SEXTO VERSO
QUE, POR ANTIGO, ENTÃO ASSAZ
CONTÉM
Escolha aleatoriamente um número
entre 573 e 635 inclusive.
Descubra o poema correspondente
como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
573
576
Que, por
antigo
Sexo
Que, por
antigo,
Será na evolução que os organismos
Então assaz
contém
Encorajados são a interessante
Abrigo,
O sexo acharem para além de abismos
É o que
digo
Que um ignoto porvir lhes talhe adiante.
Do que em si
retém
De antanho a
semente
A
mesma evolução segredos diz-mos
Que germina
além.
Quando elimina quem lhe não garante
E aqui me
tem,
Que no sexo descubra mais baptismos
Recente.
Que em crenças e tabus do que é distante.
Assim é que mostramos atractivo
574
Por quanto for partilha, se é genética:
Milhões
Isto
apenas mantém um homem vivo.
Setenta milhões
de anos
significam,
Para
além de qualquer sofisma de ética,
Na intérmina
passagem das
idades,
Jamais é a continência uma abstenção:
Quantas eras em
nós enfim
claudicam
Sem amor o ascetismo é uma ilusão.
Sem vislumbrarmos
delas que verdades
Nas pedras e nos
astros se
autenticam
577
Nem que alcance terão
capacidades
Céus
Que em nós
atentas mal as verificam.
Que significam
tais
imensidades
O nitrogénio de que o ar é feito
Em noventa por cento do que tem
A quem delas só
vive um
milionésimo?
Os milénios o foram, com preceito,
Uma efémera somos
borboleta
Talhando
lento, tal como convém.
E, muito embora o
tempo ao sonho pese-mo,
Seres vivos o foram, muito a jeito,
Sempre uma
eternidade anda
completa
Trocando de oxigénio que, porém,
Neste instante
que vivo em minha
vida
Quando excessivo, muito mal ao peito
Que dura um bater
de asa e é já
perdida.
Do ser vivo faria se o retém.
Assim é que estes céus que contemplamos
575
E que por tantas vezes maravilham
Comuna
Muito
menos serão os céus que herdamos,
Cada célula viva
é uma
comuna
São muito mais os céus que nos perfilham.
Em que milhões de
membros
congregaram
Os céus que nos deslumbram e que temos
De antanho as
vidas soltas numa
una
São, afinal, os céus que nós fizemos.
Em que ao comum o
próprio lhe entregaram.
Assim nos tecem a
vital fortuna
Para o fito comum
que trabalharam,
Na lei
fundamental que coaduna
Todos num, que
assim vivos se tornaram.
Pois assim é que
sendo cada qual
Um único na sua
unicidade,
Num sonho em que
se integra por igual,
Cem mil milhões
de vidas, em verdade,
É que lhe
constituem a união,
Cada qual é, de
facto, multidão.
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578
Astutos os caçamos e comemos;
Mundo
Vorazes,
eles caçam-nos e comem.
Como,
pois, tudo o mais de que vivemos
Se num mundo
vivêramos e
nada
Nele mudara,
pouco havia a
ver,
Um homem não é nunca apenas homem:
Para compreender
não há
qualquer
Após quanto se parte e se reparte,
Assunto, nem a
ciência tem
morada.
Uns dos outros fazemos todos parte.
Se imprevisível
fora-lhe a fachada
E se ao acaso
muda o
parecer,
581
Qual o modo
encontrar de esclarecer
Privilégio
Com a ciência a
pérfida parada?
Nem nós nem o planeta gozaremos
Vivo num universo
que é
intermédio
De qualquer privilégio natural.
Onde os eventos
mudam mas
constantes
Desde o grego Aristarco que o sabemos
Marcam as leis
que os regem. Então
mede-o
E desde ele o ignoramos por igual.
A razão, a
ciência, por
instantes:
Tal verificação, na vertical,
Poderá esclarecer
as
escondidas
A aplicar às estrelas vindo temos
Receitas que
melhoram nossas
vidas.
E tentamos tal qual, na horizontal,
Aos grupos humanais com que vivemos.
579
Com êxito assinado conseguimos
Ciência
Aplicá-lo
às estrelas do Universo.
Ao invés, não nos entra
em nossos limos
Livre de
investigar, nasce a ciência
Que ao livre
investigar se então
consagra:
Senão no inerme sonho que há num verso:
A hipótese
qualquer sempre se
sagra
Invariável, levanta oposição
Por mérito que
houver nela em
potência.
Toda e qualquer grupal aplicação.
A estranheza não
dita a imprevidência,
De igrejas e
políticas
pelagra,
582
Que incómoda
suprime a hipótese
agra
Pegadas
Sem a perda medir
de tal ausência.
Somos pesquisadores imparáveis
Sabedoria quer
outro
caminho,
Mas todas as pegadas desta busca
Não há lugar à
força neste
esforço
Nos
afastaram mais, irremediáveis,
Em que o saber
procura o próprio
ninho.
Do centro da comédia à sombra fusca.
De antemão
ninguém sabe qual o
escorço
Não houve muito tempo e
assimiláveis
Nem quem vai
descobrir novos
aspectos
As novas descobertas do que ofusca
Que irão ser
nosso chão e nossos
tectos.
Nunca
o foram por nós, nada fiáveis
Nesta despromoção de quem as busca.
580
Tema embora, discreto, a descoberta
Quando
Que
em nós o passo em frente nos promove,
Que
no fim só mantém a porta aberta
Quando usamos as
peles de animais
Sentimos de
animais os mais poderes:
Ao cosmos que em redor de nós se move,
Saltamos
agilmente tais e
quais
Rumo a nós o primeiro passo a jeito
Gazelas quando
fogem aos berberes,
É ver que impõe a luta por preceito.
Caçamos como um
urso os seus rivais,
Camelos no
deserto, úteis saberes
Detemos, de
esperança bons sinais...
Nós com os
animais trocamos seres.
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583
Dos factos mais pequenos breve traço
Receio
O
tempo o diluirá na contraluz
Da chusma que o afoga em seu abraço.
Nascemos com
receio dos papões
Que a noite
ensombram crus de
pesadelos,
Porém, secreto, ali mais se traduz,
Escuros nos
ameaçam doutros
zelos
Que mais longo se torna o infindo braço
Em que da vida
vemos os
senões.
Da alavanca do tempo em que produz.
Adversários assim
de escuridões,
Das estrelas
perdemos mesmo os
elos,
586
Nem já de seus
fulgores os mais belos
Notável
Esperanças
tiramos, ilusões.
É notável vivermos no Universo
Porém, da vida e
morte as
sequelas
Que gera o sonho e o facto que é a vida,
São tanto, no
mistério,
paralelas
Mesmo quando o milagre à despedida
Que ainda o colo
melhor onde me
acoite
Dum poema inacabado seja o verso.
É o desta
imensidão povoada
delas:
Notável
é viver neste disperso
Amamos por demais
estas
estrelas
Mundo em que uma galáxia destruída
Para acaso temer
de vez a
noite.
Não impede que a estrela já esvaída
Dos restos reconstrua um corpo terso.
584
Este
nosso universo não parece,
Rapidez
De
facto, nem benigno nem hostil,
Ao
invés se vislumbra indiferente
Do pensamento é
tal a rapidez
Que no
instantâneo vê qualquer
lonjura
Aos problemas de quem o não merece,
E as distâncias
quaisquer ele
perfura
Tão insignificante, um nada vil,
Sem nos espaços
ver muros de
vez.
Como nós a que o cosmos nunca mente.
Contudo, nos
neurónios o revés
É que o pulsar
que um pensamento
dura
587
Tão lento se
encaminha na
procura
Fruto
Que uma carroça é
lesta mais dos pés.
Podem os homens ser fruto dum sonho
Tal é a
contradição com que
vivemos:
Como os frutos da vida que sonharem
Sonhamos ir além,
vencer a
luz,
Se
espalharão por quantas leivas arem
Depois no
calcanhar chumbo é o que
temos.
Num arroteio assim menos medonho?
Porém, a
frustração é quem
produz
Ou, ao contrário, quanto assim disponho
De nós todos os
deuses como os
demos
São as flechas falseadas que disparem
Por quem o longe
lento se
reduz.
As
minhas fantasias ao pensarem
De pé como é que aqui, enfim, me ponho?
585
Dizem que os homens poderão não ser
Evento
O
sonho por um dia que hão-de ter
Os deuses ou um deus
desconhecido.
Recuado quanto
mais no tempo for
Um evento contudo
bem
falaz
Mas os deuses serão e Deus será
Tanto mais deverá
devir
maior
O sonho do que em nós ainda não há,
O inesperado
efeito que ele
traz.
Sonho de homens que aos homens dá sentido.
Numa cósmica
escala, um vago odor
De que nenhum
nariz vai ser capaz,
Ao fim de milhões
de anos o estupor
Duma galáxia
infinda é o que ele faz.
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588
Porém, a realidade de cotio
Fala
Ultrapassa
hoje em dia tal ficção,
Cada
sábio é mais que um desafio,
Através dos
milénios, ele fala,
Um autor, com
clareza e em
silêncio,
É um romancista com o mundo à mão:
Dentro em nossa
cabeça, sem
cabala,
Os
sábios criam em qualquer lugar
Directo contra o
tempo luta e
vence-o.
O que outrem já nem logra imaginar!
A escrita foi
talvez a maior bala
Que o Homem
inventou: vence e
convence-o.
591
Ao comunal
tecido, quando
adense-o,
Matéria
As épocas religa
que intervala.
Entre
as mãos tuas a matéria informe
Os cidadãos das
épocas
distantes
A uma inutilidade, um egoísmo
Que nunca se
chegaram a
entrever
Escapa penetrando neste abismo
Trocam ideias
como dois
amantes.
Laborioso, talhado e assim conforme
Do tempo quebram
livros as
cadeias
Ao nosso mundo de homens, este enorme
E provam que este
ser que é humano
ser
Intrincado da vida em que me cismo.
É capaz de magias
às mãos
cheias.
Modelando a matéria, assim a crismo
Do modo e da função a que a transforme.
589
Cada pancada com que um bloco partes,
Humanos
Cada lamela afeita a tuas
artes
Confusas
nos acordam na memória
Não existem
humanos noutro sítio:
Aqui só, no
minúsculo
planeta
A impresão de domar matéria inerte
Este espécime
raro atinge a
meta,
Até que em corpo e vida enfim desperte:
Faz com que a
infinidade, enfim,
concite-o.
- Criamo-la, criamo-nos história!
Se houver uma
razão outra, então cite-o
Dessoutra
imensidão em que,
incompleta,
592
O igual no diferente
lê,
discreta,
Calcar
Humano além de
humano, e assim medite-o.
Será de bom juízo aos pés calcar
Somos espécie
rara e
ameaçada:
Asneiras que fazemos, as tolices
Na perspectiva
cósmica então
cada
Em que acaso apostámos, quando visses
Um de nós será
mesmo
precioso.
Que afinal não deveram ter lugar.
Se alguém de ti
discorda, faz que
viva:
Contudo, sempre aqui um calcanhar
Cem milhões de
galáxias e um
conviva
À lançada ofertamos, que as sandices,
Como ele não há
mais que te dê
gozo!
Quando as de nossa boca antes ouvisses,
Como de loucas vamos confessar?
590
Tanto preito à razão nós ofertamos
Ficção
E
tal orgulho nos empresta à raça
Que,
se falha, nem cremos que falhámos.
Outrora nossos
sonhos viajaram
Na ficção dos
romances, da
poesia,
Renitentes, então é na carcaça
Realidades
formais de
fantasia
Já
morta das razões em que acordámos
Que apenas hoje
em carne se
declaram.
Que sem razão morremos no que passa.
De amanhã no
domínio desmascaram
As rotas
siderais, quem
principia
Ou quem acaba em
nossas sendas guia,
Os passos nos
marcando que marcaram.
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593
Talvez a vida seja um pesadelo
Ganância
Sofrido
entre um e outro despertar,
Entre
eles operando como um elo
A ganância que é
madre dos negócios
Dizem que tem,
mas não, alma
imortal.
Que cada peça põe no seu lugar.
Tudo decora mas
aprende
mal,
Assim cada jornada se depura,
Repara em tudo e
quanto vê são
ócios.
Cada dia é uma vida em miniatura.
Tudo cobiça mas
cobre o sinal
De catar lucros,
porque sempre
endosse-os
596
Aos espaventos e
no gesto adoce-os, Dúbios
Como quem busca
além o par igual.
Os que examinam, dúbios, com demora,
Não tem alma, não
tem, é só
voraz.
O tamanho dos saltos que hão-de dar
Ladina e esperta,
o vácuo em que
consome
Ai deles, que de tanto sopesar
O mundo inteiro
nunca a
satisfaz.
Acabam desistindo, indo-se embora!
Tem muitos nomes
e jamais tem
nome,
Assim a marcar passo de hora a hora,
De saciar-se
jamais é capaz,
Aumenta a indecisão e cada esgar
Ganância é
Humanidade feita
fome.
Se perde fatalmente do lugar
Que marca qualquer rosto e que o decora.
594
Ao
contrário, olhai bem para a frente
Rara
E
marchai decididos a direito.
Será
sempre o caminho mais urgente,
Na ida alguma
rara coisa rara
Da raridade tira
a mais-valia
Que
a caminhar é um homem sempre atreito.
Que preciosa a
torna em
demasia,
Quem pondera um sentido e nunca o tente,
No escrínio
resguardada, jóia
cara.
É um homem que jamais de homem é feito.
Quanto mais,
todavia, a preservara
Sem partilha em
meu íntimo,
sentia
597
Que o custo da
pureza da
magia
Sublime
Tanto mais em
prisão se me tornara.
Da vida o viver pode ser sublime
São segredos as
raras coisas
ditas
E da morte o morrer pode também.
Que a ninguém
transmitir-se poderão,
Juntai
no seio, tal como convém,
Que a língua as
trairá, tão mal
transcritas,
Berço e túmulo, que um outro redime.
Que delas os mais
nada
entenderão.
A vida possuí, amantes, nem
Portanto,
solitária é a vida e
gritas
Que adormeçais depois, que o peso oprime,
Sempre encerrado
e nu duma
prisão.
Nos abraços da morte que se imprime