SEXTA REDONDILHA

 

 

O ANTIGO ACONTECE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 714 e 816 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

714 -  O antigo acontece

 

O antigo acontece

Na velha vasilha

Mas a maravilha

Também lá floresce.

 

 

715 - Espelho                                                                                            717 - Alturas

 

Sou um desconhecido aqui no espelho.                                              Alturas há nas quais tudo parece

Será meu rosto um rosto de idiota?                                                      Em nós cono ao redor subitamente

Tal é o terror que esmaga-me a tortura,                                                Estar mudando tanto que se sente

                                                                                                                    Quanto injusto devém quanto acontece.

Concentracionarismo já revelho

Com que o mundo me assenta a dura bota                                          Quanto foi sonho em nós então fenece

Nas costelas da vida que perdura.                                                        E é como vãs crianças de repente

                                                                                                                    Que atrás olhamos quanto nos fez gente,

Ignoro quem eu sou, nome ou morada,                                                Rejeitando-lhe então a inútil messe.

Não me recordo da aparência minha,

Ou serei uma bola pontapeada?                                                             Mas um homem agarra o que na vida

Quando o fim desta infâmia se adivinha?                                             A mesma vida lhe oferece, urdida

                                                                                                                     Em seus secretos, mesmo abjectos fins.

Quando, livre, aos portões é retomada

A liberdade de então mais comezinha,                                                  E com a fúria do que crê fatal

Tão perdido me sinto que sou nada                                                      Ele aproveita-o: então dá o sinal

E a fala já nem falo, se é que a tinha.                                                     De quantos nãos ele assim torna em sins.

 

 

716 - Pouco                                                                                               718 - Riqueza

 

 Para nos separar tão pouco basta!                                                       O dinheiro e a riqueza muito a par

Os seres que se querem quanto se amam                                            Caminham nas menções de toda a gente,

Para não verem quantos senões descamam                                        Quando a vida de facto a todos mente:

Do amor as uvas da mais fina casta!                                                    Às vezes os divide, se calhar.

 

Uma voz alta por demais arrasta,                                                          Que ser rico, primeiro, é venerar

Um gesto desastrado, um tique acamam                                             Em família o casal que assim cimente

Quantos feitiços num amor desamam                                                  Quanto futuro após o adolescente

E quanto uniu outrora agora afasta.                                                    Atravesse talhando seu lugar.

 

A gente sempre pensa: não é nada!                                                     Ser rico é satisfeito ver, segundo,

Tudo o que sinto e quero é mais profundo                                         A mocidade assim a abrir o mundo

Para nem consentir disto na entrada.                                                   E, terceiro, é ter fé que faz sentido

 

Queremos ignorar quanto há de imundo,                                            E falar com o Além então querido.

Preso na berma que margina a estrada,                                                - Ser rico, enfim, é termo-nos amado

Só que este nada então arrasa o mundo.                                             A caminhar a vida lado a lado!

 

 

719 - Maneiras

 

Tantas são as maneiras de viver

Que podemos até ficar confusos

Sem saber que fazer a tantos usos

De que o homem constroi seu próprio ser.

 

Do confronto por vezes já contusos,

O remédio bebemos à colher

Que pretende o problema resolver

A todos apertando parafusos.

 

Assim fundidos bem, unificados,

Em vez de livres, somos os pecados

Que vivem já o inferno sem perdão,

 

Quando âncoras baixar nos bastaria

Ou as velas soltar à maresia

Para as vidas enchermos de paixão.

 

 

720 - Portas

 

Nascemos num salão cujas paredes

Consistem nas mil portas dos possíveis

E porta a porta se escancaram níveis

Para o mundo lá fora que já vedes.

 

A sala está inundada, sons e sedes,

Luz e barulho quantos são vivíveis.

São todos os caminhos exequíveis

Mas nem a todos teu condão concedes.

 

Fechamos umas portas de propósito,

Com medo às vezes do que é seu depósito,

Às vezes firmes e, aliás, tranquilos.

 

Outras parecem, ao invés, fechar-se

Por si sozinhas e com tal disfarce

Que nem por trás lhes ouviremos grilos.

 

 

721 - Fala

 

Um homem se define porque fala

E assim se representa e o mundo fora,

Tenta visar o todo, muito embora

Haja momentos em que tudo cala.

 

Diz doutrem e de si e até se embala

Cantando este Universo em que se ancora

A sede de infinito que o devora,

Prisioneiro que está de estreita sala.

 

Contudo, para além de quanto diz,

Um outro além inelutável anda

E um certo aquém que sempre o contradiz.

                                                                                               

Aos dois de facto a fala não comanda:

- Nada diz do que nada significa;

Se significa tudo, mudo fica.

 

 

722 - Campeonato

 

A vida é um permanente campeonato

Sempre a tentar devir melhor que tudo,

Melhor além dos outros sobretudo,

Palpando a sorte do mais fino tacto.

 

Mas disto a aprendizagem é que um acto

Apenas sobressai dentre o miúdo

Quando é de mim que me afinal desgrudo,

Quando de meus limites me desato.

 

Da vida o campeonato verdadeiro

Cuja vitória a nós mais nos importa

Nunca se joga a meio do terreiro.

 

A sério o campo que nos abre a porta

Jamais é uma arena donde alguém se vê

- É o que resulta de quem quer e é!

 

 

723 - Noite

 

A noite é uma planície onde as estrelas

Na escuridão acendem as fogueiras

Longínquas, misteriosas sinaleiras

De navios perdidos nas procelas.

 

Sobre o veludo negro, a meia-noite

Discreta estende num colar diamantes:

Luzes da rua a segredar, amantes,

Ao colo arfante em que o sonhar se acoite.

 

E a Lua Cheia, calma, perscrutando

Os recantos do só desfiladeiro

Com finos dedos de luar catando...

 

O céu cobriu-nos com lençol de negro,

Salpicou-o de estrelas, derradeiro

Leito do eterno em que por fim me integro.

 

 

724 - Aldeia

 

Há muitos anos, numa velha aldeia,

Pelas estradas a poeira erguia,

Eram as nuvens da infantil poesia

Fantasiando abelhas em colmeia.

 

A nuvem era um carro que trazia

Alguém que se cansara, a vida cheia

Das ilusões que o mundo além ameia,

Que só o remanso descansado guia.

 

À noite, entre os enxames das estrelas

Pululam frémitos das almas mortas.

Algumas se desprendem, soltam velas,

                                                               

Tornam à terra, vêm abrir-nos portas...

- Mas se desejos voto siderais

É que eu não, não desejo nada mais!

 

 

725 - Morre

 

Quando África nos morre na violência,

Quando a fome destroça um continente

O que importa é sabermos de repente

Se isto é fruto ou se é causa da assistência.

 

Se aos biliões os dólares dormência

Espalham entre os povos, ninguém sente

As corrupções, traições com que se mente,

Mantendo dos escois toda a opulência.

 

Pois um país morrer ou não de fome,

Depende, não do que aos colonos tome,

(Tão prisioneiros andam desta culpa!)

                                                                                               

Mas sim de ter ou não imprensa livre,

Governo que dos déspotas os livre:

- Tais crimes não terão jamais desculpa!

 

 

726 - Pequeno

 

Quando presto atenção ao que é pequeno

Poderei até mesmo descobrir

Que nele se me vai discreto abrir

Do Universo o secreto eco terreno.

 

Assim foi que de fundo um vibrar pleno,

Suave e persistente fez-se ouvir

Quando uma antena apontará o porvir,

Do Universo captando o som sereno:

 

Que neste eco perdido nos espaços

Afinal chegam os primeiros passos

De todo o Cosmos a explodir primevo.

 

Reparar num pequeno som de fundo

Rasgou nova cortina frente ao mundo

E do nascer do mundo sou coevo.

 

 

727 - Nível

 

O pormenor em conta ter convém,

Em primeiro lugar, ao nível prático

Para apurar um agir fácil, ático,

Em que a palavra lavre para além.

 

Mas tê-lo em conta sugerir também

Uma atitude deverá, enfático,

Em relação à profissão, pragmático,

Porque é de nadas que ali cresce alguém.

 

A verdadeira chave do sucesso

No mundo dos negócios nem sempre é

A inteligência nem o mais que peço

 

Que alçado me enalteça da ralé.

Este é o nada em que tudo principia:

- A competência atenta dia a dia.

 

 

728 - Perfeccionismo

 

Demasiada atenção aos pormenores

Dar poderemos certamente às vezes:

Há do perfeccionismo espúrias teses

Que ninharias tratam bem menores

 

Que os objectivos principais, maiores,

Sacrificando os nossos entremezes.

Devemos perguntar todos os meses

Até que ponto são de nós senhores

 

Estes desvios, ao invés dos nadas

Que nos importam para os nossos fins.

Que quando nos desviam das jornadas

 

Convém abandoná-los como ruins.

Se não escrevem nada em nossas loisas,

Troquemo-los então por outras coisas.

 

 

729 - Demanda

 

Movimentarmo-nos para outra banda

No dia-a-dia nunca é diferente

De procurar, perdido, o norte ausente,

O rumo que nos leve ao que alguém anda.

 

Saber o que buscamos na demanda

Ajuda a decidir o que é premente

Numa tarefa que se leva em frente,

Que desde então novo rumar comanda.

 

Nisto é que a qualidade se não finge,

Que um objectivo por quenquer se atinge

Quando os fins visa e o pormenor se atende.

 

E eis como o dia-a-dia é o importante:

- Discreto orienta o passo para diante,

Em cada nada é o todo que defende.

 

 

730 - Segredo

 

Dos outros o sucesso atribuimos

A algum segredo especial, por vezes,

Golpe de sorte, quando não corteses

Tráficos de influências que zurzimos.

 

Mas o sucesso raramente vimos

Tão misterioso assim, já que os reveses

Ferem aqueles cujos maus arneses

Expõem flancos donde os entrevimos.

 

Apercebemo-nos aqui e além,

Mui repetido, que quem obra bem,

Sem descurar o que puder fazer,

                                                                                                               

A recompensa receber irá

Mais breve do que pensa, desde já:

- Mais ter também provém a um melhor ser.

 

 

731 - Controlo

 

Onde reside sobre as nossas vidas

Melhor controlo que no agir pequeno?

Coisas pequenas são de alguém sereno

Matriz primeira de qualquer das lidas.

 

Não é no imenso que me a mim convidas,

Que me ultrapassa, qual letal veneno;

Sobre o rasteiro voará o sileno

E deste perto é que irão longe as idas.

 

O pormenor me assegurou, compensa:

Fiado em mim, já desafio além

E assim dos nadas colho a recompensa.

 

E, de mim mais senhor, viso também

Desta pequena ponte a mata densa

Do meu melhor onde irei ser alguém.

 

 

732 - Julgamento

 

O que um bom julgamento requerer

De pensar ou sentir, é de viver

Que, ao fim e ao cabo, iremos precisar

Para a sério talharmos seu lugar.

 

O pensamento e a experiência são

O par do julgamento, em conclusão;

Porém, experiência feita à sorte

O nosso julgamento leva à morte.

 

Que se um bom julgamento nos resulta

Apenas do que for a experiência,

A verdade é que para ser bem culta

 

Esta demonstra uma esquisita essência:

Aquilo que experiência nos faculta

É dum mau julgamento uma evidência.

 

 

733 - Corrida

 

A vida é uma corrida sem descanso

Que nos principiou antes do início,

Já que fomos dotados de tal vício

Da Humanidade que não tem remanso.

 

Desde o ventre materno que me canso

Para ser e devir até o solstício

E disto fica sempre igual resquício

Quando o fim se aproxima calmo e manso.

 

E o curioso do cruel destino

É que já fui assim antes de ser:

Um espermatozoide sem mais tino

 

Os mais bateu e então me fez viver.

Sou, portanto, este fruto da corrida

Que me antecede e me atirou na vida.

 

 

734 - Ouvir

 

Se quiser dar-se bem com toda a gente,

O cônjuge, a família, os mais chegados,

Quando chega o momento de ouvir, tente

Perceber, já com todos os cuidados.

 

Momento de escutar silentemente

Que requer gestos de atenção dobrados,

Olhos nos olhos, inclinado em frente,

Com a cabeça a inquirir os dados.

 

Isto fará sentir-nos à vontade.

Mas a mensagem que nos logo invade

É a de quanto o parceiro nos importa,

 

De quanto nos importa quanto diz

E de como ouviremos de raiz

Todo o segredo a que nos abra a porta.

 

 

735 - Amigo

 

Com um amigo a sério tu não vais

Precisar de fazer uma outra coisa

Que não seja poisar a tua loisa

De lado abandonada à beira-cais.

 

Duma amizade os mais fiéis canais

Não são tarefas onde a acção repoisas,

Desvios da ansiedade onde tu poisas

Quando sem isso vês que vos não dais.

 

O verdadeiro teste da amizade

Não precisa de metas nem desvios,

Senão não tem assim tanta verdade.

 

A sério é conseguir não fazer nada

E sentir-se tão quente em meio aos frios

Que da vida esta é a vida mais sagrada.

 

 

736 - Diferente

 

É difícil ousar ser diferente

Suportando a pressão dos companheiros

E mais ainda quando, a andar ligeiros,

É o peso do sistema que se aguente.

 

Um amigo, porém, provavelmente,

Não cairá assim pelos boeiros

A não ser que não sejam verdadeiros

Os signos da amizade que ele ostente.

 

Tanto mais que, se alguém tem a ousadia

De divergir da ordem implantada

No poder, no saber, no dia-a-dia,

 

Poderá elucidar que ela anda errada:

Maturidade nisto evidencia

E a coragem de abrir-nos nova estrada.

 

 

737 - Não

 

É preciso aprender a dizer não

E é tão difícil a quem ainda é jovem

Quando são companheiros que o demovem

De ser inteiro com os pés no chão!

 

E, contudo, negar é a condição

De vir as forças afirmar que o movem

E que fronteiras afinal removem

Para torná-lo no que os homens são.

 

Fragilidade que por fim se vence

Quando de que é importante se convence,

Tem auto-estima e pesa quanto faz.

 

Ainda mais longe vai quando ele escolhe

No cais da vida qual vai ser seu molhe:

Firma seu não no sim de que é capaz.

 

 

738 - Firmeza

 

"Eu sempre te amarei" - dá uma certeza

A um adolescente já perdido,

Anónimo entre os mais, votado ao olvido,

De que algures a terra tem firmeza.

 

E a situação, mesmo fatal, não pesa,

Apresenta-lhe um fio de sentido,

No peito cala-lhe o mordaz gemido,

Tanto lhe empresta quem assim o preza.

 

Uma palavra significa mais,

Evita a crise prestes a estalar,

Quão mais na barca significa o arrais.

 

E assim pesará mais que se imagina,

Para um moço ir além de qualquer par,

Que de amor quem ele ama talhe a sina.

 

 

739 - Paralelos

 

O amor tem paralelos que o igualam,

Quer seja amor da pátria ou namorado:

Na beleza radicam nobre fado,

Miram a altura, tomam pé e alam.

 

Também o que seus gestos intervalam

Já por um som de passos é inflamado,

Um mero menear, cabeça ao lado,

Chispa as faíscas que mais fundo calam.

 

Tal é o segredo do país natal

Que se reaviva por visões comuns,

Como a neblina por sobre o nabal,

 

Num marmeleiro frutos bons alguns...

Será sempre através desses tais nadas

Que eternas ligações são avivadas.

 

 

740 - Ver

 

Aguardas que teus sonhos interprete,

Quando os teus são tão meus que nem os vejo,

E mais te irritas por não dar-te ensejo

De rever o que em ambos se repete.

 

É que ao amor, aliás, sempre compete

Das manobras comuns soltar o harpejo

E dentre os desencontros o desejo

Reencontrar então que os nós encete.

 

Anseias por que, cega, esta visão,

Em ti perdida, em mim venha a crescer,

Já que defronte te terei à mão.

 

Correspondendo, corro a pôr-me ao lado,

Mas a vista não pode nunca ver

O que sobre ela mora repousado.

 

 

741 - Juventude

 

Se procuramos definir a vida,

Sempre ela foge, escorre dentre os dedos

E sempre foram de anciãos os medos

Que para o Além a dão por remetida.

 

Aqui, porém, é que será cumprida,

Por muito que o confundam velhos credos,

Que o segredo maior dos mais segredos

É que é p'la vida além, indefinida,

 

Que fica a porta aberta ou encerrada.

É que esta vida, enfim, mato ou renovo

Quando aos vindoiros fecho ou abro a entrada.

 

Nos jovens é o porvir que nos convida:

A juventude arranjará de novo,

Alegre e sempre aqui, uma outra vida.

 

 

742 - Desgraça

 

Quando a desgraça nos bater à porta,

Somos iguais ao comum rol das gentes,

Ficamos pobres, todos já dementes,

E nenhum gesto pouco mais importa.

 

A mão erguida ou a cabeça torta,

Mudo sibilo escapando entre dentes,

No aristocrata tanto lá o pressentes

Como no mísero quenquer reporta.

 

E, se estrondosos devirão marulhos,

Todos acorrem a delir os tons,

Com gestos tais como quem dá mergulhos

 

Lentos, sofridos, que só tais são bons:

- Parecem, brandos, segurar barulhos,

Apalpam dos tamancos mesmo os sons.

 

 

743 - Desabar

 

A solidão solene de respeito

Se reveste somente ao desespero

Que se apodera do homem, por mais fero,

Quando vê desabar-lhe sobre o peito

 

A crença antiga que o lavrou a eito.

Prestes a aluir tudo o que quero,

É no silêncio que, fiel, sincero,

Ao peso vergarei do morto preito.

 

Mas o homem recusa-se a quebrar

A confiança que em si já depõe,

Que, ontem perdido, lhe ofertou lugar.

 

Só que já o coração não se lhe opõe

Ao poder dos eventos nem, a par,

À angústia com que, lento, o decompõe.

 

 

744 - Sonho

 

De antanho chegam marcas do passado

Cujas glórias morreram na poeira,

Vidas e sonhos, sem haver maneira

De evitar que trespassem mesmo ao lado.

 

Tantos projectos e fatal canseira

Para no fim não restar mais que o fado

De tudo já ficar predestinado,

Desde antes de ser algo, a ser caveira.

 

Entregue às feras sem ter pão nem pau,

É prisioneiro que entrevejo os fossos,

Não tenho ponte nem os passo a vau.

 

Como um mar coalhado de destroços,

A vida é já de si um sonho mau,

- Então por quê lá misturar os nossos?

 

 

745 - Muro

 

Diante de mim quando nasci nasceu

O muro que de mim me dividiu.

Quanto mais furo mais se afasta o muro

E não encontro então o que procuro.

 

Porém, encontro alguma coisa, enfim:

É sempre um lado que é um além de mim,

Mas que, embora além, é sempre um aquém

Deste muro que tenho e que me tem.

 

Como será que um dia nele passo

Se sou muro e jamais eu me ultrapasso?

Sou muro, sou e à sombra desta pedra

 

Sou a minhoca que no fresco medra.

À pedra, - "dá-me tempo que te furo!"

- Diz a minhoca e cairá o muro.

 

 

746 - Delícias

 

Realidade? Não consigo ver-me,

Quero demais se me quiser ver gente,

Sempre aqui fico, nunca vou em frente,

Na terra condenado a ser um verme.

 

Assim doi mais em mim ver este germe

Dum outro ser que me porá demente.

Minha razão é uma razão doente

Que em mim só busca o que fará doer-me.

 

A vida em volta não me traz carícias,

Antes me aumenta incontroladas gritas,

De tanta morte em que mudou blandícias.

 

Na vida só contra as fatais sevícias,

Só em sonho vejo e vejo-as infinitas

Do imaginário todas as delícias.

 

 

747 - Segredos

 

Os mais recônditos segredos fiam

No tear dos dias o melhor da teia,

Novelos de lã fiam e desfiam

Mas quem desfia o que o segredo ameia?

 

Basta encontrar o fio que seguiam

As voltas da meada em que se enleia

A jornada dos homens que se viam

A perseguir, febris, a lua cheia.

 

O fio... Mas que fio, onde se encontra?

Onde puxar nesta enleada meada?

Da raiva humana onde encontrar a montra?

 

O drama é que não há fio na estrada,

Atado cada qual se desencontra

Da vida numa vida só fiada.

 

 

748 - Demasia

 

É na medida que me perco ou ganho,

Embora sem medida o tempo corra

E me arrebate, faz que viva ou morra,

Soltando o gonzo à porta do cardanho.

 

Enquanto a vida lavra, meu amanho

Empresta-me a saudade que decorra

De quanto além dos montes mago ocorra:

Nem aqui vivo nem por lá me apanho.

 

Todas as coisas boas são, se boas

Também são as medidas deste ingresso

Em que as tomo, as recuso ou então dou-as.