QUINTO VERSO
EU VEREI LÚCIDO O QUE HOUVER NUM
OVO
Escolha aleatoriamente um número
entre 469 e 572 inclusive.
Descubra o poema correspondente
como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
469
472
Eu
verei
Esmolar
Eu verei lúcido o
que
houver
Esmolar doutrem os bens
Num
ovo:
Não mostra sabedoria,
Irei comê-lo à
colher,
Que é vulgar vermos reféns
- Alimentar-me-ei
de
povo!
Os pobres cuja iguaria
Famosas e triunfais
470
Capelas e monumentos
Bom
Cimenta em nome dos tais
Que usam como emolumentos
Ser bom pai e bom
amigo
É a mais difícil
aposta,
Daqueles os alimentos:
Pois, quando ser
um
consigo,
A
Deus pagam edifícios
Perdi já do outro
a
resposta.
Do roubo com desperdícios.
Por isso, filho,
não
sejas
Os roubados são inventos?
Por demais nisto
exigente.
- Como se Deus, distraído,
Espera, para que
o
vejas
Fizera contas de ouvido!
No momento de ser
gente.
O que sou não sou
à
toa:
473
Nem que seja
indiferente,
Comprar
Nalgum traço uma
pessoa
Muito me tenho espantado
O melhor busca e
consente.
Com quem tenta comprar Deus
- Toda a gente é
boa
gente
Por Deus com o condenado:
Quando algo fundo
lhe
doa.
Com oiros e coruchéus!
Um coração humilhado
471
Que,
contrito, adora os seus
Crueldade
É
que era o templo habitado
Por
sonhos que vão aos céus.
De tal modo a
crueldade
Dum amor, no que
me toca,
É assim que, durante a vida,
Quase a morrer me
coloca
Quem
cuida da consciência
No que sofri de
verdade
Não precisa, à despedida,
Que se me fechou
a
boca.
De acalmar a Providência
E condenado é que
se
há-de
Pedindo a quem cá ficar
O tamanho que
degrade
Que
lhe compre lá o lugar.
Medir onde
desemboca.
Morrer ou ser
condenado,
Só por mor do
desespero
Em que a mulher
me lançou.
E o desvario é
tão grado
Que este inferno
mais o quero,
Se por mão dela
mo dou,
Que um paraíso em
que vou,
Por mais que seja
sincero,
Doutra qualquer ser
amado.
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474
Não é nada edificante
Seguro
Só
quando em causa ficar
Ao
redor ver meu lugar.
Se ninguém ficar
seguro
Em nenhum lugar,
então
Porém, o mais alarmante
O que há de
melhor é
não
É
que o perfil que isto dá
Revelar brechas
no
muro.
Foi sempre assim e será!
A nossa melhor
defesa
É jamais abrir a
boca
477
Da desconfiança
presa,
Bem refechada na
toca.
Propaganda
É nesta
incomunidade
Quando
tanta propaganda
Que se encontra a
qualidade
Durante a vida nos rufam,
Principal que nos
descansa.
Nossas orelhas se atufam
E ninguém já se comanda.
E é porque roi as
entranhas
Que com explosões
tamanhas
Era
difícil ouvir
O amanhã dali se
entrança.
Entre o berreiro outra coisa
E morreu-nos o porvir
Nas lições daquela loisa.
475
Verme
É que segreda baixinho
Todo
o rumor da semente
Nós somos o
melhor
deus
Que amanhã será evidência:
De quanto verme
existir,
Já que na guerra
os
ateus
- É a dúvida que adivinho,
São o menu do
porvir.
Que me varre, lenta, a mente
E devirá consciência.
E aqui debaixo
dos céus
São os vermes a
luzir
De gordos que os
medos
meus
478
Andam de facto a
medir.
Nora
Servimos-lhes os
soldados
Anda o burro a circular
Mais a carne das
crianças,
De olhos vendados, à nora,
De viúvas, de
amputados...
Não vá ele adivinhar
Que anda à roda o que demora.
Dos vermes nas
contradanças
Somos o fim dos
cuidados,
E à nora andamos no mundo,
Os deuses das
abastanças.
Que, se em frente caminhamos
Do caminho até ao fundo,
Aqui
mesmo é que chegamos.
476
Lugar
E tão burros somos todos,
Com
olhos tão bem vendados,
Terrível e
curioso
Que acaso ninguém repara
Como passo a
compreender
Os demais assim
que o
gozo
Que, se acabam nossos modos
Me deu lugar ao
sofrer!
Nos campos por nós lavrados,
É o mundo inteiro que pára.
Quanto na vida,
porém,
São ignorados
sinais?
Quando tudo corre
bem,
Quero lá saber
dos mais!
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479
Olha uma plaina, uma enxada,
Pão
Um
tanto de ferro e pau,
Cada
qual encaminhada
Por mais que seja
vadio,
Se um homem tem
uma casa,
Uma
à terra, uma outra à nau:
Uma mulher,
passadio,
E o que à gleba faz aquela,
Dos filhos o
golpe de
asa,
Esta o faz à caravela.
O seu lar vai ter
o gosto
Que na vida tem o
pão
482
Saboreado ao
sol-posto,
Segredo
A freima após do
Verão.
O segredo dos segredos
Não o come a toda
a
hora,
É que nem tudo é animal,
Que o sabor quer
a demora
Vegetal ou mineral.
De quem sabe as
primazias,
O mais incrível dos credos
Porém, vai
sentir-lhe a
falta
É que o sonho dum poema,
Que vai ser tanto
mais
alta
A música de que o teço,
Se o não tem
todos os
dias.
Das odisseias o tema,
Com
tais metros não os meço.
480
Quando passo tudo ao crivo
Mar
Reparo
que então convivo
Sempre,
sempre noutro reino.
Este mar longe e
tão perto
Arvora a espada
do
sol,
Só quem dele não tem treino
Do sol que, no
anti-deserto
Não vê como o laço é leino:
Do mar pleno de
arrebol,
O quarto reino é o que vivo.
Sempre a acaba
embainhando
Devagar,
devagarinho,
483
Pelo crepúsculo
quando,
Tampas
Num horizonte
sozinho,
As pessoas no caminho
Vai descendo, vai
descendo,
São estas arcas fechadas,
Enfim até se
sumir...
Cofres feitos ao cadinho,
E foi tudo uma
ilusão:
De tampas aferrolhadas.
Se à espada me
recomendo,
Se por fora um sorrisinho
Perco-me pelo
nadir,
Ou de máscara às entradas,
Nem sequer vejo o
meu
chão.
Pouco importa, que no ninho
Nada contam as chegadas.
481
O que conta é que quem olha
Matérias
Não
deverá saber mais
Daqueloutro que o acolha
Não são muitas as
matérias
De que os homens
se
serviram,
Do que aquele que é olhado.
Não foi de
andarem de
férias
Os equilíbrios são tais
Nem de quanto só
deliram.
Dentro e fora em todo o lado.
Tudo pende da
maneira
De as comporem,
ordenarem,
Cada qual como
emparceira
Para que as
leivas nos arem.
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484
E, na abóbada celeste
Tarde
Aonde
estes nunca irão
Nem vislumbram que é que
a veste
Por que vence
sempre tarde
Quem por justiça
devia
De tamanha imensidão,
Cedo vencer sem
que
aguarde
- A glória aqueles investe,
Quanto afinal
merecia?
Não
estes vermes do chão!
Que tarde perca
quem guarde
Das horas a
felonia
487
É injustiça que
nos
arde
Igreja
Tanto mais quanto
se adia.
São
os céus uma só igreja
É que,
entretanto,
mungindo
E não mais que um grão de areia
Tetas nédias de
dinheiro,
É a maior que os céus almeja,
Vai-se o iníquo
bem
nutrindo.
Da cegueira presa à teia.
Para o réu é um
ano
lindo,
Então
por que as construímos,
O juiz é seu
parceiro...
Às igrejas e conventos,
- Todos andam de
nós
rindo!
Coroando à terra os cimos?
Para ver se dão fermentos?
485
É
que não compreendemos
Inquisição
Que
é o mundo convento, igreja
Para a fé que se deseja.
Quando a Inquisição
acaso
Se achegando vai
de alguém,
Desde
sempre já cá temos
Uma aura recobre
o
caso
Este lugar de clausura
De órfão que
perdeu a
mãe
Onde o que é livre se apura.
E o suspeito até
rebrilha
Aos olhos do
inquisidor
488
Como aquela
maravilha
Esperto
Onde cevar o
rancor.
Mais esperto que os espertos
Uma aura de quem
não
sabe
É quem dos desastres tira
De que vai ser
acusado
Lições
de braços abertos,
E na pele já não
cabe,
De renovar-se na mira.
Tinta de ignoto
pecado.
Os outros sempre ouvir quer
Antes de que tudo
acabe
E nunca a sério demais
Parece mesmo um
culpado.
A
si próprio se confere,
Limites seus vê reais.
486
Procura e vê com cuidado
Favoritos
Dos
outros as reacções
A
quaisquer dele medidas.
Deus escolhe os
favoritos:
O doido, o coxo,
o malsão...
"Tão esperto, por meu lado,
Mas, por mais que
solte
gritos,
Assim não sou, mas tenções
Lá não entra a Inquisição.
De
mudar me dão mil vidas."
A da Igreja ou
dos peritos,
Mesmo ateus de
profissão,
Que não dirimem
conflitos
Senão a murro, a
canhão.
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489
Não sendo pesado,
Atenção
Deixo então eu de
tentar
Mais
tempo me conquistar.
A atenção para
com quem
Por acaso entrou
na
vida
Se com ele acamarado,
Como a amizade
contém
Se colaboro com ele,
Valia
desconhecida.
Só
então é que ele me impele.
Carteiro, guarda
de ermida,
Vizinho ou colega
-
alguém:
492
A simpatia à
partida
Armas
Abre-me àquele
que vem.
Estas minhas fracas armas,
Aceitá-lo,
apreciá-lo
Armas tão só de papel,
É poder já gostar
dele,
Donde lhes vêm os Karmas,
É programar o
intervalo
A força do mago anel?
Do destino em
minha
pele:
Dão
a volta sobre si,
- Sei lá quando
calo ou
falo
Não lutam noutro conjunto,
Se um acaso é que
me impele!
Solitário frenesi
Que sozinho atento junto.
490
Porém,
assim manejadas,
Organizar
Perturbam
violadores,
&nbs