DÉCIMO SEGUNDO VERSO
QUE NOS ARRASTA
DO MAIS LONGE E FUNDO
Escolha aleatoriamente um número
entre 1178 e 1298 inclusive.
Descubra o poema correspondente
como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1178
Que nos arrasta
Que nos arrasta
Do mais longe e fundo
Eis a mulher casta
Que gerou o mundo:
A sabedoria
Secreta
Que da madrugada, discreta,
Nos tece dia a dia.
1179
Caminhos
As pessoas percorrem intérminos caminhos, pressurosas e desconexas.
As pessoas percorrem ínvios caminhos prenhes de mistério.
Eu vejo as pessoas e nelas me vejo; as pessoas vêem-me e vêem-se em mim.
Aqui vamos apressados, todos juntos e separados por metros e metros de
vazio.
Todos juntos tão distantes, a correr para onde, até quando?
E sem nunca nos encontrarmos. E sem nunca encontrar...
1180
Voz
Somos eternamente a criança medrosa acordada noite fora, a tremer de
silêncio e escuridão.
Como pedir que tu aguardes mais um pouco, que te demores, que prolongues a
barreira contra o medo, como pedi-lo sem nada te dizer, apenas com a voz de
dentro?
Como pedir-te que sejas meu pai e minha mãe sem te falar, que entendas sem
palavras que estou cheio de terror de ficar só?
Como pedir-te, sejas lá quem fores?
1181
Sentei
Quando me sentei à tua direita e me acariciaste os cabelos, quando me
sentei à tua esquerda e te acariciei os cabelos, como os nossos cabelos eram
fracos e soltos!
Como precisei que precisasses de mim, como precisaste que eu precise de ti!
Mas tu e eu falamos sempre, cada vez mais empolgados, obstinadamente
firmes, obcecados, acerca sei lá de quê!
E a casa fica vazia, o quarto fica vazio, a rua fica vazia, a cidade fica
abandonada cheia de gente - ai como fico vazio tão cheio de nós!
Que bom se a mão nos penteasse o coração!
1182
Sonhos
Se nos sonhos ainda há rios e oriente, demanda do Santo Graal e busca do
Eldorado,
Se há banquetes e manás, aventuras, miragens e oásis,
Se há rapazes e raparigas rindo, a namoriscarem negaças ao amor,
Então o corpo se evola e adeja leve por sobre a terra, pena de ave, asa de
insecto,
E quase sem querer é o pinhão dançando ao vento donde vão nascer as
florestas ignotas do futuro.
1183
Velho
"Estou a ficar velho..." - suspiram todos e é verdade e é
lamentável.
Só que ninguém repara até onde é tão verdade nem sequer tão lamentável.
Com efeito, cada qual está a ficar velho desde que nasceu: nem deu tempo
para viver!
1184
Menino
Que bom que era ficar sempre menino, sem crescer a vida inteira!
Não ter pai nem mãe, de a ninguém serem precisos, e não haver
desenvolvimento de criança nenhuma.
Um mundo inteiro de meninos, tão felizes e tão desastradamente ingénuos!
Não crescermos nunca mais. Só que mãe dá tanto jeito e pai faz tanta
falta!...
Ah! E o que custa não nos irmos tornando iguais a eles, feitos gente!
1185
Engano
Na vida apenas há um engano. Intérmino, insuperável. E duma evidência
infantil.
Dele nos vêm todos os males, embora revestidos mentirosamente de bens.
Na vida, em todo o mar de água há uma ilha de terra, em todo o continente
de terra há um lago de água.
Mas depois nós nunca entendemos, nunca entendemos...
Para que é que temos dois olhos se vemos apenas um lado, ainda por cima
pela metade?
Quando é que repararemos, quando num, que ao longe, por mais longínquo que
esteja, o outro nos aguarda, o outro nos espreita?
1186
Tacteamos
Tacteamos as trevas, tacteamos os rostos ignorados que não amamos, que não
teremos jamais.
Sobram-nos tantos braços para abraçar o que nos falta!
E sobramos tanto, com ânsia tanta sobramos tanto! E a tão pouco nos
atrevemos!
1187
Oriento
Oriento o caminho e complico-o: nunca fui por ali nem sei como iremos. Quero
ir e basta!
Oriento, mando: sou dono do itinerário.
Ser dono, nem que seja dum caminho por correr, é muito.
Muito de poderoso e singular: cá de cima, eis a força, um bocadinho de rei.
Ao menos por engano.
Faz de conta e conforta. Como nos basta uma ilusão!
1188
Recordação
Os sujeitos e os objectos choram, com a punição inaceitável da recordação
dos prazeres.
Viver é correr consigo e com os mais por montes e barrancos, saltar muros e
sebes com a alegria ancestral da descoberta.
É topar grutas e falésias, raparigas e florestas, descobrindo intérmino o
momento de viver.
Até ao fim dos tempos, à soleira de cada porta nos aguarda uma aventura, um
amor e um risco, um desencanto e uma esperança.
Nunca, porém, a solidão.
O isolamento é a minha desistência, é a minha tacanhez: é que sou
desajeitado ou me desnorteia a superabundância da gruta de Ali Babá.
1189
Cão
Encontro um cão e me encontro, sem o cão me perderia em labirintos
indecifráveis de percursos.
Sinto as horas decorrerem em fiel dedicação até à morte.
Doutro modo, daqui a pouco, agitar-me-ia tenso por saber-me guia sem rumo
duma aventura de improvável sentido.
Arrastaria os mais. E se me perdera? Se não reconhecera já os caminhos? Se
afinal lhes furtara meus panoramas?
Encontro o cão e me encontro fiel, um rumo entre rumos perdidos e
desvairados.
1190
Projecto
Não ser dono dum projecto é não se adonar do destino, perder-se dos mais e
de si.
Perder-se entre as estradas e os campos, entre as colinas e o cimento.
Ignorar repentino o programa é remar sem remo rumo a parte nenhuma.
Porém, sempre rumarei à fúria, à violência, à guerra, à iniquidade.
Porque nada é pior que o vazio, ninguém logra aguentá-lo: camuflamo-lo,
mentirosos, doutras agressões.
Somos a eterna criança que bate na mesa da vida depois de nela tropeçar:
"mesa má!"
1191
Carícia
Os dedos nos dedos em carícia discreta, nenhum deseja outro movimento.
O coração em desvario pára a rotação da Terra.
Olham-se, incognitamente conhecidos em lugar familiarmete ignoto.
Tão obscuro para todos os mais e tão iluminado de silêncio neles!
Como a presença é tão ausente!
1192
Contos
Contos de visitação à perpétua infância.
Depois, alumbrados, é o murmúrio da ressurreição das lembranças:
Dormimos e acordamos, trabalhamos, comemos e rimos, mas de fora do tempo,
por debaixo da terra, no húmus das raízes secretamente manifestas.
Tão meninos! Tão grandes! E tão raros, tão escassos em nós mesmos!
1193
Nascença
Pouco homens e mais transeuntes, caminhamos a vida.
Envelhecemos vis, envilecemos velhos. De nascença.
Quantos génios de nossa idade! Quanto génio naquilo que sou e não sei! Quanta
vulgaridade genial!
Como é preciso ser tamanho para ser infinitamente nada!
1194
Passos
Nossos passos carregados de derrota, como evitar segui-los? Como evitar
falhado antecipar-me?
Nossos traços de velhice, no rosto sepultado de alegrias mortas, como a
Humanidade é velha!
Como a Humanidade é velha em mim! Desde o berço. Por que nasci a gritar? Alegrias
mortas, que é de minhas alegrias por nascer?
Que peso! Que peso o peso detrás de nós!
1195
Alavanca
Quão poucos ainda crêem que seu dinheiro é alavanca de liberdade!
Quão mais o tornam opressão!
Alguém o quer para oportunidade de muitos em lugar do monopólio de alguns?
Para que é que servem os moralistas, os idealistas? Os ingénuos!
As coisas só caminham com sentido quando os prejudicados requerem direitos
iguais aos dos prevaricadores.
Pelo equilíbrio das forças, não por valor. Quando muito, pelo valor do
equilíbrio.
Todas as nossas alavancas, para serem eficazes, são pesadas.
1196
Oportunidade
Que fazer daqueles a quem os medíocres roubaram desde sempre a oportunidade
de provar que valem?
Dar-lhes o Governo? Mas, governantes, roubariam a oportunidade a outros
mais.
Não seriam, porém, melhores? Não, que o poder se encarregaria de os
mediocrizar.
Só, depois de mortos, ressuscitando-os. Mas conservando-os intocáveis na
sua grandeza de mortos enormes.
É por isto que o conserto do mundo é tão problemático.
1197
Arriscar
Vale a pena arriscar na vida? Como avaliar?
Quando se é humano deveras, vale sempre a pena o risco.
É que já está tudo perdido à partida: só se pode ganhar arriscando.
Mesmo perdendo-nos, quem sabe se não é perdendo-nos que afinal nos
ganhamos?
O insensato arrisca sem ponderar, o falhado nem arrisca, o prudente calcula
o abismo e salta.
Somos hoje o fruto dos saltos medidos de antanho.
Somos a herança imorredoira de ancestrais desafios em que alguém nos veio
ganhando.
1198
Difícil
No conhecimento, o mais difícil não é convencer os mais.
Qualquer Cristo, Buda, Maomé congrega prosélitos aos milhões,
interminavelmente.
E nenhum dogma impõe a Bíblia ou o Alcorão: os discípulos é que sempre os
inventaram e tanto mais intolerantes quanto mais ignorantes.
Não é difícil convencer os outros. Deveras difícil é convencer-me a mim: na
verdade, é mesmo impossível, definitivamente.
Estranho e terrível é que a multidão jamais dê conta disto. E assim nos
matamos convictamente uns aos outros, em nome de verdades que o não são, que
não serão jamais.
Como é difícil descobrir a vida! Quão fácil a ilusão, quão verdadeira a
morte!
1199
Casamento
No casamento há um pendor de desânimo. Não é a família que, ao gratificar,
compensa.
É a rotina, a matriz da segurança: ritual de identidade que carácter
imprime em cada cônjuge.
Sem a rotina, viria a instabilidade: já ninguém contaria com ninguém, nem
matrimónio houvera porventura.
A fome de novidade, de aventura, porém, alimentando o mistério, arrisca, no
limite, ao mútuo desconhecimento.
Desanimar é perder o equilíbrio: tanto rito quanto queira a estabilidade,
tanta criatividade quanta queira o sonho.
Tão simples e tão inexequível! Então às vezes as mulheres dos outros... Então
às vezes os homens das outras...
Quando em casa, em cada um, sempre morou, ignorado, o que nos faltaria.
1200
Duro
O grupo é a festa a conviver em paz. Tem uma ordem, com quem manda e quem
cumpre.
Por vezes é duro mandar e tem de mandar duro.
Quando o grupo fica em risco, quando a civilização fica em risco, quando a
Humanidade corre risco, é urgente o poder, custe o que custar.
Inevitavelmente mais custaria a brandura, ausência dele: cairíamos à mão
das feras, comer-nos-íamos uns aos outros.
Retornaríamos ao nada, mera poeira cósmica a vogar no caos primitivo.
1201
Sangue
Tanto sangue da justiça! Tanta justiça de sangue! E tão exangue o justo,
com ou sem horror!
Por mais duro que devenha o mando, para a justiça não é fatal o sangue.
Basta que no último reduto ele esteja, terrível, presente: quem arrisca
transgredir?
Contraditoriamente, tolerar o intolerável apaga valores: o crime prolifera
compensador.
Então o sangue irá correr desvairado, a repor justiças traídas.
É o açougue da civilização ocidental, perdida de sonhos e normas: crime
tolerado é crime promovido e acabará por submergi-la.
Para evitar o sangue, só a ameaça iminente de ele correr súbito. Permanentemente.
Vigilantemente.
1202
Fatalidade
Justificamos o crime com a fatalidade: a da herança familiar, a da
educação, a do meio ambiente, a das circunstâncias...
Só falta colocar a fatalidade no banco dos réus e mandar em paz o
criminoso.
E, claro, impor às vítimas o dever de sofrer caladas, porque coitadinhos
dos criminosos!...
Importa agradecer, por fim, ao bandido, pelo tão maravilhoso mal que nos
fez.
E, se alguém protestar, cadeia com ele: não se pode tolerar semelhante
desumanidade!
Os que vivem nas condições dos criminosos e se não criminalizam são,
obviamente, anormais que precisam de piquiatra ou de internamento, para
proteger o equilíbrio social.
1203
Mulher
Sem ti, mulher, endoideceria.
Contigo endoideço ainda mais.
É a única forma de a vida ter sentido: ser louco de todas as maneiras.
Porque quem tem de mandar é o coração, com a cabeça a servi-lo.
Jamais o contrário.
1204
Revoluções
Antigamente os heróis faziam revoluções. E eram heróis porque libertavam o
povo. E faziam revoluções porque eram partos difíceis, de riscos mortais.
Hoje os heróis não fazem revoluções. São criminosos geniais que em nome da
libertação escravizam povos e continentes.
Hoje os heróis já não chegam para fazer revoluções. Hoje temos de ser todos
heróis e mexermo-nos. E mesmo assim...
É que as revoluções de hoje seriam de todos, o que jamais ocorrerá porque
os homens são rebanho.
E as revoluções de hoje precisariam de modelos e ideias tais que todos
revolvessem. Ora, esses, quando se notam, ou são rejeitados ou dão
anti-revoluções criminosas.
As únicas que resultariam seriam tão despercebidas que ninguém daria por
elas. Mas como estaríamos todos lá dentro?
Hoje os heróis não bastam nem a falta deles.
Hoje só um grande sonho capaz de nos arrancar a todos o coração do peito
jogando-o às estrelas: às que há fora e por dentro de nós...
Então voaríamos sem ninguém reparar. Todos, finalmente.
1205
Amor
O amor fica acima de todas as coisas.
O amor nada tem a pedir, adora apenas.
O amor tem de dar-se por inteiro. Sem condições nem limites. O amor é
infinito.
É o Infinito a irromper dentro do espaço e do tempo. E a rasgá-los por
dentro. Discreto e persistente.
A dar-se inteiro mesmo a quem o não aproveita: e somos todos, desde há três
milhões de anos.
O milagre persevera, embora ninguém o note. E continua fazendo-nos, subtil,
notemo-lo ou não. A caminho do Infinito.
1206
Palavras
Palavras são meros sons, um nada de vento. Porém, com um sentido.
Cuidado com as palavras: por vezes colam-se aos actos e, agrupadas com
eles, marcam o destino.
O acto cria a realidade, mas apenas a palavra lhe fixa, definitiva, o rumo
e o valor.
A tragédia é que tanto os fixa quando acerta como quando erra.
Cuidado com as palavras: apontam ao céu ou ao inferno.
Urge aprender a escolher. E depois escolher bem.
Esperando que as más escolhas ainda nos dêem tempo bastante...
1207
Sangue
O problema do sangue é o problema da vida: se não correr sangue, mais tarde
ou mais cedo há-de correr sangue, se correr sangue, então corre mesmo sangue.
Ideal não seria não correr sangue nenhum? Seria o ideal, não a realidade, o
ideal da realidade.
Na realidade, o sangue tem de correr na hora certa, da pessoa certa, para
que jamais tenha de correr a todas as horas, de todo o povo.
Assim, a hora certa e a pessoa certa cada vez serão menos e mais distantes.
Quem sabe, talvez um dia não haja mais necessidade de o sangue correr. Só
ocorrerá, porém, desde que, ainda então, ele possa correr de novo se qualquer
infractor infringir.
Doutro modo não correrá tal sangue porque já está correndo o dos inocentes.
Se não se recuar, em breve correrá o de todos.
Voltaremos então ao princípio, sem termos aprendido nada.
Ciclo de loucura em que nos movemos desde sempre, será que o vai ser para a
eternidade?
1208
Crentes
São os crentes que nos matam: os das igrejas, os das seitas, os fiéis e os
heréticos, os dos partidos, os das ideologias, os das filosofias, os das
religiões...
Os crentes são orgulhosos. Têm a verdade. Garantem a salvação. E metem no
inferno todos os mais.
Um crente orgulhoso é bem pior que um descrente humilde, duvidoso.
E não há descrentes orgulhosos: estes são os crentes doutro campo qualquer.
Todos os crentes se enganam: julgam que têm a verdade e só têm um grupo. Para
hostilizar os outros grupos e para impedir cada qual de ser ele próprio até ao
fim, o mais que puder.
O crente é um sub-humano agarrado à estaca, a ver se algum dia enraíza e
cresce árvore de vida pessoal, única e intransmissível.
Não vê que será inelutavelmente contra a pretensa verdade, a pretensa
comunhão do grupo que o escora.
Só o crente incrédulo nos poderá salvar um dia. Só o incréu fiel nos poderá
estender a mão.
Onde estão, que os não vejo? Quando nascerão?
Meu Deus, meu Deus, que solidão! Por que me abandonaste?
1209
Memória
A boa memória que após a vida cada qual deixa é uma segunda vida.
Toda a vida muda e se transforma. Também esta. Espontaneamente ou de
propósito.
Quem de vez fixa a memória de quem partiu é que o mata de vez.
E se nos enclausura no tamanho da primeira vida, a todos nos mata também
com ela.
Como se não tivéramos todos obrigação de sacrificar a fama para nossa
salvação!
Como se este sacrifício não fora a melhor fama duma vida que se finou para
se renovar indefinidamente!
1210
Transige
Quem transige com o crime torna a impunidade virtude.
Por fraqueza ou por vício: a fraqueza irá pagá-la quando o vício o vitimar.
Quem não fulmina o vício por vício é porque receia ao fim ser réu: não o
evitará jamais.
Aniquila-nos e se aniquila lento: adia o colapso até que o torna de todos.
Culpados e inocentes se afogarão em universal dilúvio.
A violência do castigo é que poderá ser redentora. Se quisermos aprender.
1211
Calculadas
Revoluções a frio calculadas e empreendidas são inviáveis, devêm cancro
conhecido, lenta morte pendente.
Matariam a picadas de alfinete, milímetro a milímetro, irresistivelmente. Insuportavelmente.
As revoluções estalam súbitas, demolidoras e imponderáveis, ofuscando a
violência dos perigos.
O conspirador, quando sofre, é a instantaneidade do esmagamento, nem dá por
ele.
Revoluções, ou súbitas ou nada. Se são nada, nada são. Se súbitas,
improvisam: no fim, nada serão.
É por isso que as revoluções nunca ocorrem senão por engano.
1212
Morte
Tem a morte um privilégio: ao matar a vida, mata com ela os ódios e
rancores, os crimes e baixezas que a marcaram.
Depois de morto, cada qual devém herói: ostenta apenas as medalhas.
É o jogo da memória: o passado rebrilha com quanto nele fulgiu, as sombras
diluem-se na escuridão universal.
A vantagem é manter-nos ante os olhos as alvoradas como somatório da vida:
é prenúncio e desafio de amanhãs.
O risco é que na morte nos aprisionemos em nome da vida que nela fulgiu e
já não existe senão na memória depurada.
1213
Prudente
Prudente é a eficácia, por uma de duas vias: a da qualidade e mestria ou a
dos empenhos e compadrios.
Aquela é eficaz para o próprio e superabunda para todos: é a do prémio dado
a quem e ao que é justo.
Esta é eficaz para o próprio em prejuízo de todos: é a do tráfico de
influências e corrupções, a da iniquidade institucional.
Aquela custa o suor de se qualificar, a malquerença das invejas, a injúria
dos maldizentes, a intriga das más consciências em busca da mentira que as
acalme.
Esta custa apenas vender a consciência aos caciques que promovem.
Eis porque tantos andam aos rapapés, principiando à soleira da porta, até
aos paços do concelho, até aos portais do Ministério, até à sacristia da
igreja, até ao altar do santo de devoção alheia.
A todos se vendem, a todos compram, em plebeu ou bento mercadejar, tão
corruptos um como o outro, tão perversos e tão perversores.
Com um padrinho entre os vizinhos e outro no beiral da eternidade, cada
qual fica seguro da vidinha, nem rebates tem de consciência.
Como premiar a qualidade, como promover a justiça, como ser prudente em
nome da eficácia da Humanidade?
A Humanidade é um parto difícil, de riscos mortais. Espantoso é termos
sobrevivido e chegado aonde estamos, com tão colossal desperdício de
mediocridade e crime pelo séculos dos séculos.
1214
Matar
Na natureza, matar e morrer é garantir o equilíbrio universal: poda aqui a
excrescência para além cobrir a falta.
Na natureza, o assassino é filantropo, seja como predador, como necrófago
ou apenas como feto de esporos agressivos: tudo cria espaço para o berço da
vida.
Apenas o homem, se mata, é porque recusa crescer: mata a vida em si quando
a mata noutro homem.
É que o homem só cresce por dentro quando se harmoniza com o outro. E
quanto mais outro, maior o tamanho a atingir: ora, o mais distante é o inimigo.
Daí que o homem só cresça matando quando em legítima defesa: então pára
aquele que recusa crescer e que pretende impedi-lo a ele de crescer também.
O homem, a sociedade ou a humanidade: crescimento em qualidade, só através
da mediação.
Daí a intransigência contra quem a bloqueie, em autodefesa, até onde for
requerida. Mesmo até à morte.
E não há como fugir do círculo.
1215
Pode
Deus pode bem com o Universo, Deus pode bem com o diabo, Deus pode bem com
o Homem.
Porém, quando o inimigo é um lápis e uma folha de papel, quando é um
computador e uma impressora, aí, não!
De repente tudo se incendeia e Deus está perdido. Não há exércitos
celestiais que lhe valham. E ninguém nos vale.
É o poder das ideias, é a desgraça das ideias. Aqui d'el-rei! Quem nos
acode?
Sem ideias definhamos e as ideias nos matam: como escapar ao fogo cruzado? Como
fugir à maldição?
1216
Dependência
O hábito da dependência é uma moléstia ancestral multissecular.
Mesmo que a fortuna se lhe mude, o pé-descalço, quando o chefe se lhe
depara, verga a espinha.
Depois, para compensar, devém arrogante e insensato.
E nunca mais aprendemos que a verticalidade do carvalho é flexível e assim
molda circunstâncias e as rege.
Só depois de morta, a árvore seca endurece e uma leve brisa a quebra.
E nós que vivemos sempre tão alquebrados, intérmina morte antecipada!
1217
Demais
O rico que tem demais, cujo excesso o não sacia, sofre uma pena fatal que
jamais prevê nem previne.
Por sobre flores e cristais, para além de oiros e diamantes, no perfume dos
frutos, no vapor dos pratos, acima dos telhados dos palácios e palacetes,
Evola-se, insolúvel, um tédio mortal.
Sempre o acaba matando em si, nos filhos ou nos filhos dos filhos: não
perde jamais pela demora.
Tão solidária é nossa condição que ninguém sozinho realiza mais que um
suicídio.
No imediato ou a prazo.
1218
Aduladores
Ao rico ou poderoso rodeiam-no aduladores.
Um título, por mais histórico, uma honradez, por mais provada, um ideal,
por mais depurado,
Não bastam para resistir à vénia, ao sorriso, à palavra edulcorada
Que culminam trejurando, a mão no peito, com a oferta duma filha para
esposa ou concubina do potentado.
Quando muito, encobrem-na com a mentida função de secretária, assessora,
técnica para qualquer incompetência,
Tal como as antigas criadas-para-todo-o-serviço dos senhores.
Um medievalismo requintado, uma Idade Média progressista é o hoje-em-dia.
A desgraça é que os amanhãs só madrugam a partir das coisas que resistem. E
é tão parda esta alvorada!
1219
Mortos
Por dentro de nós arrastamos demasiados mortos: os queridos e os que
vitimámos.
A todos amarrados, não há movimento nosso que seja liberto nem criador.
O nosso problema é a morte: não a que sofreremos mas a que nos acompanha
todos os dias.
Jamais construiremos sobre os ombros dos mortos, a repeti-los.
É preciso matar cada morto.
A vida vale por ela, mas no que de íntimo, pessoal, único incarnar.
A vida não vale pela quantidade das manifestações, não é uma soma, é um
produto.
Em que me produzo. E em que tudo o que produzo nada é nem nada vale se me
não produzo a mim.
1220
Céus
Há milénios a increpar os céus inclementes e jamais alívio algum deles nos
veio!
Há milénios o gemido da miséria humana atroa os ares e apenas responde o silêncio
sepulcral do cosmos indiferente!
Religião, consolação fictícia inventada ao pobre pelo rico a que nada
falta.
Paraíso distante, gozos inefáveis a conquistar, a distrair o pobre dos
cofres pejados do presente.
Religião, escudo do rico contra a justiça ou a cupidez do pobre.
Há, porém, um fundo de desgraça que a todos nos atinge: rico e pobre gritam
em coro e sempre, sempre, em resposta, o eterno silêncio!
Só nos salvaremos ou perderemos por nossas próprias mãos. Com o que a
natureza nos põe ao dispor, gratuita, sem qualquer mérito de ninguém.
E quanto mais desunidos, mais perdidos. E quanto menos equidade, mais
desunião. Quem nos acode, senão nós?
1221
Melodias
Melodias ouvividas, quão doces, entusipasmantes! Tão melmodias a adoçucarar
o vinagre dos sonhos trapalhidos!
As não ouvidas, porém, melodidas esperandas, quão mais doces! Melodoçuras
do purovir... Quem dera!
São de mentira? Qual! Mentireira de verdade não falaceia. Mentalira muito
mais quem nos mente com silêncio.
Cruel não é o sonho não acontecer, é o silviolêncio de o sonhegar.
1222
Arma
Hoje as seredeias têm uma arma morfatal: não é o seu musicanto, não, que
mata devaga-vagarinho!
Muito nos piormata o seu silcalêncio de expectativar.
Alguém porventura se lhes escafugira ao cantar. Ao silgritêncio, porém,
decerto nenhum nunca.
Não há melhor romarifesta que a corri-subida para o arraial!
1223
Tamanhidão
Dum homem a tamanhidão não é a do corpo ou a da altagrita do falar.
Nem sequer a do muito pensonhar, por mais que trepe serralturas.
Apenas o silfalâncio é grandenorme, quando em silêncio canta o inefável.
O mais é fracalhoteza de fracansados.
1224
Lado
Do lado de quem vivactua, cada aldeia é uma presepistrela, com luz própria
nas cosmicalturas.
De fora, cada planeta é um aldeiastro no mapa dos céus infinimensos.
E nós, esta poeirada de pretengente sumida, a dar conta do mistério.
1225
Raça
O teólogo descreve a religipão na sua pureza cozinata.
O historiador descobre a mistimpura de erro e corrupção que contraiu na
longa camigrinação pela Terra.
Somos uma raça de entesseres fraca e degenegraçada!
1226
Adoração
A adoração principia no maraminoso.
O sentimento cósmico é religicrente e é o mais forte motivideal da mais
nobre investigação da saciência.
Nós conhessomos o que o numinumeroso em nós for sendo.
Por nós, somos nada, mais nada.
1227
Guerra
Todo o governerro que se aprespara para a guerra, torna o inimigário um
monstro.
Não tolera que pensaibamos o outro com cara humanescente.
Inimigo que pensente inibe-nos de aniquimatá-lo.
Para os governerros, matar é muito impormordial, é melhor pintar o outro
lado cheio de horripimonstros.
Como vivelidarmos com o porviver humano sem primeiro perdalterarmos o
pendorvício de desumanar o adversigualário!
1228
Amor
Amor não haverá, meu amor, que não perviva eterminamente.
Mesmo que digam que é tolermice, só porque há epicacenas bem melhores que a
todapeça.
O melhor é mesmo melhormente, não há melhor outro que não seja do melhor a
mesmidade.
Qual cena melhor que a peça! Então a cenapeça desfralgalhada não é para
toda inteira correr ao ventomar?
1229
Capaz