OITAVO VERSO
COMO O PORVIR
CUJO ANTEGOZO PROVO
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737
742
Como o
porvir
Confins
Como o
porvir
É espantoso o que a mulher
Cujo antegozo
provo,
Na vida vai dar a um homem.
Eis-me a
ir,
Muito mais que um lar qualquer,
Quanto mais velho, mais
novo!
Que
amor de que todos comem,
Traz-lhe o céu, é o paraíso
738
Nas suspeitas doutro mundo,
Acordam
É
nas tragédias o riso
Que
o destino traz fecundo.
Não são golos que metemos
Que as pessoas nos
recordam,
E dum nascimento o grito
Pois na vida o que
valemos
Mais que um grito é de criança,
São sonhos que nos
acordam:
É o espanto do infinito
Isto é que marca a
pessoa,
Da História entrando na dança.
De má, por fim, ou de boa.
Porém, o maior mistério
Não é o do que ao homem traz,
739
É
o do que, sob seu império,
Desmaio
A
mulher dum homem faz.
É das chuvadas de
Abril
É por isso que acredito
Que as flores brotam de
Maio.
E, sendo o mundo mesquinho,
Do Inverno as tristezas
mil
Fronteiras não lhe limito,
São um ligeiro
desmaio
Que lhe ando armando outro ninho.
Em que mergulha a alegria
Aguardando o novo
dia:
Aquilo que sou capaz
Quando o Verão
aparece
De
fazer não saberei.
Que eu aconteça
acontece!
Sei, porém, que lhe ando atrás
E um dia, mulher, serei
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O sonho que tu me sonhas:
Feliz
Saltarei
dos confins meus,
Vou
dar-te o céu onde ponhas
A felicidade
quer
Quanto eu e tu somos Deus!
Livre um olhar de estupor
Pelos oásis que buscamos.
Feliz é quem
remeter
743
Prò espelho
retrovisor
Omnipotente
Os desertos que deixámos.
A mulher é omnipotente
Desde
o nascente ao sol-pôr,
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Sem que nada, nenhum ente
Imaginar
Sequer
se lhe possa opor:
Coragem de
imaginar
- Em segredo, os gineceus
O que podia ter sido
Andam-nos
a gerar Deus!
É o nosso grande recurso
Para um sobressalto dar
Com algo mais
colorido
Da vida ao cinzento curso.
Sonhar é mais que um percurso:
Dá sabor ao que, comido,
Me alimenta de sentido.
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É mais que o fim duma guerra,
Estafeta
Que da paz o gineceu,
É
mais que um tremor de terra:
Vida, a intérmina
estafeta
- É mesmo um tremor de céu!
Desde a mais longínqua idade,
De mão em mão, rumo à meta,
A acender cada faceta
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Do lume da
eternidade.
Glória
Para a Humanidade, a glória
745
Não será problema lógico,
Avançar
É
reconciliar a História
Com
um fim escatológico.
Quem tem medo de ter medo,
Contra o medo é de
avançar.
A Fé matou a esperança
Dentro acaba-lhe o
degredo:
Na
História que acontecia
Descobre ali o
segredo
Em prol do que não se alcança:
De ir para todo o
lugar.
O sonho, a escatologia.
Certo humanismo ateísta
746
Toda
a espera à história deu:
Coisa
Com
isto perdeu de vista
A
transcendência do céu.
Tu tens sempre alguma coisa
Que aos demais fará
brilhar,
E
assim andamos perdidos
Mesmo quando em nada
poisa,
A navegar sem guarida
O mais distraído
olhar.
A ver se ouvimos vagidos
Do nascer duma outra vida.
Terás de nela ter fé
E, após, ver qual coisa é.
Nela inteira investe a
vida:
750
- Então terás a
medida!
Morei
Nós a crer que o desejamos,
747
Que
são nossos os seus traços
Atalhos
E
afinal sempre morámos
Por
dentro de seus abraços:
Que importa que batam malhos,
Nossos carris por
igual
- Muito antes de os desejos serem meus
Forjando p'ra nos
servirem?
Já nos desejos eu morei de Deus!
- Jamais existem atalhos
Para os sítios onde vale
A pena as pessoas
irem!
751
Sonho
748
O
sonho de cada qual
Tremor
Acaba
onde principia
Todo
o peso do real.
Desaba um
sistema,
Só quando se é genial
Morrem
sovietes:
É que o sonho é nosso guia
Enterro dum
lema
Hoje e sempre, a tempo inteiro.
Ou fim das
cassetes?
É que o sonho de verdade
É para o génio parceiro
Crentes ou
descrentes,
Da própria realidade.
Tudo estremeceu:
Não mais dissidentes
Nem mais apogeu?
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752
756
Nada
Novos
Ficamos sempre sem nada,
Mais
novos, tenham respeito,
Nós que ao fim criamos
tudo.
Se têm de dar conselhos!
A nossa ideia é
roubada
É que cá no meu conceito
Na voragem,
sobretudo
São vocês que são mais velhos:
Da sanguessuga,
amiúdo
- Não são anos o que impera,
Postada à berma da
estrada.
É sim qual é a vossa era!
Com a lei já não me iludo:
Mesmo se nunca desgrudo
Do parasita a
passada,
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Não, não paro a
caminhada!
Inteligente
Um cérebro inteligente
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É para nós um perigo
Prisão
Se
deposita a semente
Na
cabeça do inimigo.
Cada terra tem seu uso.
Cá nos vamos
aguentando
Se inimigos não tiver,
Até cair em
desuso
Qualquer que seja a cabeça
A nossa prisão ao
bando.
Em que a grandeza aconteça,
É
o porvir a acontecer.
Escravos da natureza,
Anos bons, outros sofríveis,
Cada qual à sua
mesa
758
Serve as estrelas
possíveis.
Tarde
À terra cai a
semente
Nós chegamos sempre tarde
E, num gesto que a
consagre,
A este mundo revelho,
O que espera toda a
gente
Já a fogueira no lar arde
É que aconteça um
milagre.
Onde me aqueça o artelho.
Em
relação ao passado
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Que é o lugar onde vivemos,
Profissão
Tudo
se encontra ocupado
Pelos
mais com que topemos.
Trabalhar para um patrão
Exige de mim bem
menos
Em relação ao futuro,
Do que qualquer
criação
Porém, que não foi jamais,
Em que meus gestos são
plenos.
Saberei como o inauguro?
-
Chegamos cedo demais!
As profissões asseguram
Mas têm alguns senões:
Tanto quanto nos
maturam,
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Aniquilam
vocações.
Gargalhada
Ao chegar junto do dono,
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Dá
primeiro a gargalhada
Pontes
Que
nos desperte do sono:
Rir
do mundo é a boa entrada.
Para quê fazermos pontes
Se as pessoas desta
terra
Deixemos
aos demitidos
Não sabem para onde
vão?
Toda a carranca dos anos.
Pouco importa aonde
apontes:
Vamos rir, que estes sonidos
Quem do cais jamais
desferra,
Derrubam mesmo os tiranos!
Cá ou lá é tudo em vão.
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760
Destoutra
navegação.
Admiro
O
primeiro foi o evento
Aqueles que mais
admiro
Do que primeiro se arquive;
São quem de mim mais
diverge.
O tamanho do momento
Então em mim os
insiro,
Continua no que vive.
No que sou tudo se imerge.
Ganhará direito à vida
Admiro porque me
espanta
Apenas quem admirar,
O além do que for
comum.
Que em suas mãos leva erguida
A bandeira apetecida
Admiração, quando és
tanta
De quem vai poder gerar,
Que me tomes a
garganta
Da multidão distraída
Mesmo se não é
nenhum
O
novo tempo e lugar.
O traço do que me
encanta,
Novo tempo onde repouso
Nenhum que me more a
par
No infinito que enfim ouso.
De quanto em mim se encontrar?
763
761
Fortuna
Mistério
Não vale mais meu mistério
É no poder de admirar
Que outro mistério
qualquer:
Que posso levar ao fim
É o desafio
sidéreo
No mistério o meu lugar
Que inteiro ao fim
chegará
E
assim vir de encontro a mim.
Quando nada em nós sequer
Sabemos se chega
lá.
Então, neste chão fecundo
O mistério ao desvelar
Crio
a fortuna do mundo.
762
Admirar
764
Admirar é um
elogio
Força
Da janela prò infinito.
Mas, se lhe não perco o
fio,
Em mim há o que tem mais força
Quem no fundo eu
elogio
Que
a força que eu próprio tenho.
Do espanto é quem solta o
grito.
Arremedo o que reforça
Quando em vez disso devenho
Quem admira é quem se entrega,
De si fora põe-se
inteiro,
A velha voz do destino
Joga a vida pela vida.