DÉCIMA REDONDILHA
CADA VEZ MAIS SOLTO
Escolha aleatoriamente um número
entre 1137 e 1288 inclusive.
Descubra o poema correspondente
como uma mensagem particular para o seu da de hoje.
1137 – Cada vez mais solto
Cada vez mais solto,
Mesmo em pé quebrado,
No canto exaltado
É a mim que ao fim volto.
1138 - Receio
O meu receio, mulher,
É, de repente, um par de asas
Em teus ombros florescer
E do fogo em que me abrasas
Nada mais remanescer
Que a solidão destas casas
E tu, longe, a amanhecer
Noutro mundo a que pertences...
- E assim, vencida, me vences!
1139 - Espada
Só o amor abre uma estrada
A que o coração adere.
O rei vence pela espada
Mas a espada é o que nos fere
E assim fechamos a entrada,
Jamais nos tem como quer.
A espada encurrala e aperta;
O amor solta-nos: liberta!
1140 - Jovem
Jovem, o orgulho imagina
Que os leões nos obedecem,
Que os olhos ditam a sina
A quantos nos estremecem.
São, depois, os desenganos
O que nos fica do anos...
Sábio é ter a humildade
Que os bem provados arcanos
Nos ensinam com a idade.
1141 - Controla
O destino de milhares
Controla que nunca viu,
Tão rico que não tem pares,
A terra e o céu removeu
Mas, por fados singulares,
De ansiedade se tolheu.
Por isso nem se conhece:
- Dos seus e de nós se esquece!
1142 - Gratuitamente
Com o dinheiro eu comprava
Tudo quanto desejava.
Mas em cada aquisição
Gratuitamente me dão
O que jamais eu pedira
E que dentro corroía,
E em minha alma se embaíra
Lento e lento, dia a dia.
Tanto assim me transformou
Que a compra não é, por fim,
A que comecei por mim:
- A mim é que me comprou!
1143 - Incapazes
Incapazes de fruir
Quanto vem do mundo novo,
Adiamos o porvir
Só porque ele é diferente.
Morre em mim tudo o que inovo
Por não haver quem o sente.
Porém, quando alguém explica
O que isto é, do que se trata,
Tudo então se simplifica,
Já a novidade se acata.
Não confiamos nos sentidos,
Pendemos do que outrem diz.
E assim é que de mim fiz
Mera voz de ecos perdidos.
1144 - Livros
Livros, montes de papel,
Donde vos vem tanta vida?
Vem da magia do anel
Que a folha ainda não delida
Traça desde o meu tropel
Ao repouso da guarida
Onde visto vossa pele.
Saio de mim, entro nele:
O livro abre-me a avenida
Por onde o sonho me impele
E além-mundo me convida!
1145 - Sacrifica
Não é herói quem sacrifica
A vida pelo seu povo
Se a só causa identifica
A um princípio de renovo:
Mais covarde do que herói
Normalmente é o que o pratica,
Que em rebanho sempre foi
Quanto agir o justifica.
Lutar pela vida, em norma,
Conduz a perder a vida,
Mormente se toma a forma
De crença ou bandeira erguida.
Viver a vida nas massas
Não é nunca heroicidde,
Nem se nisto a morte passas,
Que perdeste a identidade.
1146 - Luta
Sempre é a verdadeira luta
Por vida mais abundante
E jamais a vã disputa
Do traidor que hoje disfruta
Do que iludiu desde infante.
Seguem-no milhões diante?
- Os passos mostram a fruta:
Um pigmeu não é um gigante.
1147 - Permanente
Nesta luta permanente
Da vida por ser mais vida
O que se torna premente
É o alimento, a bebida,
O trabalho. E é tão banal
Que não se encontra semente
Do que nos dava o sinal
Que faria de nós gente.
1148 - Obra
Um autor escreve uma obra,
Com ela fugiu à vida.
Como a vida ali desdobra,
A uma outra vida convida.
Volta ao ponto de partida,
Que a si fugiu, não ao mais.
Inadaptado ademais,
Agora é a vida, por cima,
Comungando-lhe os sinais,
Que vive como obra-prima!
1149 - Peso
Este silêncio entre nós
É o peso que as coisas têm
À procura de ter voz.
E o peso em nós as retém.
Não conseguirão sair
Se as não tornarmos pequenas:
Vamos a fome sentir,
Do frio fremir as penas.
Readaptado ao cotio,
Sorvendo o calor do sol,
É que preencho o vazio,
De novo em mim tudo bole,
Brinca uma réstea no friso,
Por mim dentro estala um riso.
Este silêncio entre nós
É o peso que as coisas têm
À procura de ter voz,
De falar por nós além.
1150 - Medo
Desvenda o segredo,
Espreita nas luras!
Quando alguém tem medo
Não fica às escuras:
Analisa bem,
Tenta compreender.
- Só depois alguém
Podes socorrer.
1151 - Pé
O mundo não é perfeito,
Por vezes é monstruoso.
Alegrias, a despeito,
Tem e momentos de gozo.
Todos eles ali estão,
Não pedem actos de fé,
Porém, com a condição
De nos mantermos de pé.
1152 - Olhos
As coisas não são as coisas,
Nem sequer estão presentes:
Os olhos que nelas poisas
São olhos de com quem vives
Mais os dos que estão ausentes,
Tais nas coisas os cultives.
As coisas não são as coisas,
São quanto nelas revives.
1153 - Crises
A economia tem crises
E que são crises de excesso,
Ao contrário do que dizes:
É quando expansão lhe peço
Que lhe desgraço as matrizes.
Só lhe venço as cicatrizes
Se contenção lhe mereço.
1154 - Visita
Os velhos amigos têm
Tendência p'ra aparecer
Sem sequer nos avisar,
Quando embrenhados nos vêem
Numa outra coisa qualquer:
A felicidade, a par,
Como nossa velha amiga,
Só vem quando a não persiga.
1155 - Peso
Quando se afastam calados
Transportando o próprio peso
Sobre seus ombros vergados
É que, assim bem humilhados,
Ultrapassam o desprezo
Que de si mesmos merecem
- Os que do perdão se esquecem.
1156 - Somos
Somos fortes, abalamos
Montanhas com nossos braços,
Mas se uma topada damos
Ficamos logo em pedaços!
Generoso, o coração
Partilhamos com um cão
Por um pedaço de fome.
Mas, enquanto ele nos come,
A um órfão faminto e peco
Roubaremos o pão seco.
Quão grandes somos! Tocamos
Co'a cabeça nas estrelas!
E tão baixos, tocaiamos
O excremento das cadelas!
Somos antigos e vamos
Ao passado mais distante
E tão novos que nem damos
Por quem nos está diante.
Tão intrépidos, morremos
Por um pano atado a um pau!
Covardes, nem passaremos
Nosso coração a vau!
Somos tudo e somos nada,
Parasitamos o mundo,
Hesitamos na passada:
- Quem seremos nós no fundo?
1157 - Professor
Profissão de professor
A agir dentro das crianças,
A fermentar o futuro,
De quem encanta é o valor
Mesmo quando a não alcanças,
Discreta agindo no escuro.
Ausência sempre presente,
Nem dela ouvimos falar
Quando nela tudo assente:
Respiramo-la como ar!
1158 - Cumulativas
Crês que os nervos são pequenos,
Que as perdas são relativas.
As horas de sono a menos
São sempre cumulativas.
Sempre os minutos são poucos,
Da primavera ao inverno,
E fazes ouvidos moucos?...
- Acabas no sono eterno:
As horas assim perdidas
Pagam-se sempre com vidas.
1159 - Pérola
A pérola de cultura
É o que está dentro de ti
À espera que a tua altura
Mostre de vez, sem usura,
Se em ti vales o que vi.
Tua ostra é o mundo inteiro,
Cultiva-o, que o mundo assim
Será mais que o teu dinheiro,
Serás tu até ao fim.
1160 - Adestrar
Experimentar ideias
Como adestrar instrumentos,
Se nos faz perder as peias
Também nos prende nas teias
Dos levados a tormentos,
- Números sem sentimentos
Perdidos nestas colmeias!
1161 - Árvore
Árvore do bem e mal,
Como podes ser só uma?
A mesma seiva, tal qual,
E as raízes por igual
Nos mergulhando na espuma
Do sangue e do coração.
- Bem e mal um doutro, em suma,
Como se distinguirão?
1162 - Escória
O estranho da escória humana,
Como de tudo o que é fútil,
É que, quanto mais inútil,
Mais se defende e me engana.
E eu fico sem a certeza
Se é o inútil ou é o útil
Que a gente por fim despreza.
1163 - Grito
O grito da solidão
Do fundo de qualquer um,
Por mais que do mundo irmão,
Não despoleta eco algum...
É o grito a pedir perdão:
Perdão por sonhar o infindo
E falhá-lo, o prazo advindo.
1164 - Espanto
É no espanto que começa
Todo o sonho e fantasia.
Também é a primeira peça
Em que a angústia principia.
Se não me espantar de nada
Toda a dor anularia,
Mas começava a agonia
De parar a caminhada.
Entre a noite e a madrugada,
Onde escolher o meu guia?
1165 - Medida
Cultivar a vida
P'ra que se dilate
Nunca a vida abate.
Em toda a medida
A vida é combate
Em que as armas são
Arte e coração.
1166 - Disciplina
Com pensada disciplina
A arte condensa o esforço.
Com penúria nos inclina
A tudo quanto domina
A sobriedade: o escorço
Da obra que se quer divina,
Quando vivemos a sina
De só dela ter remorso.
1167 - Pobres
Todos que se julgam nobres
E não têm nobreza de alma
Desprezo-os porque são pobres
A ponto de que lhes cobres,
Sem que eles percam a calma,
O que cada qual mais ama,
Tanto o desprezam na lama!
1168 - Espada
Palpo a cabeça dorida,
Mancho os meus dedos de sangue,
Mas, se me doi a ferida,
Mais dor de alma, mais exangue
É não encontrar guarida
Entre vós que me feristes
Sem tentar compreender-me
E o sonho comum traistes
De nosso convívio inerme.
Quem, após a derrocada,
Alça a mão sem uma espada?
E quem, ante este sinal,
Fecha um punho sem punhal?
- A dor que fundo mais dói
É o possível que não foi!
1169 - Dói
O ponto mais doloroso
É que quem me proporciona
O amor mais delicioso
Logo além revela à tona
A existência da mentira
E a capa do fingimento
Mesmo que p'ra que não fira
O melhor do sentimento,
- Que ninguém é do tamanho
Do sonho com que me amanho
E assim vou agradecer
Tal traição que me faz ser.
O que doi é a maravilha
De a mentira ser verdade
E de nos abrir a trilha
Em que, rumo à imensidade,
A mentir nos construimos
E, ao tropeçar, não caímos:
Por aí mesmo é que vamos
E a verdade ao fim achamos.
Que mistério é que preside
À insensatez desta lide?
Quem me garante que ao fim
Não me perderei de mim?
Quem vou ser, ao fim e ao cabo:
Serei Deus ou o Diabo?
Que é que me mantém de pé?
Serão ocos sonhos meus?
No fundo, é uma aposta: é a fé
Que diz que ao fim serei Deus.
Na duplicidade terna,
É uma ilusão derradeira
A que em vez de vida eterna
Me pinta como moderna
A mais antiga canseira:
A de espreitar ao postigo,
Sem saber nem o que digo!
E, apesar de marcar passo
Sempre à espera dum abrigo,
O que nisto infrene faço
É riscar no tempo um traço
Pelo qual sempre me sigo:
Vergarei um dia o espaço
E terei o que persigo,
Atingirei o tamanho,
Tamanho do meu abraço,
Tamanho que hoje não ganho
Na espera deste compasso.
Ninguém disto desespera,
Corre o grito de era em era:
- Enquanto não ocorrer,
De pé estou, daqui não passo,
Morra lá quanto morrer!
1170 - Solitário
Súbito faísca o rosto
Duma alegria secreta
Mas ninguém vê o pensamento:
Solitário no seu posto,
Autoridade secreta,
Cada qual doma o elemento
Em que ele salta por vezes,
Pois cada qual é o pastor
Cujo cajado põe ordem
Nas desordenadas reses
Dos pensamentos que acordem
A promessa em nós do alvor.
1171 - Memórias
Um homem de si transborda
Na recordação de alguém
Quando aqui e além acorda
Memórias que dele têm.
Assim se espalha no mundo
Como uma alga semeada
E o solo torna fecundo
Desta presença velada.
É nisto que um homem é
Mais que a planta de seu pé.
1172 - Caminho
O que mais me deixa absorto
Quando alguém morre é o caminho
Unir-se ponta com ponta:
Conduzido pelo morto
Como um rio, o que adivinho
É ser lixo em qualquer porto,
Que qualquer um tanto monta.
1173 - Evento
Um evento assim tão grave
Não pode ser verdadeiro
Dum momento para o outro!
Ontem ainda, grácil ave,
Contava um conto brejeiro.
Como falta agora ao encontro?!
Um telegrama não chega,
Mesmo neste assunto imundo,
Só porque uma morte adrega,
Para assim mudar o mundo!
1174 - Porta
Quando alguém morre, uma porta
Durante uma vida aberta,
Aos frios constante alerta,
Fecha de vez a comporta
E onde se gera o vazio
Ergue-se, triste e tranquilo,
Como na esteira dum rio,
De saudade um brando fio
Que às aves dá um novo trilo.
1175 - Passo
Um passo à frente de alguns,
Um passo atrás dos demais,
Não seguirei com ninguém.
Nesta tarde de jejuns
Tropeçarei nos portais,
Mesmo a morrer sou alguém:
- E ninguém mais, ninguém mais,
Ninguém mais serei também!
1176 - Luz
Sonhos são iluminados
Pela luz que lhes é interna.
Quando o sol entra p'los lados,
Pelos buracos cavados,
Esvai-se a luz que era eterna
Para então, esvaziados,
Os sonhos nesta lucerna
Viverem arremedados,
Mesmo quando a luz madrasta
Os põe mais iluminados:
- É que luz só não lhes basta!
1177 - Morte
O ser trágico da morte
Só se pode compreender
Se se quer uma outra sorte:
- A vida feliz viver,
Qualquer que seja meu norte,
Sem perder meu passaporte
Nem um corte me abater.
1178 - Magia
Todo o truque de magia
Aquilo que tem de mágico
É o que não é mas seria
Se não fora a fantasia
Cometer um erro trágico.
Dista um adulto da infância
Dum simples erro a distância
E ao corrigi-lo pagamos
Por longas dezenas de anos
O que em tão poucos sonhámos
E depois são desenganos.
Só que a adultez é talhada
Deste sonho feito carne
E algum dia, revoltada,
Ainda há-de rasgar a estrada
Em que a magia se incarne.
Sem truque, mas de verdade,
Embora não adivinhe
Nem como nem com que idade
Deste Universo cozinhe,
Com que espécie de vitualhas,
Um mundo de maravilhas
Neste que é de maravalhas.
Sei que as magias são filhas
Do reino do coração:
- Um dia hão-de estar à mão!
179 - Imãos
Tu sofreste e eu sofri,
A dor fez de nós irmãos.
Nosso pensamento aqui
Se acresce por nossas mãos:
- Selou-nos com o sinal
Que exorcisa todo o mal.
1180 - Jamais
Se ouvidos der à razão,
Eu jamais namoraria,
Jamais amigos faria
E jamais me meteria
Em nenhum negocião.
Então deviria cínico
E o disparate é tamanho
Que me torno um caso clínico.
E, afinal, qual é meu ganho?
Para talhar meus inícios,
Indómito hei-de saltar
E minhas asas ganhar
Ao descer nos precipícios!
1181 - Causa
Quando por uma causa perdida lutamos
Com toda a força nós ganhá-la costumamos.
Os que refutam esta opinião
Como optimista então me apodarão.
Quem tem razão é sempre o pessimista,
Mas que prazer traz seu ponto de vista?
Ser optimista é o porvir ver incerto
E ter medidas p'ra que fique perto.
1182 - Entusiasmo
Nem o fogo na floresta
Incendeia como a festa,
Nem o prazer que há no pasmo
Corre como o entusiasmo.
Ele remove montanhas
Quando a força dele ganhas
E até cativa, entrementes,
Os menos inteligentes.
A fim de cada milénio
Ele foi nele o seu génio,
Marca de sinceridade
Sem a qual qualquer verdade,
Nem que ao vento espalhe a trunfa,
Na terra jamais triunfa.