DÉCIMO PRIMEIRO VERSO
MEDE PRECISA
ESTA BANAL PACIÊNCIA
Escolha aleatoriamente um número
entre 1064 e 1177 inclusive.
Descubra o poema correspondente
como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1064
O problema é
que estafa...
Mede
precisa
-
E, depois, como ele abafa!
Mede precisa
Esta banal
paciência
1068
Que
visa
Acontecer
Descortinar por trás da indolência
O
sentido
Para
onde quer que vá
Da
espera
Jamais eu me irei perder
- Eis o que
convido
Nem tu, que jamais repoisas:
A
intransigência
Estamos cá
A descobrir no que
era.
Para acontecerem coisas,
Senão, em vez do
futuro
- Estamos sempre a acontecer!
Ergue um muro.
1069
1065
Pureza
Impossível
Conflito
de gerações,
Não se empenhe em
atingir
Luta de classes,
O
impossível.
Guerra...
Procure apenas
subir
Não
são vítimas aos milhões,
O degrau
visível.
A tragédia dos impasses,
Então se
espante:
O que mais aterra.
- O impossível está diante!
É que uma ave engaiolada,
Se
conquista a liberdade,
1066
É recebida à bicada
Brinquedo
Pelas
mais, quando da entrada
Nesta
nova identidade:
Perde o medo,
Não a leves tão a
sério,
Como é que parece um mal
Que a vida, em qualquer
lugar,
A pureza original?
É um brinquedo
De montar
Cujo
mistério
1070
É convir por vezes sacrificar a
rainha
Luz
Quando ninguém pensava que convinha.
Que bom caminhar
Sobre luz!
1067
O que seduz
Lata
Num
lugar
É
que nos dê alta
Na grande
cidade
Da doença que mais demora:
A frialdade
-
De luz esta falta
É que nos
cadaveriza.
De dentro para fora.
No bairro de lata
O que
acata
1071
É a quente
brisa
Exemplares
Do calor
humano,
Se
os vivos são desnorteados,
Tão quente que é de
rachar,
Insiste, não pares:
Tão intenso que me
irmano
Como cadáveres adiados
Com o
lugar.
São exemplares!
============================================================
1072
O
fim do mundo
Humor
Até,
Quando
o aprofundo,
O
bom-humor
Às vezes o põe de pé.
Não convém
Que seja uma
mesquinhez.
A escuridão eterna
É um gesto de
amor
Desanima,
Que uns aos outros nos
atém,
Até que vejo nela a lucerna
Impedindo-nos, de
vez,
Que ilumina.
Do sorriso sob o império,
De encarar a vida demasiado a sério.
1077
Canibal
1073
Arcanos
Canibal
É
quem come o vizinho,
No
Natal,
Espiritual
No dia de anos,
É comê-lo em pão e vinho.
Na Páscoa, no
Carnaval
Real
Entremostram-se os arcanos.
E
não fantasia
É sugar a mente dos escravos
A comida tem sabor,
Tornados mercadoria
Mas sabe mais um
bocado:
Sem agravos.
Sabe ao que sabe e, melhor,
E
um auto de fé
Sabe ao seu
significado.
Assando a vida na fogueira
É antropofagia da vista até
Ao cheiro.
1074
Tudo
isto, primeiro,
Buraco
Começou
em casa à lareira:
Quanto mais civilizados,
Convém
Mais os canibais andam mascarados.
Ver bem
A que me ataco
Para escapar dum
lugar:
1078
Se caí num
buraco,
Galanteio
É melhor parar de escavar!
De galanteio
Nem
falo:
1075
É tenteio
Perdido
De
galo.
Eriça
Nada está perdido:
As
penas,
Apenas ocupa um
lugar
Enliça
Esquecido
As melenas.
Que não devia mais
ocupar.
O que falo
Enriça
Nas pequenas!
1076
Eu calo, eu calo...
Sempre
Uma
ferida
1079
Permanente
Pena
Raramente
O é na
vida.
Que pena,
Do génio quando morre a estrela!
Como a vida é pequena
Para
ele viver nela!
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1080
1085
Asas
Crê
Que importa
voar
Um homem de boa mente
Por cima das
casas?
Crê
Como as ideias não trepam de
elevador,
Em tudo quanto vê
Um homem que sabe
pensar
E não vê quanto lhe mente.
Tem mais asas
Que qualquer animal voador.
1086
Façam
1081
Causa
Façam
lá revoluções
À vontade!
O
mal
Preguem
a felicidade
São apenas os
restos
Aos aleijões!
De quanto nos
custa:
Imponham-na aos invertidos,
Pois não há poder que
iguale
Da eternidade aos fanados,
O dos homens
honestos
Aos
maridos traídos,
Por uma causa
justa.
Às viúvas dos soldados,
Aos paralíticos,
Aos impotentes,
1082
Aos
políticos
Banana
Decentes!
Lavem os imundos nos recintos,
Era uma
vez
Dêem comer aos famintos!
Uma banana num
cacho
- Mas deixem à solta
Bem dentro dum
bananal...
Esta loucura criança
O meu
revés
Que germina sempre em volta
É que, comendo-a, não
acho
Destes
a quem alcança:
Do mais nem vago
sinal.
Dos poetas, dos pintores,
- Que é do
suor
Dos romancistas, dos escritores
Da
vida?
Dos que são tão diferentes!
Do
tratador
As
heresias corta rentes
Que é da
lida?
Se quiseres,
Mas deixa-mos, tristes e alegres,
Sem os tolheres,
1083
A marchar contra as correntes
Tudo
Do
progresso que integres!
- Quem jamais pode pautar
Terei
tudo,
A
vida
Talvez...
Como em arte ter lugar
Já que,
sobretudo,
Quando perdida?
Ter tudo
Não é ter tudo duma vez.
1087
1084
Além
Problemas
Além, muito além,
"Nada é
eterno"
O melhor de mim,
- É o melhor de nossos
lemas:
Onde não chega ninguém.
Livra-nos do
inferno
A inércia me leva ao fim
Dos
problemas!
Por sendas que não são minhas,
Onde me revelo alheio
Doutrem
nos traços e linhas
Que sou eu rasgado ao meio.
Nisto sou mas sem segredos,
============================================================
É de mim que assim me
corto:
1092
Revelado em meus
degredos
Erro
Sou eu, sou, mas estou morto!
Ao erro, vence-o
O laboratório, as retortas
1088
Rasgam-lhe
no muro novas portas,
Liga
Enquanto
mastigam em silêncio
As palavras mortas.
Tão ligados, tão
iguais!
As palavras de esconjuro
- É sinal
Nunca
derrubaram o muro.
Que a aflição os liga mais
Que qualquer amor carnal.
1093
Guerra
1089
Paz
O
pior da guerra
Não é estar em todo o lado.
Quem pode fazer o
mal
O que deveras aterra
E o não
faz
É que, após alastrar no chão,
Ou é santo ou
genial,
Num bocado
Mas não nos garante a
paz.
Chega ao coração
O mal de
estrutura,
E nada resta que a impeça
Quando o
sei,
De trepar
Não o entrego à
ventura:
À cabeça
- Vergo-o à
lei!
- E de no fim a levar!
1090
1094
Diferença
Ávidas
Dois séculos foram
precisos
Estas ávidas pessoas
Para os governos
assinarem
Que se impõem os mais convencer
Do Túnel da Mancha os
avisos.
De sua verdade pessoal!
Para o
rasgarem,
Quantas loas
Seis anos
bastaram:
Ao veneno a que nem sequer
É a
diferença
Falta um aceno cordial,
Entre quem lavra
sentença
Para nos matarem a infância,
E os que o mundo nos
criaram!
Traiçoeiros!
Onde abandonámos a elegância
Dos medievos cavaleiros
1091
Da tolerância?
Luta
Quando se
luta
1095
Para salvar a
vida,
Fossa
Não há tempo para a disputa
Nem de tomar a
medida
Bombardeamos a cidade deles,
Do
destino.
Mudamo-la numa fossa,
A
autopreservação
A
fossa daqueles reles
Impõe o
não
- E é uma estratégia sublime!
Ao
desatino:
Quando são eles a bombardear a nossa
E a
lei
- É um crime!
Primeira,
Sobranceira,
De novo é rei.
============================================================
1096
Arredondou-se, avessa,
Ainda
Adelgaçou
o tecido
Que a recama
Ontem tinha
ainda
De sentido:
Uma eternidade à minha
frente.
- Que linda travessa
A manhã de hoje
advinda,
Para
uma cama!
Que fugaz é o presente!
E amanhã irei pensar
Que hoje ainda
teria
1100
Uma eternidade,
devagar,
País
A gozar em cada dia.
Meu País
É
uma boca que mastiga
1097
E uma outra que engole em seco,
Burocracia
É
um nariz
Que
jamais se desobriga
A
burocracia
Das quaresmas do que peco.
É aquela humanidade
É um sobejo
Que torna mais
desumana,
De gorduras para um lado
Dia a
dia,
E,
para o outro, de escassez.
Esta
igualdade
É um bocejo
Que nos desirmana.
Dum pescoço empapuçado
Que olha a magreza de viés.
1098
Porém,
tem modos:
Tanto
-
Que a sorte quando nasce
É para todos...
Tanto padre, tanta
freira,
...Os da nobre grei que pasce!
Todos casados com Deus!
Tanta, tanta voz fagueira
Perdida dos
seus!
1101
Invento
Todos entram na fileira
Por amor, mas não dos
céus:
Dos homens qualquer invento
Por amor se este os
inteira
Há-de
sempre acabar cedo,
(Sem lugar a
véus)
Coisa de vento
Que mete medo.
Que na terra quem os queira
Não poderão
encontrar.
Porém, amanhã
Quem vai
professar
Ali se encontrará a chave
Que abre os portais da manhã
Quando um amor o
requeira?
Onde o sol se grave.
- Tanto procuro por isto
E nunca vejo tal
Cristo!...
Para
que em bem tudo acabe
Assim
Onde o Homem, por fim,
1099
Jamais cabe.
Crina
A bela
1102
Menina
Natural
Magricela
Sacudiu a
crina:
És um homem natural
- Que
donzela!
Em caminho pedonal,
Sem cascos de mula
Nem asas de gula?
============================================================
- É
afinal
1106
Natural
Medida
Que te vendas a pataco
Como outro qualquer
macaco...
Há tanta coisa no céu
Que ninguém sabe explicar!
Pusesse-as alguém ao léu,
1103
Outro
era nosso lugar.
Mundo
A nossa sorte
Onde é que o mundo
irá
É a terra ter outra medida:
Da noite para o
dia,
No mundo tudo é morte
O Homem para onde o
leva?
E vida.
- Deus sabia
lá
Onde se
metia
E ao fim tudo se deslinda,
Quando criou Adão e
Eva!
A morte advinda.
1104
1107
Ausência
Espreite
A tudo um homem
resiste
Se Deus de alto vê tão mal
Menos de si à
falência:
Assim tudo,
- Não há nada mais
triste
Então
muito mais lhe vale
Que uma
ausência!
Vasculhar pelo miúdo
Este mundo por seu pé,
1105
Sem medianeiro ou recado,
Povo
Que
não são de fazer fé.
É que ao longe aparvalhado
Um
povo
Que tanto espera do
céu
Se vê quanto é grande ao perto
E só na terra o
renovo
E só por óculo olhado
Busca a que vai chamar
seu,
Se verá qual está certo.
Gente a laborar nos campos,
Nas aldeias
derramadas,
E não nos consta que Deus
Nas casas presas aos
grampos
De
óculo espreite dos céus.
Que as afixam às estradas,
Vai ao quintal ou às fontes,
Rouba uma sesta ao
pinheiro,
1108
Um povo que não faz
pontes
Começa
Para o dia derradeiro,
A um pau de nada se
arrima
Novos, os conselhos
E nunca mais olha acima,
São
de descobrir
Pela cerviz bem
dobrado,
Tudo quanto houver.
Quando mesmo tem
visões,
Velhos,
Sempre é um povo
condenado:
O que está para vir
- Arreda-as como
ilusões.
Começa
a acontecer.
Do chão preso o olhar ao
véu,
Nunca, porém, nos chega a idade
Perde as
jeiras
Da verdade.
Pioneiras
Que há no céu.
============================================================
1109
- Mas quem tem juízo?
Pobre
Por mais que cobre,
1113
Nunca a bolsa fica em
alta:
Inteligentes
O pior pobre
É a quem o dinheiro não falta.
Como todos,
Os inteligentes sabem,
Rota a
soca,
Porém, doutros modos.
Saco sem
fundo,
Mais que os mais
Entra-lhe o dinheiro à boca,
Sabem que sabem.
Defeca-o pelo
mundo.
Tanto às vezes que não cabem
Nos modos convencionais.
Sonhar com merda é
dinheiro,
Amiúdo
Diz o
povo,
Acreditam saber tudo.
Mas o dinheiro é que é
merda,
Então,
por arrogância,
Como inteiro aqui o comprovo,
Morrem mesmo de ignorância!
Aqui desta posição lerda
Com que o anoto e o ameio:
Que de cócoras é que
convém
1114
Que trabalhe
quem
Marinheiro
Faz as contas do dinheiro alheio.
Marinheiro
Exausto do vasto mar,
1110
Sem, mesmo por derradeiro,
Número
Nesga
de terra alcançar,
Sou meu povo viageiro
É o número a menos
exacta
A firmar-me no horizonte
De quantas coisas há no
mundo,
Sem jamais encontrar ponte
Que cem sacos de
batata
Para
o lar.
São tão cem, quando o aprofundo,
Impede-me a ancestral ânsia
Como cem homens ou
bestas.
Desta busca da distância
A diferença entre
estas
De aqui dentro me ancorar.
Notações
E
é assim
Não é
nenhuma
Que a mim nunca irei voltar.
- E assim dos homens
dispões
Ai de mim!
Como quem sacas
arruma!
Qual,
Afinal,
O país de meu lugar?
1111
Grito
1115
Grito
Aparelhos
E o eco alcança-me de través.
É o
infinito?...
Os
aparelhos
- Infinito,
infinito
Que aliviam o trabalho
É o desta nossa
estupidez!
Poupam-nos os gestos velhos,
O monótono atrapalho.
1112
Requerem, porém, mais dinheiro,
Religião
Famílias
de dois salários,
O trabalho a tempo inteiro,
Sal na
comida
Segundos
empregos vários.
É a religião,
Nem demais na
medida,
Nem de menos,
senão
O sal
preciso.
============================================================
Assim é que
desistimos
1119
De tantos luxos do
passado,
Estranho
E em troca vimos
O último engano
inventado!
Entram e saem pessoas,
Colaboram
na conversa,
Ordens, evasivas, loas,
1116
Gesto e postura diversa...
Viagem
-
Que mundo estranho e cruel
É
o quartel!
Se, em
viagem,
Contendo-o nela, nele contida,
Rejeitas a comida
local,
Que adversa
Ignoras o costume
selvagem,
A vida!
Temes a religião ancestral,
Evitas qualquer pessoa,
- Não foi uma escolha
boa,
1120
Melhor fora ter-te em
casa.
Cativeiro
Pedra atirada à lagoa,
À superfície te
molhas
Às vezes um cativeiro
Sem jamais um golpe de asa
Verdadeiro
Para fazer parte da
água,
É preferível
Que em água tu te
recolhas.
Ao outro, simulado,
Tua viagem dá
mágoa:
Que vivemos deste outro lado
Um corpo a correr na
estrada
E nos é invisível.
Com a alma aqui parada!
1121
1117
Responsável
Liberdade
Quem é o responsável,
Liberdade plena
ninguém
Afinal?
Tem,
Serão tantos, somos todos
As leis da
linguagem
Que é impensável,
Coagem,
Na dispersão universal,
A linguagem das leis
ameia
Distinguir
os modos
A
teia.
De alguém.
Oprimidos pela
sintaxe,
- Aqui definitivamente
Às voltas com a rede
social,
Trancado,
Nos limites do manto de
gaze
Cada
qual em si retém
Ainda nos mexemos,
afinal.
A vítima inocente
Nestas grades, serenos,
E o culpado.
É que tentamos ser plenos.
1122
1118
Medo
Certeza
Não temos medo, não.
A única
certeza
O que temos é medo de ter medo.
É de sermos uns
trambolhos
Esta inquietação
Sem recorte nem
beleza,
Em
que me enredo:
Cujos
antolhos
Se um perigo surgir
Repetem a monotonia da
rotina
Qual meu modo?
Que domina,
domina
Decente? A tremelicar? A fugir?
E com que ninguém
atina.
Da
incerteza no engodo
Finjo segurança,
Falo à toa, temerário.
E o que isto me alcança
É camuflar o medo primário
============================================================
Que não
tenho
Meu argumento de peso
E de que, afinal, me
banho.
É um bocejo que desperte.
Ai
de mim, ai de mim,
1123
Como chegar um dia ao fim?
Ideias
Temos algumas
ideias
1126
Seguras.
Lixo
Recusamos as velhas teias
Agora
impuras:
Pobres
diabos,
Há um século
boas,
Não valemos nada,
Hoje não valem
nada.
Mero lixo.
O pior é que nossas tão sápidas
broas
Como podem distinguir-nos os nababos?
Também nos
arcanos
Ao
lixo acostumada,
Da
poeirada
Esta gente pisa-nos às cegas
Se esboroarão dentro de
anos.
O nicho:
Entretanto
Somos o pó das pregas
Valem tanto, tanto,
tanto,
Que
acumulam nas estradas,
Que nem vemos a
ironia:
Entre bichos nem um bicho,
Como tudo é
fantasia!
Só poeiras entranhadas.
Lixo varrido
Para
as bermas do olvido.
1124
Receio
1127
Pior
receio
Indiferença
É o de me deixar ir,
Mera leviandade a
meio
Nenhum
sinal de protesto
Das correntes do
devir.
Nem compaixão.
Tornar-me
alucinação
Indiferença de homm honesto
A ponto de
confundir
Cujo apresto
Um motor de
combustão
O
defende da contaminação.
Com uma metralhadora.
E não
saber
Perante a guerra e a fome,
Se já me não fui embora
Minhas fontes secas,
Fantasmas a
revolver,
Uns frangalhos que nenhum uso consome,
Perigos inconsistentes
Nem
o faminto come
A desconfiar onde
aprouver,
Tais frutas pecas.
Revoltas dementes...
- Que é que
alcança,
Desgraçados egoísmos
Em mim, a
criança?
Do pavor,
Somos
uns anacronismos,
Os arcaísmos
1125
De que viveria o amor.
Medonho
E
aqui andamos reduzidos
O mais
medonho
Nos mercados
É que somos
prisioneiros
A estes grãos de pó caídos
Que tememos o
sonho.
Que jamais são levantados.
Bem nos cremos pioneiros,
Porém, o movimento
De qualquer mudança
enerva.
1128
Com que menos me
atormento
Sequer
É com ficar de reserva.
E assim continuo preso,
Sei que morro,
Inerte.
Não há problema:
============================================================
Toda a vida para ali
corro,
1132
É o meu
lema.
Repente
- Duro mesmo é nem sequer
Ver para que é que irei
morrer.
Como é que a dona de casa assustada
E gorda
Trepa de repente a encumeada
1129
Nas neves do píncaro acorda?
Mundo
Subindo degraus pequenos
Dum homem a
mulher
De
cada vez:
Quer
É a forma de pesar menos
Que lhe abra o
mundo,
O terror de nos falharem os pés.
Ou que a liberte
Dum mundo
infecundo
A ideia de fracassar
Que a aperte.
É que mais nos paralisa:
Que lho tire de ao
pé
Não do fracasso o lugar
Ou que lho
dê.
Mas dele o que se não divisa.
Não vê
A terceira alternativa,
No
fundo:
1133
A maioria,
cativa,
Basta
Perde é de vez o mundo.
A vida
Está mesmo a começar,
1130
Basta
apenas derribar
Adolescente
Aquela
barreira erguida.
Adolescente
Algo
É quem não aprendeu
ainda
Há primeiro a resolver
E corre,
inocente,
Para depois soltar o galgo
A vida ingenuamente
linda.
Da vida inteira a correr.
Até ao âmago viver
Chocando contra todos,
Um assunto a tratar,
Eis o modo sem
modos
Dar tempo ao tempo um pouco
De ele ser.
E acordarei noutro lugar,
Antes que o sonho se
apague,
A nada mais serei mouco.
Que os barcos da aventura adornem,
Quem lhe ensina o
ziguezague
Aí, creio, nesse dia
Que os escolhos
contornem?
Então
a vida principia...
- Quando é que, finalmente,
1131
Acabarei por entender
Problema
Que
os obstáculos são, evidente,
A
minha vida a ser?
O problema adolescente
É que nos não deixa a sós
Esquecendo-nos de
nós
1134
Ou daquilo que,
evidente,
Casa
Em tempos fomos
E não
somos.
Tanta
vez mudei de casas,
Onde é que fica meu lar?
Não são de adolescentes as
histórias,
Decerto não é o lugar
- São as nossas
memórias!
Onde o pardal fechou asas.
============================================================
Quanto mais
velho
1138
Mais o canto onde
cresci,
Responsabilidade
De meus pais ouvi conselho
Se torna o meu lar em
si.
Ele adora-te, gostas dele:
A
enorme responsabilidade
Os
demais
Tira-vos a liberdade
Serão lar de mais
alguém,
Tanto quanto vos impele.
De mim, não, que as sucursais
Não têm o que a sede
tem.
Não há como sair do apuro
Sem
temor:
Liberdade sem amor
1135
É um deserto, não um futuro.
Medos
O
pior é no mundo ninguém ter mão
Quase
todos
Na gradual desertificação.
Temos medos.
Disfarçamo-los de diferentes modos,
Mas todos sabemos os
segredos:
1139
Como é fina a
crosta
Voz
Cheia de
cepticismo
Que tapa a boca do
abismo
Não há consenso
A que cada qual se
encosta!
Sobre o que será voz de mulher,
Excepto se o concito quando penso
Que
se deve calar toda e qualquer.
1136
Seja ingenuidade
Entornara
Ou
moda,
- Isto é que em verdade
Ao longo da margem
passearam
Incomoda!
Longamente
E à luz do poente,
De comboio,
finalmente,
1140
Debandaram.
Requer
Ficou a impresão
O escritor tempo requer
De que alguma luz se
entornara
A viver devagar,
Dela na emoção
Conversar:
Da
cara
Solidão
E nele ao murmurar "meu bem!",
E um estímulo qualquer.
Também.
Então
Por que é ponto assente
1137
Que um dia de lazer, vazio,
Amor
Represente
Um vadio?
O amor
Não pode ser encomendado.
Dor
1141
Que doi tudo em nenhum
lado,
Salta
É tão ingovernável
Como a
luz
Salta
a palavra
E igualmente
seduz,
Da folha impressa
Inevitável.
E lavra que lavra
Cada vez mais depressa.
Amor, o assunto
Deste trágico
caminho
Em que caminho em
conjunto
Sozinho.
============================================================
Talvez haja alguma
coisa
Poemas sentidos
Por detrás do
muro
Como uma chuva de dentes partidos.
Da palavra onde
repoisa
Contudo, espero, espero...
O que de mim tenho
inseguro.
É infinitamente maior
Que qualquer inevitável desespero
Mas qual o alcance da
torrente
O amor
Se no fim tudo me
mente?
Ou seja lá o que for
Que quero.
1142
Explicação
1145
Peso
Explicação, há,
Um rosário de
explicações
- Pai,
E nada explicado
ficará.
Por que se retorcem tanto
Até por explicações
haver
As árvores velhas?
Mais explicações
haverá.
- É que delas sai
Juntas todas as
razões,
O encanto,
Nenhuma nos
dá
A magia
O que
houver
De ancestrais ninhos sob as telhas
Para
saber.
E elas vergam ao peso da sabedoria
Que em séculos, milénios de desditas
E muito
menos,
As tornam eruditas.
Já que somos tão pequenos,
O ser
De
qualquer
1146
Ser.
Terra
Terra! Terra! Sepulcro vivo
1143
Pejado
de mortos que respiram,
Fantochada
Cada
qual em si cativo,
Que os mais dele já fugiram.
Convívio, civilidade,
O incenso e as orações,
Terra,
mundo deserto:
A balbúrdia e quanto
agrade
Para quenquer só ele existe,
Será tudo
fantochada,
Por mais que o mais more perto
Gira tudo aos
tropeções
Não tem corpo nem resiste.
Em redor dum ponto tredo
Que nos espeta a
facada:
Tantos olhos nas estrelas,
- Temos
medo!
Tantos a trepar o morro,
Tantas preces, tantas velas...
Se houvera razões de
amar
- Todos pedimos socorro!
Respeitar-me então pudera,
Se um naco de fá
houvera,
Por fim, não há mais querelas:
Seria a paz de
alcançar...
- Morre tudo quando morro!
Como, porém, tecer encómio
De egoístas a este
manicómio?
1147
Búfalo
1144
Nós
Ternura
Rogamos
da cama a praga,
Corremos a casa e o mundo
Somos tão desajeitados
Como
um búfalo feroz
Que os versos da
ternura
Que persegue, estranho, a paga:
Nos saltam da boca pelos lados.
O arco-íris que foge ao fundo,
O amor
apura
Na crista da vaga
============================================================
Que varre a
pradaria...
1150
- E da ilusão nada nos alivia!
Atrai
Que é que nos atrai na vida,
1148
Qual
é a vida que atrai?
Ideia
Uma
pessoa é atraída
Pelo que ao ignoto vai.
A
ideia
Embora toda esta via
Da palavra segue o
rumo
Desconhecida
Como um rio que na
cheia
Seja mera fantasia,
Nas escarpas
estrondeia,
Será sempre a derradeira
Aos céus elevando
fumo
Gavinha que na videira
Da garganta
estrangulada.
Será um dia
As paredes
resistentes
Destruída.
Canalizam, na passada,
Tumultuoso, o caudal
Que nasce lá nos
dementes
1151
Caboucos do
tremedal
Cinzas
Que em nossa alma moram fundos,
Raízes de novos
mundos.
As serranias e vales,
A
função
Os alcantis e as planuras
Da palavra é ser
assim
Mais são cinzas em que iguales,
Inflexível,
sufocante,
Cadavérico,
as misturas
Para impor a
contenção
De que é feita a Terra inteira.
À energia, ao
frenesim,
O mistério
Senão era o abismo
hiante
É que vivemos à beira
Que o mundo
destruiria
Deste imenso cemitério
Quanto a si próprio o
faria.
Alimentando as retortas
Uma ideia
encapelada
Com todas as coisas mortas.
Desta continuada
luta
No fim, a bandeira erguida
O que espera, o que
desfruta
É a vida!
É uma erosão consumada.
E ao triunfo da erosão
É que chamamos
razão,
1152
Casamento
singular
Razões
Entre a ideia e a palavra
Em que, em vez de irem a
par,
Quem se não deixa matar
Uma à outra se
escalavra.
Quando
razões sobrem de morrer
Tornar-se um homem um
homem
É uma vergonha de homem.
São contradições que
assim
Há-de continuar
Vividas até ao
fim
A viver
Nos
consomem.
Mesmo
quando se lhe consomem
Membros, coração
E cabeça.
1149
Assim, porém, todos agem,
Porrada
Não
por falta de coragem,
Mas por falta da imaginação
Na TV, na discoteca,
Que o tamanho lhes meça
No bar reina tal
demência
E, na hora devida,
Que quem é bom é quem
peca
Lho peça
Com porrada à
inteligência.
Cobrando-lhes a vida.
E, se a cultura anda peca,
Anda-o desta concorrência.
Tal é a
seca
Que nos cultiva de ausência
Uma Terra já careca
Num deserto de carência.
============================================================
1153
Os
bilhetes para as idas,
Inocência
As
estações, os destinos,
Os carris, as avenidas,
A inocência
sublime!
Tudo ao fim são desatinos.
O milagre verdadeiro
É a
multidão
Quando dizemos o adeus
Não se prostrar o
chão
Não há pressa ou lentidão,
Que dali a
redime
Não há carro ou avião:
Por
inteiro,
-
Acabou-se! E os sonhos meus
No rasto das
pegadas
Tudo foi uma ilusão...
Que ela imprime
Imponderáveis.
O milagre é ser ela de carne e
osso:
1156
A inocência pisa nas
calçadas
Joelhos
Vulneráveis,
Não é uma estátua nem
flor,
De
joelhos, na rua,
Não é um
colosso,
Chamámos-lhe deus.
Não é pedra
preciosa.
Era a minha vez, era a tua
E é, contudo, a
melhor
E abriram-se os céus.
Jóia de que o mundo goza.
Depois
Apareceram outros deuses,
1154
Do grande deus nasceram dois
Explicam
E
começaram os adeuses...
Os Universos
explicam
Mas um deus é só um deus
E Deus
Todo-Poderoso,
E assim demos cabo dos céus:
- Todavia a si próprios ignoram e complicam.
Dão, porém, nas
vistas
- Há só um, há só um
Os
cientistas.
E
acabámos com tantos sem nenhum!
Nada entendem do numinoso:
Remexem-lhe as entranhas,
Capturam micróbios
invisíveis,
1157
Da raiva e do ciúme sondam as
manhas,
Profetas
Encontram os astros mais incríveis
Não
morremos nas valetas
Por nos perdermos pelos desvãos.
Na
distância...
Sempre há quem aponte as metas,
E nada mais custoso que a
ânsia
O problema é dos chãos:
Inelutável com que
acabem
-
É que nós temos profetas
Admitindo que nada
sabem.
Com lama nas mãos!
O pior é que, quando o admitam,
É num verbo tão complexo
E
desconexo
1158
Que os não
acreditam!
Dinheiro
Dinheiro
não dá guarida.
1155
Mais vale uma vida
Bússola
Pobre
e descansada
Que
rica e forçada.
A bússola aponta um
caminho
Que me importa a taça de oiro
E a viagem pode
rumar,
Se o meu sangue dela escorre,
Discriminando o seu do
vizinho,
Se me transmudo no toiro
Pelo trilho de qualquer
lugar.
Que
morre
Na arena?
- Não vale a pena!
============================================================
1159
1162
Amores
Frágil
Os amores
acordam,
Como é frágil a vida
Amores abrem
janelas...
E seu mistério profundo!
- Como é que tantos acabam nas
vielas?
Tanto custa a despedida
Ora emagrecem ora
engordam,
Que nunca o será
sequer:
Quando os amores nos
mordam
Custa mesmo a morrer
Jogam-nos ao chão ou às
estrelas.
O mundo!
Vulcão
Que o fogo desentranha de cada torrão,
É lava que
escorre:
1163
A
impulsão
Sós
Que a atirou ao céu,
A força breve
perdeu
Querem-nos sós,
E logo
morre.
Que à solidão a requer
O amor sou
eu:
A santidade.
Pedaço de tempo que
corre.
Antes
ignoram e após
Que a tentação maior vai ser
Quanto maior a soledade.
1160
Feliz
1164
"Feliz é quem é o mais
forte,
Céu
O mais sábio ou o mais rico,
Quem é amado até à
morte
O céu
E não ama, de tal
sorte
Não fica abaixo nem acima
Que de amor não tem
salpico"
De nós.
- É o saber dos
animais
Sou
eu,
A que os brejos são
pequenos.
Simultâneo em todos os ilhós
De facto,
jamais
Do tempo e do espaço, feito clima.
O coração é demais,
Pode é haver cabeça a
menos.
Eu, tornado o real
Progenitor
final
De todos os avós.
1161
Disciplina
1165
A
disciplina
Trenó
Importa à vitória,
Inclina
Matilha de cães atrelados,
À
glória.
Puxamos o trenó da vida
Sempre em frente, nunca aos lados.
Ao invés,
desintegrador
E os lados se esvaem de fugida.
É o efeito
Da vitória sobre quem
for
Por isso é que tanta gente
Indisciplinado e sem
jeito:
Devém telhuda:
Se
não for o cão da frente,
Na
euforia
A paisagem nunca muda.
Sem conta,
Perde quanto o elevaria
E a vitória nele é
tonta.
============================================================
1166
1170
Metade
Louco
Razão ter das vezes a
metade
Julgam-te louco
É
melhor
Porque desmontas a tenda,
Que metade da razão se
propor
Trepas todo o dia mais um pouco
Quando tê-la inteira se
há-de.
A montanha que diante se desvenda
E de novo a tenda
O tempo inteiro com razão a
meias
Ao fim do dia montas.
É de vez tolher-me dos erros nas
teias.
Porém, apontas
Que
louco ninguém te crê
Quando cada manhã vê
1167
Que voas para o trabalho
Preces
A
dar cartas ao baralho,
E tornas ao fim do dia
O problema das
preces
A tua casa vazia.
É que buscam adiantamentos
Sem
fundamentações:
Ou será que nisto, igualmente,
Querem benesses
Cada
qual aquilo sente?
Com argumentos
De boas intenções.
1171
Decadência
1168
Vivaz
A
decadência
É sempre o tardio fruto
Um espírito
vivaz
De instalar-nos na evidência.
Devia ser um manjar
Do conformismo é o produto
Raro como o
caviar
Com
o mundo da injustiça
De que ninguém é
capaz
Cuja canção nos enguiça.
De
espalhar
Traído, o justo
Nenhuma grossa
talhada
É quem fará pagar o custo.
Como faz
À marmelada.
1172
O espírito não é como se
fosse
Escravos
Um mero doce.
Eternos escravos
Do
esplendor de ideias feitas,
1169
Consolam-nos nossos favos
Meta
Deste
mel com doces travos
E tais maleitas
Se luto por uma meta,
Que
nos impedem
Pela meta não pergunto.
De ver a nossa ignorância.
Difícil numa
dieta
Antecedem
É não lhe tocar no assunto
À distância
Ao respeitá-la
discreta.
Cada
era e cada idade
Se me
atropelo,
Vivendo dia a dia
O que sou e o que
serei
A nossa imensa profundidade
Nunca mais consigo sê-lo.
Ludibriadamente vazia.
É a lei
Do desvelo:
Só ignoto me
revelo.
============================================================
1173
Tudo uma questão de trocos.
Existencial
És um problema
existencial:
1176
Não tens
capitalismo,
Sorte
Por mais cultural,
Nem cientismo, nem
tecnicismo
Importa colher a sorte,
Que te dêem
aval.
Dar rumo a coisas pequenas,
Os casos de vida ou morte
Porém, tens a
licença
São
equívocos apenas.
Do mercado,
Compras-te e vendes-te ao
lado:
No destino
Não tens
mais
É sempre proibida a entrada.
Sentimento de
pertença
Tomar tino
Nem a ti nem aos
demais.
É
responder-lhe à chamada.
- E se um dia qualquer
Da pertença não
houver
1177
Então mais quaisquer
sinais?
Saturado
A dada altura
1174
Saturado
de factos,
Seita
Ficas
imobilizado.
Suicidas-te na
seita
A cura
E não vês que és um
fanal
Requer que descontraias os teus actos
De loucura
universal.
Ao
sabor do fado:
Ou talvez
não,
Cuidas, por junto,
Que a loucura à vida é
afeita,
Nem pensar mais no assunto.
Saboreia-lhe o
sabor.
Acordas
então,
Então,
Ao acordar em ti a intuição:
É que o mal em ti
começa
Descobres a luz
Com a
pressa
Que te traduz.
De assaltar um outro mundo
Melhor.
Mergulhas até ao fundo
Do repúdio sem apelo deste.
- Só que morres de tal peste
Sem que reste alternativa
Que alguém viva.
1175
Tecto
Um tecto de hipermercado
Sobre ti cai,
Novo campanário sagrado
Que a romaria atraiu
E trai.
A tragédia aconteceu
Como na missa do dia
O deus salvador morreu,
Só que aqui paramentou-se
Com vestes de economia.
Tal como se o credo fosse,
Num mundo de loucos,