DÉCIMA PRIMEIRA REDONDILHA
JAMAIS TEM IDADE
Escolha aleatoriamente um número
entre 1289 e 1419 inclusive.
Descubra o poema correspondente
como uma mensagemparticular para o seu dia de hoje.
1289 - Jamais tem idade
Jamais tem idade
Nem métrica certa
Quanto desconcerta
Na sublimidade.
1290 - Milagre
Há um milagre em que não acreditamos
Mais que andar em água sem remos:
É que quanto mais partilhamos,
Mais temos.
1291 - Basta
Basta um grão na roda,
Fumo de paixão,
O eclipse do senso,
Logo ao chão cai toda
A grandeza na ilusão...
- Mas jamais eu me convenço!
1292 - Fugir
Se eu fizer o bem
Vou atar os nós:
De mim não foge ninguém
Todos fugirão p'ra nós!
1293 - Dormir
Dormimos a sono solto,
Perdendo então nossos gados,
E depois eu me revolto?
- Ora! A quem dorme dormem-lhe os cuidados!
1294 - Lugar comum
Quando a fé se torna num lugar comum
Alguém pode acreditar
Que haja algum Natal nalgum lugar?
- Já não há milagre algum!
1295 - Sol
Quando, mulher, tu me despontas,
Caminhando minha vida fora,
És mais que o horizonte que me apontas,
És o sol a escapar dos braços da aurora.
1296 - Verdade
Muito sofres, que a inveja te maltrata,
Expõe-te na rua.
Mais ligeira a verdade se retrata:
Figura-se nua!
1297 - Vaidades
Das vaidades o combate
No pó talha todo o ser:
Um sopro as abate,
Outro as faz erguer!
1298 - Ideal
Tudo o mais, afinal,
Pode ficar sem tecto.
Porém, um ideal,
Jamais o anula um decreto.
1299 - Democracia
Democracia representativa
Reduz à maioria a vida vária;
Unir minorias em trama viva
Será democracia comunitária.
1300 - Alimentar
O nosso ideal
Consegue alimentar o mundo novo.
O mal
É que não sabemos alimentar o nosso povo!
1301 - Traseiras
Da civilização ocidental
Nesta porta das traseiras
Só há escórias, fedor pestilencial,
Do bricabraque as lixeiras
- Nutrindo os sonhos onde se abocanham
Os deserdados: e assim nos apanham!
1302 - Sofredor
Nada retenho excepto um parco verso
Salvo do oblívio:
O sofredor tem tudo no universo
Menos alívio.
1303 - Artista
Um artista não é escravo,
Não é também parasita,
O artista é um homem de fé:
Planta sobre o mundo um cravo,
Di-lo ao grande sol que fita,
Germina-o logo de pé.
1304 - Fé
O entusiasmo não é nada,
Vem e vai.
Actua a fé pela calada
E o mundo avança:
É certo que cansa,
Mas não se esvai
A longa trança.
1305 - Criança
"Mais alto!" - grita a criança.
O impulso do baloiço é todo meu,
Mais alto, p'ra ver se alcança
Um dia chegar quase até ao céu!
1306 - Pouco
Sábio, tratam-no por louco
Quando diz:
Quem se contenta com pouco
É feliz.
1307 - Pintor
Um grande pintor
Não come nem bebe:
Em tudo se embebe
De cor.
1308 - Mulher
Nenhuma mulher dorme tão profundamente,
Abandonada e bela,
Que um toque de guitarra vibrante e dolente
Não a acorde à janela.
1309 - Representante
Quando nisto assenta,
A democracia não se dilui:
O representante representa,
Não substitui.
1310 - Eis
Da Ciência, eis a fatalidade:
Não é verdade, mas acredito.
E da Fé eis o conflito:
Não acredito mas é verdade.
1311 - Ilumine
A mulher não casa
Sempre que alguém fascine,
A mulher é sempre da casa
Em qualquer casa que ilumine.
1312 - Simples
Que importa fugir pròs lados
Se da busca não vem nada?
Os problemas complicados
Têm uma solução simples que é errada.
1313 - Moderno
Prisioneiro na jaula de aço e de betão,
O homem moderno
Desespera da situação:
- Não há fugas do inferno!
1314 - Desilusão
O artista moderno
Não tem fé na situação,
Suas obras são o inverno
Da desilusão.
1315 - Sabor
Só quem saboreia o ser
Sabe o sabor de saber.
1316 - Maretas
Que os loucos sejam encarcerados,
Os salvadores, crucificados
E os profetas, tão apedrejados,
Não é do destino, que os poetas
Com todos sofrem, mas a poesia
Jamais desabrocha das maretas
Do mar de ignorantes que a assobia.
1317 - Estrada
Ao longo desta estrada que corremos
Ninguém vai retroceder,
É a seguir para a frente que vivemos:
Se parar, eu perco o ser.
1318 - Amor
O amor é ridículo,
É o sorriso nos lábios
Quando doi o coração da aurícula ao ventrículo.
O amor é o dom dos sábios.
Amor é secar a lágrima triste,
Criar o próximo que distante existe.
Amor é olhar-te nos olhos,
Ser
E dizer tudo o que se tem para dizer,
Para além dos escolhos,
Sem dizer uma única palavra:
Teu fogo que por mim lavra.
Amor é quanto existe ou quase tudo
E o quase é o mais além, sobretudo.
Amor é a tua presença mesmo ausente,
Eu e tu no futuro já presente.
Amor é criança que nasce:
Vida que no tempo pasce.
Do vinho fragrância
Nos anos cujas latadas empo,
É renovar a infância
Dos perdidos no tempo.
Amor é olhar e sorrir
Àquilo que queremos que seja
O porvir
Que se almeja.
Mar límpido e azul,
Amor é respeitar tudo e todos
Para além do véu de tule
Dos tempos e dos modos.
Amor é saber que me amas,
Que, sendo terra, no céu me aclamas.
Amor é esperar ansiosamente junto
Ao telefone a tua chamada.
Só ser em conjunto
Ou não ser nada!
É sentir saudades
De todas as idades.
É aceitar ver um jogo de futebol
Quando só em teu peito ele te bole.
Transparência daquilo que tu sentes,
Amor é partilhar
(Mesmo se rangem os dentes)
Teu tempo e teu lugar.
É o coração a bater desordenado
Quando te vejo:
És meu outro lado
Que desejo!
Amor sou eu em ti:
Antes não vivi!
Darmo-nos mutuamente
Sem pedir nada em troca:
É a festa iminente
O que nos toca.
O amor em nós pressente
O transcendente.
Sagrado tom
De quanto peco,
O amor é um som
Que reclama um eco.
É não ter palavras que exprimam
O que é o amor,
Que nos cimos que nos encimam,
Só o estupor!
Amor, renascer
Do mais fundo em nós:
- Expandir o ser
E ser Deus após!
Dizer com lágrimas de alegria
Que te amo?
- És meu dia,
Por ti chamo!
Amor é o que deveria
Entrelaçar as pessoas:
Cada vez mais a euforia
Do parto das coisas boas.
É saber que alguém
Pensa sempre em nós:
Mesmo a solidão tem
Dentro uma voz.
Amar alguém que amamos
- E o céu se enche de reclamos!
Dar aos mais carenciados
Nossa carência de talharmos fados.
Amor é um vale de rosas vermelhas,
Um passarinho a voar,
Sabor ancestral das coisas velhas
Que mais além nos apontam um lugar.
É alimento,
É tentar esquecer-te e não conseguir,
Alegria e tormento
Com que em mim geras o porvir.
Encontrar uma carta tua
Sem selo
Na caixa do correio,
Amor é o sabor da lua
Enquanto velo
Sonhando em teu seio.
Sentir o coração
Bater fortemente
Fora de mão
Por dentro da gente.
Sentir um aperto delicioso
Que nos deixa... ai!,
A sofrer de tanto gozo
Que quem nele tropece
Até parece
Que no céu cai!
Amor é ficar jovem eternamente,
Acordar com um sorriso,
E, mesmo sabendo que isto mente,
Saber que só nisto é que há juízo.
Amor é o que mais puro temos na alma.
Luz que brilha nas trevas,
De idade em idade
Os furacões acalma
Orientando as levas
Da Humanidade.
Viver com os outros a bem,
Amor é o sorriso da vida,
Por isso as romarias contém
A toda e qualquer ermida.
Amor é compreensão
E força para viver,
Um ao outro dar a mão,
É mais que o fundo do ser,
Amor é o fundo sem fundo:
Amor é a salvação do mundo!
1319 - Praia
Caminho ao longo da praia:
Areia juncada de moluscos humanos
À espera que alguém lhes descontraia
A concha do sonho e dos enganos.
1320 - Muros
De noite é que viajo,
De noite acordam os monturos
E, quando reajo,
Oiço a respiração dos muros.
1321 - Erma
Pela História adiante,
Na Terra eternamente erma,
A depravação caminha oscilante
De berma para berma.
1322 - Medir
Quando uma mulher pára num jardim
Não é para me acolher num amplexo,
É para medir em mim
O peso inteiro de seu sexo.
1323 - Sorrir
Foi quando acabaram a guerra
Que rompeu o porvir:
Os homens se apoderaram da terra
E fizeram-na sorrir!
1324 - Colheitas
Na festa das colheitas,
A lagarada:
Os insectos ignoram as desfeitas,
O ar marulha de alegria descuidada.
1325 - Lapidar
Enquanto de meu sangue tu te gozas
Do mundo no lupanar,
Aqui estou, cheio de pedras preciosas
Por lapidar.
1326 - Sol
O sol nado,
Abro-me inteiro ao calor do sul:
Descongelado,
Sufoco de alegria azul.
1327 - Desponta
Cada vez mais rápida, a Terra gira,
O céu negro chama-nos de azul.
Por que é que o alvor desponta, delira
E se nos escapule?
1328 - Desvão
O artista afasta-se para o desvão
Atrás das formas mortas
Para redescobrir em si as portas
Da eterna criação.
1329 - Promessa
Cada novo dia
Traz uma promessa:
- O almoço, na manhã fria,
Com leite quente à cabeça.
1330 - Paladar
Vida, paladar
De cada momento:
Ruído de mar
No sopro do vento,
Um melro a cantar
Em meu pensamento.
É todo o lugar
No canto onde sento,
Pão a levedar,
Dos dias fermento.
E o granizo
Na paisagem
Com sorriso
De viagem.
1331 - Renasce
Como o pão que nós cozemos,
Bebo o vinho que pisámos
E penso
Da tarde no sol intenso,
No vento que encurva os ramos,
No rio que beija os remos.
Da noite que tudo engole
Nos renasce o dia:
- Prevalece o sol
Sobre a dor que nos feria.
1332 - Medidas
Não nasci para famoso
Nem das justas para as lidas,
Que a vida que me dá gozo
Não se mede em tais medidas.
Minha grandeza
É ser homem, cidadão,
Não é a beleza:
- Minha raiz é ser chão!
1333 - Some-se
Durante a infância
Permanentemente supus
Que só permaneceria a glória.
Porém, o comboio da História
Some-se na distância
A maior velocidade do que a da luz...
- Nada nele nos faz jus.
1334 - Libertadores
Os ditos libertadores
Jamais o são.
Eles e os conquistadores
Têm-se à mão
A distância tão pequena,
Que, entre ambos, nem o espaço duma pena!
1335 - Avesso
A realidade
É o lugar das coisas:
No avesso, em verdade,
Jamais repoisas.
1336 - Verdade
Juro dizer a verdade,
Só a verdade
E nada mais que a verdade:
- Como tudo, ao fim e ao cabo, é falsidade!
A chegada doutra Era,
Atingirmos outra Idade
Jamais foi, será, nem era!
Que bom que era,
Na realidade,
Que tudo um dia acontecera!
1337 - Triaga
No povo
A miséria embriaga:
Quando se gora o ovo,
Bebe a triaga.
1338 - Frio
Dum amor ficou o vazio
E a cidade não percebia,
Tudo ria como sempre ria
E corria, corria
Num corropio.
- Um coração, porém, está cheio de frio!
1339 - Murro
Mais longe nos convida
Que quanto nos ensina
A escola da má sina
- Um murro certeiro na cara da vida!
1340 - Anseio
Porque escrevo?
Porque urge imobilizar
Cada anseio fugidio
A que me atrevo,
Cada linha em seu lugar,
Onde lhe estudo o feitio.
Ali é que me revela,
Rígido contra a parede,
O tamanho da procela
Com que o íntimo me abala.
Depois vede
Que a divagação profunda,
Visando-me bala a bala,
É de paz que ao fim me inunda!
1341 - Verão
No Verão
O sol ilumina
O riso brusco das crianças.
No chão
É uma algazarra divina:
Dos raios do sol urdem tranças,
Jogam lestas entre si
E o céu fica
Com o sol caindo em bica
Todo inteiro em frenesi.
1342 - Amornam
Como os carneiros brancos na pastagem,
As casas espalhadas junto à margem
Amornam o ar,
Calmas, a pastar.
1343 - Pormenor
Atender ao pormenor
É o meu credo:
O segredo
De atingir sempre o melhor.
Pode ser a diferença
De atingir
Ou fugir
Dum objectivo que vença.
As pequenas coisas são
Uma chave
Que se crave
Onde todas se unirão.
- Em cada passo pregresso,
No final,
É o sinal
Do melhor de meu sucesso.
1344 - Ingénuos
Somos ingénuos, ai como, ai quanto!
Torturamos a futilidade
À procura da felicidade
E no fim só temos pranto.
Tanto cremos que as mãos nos damos
- E uns aos outros nos devoramos!
1345 - Universal
Não nos poderá irmanar
A felicidade, afinal?
- Em todo e qualquer lugar
Só a dor nos faz falar
Uma língua universal.
1346 - Sofridos
É mais fácil que se entendam
Dois entes muito sofridos
Porque a dor os humaniza.
Os demais os olhos vendam.
Nos felizes, os sentidos
(Já que frívolo, desliza
Por sobre todas as coisas
Quem não lê da dor as loisas)
Voam pela fantasia
E toda a noite é de dia.
Com medo de lhes falhar
Esta alegria falaz
Vão-se do mundo escudar,
Que dela não é capaz.
Fechados e defendidos
Cada qual numa tapada,
São animais protegidos,
Já não se adestram a nada.
1347 - Par
Uma pública opinião
E um sentimento popular
Nem sempre andarão
A par.
O popular sentimento
É o que faz o condimento
Da mesa em volta ao jantar:
São todos entre si a partilhar.
A quem lhes faz a sondagem,
Uma pública opinião
Será uma mensagem
Que os mesmos ali, então,
Só p'ra tal fim urdirão.
1348 - Companheiro
Quase todas as crianças
Descobrem um companheiro
Que as ajude nas andanças
Da vida no formigueiro.
Transformam-se então depois:
Cada um torna-se dois.
Assim, nem que o não esperem,
Da infância a melhor magia
Partilha a dor e a alegria
De crescerem.
1349 - Amigo
Um amigo é a sensação
De reconhecer-me em algo,
De ter ao lado um igual.
Um amigo é meio irmão,
Uma ponte donde galgo
Todo o espaço sideral.
Mais que ponte,
É meu caminho
Da família ao horizonte
Que já não trilho sozinho.
1350 - Felicidade
Por toda a parte a busca da felicidade...
E uma busca perdida enfim por toda a parte,
Porque a verdade
É que a felicidade se não reparte
Nem há nada em que se acarte.
A felicidade ata os nós
Daqui aos outros, mundo além até ao fim...
- Encontra-se-lhe a ponta dentro em nós:
A felicidade mora em mim!
1351 - Prazer
A felicidade
É um mistério a resolver,
Embora também queira a capacidade
De sentir prazer.
O problema é que esquecemos
O prazer que sentimos
Quando amamos e vivemos
Todo o amor que usufruimos,
Quando temos companhia,
Nossos amigos à mão,
Vivemos na moradia
Que escolheu o coração,
Esqueço mesmo a saúde
Quando a tive quanto pude.
Quando esqueço quanto sinto
É que, indiferente, minto
Graves infelicidades
Que enganam minhas verdades.
Sou feliz mas me desprezo,
Depois nada mais tem peso.
É quando tudo me falta
Que meço quanto foi alta
A ventura que perdi,
Tarde demais quando o vi.
No esforço de refazer-me
É que deixo de ser verme,
Meço o tamanho do salto:
- Quanto o comum ficou alto!
1352 - Outra
Quem quer pôr de lado a fé,
P'ra poder sobreviver
Logo uma outra põe de pé.
Não é possível viver
Sem acreditar em nada:
- Ser
É abrir uma estrada!
1353 - Gargalhada
A vida é uma gargalhada
Reprimida