SÉTIMA REDONDILHA
E POR DENTRO CRESCE
Escolha aleatoriamente um número
entre 817 e 912 inclusive.
Descubra o poema correspondente
como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
817 - E por dentro cresce
E por dentro cresce
O passo de além
Que me tem refém
E nunca aparece.
818 - Força
Não há força maior que a nossa
inteligência:
Domina a natureza que domina o homem,
Dela o préstimo expõe onde houver mais
premência
Servindo-nos então como àqueles que a
domem.
Os engenheiros rasgam estradas e pontes,
Aviões e satélites voam no espaço...
Mas importa que em tudo o coração apontes:
Entrelaça entre nós um mais estreito
abraço!
Cientistas inventam laser, raios X
E testam, comedidos, as novas medidas:
A inteligência traça precisos perfis
Com que amanhã podemos salvar outras
vidas.
As nossas horas ganham aguilhões viris:
Breve demolirão as muralhas erguidas.
819 - Mosquitos
Mosquitos na garrafa para fora a olhar,
Vivemos na ilusão de ter ao nosso alcance
O mundo além do vidro dentro ainda do lar,
Como certo tomando o que o sonho nos
lance.
Nenhuma frustração existe que nos canse
De contra o fatal vidro incansáveis lutar:
Sistemas e teorias, místicas em transe
Acabam e renascem em todo o lugar...
E sempre de ilusão nossa garrafa enchemos,
Contrariados, sim, mas nunca convencidos
Que a proibida fronteira não a imponham
demos.
E a verdade fatal que nos veio a calhar
É que seremos só, no meio dos bramidos,
Mosquitos na garrafa para fora a olhar.
820 - Destino
Destina-nos as vidas o nosso destino
E as probabilidades marcam-no ainda mais,
Sem que nada possamos contra o desatino
Que aos coxos em atletas não muda jamais.
A pantera na pele não muda os sinais,
Mas poderá, contudo, trocar o seu tino:
Se há cancro do pulmão, por que ainda
fumais
E por que é que o obeso se não torna fino
Se os genes à diabetes o têm propenso?
O nosso coração é hereditariedade
E pode acumular derrocadas se tenso,
Porém dás-lhe, ao treinar, cartão de
sanidade.
Para ganhar na vida não nos basta o
trunfo:
Na carta bem jogada é que mora o triunfo.
821 - Escrita
Dizes que não há nada sobre que escrever,
Não viste ainda o mistério que mora na
escrita:
Recria nela o mundo, dá-lhe um novo ser,
As pontes interliga e o traçado te dita.
E com isto, discreta, como quem não quer,
Bem por dentro de ti, enquanto se medita,
Vai-te desabrochando o fogo de entender
E com a natureza entra assim em compita.
Será tão criadora que o que não existe
Pode trazer à vida na imaginação,
Já que a literatura neste além consiste.
Renova dentro e fora com mago condão.
Tão autónoma e livre, escreve até a dizer
Mesmo que não há nada sobre que escrever.
822 - Familiares
Ao tecido das relações mais familiares
A frase que entre todas mais o tece e
destece,
Conforme lhe acontece ou lhe não acontece,
É confessar "eu te amo" sem
preliminares,
É confessar que te amo como numa prece.
Tão simples e difícil é ao céu trepares!
Outras dificuldades, porém, singulares
Nos tolhem o caminho onde o passo tropece.
Duma importância igual àquela confissão
Resta-nos a segunda, no final mais rara,
Já que de nosso orgulho nos leva a abrir
mão.
Esta firma em cimento as pedras da união
Que a confissão de amor, frágil, nos
ajuntara.
Basta só confessar:"Se calhar tens
razão."
823 - Perito
Vivemos iludidos por nova euforia,
A lutar esforçados por mais tecnocratas.
Com a escolaridade aumenta, dia a dia,
A lista dos doutores e o volume de actas.
Porém, a eficiência que se esperaria
Não desliza em esferas, anda de
alpercatas,
Enquanto estes peritos bebem a alegria
Do assalto pelas costas se te não
precatas.
Tudo porque esquecemos que o que mais
importa
Não é, com toda a pressa, como nosso fito,
Abrir a quem calhar uma rasgada porta,
É talhar um caminho a quem me lança um
grito:
Porque um desmotivado nunca a si se exorta
E um leigo motivado devirá perito.
824 - Segredo
A verdade liberta porque, livre, voa:
Deste modo atentou, feroz, a tirania.
O segredo jamais fora uma escolha boa
Senão quando percorre a noite até ser dia.
O segredo é um poder que a ninguém se
confia
E secreta é a polícia que até já magoa
Na suspeita e no medo em que se refugia,
Desarmados deixando os que persegue à toa.
Na verdade ou mentira, se houver
transparência,
Tudo se clarifica, quando for seu guia
Viver o pensamento buscando a evidência
E repartindo claro quanto encontraria.
Porque a verdade vive livre por essência,
O segredo em seu antro gera a tirania.
825 - Servir
Costumava pensar servir a Humanidade
E assim me confortava minha juventude.
Mas então descobri quanta gente se ilude,
Quanto doi o caminho para a liberdade.
A ingrata Humanidade não quer, na verdade,
Que ninguém vá servi-la, ninguém se lhe
grude
E, bem pelo contrário, recusa o que pude
Trazer-lhe: a tentativa da gratuitidade.
Recusando qualquer tentame de servi-la,
Afinal me liberta, mesmo que o não queira:
Posso por fim ser eu, vivendo à minha
beira,
Portanto, viverei pacato em minha vila.
Ao encontrar, surpreso, nisto, o meu
sentido,
Afinal sirvo o mundo e o Homem sai do
olvido.
826 - Bipolar
Sou homem, sou mulher, pessoa bipolar
E a bipolaridade é força de união
Onde muitos contrários se unificarão
Pelos séculos fora, por todo o lugar.
É tal esta energia que nos anda a par
Que dela respiramos e nos molda o chão,
Dali nós proviemos e os mais que virão,
Da força propulsora de tudo o que andar.
O gesto me impele e gera-me um soneto,
Enquanto além medita uma equação vital
E traça num filósofo um caminho recto.
Porém, se alguém pensar que exagero o
sinal,
Ausculte as bibliotecas, museus e
arquivos:
Veja quanto ele próprio são vestígios
vivos.
827 - Invencível
O homem tem um campo em que é mesmo
invencível,
É o desta ingenuidade de inventar maneiras
Mais e mais eficazes de aumentar o nível
De escravizar, matar, ter espias
matreiras.
É assim que se persegue do mundo nas
feiras,
Aos demais procurando um prejuízo incível
E jamais se dá conta que as manhas
arteiras
É a si que prejudicam, nunca tal lhe é
crível.
O homem é uma chalaça que não tem piada,
Anedota sinistra de que faz bem rir
E não é por acaso que anda à gargalhada.
Mesmo que torne um dia a Terra num
torresmo,
Mesmo que se elimine de qualquer porvir,
Sempre o Homem é o único a rir de si
mesmo.
828 - Acreditar
Será o Homem o ser capaz de acreditar
Até mesmo naquilo que é o mais improvável,
Numa superstição para o que for viável
Ou numa fé num Deus sem tempo nem lugar.
Vai desde o espiritismo, ao crer telefonar
Para um mundo de Além, a nós irrespirável,
Até aqueloutra crença, muito mais
saudável,
Da superioridade de filhos sem par.
Toda a fé, se não é uma preguiça mental,
Será apenas a crença no que minhas mãos
Amanhã criarão que de mim dê sinal.
Tudo o mais será sempre tão irracional
Como crer no Universo à mão dos cidadãos
Onde uma prece à chuva atalha todo o mal.
829 - Deus
Questionas: Deus quem é? E ficas sem
resposta
Na selva emaranhada de crenças, igrejas,
Dado que cada uma às das mais contraposta
Nas demais se aniquila impedindo que a
vejas.
Nem da filosofia na tese proposta,
Sequer da teologia na fé do que almejas
Irás além da nuvem, da sombra suposta.
No final só te resta aquilo que tu sejas.
Irmão desenganado, esse Deus que procuras,
Ao qual és cego e surdo e que jamais tem
voz,
Não mora longe, não, vive no que perduras,
Em tudo o que unificas, quando atas os
nós.
É por isso que a ti, nas palavras mais
puras,
Afirmo que és tu deus quando tu somos nós.
830 - Viúva-negra
A aranha viúva-negra é um tímido animal,
Duma beleza ímpar entre os aranhiços,
De couro envernizado e sem quaisquer
postiços
Num corpo de ampulheta, limpo e sem igual.
Mas esta criatura, não sei por que
enguiços,
Tem no corpo um veneno com um poder tal
Em tão pequeno ser que lhe vai ser fatal:
Em todo o mundo é morta por seus maus
serviços.
Tal fado a viúva-negra não pode evitar
Dado que não tem meio de não ter veneno,
Tanto é o poder que tem cada seu avatar.
E assim aqui andamos, com gesto sereno,
Laboriosamente sempre a nos matar,
A ver se alguma vez limpamos o terreno.
831 - Acaso
Ninguém pode acolher a tese dum acaso,
Tão popular por vezes entre os cientistas
Que tal se denominam para terem aso
À preguiça de quem só tenta dar nas
vistas.
O acaso não fornece as procuradas pistas,
Respostas contingentes nunca em nenhum
caso,
E eis como este Universo nos tolhe as
conquistas,
Sempre aqui nos deixando num terreno raso.
O acaso jamais é razão suficientre
Para o acaso enfim nos poder explicar,
De modo que a razão se desse por contente.
Por muito que se aventem motivos a esmo,
Jamais é dum acaso esse acaso o lugar,
Que um acaso não logra explicar-se a si
mesmo.
832 - Segurança
Religião é campo que não tem direito,
Pois que todo o direito é dela que dimana,
Mesmo quando o jurista da lei ergue a cana
Sem ver o canavial onde colhe o preceito.
É que o direito tenta assentar o que abana
Com aquela firmeza com que estreito ao
peito
A crença mais profunda que do imo me
emana,
Em busca do seguro ao inseguro
atreito.
Na eterna hesitação de salvar e perder,
Entre o escravo e o liberto joga-se a
tardança
Dum tempo que se aguarda sem jamais o ser.
E aquilo que mais custa é manter a
esperança,
Será sempre inseguro persistir quenquer,
Deste lado da tumba não há segurança.
833 - Ventre
Tão importante é aquilo em que nunca
pensamos
E tanto nos importa o que importa tão
pouco!
Tanto tempo perdido com servos e amos,
Com tanta indecisão entre o sensato e o
louco!
Quantas palmas batidas ao cantor que é
mouco!
Sonho os lumes e os píncaros e a vida
dá-mos
Nos rostos e nas obras de génios que
apouco
Para logo assentar que é por eles que
vamos.
Aos tronos elevamos quanto é formosura
E será uma obra-prima o que nos maravilha,
Dessedentando breve a sede da procura.
Tudo, porém, ocorre no que é superfície,
Já que por trás se esconde quanto nos
humilha:
Do pecador o ventre é cheio de imundície!
834 - Jovem
Primeiro a juventude é uma questão de
idade,
Aqueles anos verdes em que o sonho aflora,
Em que se vive inteira a vida numa hora
E somos cidadãos de toda a humanidade.
Depois é o sonho atreito a ser realidade,
Na espera do que vem e que jamais é
agora,
Que então rejuvenesce as cãs de quem
demora
E num jovem transmuda outra qualquer
verdade.
Para além dos rituais que os deuses nos
demovem,
Para além do desejo importa mais querer
Os abismos do fundo que ali nos comovem.
Para além dos motivos que a todos nos
movem,
O que por fim importa é ser o que se quer:
Ninguém velho é demais jamais para ser
jovem.
835 - Diferentes
Todas as coisas são sempre e só
diferentes,
Em cada identidade mora o irrepetível,
E esta riqueza é tanta que a cremos
incrível,
Jamais no-la abarcamos com as nossas
mentes.
Mais as modificamos e mais são prementes,
Em todas as mudanças, quando muda o nível,
Delas as semelhanças em quanto é passível
De se tornar comum pelas comuns vertentes.
Porque, quando dizemos:"isso é
diferente!",
Dizemos muito mais do que, afinal, dizemos
E menos que a verdade do que isso
consente.
Porque o que há de comum ali nunca veremos
Nem o que tiver de único e estiver
presente,
Que as coisas, se mais mudam, mais iguais
as temos.
836 - Riso
Entender as pessoas é entender o riso,
Mas por que é que será que as pessoas se
riem?
Onde está a gargalhada, as graças que
sorriem,
Será apenas e só numa falta de siso?
Ou será de alegria, de paz um juízo
Que o riso nunca pode deixar que se adiem,
Que em lugar de palavras no íntimo se
aliem,
De festa proclamando um estridente aviso?
As pessoas se riem, afinal, daquilo
Que tanto lhes doeu que não terão palavras
E atenta cada qual contra o que vem
feri-lo.
O riso é a nossa fuga a uma dor de
quenquer:
Quando as nossas lavoiras morrem pelas
lavras,
Rimos porque isto doi e assim não vai
doer.
837 - Vencemos
Uma coisa que é boa jamais é engraçada,
Por mais que nos doa por que seja assim,
E jamais é engraçada a coisa com piada
Para a pessoa a quem isso acontece enfim.
Duma coisa engraçada se rio no fim,
Não é que seja boa, o rir é que a alvorada
Inaugura em si próprio contra este mastim
Da dor em que minha alma vive mergulhada.
Então disto a virtude está no próprio riso
Que sempre constitui um acto de bravura
Em que em mim o inimigo ataco sem aviso.
E o riso é uma partilha em que a cadeia
rota,
De novo entretecida, a mão na mão segura
E a rir então vencemos dor, pena e
derrota.
838 - Universo
O estranho do Universo é que será uma
esfera
Cuja rotundidade é aqui policentrada
E, mesmo que o não fora em nenhuma outra
era,
Na nossa, na do Homem, não tem outra
estrada.
E não é porque em nós encontre a Primavera
A pureza das neves na altura enlevada,
Inspirado poema cuja voz nos era
Pelos céus encobertos à musa emprestada.
Nem sequer porque não possamos nós medir
Senão com a medida nossa toda a coisa,
Pois muito mais profunda é a esfera de
existir.
Aponta p'ra qualquer direcção do Universo:
Não importa onde apontes, teu dedo
repoisa,
Pois a ti é que aponta no mundo disperso.
839 - Artista
Um artista verá numa jovem bonita
Uma velha mulher em que se mudará.
E, quanto melhor for, mais o artista
debita
Na velha tal qual é a jovem que não há.
A sensibilidade vai ver acolá,
Se mais longe avançar na história da
desdita,
Presa ao corpo arruinado que ainda a jovem
'stá
Bem viva e conformada como quem medita.
O artista é que fará com que eu sinta a
tragédia
Silenciosa, infinita, de não ter havido
Nunca uma rapariga a ter envelhecido
Além dos seus dezoito anos nesta comédia,
Independentemente do que lhe fizeram
As impiedosas horas que ao fim a venceram.
840 - Sereia
A sereia que em terra preferiu ficar
E cujos pés lhe sangram pela escolha feita
Olhará eternamente para ver o mar,
Para sempre sozinha no que fora deita.
Outrora a Humanidade escolhera este lar,
Uma escolha difícil, porém sem despeita
E que jamais lamenta mas tem de pagar
Porque qualquer escolha tem paga da peita.
O preço não é apenas morrer de saudade,
A infinda nostalgia do definitivo,
Custa-nos outra dor doutra profundidade:
É que jamais podemos ter inteiramente
Nossos pés adaptados ao penedo vivo
E o sangue é que nos dá o direito a estar
presente.
841 - Modernos
Os artistas modernos são masturbadores,
Desdenharam pintar o coração humano
E seus mestres de escol humilham, de
senhores,
Matam nas abstracções o que tinham de
urbano.
Pseudo-intelectuais sem aval nem penhores,
Jamais descobrirão que arte é um antigo
arcano
Para em nós despertar as paixões e os
terrores:
Que insensível ninguém viva a roda do ano!
Um artista o que quer é o coração do povo
E jamais, às mancheias, pagas do Governo
Que assim a meretriz apoia complacente.
Estoutros são abstrusus e chamam renovo
Ao que ninguém entende e nada tem de
interno:
Sempre obscuro será o antro do
incompetente.
842 - Minhoca
Por mais que o rejeitemos, somos a minhoca
Que esgravata, esgravata o solo até
encontrar
Tudo o que ali procura prò meter na boca
E assim vai furar luras por todo o lugar.
Até que um dia encontra no fundo da toca
Aqueloutra minhoca com que funde um lar.
"Que bela que és, donzela!" - e
às vénias se coloca.
"Quererás tu, minhoca, comigo
casar?"
"Não sejas parva, que eu sou a tua
outra ponta!"
- Nós sempre que encontramos qualquer
outra coisa,
Um homem ou mulher, um gato extraviado,
Se mais peso lhe dermos, melhor dermos
conta,
É que neste Universo em que nosso olhar
poisa
Andamos conhecendo só o nosso outro lado.
843 - Amor
É o amor a emoção que nos leva a fugir,
É o amor a emoção que nos leva à procura
E todo o mundo tenta encontrar-lhe a
frescura
E nele se refresca sem o descobrir.
Nós apenas sabemos que é dele o porvir,
Que nos doi dele o parto com que tudo cura
E que exalta e destroi e, se mata a
secura,
Faz pagar-nos um preço que se fica a rir.
O amor é a condição da vida tão vivida
Que prà felicidade poder ser perfeita
Requer a alienação a quem lhe dá guarida:
Para ser mais feliz eu jamais me
ensimesmo,
Já que a felicidade a sério só me espreita
Quando na de meu par me encontrar a mim
mesmo.
844 - Artísticas
As profissões artísticas são mesmo
estranhas,
Pois que, se em vida ganhas, não és mesmo
artista,
Já que ser um artista implica que não
ganhas
Nem sequer para o susto de nem dar na
vista.
E nem sequer se sonhe que alguém cá
subsista,
Dado que da conquista quanto tu apanhas
É a pequena migalha que no escravo invista
Quem de ti se alimenta a sugar-te as
entranhas.
E assim será que as obras feitas com amor
Aguardam anos, séculos, na prateleira,
Até que um dia adquirem, afinal, valor.
Eis que o melhor trabalho então irá valer,
Ao fim de tanto tempo nesta sementeira,
Quando o autor já não vive para o receber.
845 - Pena
Quantas vezes sentimos de nós próprios
pena
E vai ser com sarcasmo que os mais nos
recebem,
Por inteiro incapazes, como quem condena,
De os outros acolher de que nada concebem.
Se as aves do trabalho em nossa taça bebem
Em breve, assustadiças, o medo as depena
Quando a contradição de súbito apercebem
Duma vida vazia em vez de vida plena.
Assim é que ninguém nos compartilha o
lado,
Por mais que a nosso lado viva a sina
incerta;
Sozinhos viveremos, fatais, nosso fado.
Mesmo que já não reste alguma porta
aberta,
É verdade, porém, que quem o traz calçado
É que pode saber onde o sapato aperta.
846 - Raparigas
As raparigas são como são os rapazes,
Têm sonhos, loucuras, como toda a gente,
Sonham com um amor culposo ou inocente
E sonham mesmo até co'o que não são
capazes.
Não é que as raparigas sejam mais audazes,
Já que os rapazes são-no, mesmo que,
incoerentes,
Não saibam onde ou quando vão ferrar os
dentes
E acabem derrotados onde foram ases.
Porém, as raparigas sonham outro dia
Sem deixar de sonhá-lo neste aqui e agora
E de implantá-lo já, sem ser em fantasia.
As raparigas são, sem haver mais demora:
As raparigas são aos rapazes iguais,
Só que elas são-no mais, são mesmo muito
mais!
847 - Cariátides
Somos nós as cariátides sempre caídas,
Nossos tectos tentando nos ombros erguer,
À margem das eternas, pobres avenidas
Que nunca nos cansamos de andar a correr.
Mas jamais estes tectos cobrem as saídas
Dos raios e coriscos que atentam quenquer,
Pois sempre nossas forças nos ficam
perdidas
Antes que nós cheguemos aonde se quer.
Tentámos, não tentámos, meus pobres
irmãos?
Porém, estes penhascos sempre demasiado
Pesados nos serão para tão frágeis mãos!
Heróicos continuamos, por muito que doa,
Não nos demitiremos do trágico fado,
Mas pesa demasiado p'ra qualquer pessoa!
848 - Estrangeiros
Nós somos estrangeiros de qualquer lugar
E a vida dispendemos a gastar dinheiros
Para outros estrangeiros poder visitar
Que de novas animem nossos companheiros.
Nas trocas permanentes nem vais reparar,
Que o que menos importa não são os
primeiros
Que acaso nos descubram qualquer novo lar,
Que os lugares são um, mudam só os
viageiros.
Que é que me importaria o lugar donde
vens?
Um lugar é um lugar e são todos iguais,
Porque a beleza deles é a que tu conténs.
Não serão as paisagens que são belas,
boas,
Embora a novidade extasie demais,
- O que há de único aí são de facto
pessoas!
849 - Depressa
Como corre depressa o tempo que envelhece!
Ou toda a pressa é minha porque corre a
idade
E entretanto o que eu temo é que a
velocidade
Que tenho me não baste para o que aparece?
Se uma pessoa chega a velho também há-de
Forçosamente ver o que lento lhe esquece
E como cada inverno um pouco lhe arrefece.
Então tem certa pressa, não se vá a
cidade.
E assim terá de ser em relação a coisas
Como um nascer de sol, a jóia preciosa
Em que em provecta idade teu olhar
repoisas.
E se assim tem de ser diante do arrebol
É que esta maravilha que tanto se goza
Pode não ser seguida pelo pôr-do-sol.
850 - Impossível
Com Deus todas as coisas são possíveis?
-Não!
A única impossível é que Deus não pode
Fugir nem abdicar de ser-nos a razão,
Responsabilidade de tudo o que acode.
Também, porém, não pode largar o bordão
E deitar-se a uma sombra que, se o quer,
sacode:
Eterno deverá, na inteira submissão,
Permanecer fiel ao que a si se acomode.
Humilde em adesão à sua própria vontade,
Ei-lo que permanece, queira o que quiser,
Pois de fugir não tem a possibilidade.
Eis o veto maior que sempre o irá prender: