DÉCIMO  SEGUNDO  VERSO

 

 

QUE  NOS  ARRASTA  DO  MAIS  LONGE  E  FUNDO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 1178 e 1298 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1178

Que nos arrasta

 

Que nos arrasta

Do mais longe e fundo

Eis a mulher casta

Que gerou o mundo:

A sabedoria

Secreta

Que da madrugada, discreta,

Nos tece dia a dia.

 

 

1179

Caminhos

 

As pessoas percorrem intérminos caminhos, pressurosas e desconexas.

 

As pessoas percorrem ínvios caminhos prenhes de mistério.

 

Eu vejo as pessoas e nelas me vejo; as pessoas vêem-me e vêem-se em mim.

 

Aqui vamos apressados, todos juntos e separados por metros e metros de vazio.

 

Todos juntos tão distantes, a correr para onde, até quando?

 

E sem nunca nos encontrarmos. E sem nunca encontrar...

 

 

1180

Voz

 

Somos eternamente a criança medrosa acordada noite fora, a tremer de silêncio e escuridão.

 

Como pedir que tu aguardes mais um pouco, que te demores, que prolongues a barreira contra o medo, como pedi-lo sem nada te dizer, apenas com a voz de dentro?

 

Como pedir-te que sejas meu pai e minha mãe sem te falar, que entendas sem palavras que estou cheio de terror de ficar só?

 

Como pedir-te, sejas lá quem fores?

 

 

1181

Sentei

 

Quando me sentei à tua direita e me acariciaste os cabelos, quando me sentei à tua esquerda e te acariciei os cabelos, como os nossos cabelos eram fracos e soltos!

 

Como precisei que precisasses de mim, como precisaste que eu precise de ti!

 

Mas tu e eu falamos sempre, cada vez mais empolgados, obstinadamente firmes, obcecados, acerca sei lá de quê!

 

E a casa fica vazia, o quarto fica vazio, a rua fica vazia, a cidade fica abandonada cheia de gente - ai como fico vazio tão cheio de nós!

 

Que bom se a mão nos penteasse o coração!

 

 

1182

Sonhos

 

Se nos sonhos ainda há rios e oriente, demanda do Santo Graal e busca do Eldorado,

 

Se há banquetes e manás, aventuras, miragens e oásis,

 

Se há rapazes e raparigas rindo, a namoriscarem negaças ao amor,

 

Então o corpo se evola e adeja leve por sobre a terra, pena de ave, asa de insecto,

 

E quase sem querer é o pinhão dançando ao vento donde vão nascer as florestas ignotas do futuro.

 

 

1183

Velho

 

"Estou a ficar velho..." - suspiram todos e é verdade e é lamentável.

 

Só que ninguém repara até onde é tão verdade nem sequer tão lamentável.

 

Com efeito, cada qual está a ficar velho desde que nasceu: nem deu tempo para viver!

 

 

1184

Menino

 

Que bom que era ficar sempre menino, sem crescer a vida inteira!

 

Não ter pai nem mãe, de a ninguém serem precisos, e não haver desenvolvimento de criança nenhuma.

 

Um mundo inteiro de meninos, tão felizes e tão desastradamente ingénuos!

 

Não crescermos nunca mais. Só que mãe dá tanto jeito e pai faz tanta falta!...

 

Ah! E o que custa não nos irmos tornando iguais a eles, feitos gente!

 

 

1185

Engano

 

 

Na vida apenas há um engano. Intérmino, insuperável. E duma evidência infantil.

 

Dele nos vêm todos os males, embora revestidos mentirosamente de bens.

 

Na vida, em todo o mar de água há uma ilha de terra, em todo o continente de terra há um lago de água.

 

Mas depois nós nunca entendemos, nunca entendemos...

 

Para que é que temos dois olhos se vemos apenas um lado, ainda por cima pela metade?

 

Quando é que repararemos, quando num, que ao longe, por mais longínquo que esteja, o outro nos aguarda, o outro nos espreita?

 

 

1186

Tacteamos

 

Tacteamos as trevas, tacteamos os rostos ignorados que não amamos, que não teremos jamais.

 

Sobram-nos tantos braços para abraçar o que nos falta!

 

E sobramos tanto, com ânsia tanta sobramos tanto! E a tão pouco nos atrevemos!

 

 

1187

Oriento

 

Oriento o caminho e complico-o: nunca fui por ali nem sei como iremos. Quero ir e basta!

 

Oriento, mando: sou dono do itinerário.

 

Ser dono, nem que seja dum caminho por correr, é muito.

 

Muito de poderoso e singular: cá de cima, eis a força, um bocadinho de rei. Ao menos por engano.

 

Faz de conta e conforta. Como nos basta uma ilusão!

 

 

1188

Recordação

 

Os sujeitos e os objectos choram, com a punição inaceitável da recordação dos prazeres.

 

Viver é correr consigo e com os mais por montes e barrancos, saltar muros e sebes com a alegria ancestral da descoberta.

 

É topar grutas e falésias, raparigas e florestas, descobrindo intérmino o momento de viver.

 

Até ao fim dos tempos, à soleira de cada porta nos aguarda uma aventura, um amor e um risco, um desencanto e uma esperança.

 

Nunca, porém, a solidão.

 

O isolamento é a minha desistência, é a minha tacanhez: é que sou desajeitado ou me desnorteia a superabundância da gruta de Ali Babá.

 

 

1189

Cão

 

Encontro um cão e me encontro, sem o cão me perderia em labirintos indecifráveis de percursos.

 

Sinto as horas decorrerem em fiel dedicação até à morte.

 

Doutro modo, daqui a pouco, agitar-me-ia tenso por saber-me guia sem rumo duma aventura de improvável sentido.

 

Arrastaria os mais. E se me perdera? Se não reconhecera já os caminhos? Se afinal lhes furtara meus panoramas?

 

Encontro o cão e me encontro fiel, um rumo entre rumos perdidos e desvairados.

 

 

1190

Projecto

 

Não ser dono dum projecto é não se adonar do destino, perder-se dos mais e de si.

 

Perder-se entre as estradas e os campos, entre as colinas e o cimento.

 

Ignorar repentino o programa é remar sem remo rumo a parte nenhuma.

 

Porém, sempre rumarei à fúria, à violência, à guerra, à iniquidade.

 

Porque nada é pior que o vazio, ninguém logra aguentá-lo: camuflamo-lo, mentirosos, doutras agressões.

 

Somos a eterna criança que bate na mesa da vida depois de nela tropeçar: "mesa má!"

 

 

1191

Carícia

 

Os dedos nos dedos em carícia discreta, nenhum deseja outro movimento.

 

O coração em desvario pára a rotação da Terra.

 

Olham-se, incognitamente conhecidos em lugar familiarmete ignoto.

 

Tão obscuro para todos os mais e tão iluminado de silêncio neles!

 

Como a presença é tão ausente!

 

 

1192

Contos

 

Contos de visitação à perpétua infância.

 

Depois, alumbrados, é o murmúrio da ressurreição das lembranças:

 

Dormimos e acordamos, trabalhamos, comemos e rimos, mas de fora do tempo, por debaixo da terra, no húmus das raízes secretamente manifestas.

 

Tão meninos! Tão grandes! E tão raros, tão escassos em nós mesmos!

 

 

1193

Nascença

 

Pouco homens e mais transeuntes, caminhamos a vida.

 

Envelhecemos vis, envilecemos velhos. De nascença.

 

Quantos génios de nossa idade! Quanto génio naquilo que sou e não sei! Quanta vulgaridade genial!

 

Como é preciso ser tamanho para ser infinitamente nada!

 

 

1194

Passos

 

Nossos passos carregados de derrota, como evitar segui-los? Como evitar falhado antecipar-me?

 

Nossos traços de velhice, no rosto sepultado de alegrias mortas, como a Humanidade é velha!

 

Como a Humanidade é velha em mim! Desde o berço. Por que nasci a gritar? Alegrias mortas, que é de minhas alegrias por nascer?

 

Que peso! Que peso o peso detrás de nós!

 

 

1195

Alavanca

 

Quão poucos ainda crêem que seu dinheiro é alavanca de liberdade!

 

Quão mais o tornam opressão!

 

Alguém o quer para oportunidade de muitos em lugar do monopólio de alguns?

 

Para que é que servem os moralistas, os idealistas? Os ingénuos!

 

As coisas só caminham com sentido quando os prejudicados requerem direitos iguais aos dos prevaricadores.

 

Pelo equilíbrio das forças, não por valor. Quando muito, pelo valor do equilíbrio.

 

Todas as nossas alavancas, para serem eficazes, são pesadas.

 

 

1196

Oportunidade

 

Que fazer daqueles a quem os medíocres roubaram desde sempre a oportunidade de provar que valem?

 

Dar-lhes o Governo? Mas, governantes, roubariam a oportunidade a outros mais.

 

Não seriam, porém, melhores? Não, que o poder se encarregaria de os mediocrizar.

 

Só, depois de mortos, ressuscitando-os. Mas conservando-os intocáveis na sua grandeza de mortos enormes.

 

É por isto que o conserto do mundo é tão problemático.

 

 

1197

Arriscar

 

Vale a pena arriscar na vida? Como avaliar?

 

Quando se é humano deveras, vale sempre a pena o risco.

 

É que já está tudo perdido à partida: só se pode ganhar arriscando.

 

Mesmo perdendo-nos, quem sabe se não é perdendo-nos que afinal nos ganhamos?

 

O insensato arrisca sem ponderar, o falhado nem arrisca, o prudente calcula o abismo e salta.

 

Somos hoje o fruto dos saltos medidos de antanho.

 

Somos a herança imorredoira de ancestrais desafios em que alguém nos veio ganhando.

 

 

1198

Difícil

 

No conhecimento, o mais difícil não é convencer os mais.

 

Qualquer Cristo, Buda, Maomé congrega prosélitos aos milhões, interminavelmente.

 

E nenhum dogma impõe a Bíblia ou o Alcorão: os discípulos é que sempre os inventaram e tanto mais intolerantes quanto mais ignorantes.

 

Não é difícil convencer os outros. Deveras difícil é convencer-me a mim: na verdade, é mesmo impossível, definitivamente.

 

Estranho e terrível é que a multidão jamais dê conta disto. E assim nos matamos convictamente uns aos outros, em nome de verdades que o não são, que não serão jamais.

 

Como é difícil descobrir a vida! Quão fácil a ilusão, quão verdadeira a morte!

 

 

1199

Casamento

 

No casamento há um pendor de desânimo. Não é a família que, ao gratificar, compensa.

 

É a rotina, a matriz da segurança: ritual de identidade que carácter imprime em cada cônjuge.

 

Sem a rotina, viria a instabilidade: já ninguém contaria com ninguém, nem matrimónio houvera porventura.

 

A fome de novidade, de aventura, porém, alimentando o mistério, arrisca, no limite, ao mútuo desconhecimento.

 

Desanimar é perder o equilíbrio: tanto rito quanto queira a estabilidade, tanta criatividade quanta queira o sonho.

 

Tão simples e tão inexequível! Então às vezes as mulheres dos outros... Então às vezes os homens das outras...

 

Quando em casa, em cada um, sempre morou, ignorado, o que nos faltaria.

 

 

1200

Duro

 

O grupo é a festa a conviver em paz. Tem uma ordem, com quem manda e quem cumpre.

 

Por vezes é duro mandar e tem de mandar duro.

 

Quando o grupo fica em risco, quando a civilização fica em risco, quando a Humanidade corre risco, é urgente o poder, custe o que custar.

 

Inevitavelmente mais custaria a brandura, ausência dele: cairíamos à mão das feras, comer-nos-íamos uns aos outros.

 

Retornaríamos ao nada, mera poeira cósmica a vogar no caos primitivo.

 

 

1201

Sangue

 

Tanto sangue da justiça! Tanta justiça de sangue! E tão exangue o justo, com ou sem horror!

 

Por mais duro que devenha o mando, para a justiça não é fatal o sangue.

 

Basta que no último reduto ele esteja, terrível, presente: quem arrisca transgredir?

 

Contraditoriamente, tolerar o intolerável apaga valores: o crime prolifera compensador.

 

Então o sangue irá correr desvairado, a repor justiças traídas.

 

É o açougue da civilização ocidental, perdida de sonhos e normas: crime tolerado é crime promovido e acabará por submergi-la.

 

Para evitar o sangue, só a ameaça iminente de ele correr súbito. Permanentemente. Vigilantemente.

 

 

1202

Fatalidade

 

Justificamos o crime com a fatalidade: a da herança familiar, a da educação, a do meio ambiente, a das circunstâncias...

 

Só falta colocar a fatalidade no banco dos réus e mandar em paz o criminoso.

 

E, claro, impor às vítimas o dever de sofrer caladas, porque coitadinhos dos criminosos!...

 

Importa agradecer, por fim, ao bandido, pelo tão maravilhoso mal que nos fez.

 

E, se alguém protestar, cadeia com ele: não se pode tolerar semelhante desumanidade!

 

Os que vivem nas condições dos criminosos e se não criminalizam são, obviamente, anormais que precisam de piquiatra ou de internamento, para proteger o equilíbrio social.

 

 

1203

Mulher

 

Sem ti, mulher, endoideceria.

 

Contigo endoideço ainda mais.

 

É a única forma de a vida ter sentido: ser louco de todas as maneiras.

 

Porque quem tem de mandar é o coração, com a cabeça a servi-lo.

 

Jamais o contrário.

 

 

1204

Revoluções

 

Antigamente os heróis faziam revoluções. E eram heróis porque libertavam o povo. E faziam revoluções porque eram partos difíceis, de riscos mortais.

 

Hoje os heróis não fazem revoluções. São criminosos geniais que em nome da libertação escravizam povos e continentes.

  

Hoje os heróis já não chegam para fazer revoluções. Hoje temos de ser todos heróis e mexermo-nos. E mesmo assim...

 

É que as revoluções de hoje seriam de todos, o que jamais ocorrerá porque os homens são rebanho.

 

E as revoluções de hoje precisariam de modelos e ideias tais que todos revolvessem. Ora, esses, quando se notam, ou são rejeitados ou dão anti-revoluções criminosas.

 

As únicas que resultariam seriam tão despercebidas que ninguém daria por elas. Mas como estaríamos todos lá dentro?

 

Hoje os heróis não bastam nem a falta deles.

 

Hoje só um grande sonho capaz de nos arrancar a todos o coração do peito jogando-o às estrelas: às  que há fora e por dentro de nós...

 

Então voaríamos sem ninguém reparar. Todos, finalmente.

 

 

1205

Amor

 

O amor fica acima de todas as coisas.

 

O amor nada tem a pedir, adora apenas.

 

O amor tem de dar-se por inteiro. Sem condições nem limites. O amor é infinito.

 

É o Infinito a irromper dentro do espaço e do tempo. E a rasgá-los por dentro. Discreto e persistente.

 

A dar-se inteiro mesmo a quem o não aproveita: e somos todos, desde há três milhões de anos.

 

O milagre persevera, embora ninguém o note. E continua fazendo-nos, subtil, notemo-lo ou não. A caminho do Infinito.

 

 

1206

Palavras

 

Palavras são meros sons, um nada de vento. Porém, com um sentido.

 

Cuidado com as palavras: por vezes colam-se aos actos e, agrupadas com eles, marcam o destino.

 

O acto cria a realidade, mas apenas a palavra lhe fixa, definitiva, o rumo e o valor.

 

A tragédia é que tanto os fixa quando acerta como quando erra.

 

Cuidado com as palavras: apontam ao céu ou ao inferno.

 

Urge aprender a escolher. E depois escolher bem.

 

Esperando que as más escolhas ainda nos dêem tempo bastante...

 

 

1207

Sangue

 

O problema do sangue é o problema da vida: se não correr sangue, mais tarde ou mais cedo há-de correr sangue, se correr sangue, então corre mesmo sangue.

 

Ideal não seria não correr sangue nenhum? Seria o ideal, não a realidade, o ideal da realidade.

 

Na realidade, o sangue tem de correr na hora certa, da pessoa certa, para que jamais tenha de correr a todas as horas, de todo o povo.

 

Assim, a hora certa e a pessoa certa cada vez serão menos e mais distantes.

 

Quem sabe, talvez um dia não haja mais necessidade de o sangue correr. Só ocorrerá, porém, desde que, ainda então, ele possa correr de novo se qualquer infractor infringir.

 

Doutro modo não correrá tal sangue porque já está correndo o dos inocentes. Se não se recuar, em breve correrá o de todos.

 

Voltaremos então ao princípio, sem termos aprendido nada.

 

Ciclo de loucura em que nos movemos desde sempre, será que o vai ser para a eternidade?

 

 

1208

Crentes

 

São os crentes que nos matam: os das igrejas, os das seitas, os fiéis e os heréticos, os dos partidos, os das ideologias, os das filosofias, os das religiões...

 

Os crentes são orgulhosos. Têm a verdade. Garantem a salvação. E metem no inferno todos os mais.

 

Um crente orgulhoso é bem pior que um descrente humilde, duvidoso.

 

E não há descrentes orgulhosos: estes são os crentes doutro campo qualquer.

 

Todos os crentes se enganam: julgam que têm a verdade e só têm um grupo. Para hostilizar os outros grupos e para impedir cada qual de ser ele próprio até ao fim, o mais que puder.

 

O crente é um sub-humano agarrado à estaca, a ver se algum dia enraíza e cresce árvore de vida pessoal, única e intransmissível.

 

Não vê que será inelutavelmente contra a pretensa verdade, a pretensa comunhão do grupo que o escora.

 

Só o crente incrédulo nos poderá salvar um dia. Só o incréu fiel nos poderá estender a mão.

 

Onde estão, que os não vejo? Quando nascerão?

 

Meu Deus, meu Deus, que solidão! Por que me abandonaste?

 

 

1209

Memória

 

A boa memória que após a vida cada qual deixa é uma segunda vida.

 

Toda a vida muda e se transforma. Também esta. Espontaneamente ou de propósito.

 

Quem de vez fixa a memória de quem partiu é que o mata de vez.

 

E se nos enclausura no tamanho da primeira vida, a todos nos mata também com ela.

 

Como se não tivéramos todos obrigação de sacrificar a fama para nossa salvação!

 

Como se este sacrifício não fora a melhor fama duma vida que se finou para se renovar indefinidamente!

 

 

1210

Transige

 

Quem transige com o crime torna a impunidade virtude.

 

Por fraqueza ou por vício: a fraqueza irá pagá-la quando o vício o vitimar.

 

Quem não fulmina o vício por vício é porque receia ao fim ser réu: não o evitará jamais.

 

Aniquila-nos e se aniquila lento: adia o colapso até que o torna de todos.

 

Culpados e inocentes se afogarão em universal dilúvio.

 

A violência do castigo é que poderá ser redentora. Se quisermos aprender.

 

 

1211

Calculadas

 

Revoluções a frio calculadas e empreendidas são inviáveis, devêm cancro conhecido, lenta morte pendente.

 

Matariam a picadas de alfinete, milímetro a milímetro, irresistivelmente. Insuportavelmente. 

 

As revoluções estalam súbitas, demolidoras e imponderáveis, ofuscando a violência dos perigos.

 

O conspirador, quando sofre, é a instantaneidade do esmagamento, nem dá por ele.

 

Revoluções, ou súbitas ou nada. Se são nada, nada são. Se súbitas, improvisam: no fim, nada serão.

 

É por isso que as revoluções nunca ocorrem senão por engano.

 

 

1212

Morte

 

Tem a morte um privilégio: ao matar a vida, mata com ela os ódios e rancores, os crimes e baixezas que a marcaram.

 

Depois de morto, cada qual devém herói: ostenta apenas as medalhas.

 

É o jogo da memória: o passado rebrilha com quanto nele fulgiu, as sombras diluem-se na escuridão universal.

 

A vantagem é manter-nos ante os olhos as alvoradas como somatório da vida: é prenúncio e desafio de amanhãs.

 

O risco é que na morte nos aprisionemos em nome da vida que nela fulgiu e já não existe senão na memória depurada.

 

 

1213

Prudente

 

Prudente é a eficácia, por uma de duas vias: a da qualidade e mestria ou a dos empenhos e compadrios.

 

Aquela é eficaz para o próprio e superabunda para todos: é a do prémio dado a quem e ao que é justo.

 

Esta é eficaz para o próprio em prejuízo de todos: é a do tráfico de influências e corrupções, a da iniquidade institucional.

 

Aquela custa o suor de se qualificar, a malquerença das invejas, a injúria dos maldizentes, a intriga das más consciências em busca da mentira que as acalme.

 

Esta custa apenas vender a consciência aos caciques que promovem.

 

Eis porque tantos andam aos rapapés, principiando à soleira da porta, até aos paços do concelho, até aos portais do Ministério, até à sacristia da igreja, até ao altar do santo de devoção alheia.

 

A todos se vendem, a todos compram, em plebeu ou bento mercadejar, tão corruptos um como o outro, tão perversos e tão perversores.

 

Com um padrinho entre os vizinhos e outro no beiral da eternidade, cada qual fica seguro da vidinha, nem rebates tem de consciência.

 

Como premiar a qualidade, como promover a justiça, como ser prudente em nome da eficácia da Humanidade?

 

A Humanidade é um parto difícil, de riscos mortais. Espantoso é termos sobrevivido e chegado aonde estamos, com tão colossal desperdício de mediocridade e crime pelo séculos dos séculos.

 

 

1214

Matar

 

Na natureza, matar e morrer é garantir o equilíbrio universal: poda aqui a excrescência para além cobrir a falta.

 

Na natureza, o assassino é filantropo, seja como predador, como necrófago ou apenas como feto de esporos agressivos: tudo cria espaço para o berço da vida.

 

Apenas o homem, se mata, é porque recusa crescer: mata a vida em si quando a mata noutro homem.

 

É que o homem só cresce por dentro quando se harmoniza com o outro. E quanto mais outro, maior o tamanho a atingir: ora, o mais distante é o inimigo.

 

Daí que o homem só cresça matando quando em legítima defesa: então pára aquele que recusa crescer e que pretende impedi-lo a ele de crescer também.

 

O homem, a sociedade ou a humanidade: crescimento em qualidade, só através da mediação.

 

Daí a intransigência contra quem a bloqueie, em autodefesa, até onde for requerida. Mesmo até à morte.

 

E não há como fugir do círculo.

 

 

1215

Pode

 

Deus pode bem com o Universo, Deus pode bem com o diabo, Deus pode bem com o Homem.

 

Porém, quando o inimigo é um lápis e uma folha de papel, quando é um computador e uma impressora, aí, não!

 

De repente tudo se incendeia e Deus está perdido. Não há exércitos celestiais que lhe valham. E ninguém nos vale.

 

É o poder das ideias, é a desgraça das ideias. Aqui d'el-rei! Quem nos acode?

 

Sem ideias definhamos e as ideias nos matam: como escapar ao fogo cruzado? Como fugir à maldição?

 

 

1216

Dependência

 

O hábito da dependência é uma moléstia ancestral multissecular.

 

Mesmo que a fortuna se lhe mude, o pé-descalço, quando o chefe se lhe depara, verga a espinha.

 

Depois, para compensar, devém arrogante e insensato.

 

E nunca mais aprendemos que a verticalidade do carvalho é flexível e assim molda circunstâncias e as rege.

 

Só depois de morta, a árvore seca endurece e uma leve brisa a quebra.

 

E nós que vivemos sempre tão alquebrados, intérmina morte antecipada!

 

 

1217

Demais

 

O rico que tem demais, cujo excesso o não sacia, sofre uma pena fatal que jamais prevê nem previne.

 

Por sobre flores e cristais, para além de oiros e diamantes, no perfume dos frutos, no vapor dos pratos, acima dos telhados dos palácios e palacetes,

 

Evola-se, insolúvel, um tédio mortal.

 

Sempre o acaba matando em si, nos filhos ou nos filhos dos filhos: não perde jamais pela demora.

 

Tão solidária é nossa condição que ninguém sozinho realiza mais que um suicídio.

 

No imediato ou a prazo.

 

 

1218

Aduladores

 

Ao rico ou poderoso rodeiam-no aduladores.

 

Um título, por mais histórico, uma honradez, por mais provada, um ideal, por mais depurado,

 

Não bastam para resistir à vénia, ao sorriso, à palavra edulcorada

 

Que culminam trejurando, a mão no peito, com a oferta duma filha para esposa ou concubina do potentado.

 

Quando muito, encobrem-na com a mentida função de secretária, assessora, técnica para qualquer incompetência,

 

Tal como as antigas criadas-para-todo-o-serviço dos senhores.

 

Um medievalismo requintado, uma Idade Média progressista é o hoje-em-dia.

 

A desgraça é que os amanhãs só madrugam a partir das coisas que resistem. E é tão parda esta alvorada!

 

 

1219

Mortos

 

Por dentro de nós arrastamos demasiados mortos: os queridos e os que vitimámos.

 

A todos amarrados, não há movimento nosso que seja liberto nem criador.

 

O nosso problema é a morte: não a que sofreremos mas a que nos acompanha todos os dias.

 

Jamais construiremos sobre os ombros dos mortos, a repeti-los.

 

É preciso matar cada morto.

 

A vida vale por ela, mas no que de íntimo, pessoal, único incarnar.

 

A vida não vale pela quantidade das manifestações, não é uma soma, é um produto.

 

Em que me produzo. E em que tudo o que produzo nada é nem nada vale se me não produzo a mim.

 

 

1220

Céus

 

Há milénios a increpar os céus inclementes e jamais alívio algum deles nos veio!

 

Há milénios o gemido da miséria humana atroa os ares e apenas responde o silêncio sepulcral do cosmos indiferente!

 

Religião, consolação fictícia inventada ao pobre pelo rico a que nada falta.

 

Paraíso distante, gozos inefáveis a conquistar, a distrair o pobre dos cofres pejados do presente.

 

Religião, escudo do rico contra a justiça ou a cupidez do pobre.

 

Há, porém, um fundo de desgraça que a todos nos atinge: rico e pobre gritam em coro e sempre, sempre, em resposta, o eterno silêncio!

 

Só nos salvaremos ou perderemos por nossas próprias mãos. Com o que a natureza nos põe ao dispor, gratuita, sem qualquer mérito de ninguém.

 

E quanto mais desunidos, mais perdidos. E quanto menos equidade, mais desunião. Quem nos acode, senão nós?

 

 

1221

Melodias

 

Melodias ouvividas, quão doces, entusipasmantes! Tão melmodias a adoçucarar o vinagre dos sonhos trapalhidos!

 

As não ouvidas, porém, melodidas esperandas, quão mais doces! Melodoçuras do purovir... Quem dera!

 

São de mentira? Qual! Mentireira de verdade não falaceia. Mentalira muito mais quem nos mente com silêncio.

 

Cruel não é o sonho não acontecer, é o silviolêncio de o sonhegar.

 

 

1222

Arma

 

Hoje as seredeias têm uma arma morfatal: não é o seu musicanto, não, que mata devaga-vagarinho!

 

Muito nos piormata o seu silcalêncio de expectativar.

 

Alguém porventura se lhes escafugira ao cantar. Ao silgritêncio, porém, decerto nenhum nunca.

 

Não há melhor romarifesta que a corri-subida para o arraial!

 

 

1223

Tamanhidão

 

Dum homem a tamanhidão não é a do corpo ou a da altagrita do falar.

 

Nem sequer a do muito pensonhar, por mais que trepe serralturas.

 

Apenas o silfalâncio é grandenorme, quando em silêncio canta o inefável.

 

O mais é fracalhoteza de fracansados.

 

 

1224

Lado

 

Do lado de quem vivactua, cada aldeia é uma presepistrela, com luz própria nas cosmicalturas.

 

De fora, cada planeta é um aldeiastro no mapa dos céus infinimensos.

 

E nós, esta poeirada de pretengente sumida, a dar conta do mistério.

 

 

1225

Raça

 

O teólogo descreve a religipão na sua pureza cozinata.

 

O historiador descobre a mistimpura de erro e corrupção que contraiu na longa camigrinação pela Terra.

 

Somos uma raça de entesseres fraca e degenegraçada!

 

 

1226

Adoração

 

A adoração principia no maraminoso.

 

O sentimento cósmico é religicrente e é o mais forte motivideal da mais nobre investigação da saciência.

 

Nós conhessomos o que o numinumeroso em nós for sendo.

 

Por nós, somos nada, mais nada.

 

 

1227

Guerra

 

Todo o governerro que se aprespara para a guerra, torna o inimigário um monstro.

 

Não tolera que pensaibamos o outro com cara humanescente.

 

Inimigo que pensente inibe-nos de aniquimatá-lo.

 

Para os governerros, matar é muito impormordial, é melhor pintar o outro lado cheio de horripimonstros.

  

Como vivelidarmos com o porviver humano sem primeiro perdalterarmos o pendorvício de desumanar o adversigualário!

 

 

1228

Amor

 

Amor não haverá, meu amor, que não perviva eterminamente.

 

Mesmo que digam que é tolermice, só porque há epicacenas bem melhores que a todapeça.

 

O melhor é mesmo melhormente, não há melhor outro que não seja do melhor a mesmidade.

 

Qual cena melhor que a peça! Então a cenapeça desfralgalhada não é para toda inteira correr ao ventomar?

 

 

1229

Capaz