Arte é o que busca primeiro,
Mas arte não é, seria...
239 - Calem
Um homem que adormece
Faz que as coisas se calem.
Que importa o que acontece?
Os factos nada valem!
240 - Homem
Enquanto o mundo nos fala
Da miséria que nos cobre,
O Homem retira-se e cala,
Medita um pouco e descobre.
241 - Antanho
Minha experiência de antanho
Conduz-me a este momento,
Governa-o com tal tamanho
que me pensa o pensamento.
242 - Assalto
A marca de quanto é vida
É efusão, transbordamento:
Toda a fronteira invalida
O meu assalto ao momento.
243 - Sinais
A vida pode ser mais,
Muito mais mortal que a morte
E a morte dar-nos sinais
Que abram quanto à vida exorte.
244 - Perdida
É uma alma perdida
Dum mundo sem alma
Quem trocou a vida
Dos livros p'la calma.
245 - Elidido
Desprezado pelo mundo,
É o Homem incompreendido
E o que acontece, no fundo,
É que o mundo é que é elidido.
246 - Colapso
Entre as ruínas dum mundo em colapso
Sobrevivemos e aqui se perfila
Nosso programa durante este lapso:
Apodrecer p'ra criar nova argila.
247 - Tempo
É o tempo aquela palavra
Incapaz de definir:
O passado o porvir lavra
Num presente a se esvair.
248 - Desilusão
A fraternidade
É desilusão:
Poeta sem idade
Só no céu tem chão!
249 - Raízes
A fome da humanidade
É uma fome de raízes:
Fartou-se da identidade,
Busca-se em novos matizes.
250 - Desconforto
Ser artista é ser da vida
No desconforto do mundo,
Co'a fraternidade assumida
Mergulhando em mar sem fundo.
251 - Encaminha
É quando alguém me encaminha
Que a vida se me invalida;
E ao viver a vida minha
Aos outros vou dar a vida.
252 - Sistema
Não confio nos que explicam