DÉCIMO  TERCEIRO  VERSO

 

 

ELA  DEMORA,  SÁBIA,  ALI  CONTIDA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 1299 e 1402 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1299

Ela demora

 

Ela demora,

Sábia, ali contida

Em cada hora,

A raiz da vida:

- O sabor e o saber

De ser!

 

 

1300

Viverás

 

Viverás dias, viverás épocas que recordarás amanhã, que recordarás idades depois.

 

Ficarás surpreendido: como pôde ter-me acontecido a mim?

 

Sempre viste nos outros teus pares: comuns sonhos, comuns esperas, mesmas palavras e silêncios, amores e desamores deles e tão teus!...

 

E tudo afinal tão único, tão sem mais ninguém, tão apenas de ti, tão só tu: irrepetível por dentro da tua pele!

 

Tu só. Solitário. Definitivamente.

 

 

1301

Crer

 

Julgarás que os teus, que o teu mundo, que o mundo inteiro precisam de crer em algo parecido com eles, familiar.

 

Julgarás que todos precisamos de crer no tamanho de nossa credulidade.

 

Julgar-te-ás perenemente novo e velho e cada amigo velho e novo, em mútua transmigraçaão para além das evidências, das afrontas, das vergonhas.

 

Verás que eles, como nós, como todos, como tu somos apenas desejo de ser dois e um, todos e um, infinitos num, o infinito uno - Um: o Infinito!

 

 

1302

Voz

 

Ouvirás a voz dos deuses

Quando rodares a chave da experiência acumulada dentro de ti

E entrares na estufa solar da intuição.

 

Viver-te-ás: escolherás certeiro a senda na floresta mais virgem

Deixando virgens as informações acumuladas dentro da inútil consciência.

 

Ouvirás a voz dos deuses murmurando livre no relâmpago que por dentro te incendeia,

Proveniente das fronteiras que tens para além de teu limite.

E ouvirás o mundo novo a acontecer por ti além.

Contigo sem ti e mais tu mesmo do que tu próprio és.

E serás tu apesar de ti, naquilo que, não o sendo, afinal já és, já que o vais acontecendo.

  

 

1303

Sentirás

 

Sentirás a voz dos deuses:

 

Logras teu melhor rasgo de intuição no que melhor conheces,

 

Porém, às vezes, contra toda a lógica.

 

Perguntas pela razão, a razão além de qualquer razão.

 

Descortinas a sensatez do irracional que te mora

 

E além da razão te dá razão na razão que não descobres.

 

Estranharás que esta ilógica razão seja a razão que previamente foi e que houveras já perdido da razão de que tens nota.

 

Sentirás a voz dos deuses na lógica ilógica da razão irracional

 

Que de fora te mora por dentro do mais dentro que em ti nem sequer descortinas.

 

Sentirás porque o adivinhas quando se revela.

 

E te revela.

 

E em ti revela o eco de além.

 

Sentirás, pois sentir-te-ás tu, porta-voz dos deuses.

 

 

1304

Silêncio

 

Falaste o primeiro dia e tua mulher ouviu.

 

Ouviste o segundo dia e tua mulher falou.

 

Falais ambos ao terceiro e ouvem-vos os vizinhos.

 

No diálogo de surdos já nem te ouvirás a ti, fechaste as janelas.

 

Não escutarás o silêncio dos deuses a bater à porta com a sombra fresca do plátano onde jamais repousarás.

 

 

1305

Doença

 

Sobreviverás à doença de ser homem.

 

Pensarás que ela nos mata ou nos deixa idiotas.

 

Afirmá-lo-ás porque irremediável idiota sobrevives.

 

Ai o apelo inefável da razão fugidia que te não larga do lusco-fusco além-fronteiras!

 

 

1306

Virá

 

Virá o dia em que as terras planas te serão demasiado compridas,

 

As ladeiras demasiado despenhadas das alturas,

 

Os obstáculos demasiado rudes,

 

Mas tu olhar-te-ás feliz por estares do lado certo: ainda por cima da terra!

 

Tão curta é tua vida para tão longo sonho,

 

Tão curta a vista para a lonjura inominável!

 

Quanto mistério para além que é teu aquém!

 

 

1307

Luz

 

Tantos que já viram a luz, tantos!

 

E tu, em meio à escuridão, que apenas vês a luz que está dentro do frigorífico!

 

Nem suspeitas mesmo do lucilante fulgor perdido na imensidão do cosmos,

 

Em busca do espelho insondável de teu espelho interior, para nele o encontrares alumbrado.

 

Para que te encontres algum dia.

 

 

1308

Ler

 

Aprenderás que ler não é mero passatempo, nem inocente nem inócuo.

 

Um livro na altura exacta pode mudar-te o rumo da vida.

 

Descobrirás que inventaste o livro para que ele te invente e reinvente indefinidamente.

 

Não o criaste, ele é que te cria, rasgando-te o porvir que borbota de tuas mãos.

 

Antes dele eras primo do orangotango, doravante és anjo de luz e trevas,

 

Amanhã o livro enxertar-te-á de órgãos divinos.

 

Tu ignora-los mas ele misteriosamente sabe-os, na abismal inconsciência do ignoto.

 

Faça-se a luz: e o livro fez-se!

 

E a luz anda-te crescendo, milenar, por dentro.

 

E, milenar, andas crescendo luz.

 

 

1309

Moralistas

 

Que te importam os moralistas? Evita as tentações evitáveis, sem te preocupares com evitá-las.

 

Preocupação é o teu desperdício: é o desperdício de ti, esboroado aos bocados pela vida fora.

 

À medida que fores ficando velho, as tentações passarão a evitar-te.

 

Para quê perderes-te antes do tempo? Deixa que o tempo te ganhe antes que te perca.

 

 

1310

Outubrino

 

Cheirarás Outubro das maçãs frescas, do mosto das uvas maduras,

 

O aroma das nozes agrestes de ventanias e chuvadas.

 

Beberás a lufada nostálgica a arder nas achas do pinho resinoso.

 

Saborearás todas as saudades de antanho e do porvir no corpo oloroso do presente.

 

Sentir-te-ás a caminho no corpo do tempo, impregnado do perfume de todas as vidas.

 

 

1311

Intenção

 

Descobrirás que o que conta são os factos, a cadeia das realidades enfeixadas.

 

E descobrirás que, afinal, não contam tanto assim.

 

O que mais que tudo conta é o que os leva a ter em conta.

 

Descobrirás que o que conta é a intenção que os vai gerando e gerindo. Tudo o mais é passageiro.

 

A perenidade mora no coração do homem: só aqui aflora a eternidade.

 

Descobrirás que apenas esta, ao fim e ao cabo, procuras, apenas nela repousas. Só que jamais a encontras...

 

 

1312

Progresso

 

Verás que o custo a pagar pelo progresso sem horizontes é que perdeste o jeito de amar.

 

Descrente de rumos, descrente de deuses, descobrirás a ironia distanciadora, o sarcasmo desertificante.

 

Tua solidão é tanta que te perderás abandonado nas mil areias da multidão!

 

Confessarás que precisas de horizonte para além dos horizontes, de amar para além dos amores.

 

Descobrirás que precisas inelutavelmente de Deus para além de todos os deuses: precisas dos outros, de ti nos outros, dos outros em ti - precisas de Nós! Deste Nós que jamais somos...

 

 

1313

Sentido

 

Se não crês em coisa alguma, coisa alguma tem sentido.

 

Se não afirmas um valor, nada algum valor terá.

 

Para ti tudo será possível e nada tem importância.

 

O bem e o mal serão fruto do capricho, serás arbitrariedade.

 

Em movimento e sem rumo, sendo agitação e nada mais, como te desvendarás, como te construirás?

 

Como poder ser? Como, sem ser?

 

 

1314

Centro

 

Quando colocas o centro da vida no além, fica-te a vida sem centro e não segue além.

 

Matas a vida onde começas o reino de Deus.

 

Quando enclausuras o além no centro da vida, matas a vida, porque te fica sem além.

 

Começaste a morrer quando aprisionaste o além no teu dogma, no teu movimento, na tua ideologia, na tua igreja, no teu líder, no teu papa...

 

Viverás quando descentrares a tua vida sempre além, no equilíbrio da permanente desequilibração, rumo ao desconhecido, rumo ao inesperado... Quando quebrares todas as seguranças.

 

E então jamais serás, já que irás sendo, irás sendo sempre mais, a embrenhar-te, ignaro e humilde, pelo infinito dentro...

 

 

1315

Convento

 

Fugias dantes para o convento por desacordo com os tormentos do mundo.

 

Fugias dantes para o deserto por desacordo com as alegrias do mundo.

 

Hoje não fugirás do mundo, que todas as vias te foram vedadas,

 

Não encontrarás lugar longe dos homens, longe da balbúrdia.

 

Hoje todas as fugas são a tua miragem do convento deserto.

 

Hoje e sempre a tua fuga é a tua queda no abismo traidor.

 

Sempre que foges, morres um pouco mais e nos matas.

 

- A ti e a nós nos condenas à prisão: ao isolamento.

 

 

1316

Esperança

 

Viverás de esperança, tua fonte de energia,

 

Senão não viverás de todo.

 

Na esperança gerarás a fé, inventarás todos os deuses.

 

E Deus desatará a criar-te à sua imagem e semelhança.

 

 

1317

Servirás

 

Servirás de novo desinteressado quando te sentires morrendo. E renascerás.

 

Servirás de novo e caminharás a sorrir à vida.

 

Servirás: então aprendes a alegria.

 

Aprenderás, descansado, a deixar as coisas com Deus.

 

 

1318

Matemática

 

Com a matemática lerás o mundo inteiro.

 

Com a matemática vais abrindo os portais do Universo.

 

Com a matemática irás interpretando os outros.

 

Porém, a ti, como ler-te em matemática quando a outrem te ligas?

 

Teu coração jamais é matemático: quando amas alguém sereis um par que é ímpar!

 

 

1319

Ansioso

 

Ficarás ansioso e mais ansioso, enquanto não reencontrares a matriz da serenidade.

 

Mergulharás na paisagem envolvente, a respirar as árvores e as ervas, a voar as flores e as abelhas.

 

Uma caminhada de vinte minutos restaurar-te-á vinte energias insuspeitadas.

 

Viverás sereno duas horas de esfusiante vida, sem te aperceberes de quanto deves ao gratuito milagre do quotidiano, só porque o deixaste entrar por ti dentro. Abandonadamente.

 

 

1320

Sorte

 

Acreditarás na sorte e não verás.

 

Jamais a sorte dá, empresta apenas.

  

Aproveitando o empréstimo com arte e suor, tu é que te darás a vida que teu esforço merecer.

 

Terás desta maneira de pagar à sorte, com juro dobrado, quanto a sorte te emprestou.

 

Se o não pagares, breve a sorte atolará na lama a tua ingratidão.

 

 

1321

Dinheiro

 

Verás quanto o dinheiro é traiçoeiro: se o gastares, não o guardas para o que der e vier, se o guardares não o gastas no que te aprouver.

 

É que a moeda é redonda, feita para deslizar.

 

É que a moeda é achatada, feita para se empilhar.

 

Será teu equilíbrio ou desequilíbrio a decidir se o dinheiro te equilibrará ou desequilibrará.

 

E nenhum critério é seguro, já que tu não és seguro. Nunca.

 

 

1322

Jóia

 

Poderás tornar-te jóia desde que te queiras polir.

 

Mas não poderás polir-te sem sofrer fricção.

 

A jóia que tens aí escondida continua aguardando permanentemente a tua decisão, para além de quanto decidas.

 

Serás sempre, inelutavelmente, uma jóia inacabada. Decidas o que decidires, estarás a caminho.

 

 

1323

Temer

 

Faz-te amar e não temer.

 

Não aumentas teu poder aumentando quem te tema.

 

Nem cresces, mas diminuis.

 

Quem por muitos é temido, a muitos teme.

 

Viverás o temor, em vez do amor.

 

Que importa uma vida de pé atrás?

 

Não vale a pena vivê-la: serás medo, não serás tu!

 

 

1324

Trabalho

 

Não clames o teu valor, antes labora em silêncio, trepa pelo que produzes.

 

Não te enaltecem compadrios, nem a compra das medalhas, nem dos postos eminentes:

 

Não vás por aqui, pois, se fores, mais no alto do pedestal todo o mundo verá uma besta sem cavaleiro.

 

Trabalha: apenas o trabalho exalta o homem que há num homem.

 

 

1325

Mansas

 

Procuras sempre águas mansas e queres apurar tuas artes,

 

Mas em breve a mansidão é apenas tua preguiça.

 

A perícia só se apura quando enfrentas a braveza.

 

Águas mansas não te moldam bom marujo.

 

E mesmo o bom marujo quantas vezes perece nas tempestades da vida! Que fará nas da Humanidade!

 

 

1326

Sábio

 

Sábio serás se buscares a verdade indefinidamente fugidia.

 

Não crismarás de verdade tua fantasia crédula.

 

A verdade em que ora crês será sempre uma mentira, urge mudá-la interminavelmente.

 

Serás sábio se, fundado, mudas de opinião. Apenas a crendice do tolo não muda.

 

Quanto mais sábio, mais incoerente a tua coerência.

 

Serás infiel à fidelidade para poderes ser fiel à verdade.

 

E a esta fidelidade jamais a alcançarás em plenitude:

 

Serás interminavelmente fiel apenas ao caminho.

 

 

1327

Espera

 

Teu problema é o da espera, de milhões de anos de espera, já que, esperando, desesperarás desde sempre.

 

Todavia, só a dura esperança da espera te poderá levar a termo.

 

E apenas ao esperares contra a espera vergarás o desespero:

 

Então serás caminho aberto a toda a viagem

 

E é provável que venhas a ser algum dia.

 

 

1328

Conversação

 

Saberás que numa conversa ninguém atende ao que alguém diz.

 

Saberás que todos tratam apenas de não perder de vista o que têm a dizer.

 

Descobrirás que és um monstro com duas orelhas que falam por uma boca de não ouvir.

 

Compreenderás porque é tão lenta a vida, porque a espera é tão violenta.

 

 

1329

Injurias

 

Verificarás quanto o injurias, quantas vezes chegas mesmo a esbofeteá-lo.

 

Desnorteias-te com tuas contradições afinal tão congruentes.

 

Viverás teu marido como o melhor profissional e o primeiro personagem do mundo.

 

Agride-lo porque o vês: se o não amaras, nem o verias.

 

Como teu amor desama! Como tanto desamor ama tanto!  Como, sendo um nada de ser, nos custa tanto morrer!

 

 

1330

Recusas

 

Recusas tanto a tantos! Recusas-te tanto!

 

Dependerás de todos, acolhidos ou repudiados, pois tudo no mundo é magro apoio de teu pé.

 

Cuidado! Àqueles de quem precisas nada recuses, senão perderás o pé na vida.

 

 

1331

Gritas

 

Corres entre a turba, gritas mais que os demais, assustando a sensatez.

 

Serás o menos atendido e nem o notas.

 

Embriagado na gritaria, inteiro te entregas ao regalo de linguajar.

 

Não comunicarás, não encontrarás ouvintes.

 

Sofrerás de isolamento na turbamulta.

 

A ti próprio infliges o castigo. E crês-te racional!

 

 

1332

Revolução

 

Descobrirás que a revolução não é um leito de rosas,

 

Mas que a escola da infelicidade apura a inventiva,

 

Desenvolve a energia que a acalmia entorpece.

 

Verás também que à superfície da revolução afloram os maus instintos, as más paixões e acções, os crimes à solta.

 

E a miséria acrescida é a morte do pobre, não lhe acorda o génio, a este que ficou sem tempo.

 

Sofre o mau e cresce em raiva. Sofre o bom e é o martírio.

 

Deste estrume apodrecido é que sorverás a seiva de qualquer primavera. No silêncio e humildemente.

 

 

1333

 

Contarás por séculos tua fé, abarcarás o tempo e o espaço,

 

Os ideais não ligarás aos dias nem às horas.

 

E quanto, pobre mortal, anotarás cada instante de tua fugaz passagem!

 

Saborearás a alegria, sofrerás a amargura, prisioneiro da contemporaneidade...

 

E como é tamanho o sonho para tamanha escassez!

 

 

1334

Governo

 

Verificarás que tudo passará e que o porvir será nosso.

 

O presente, porém, dizima-te mais que qualquer presente de qualquer era.

 

Deus continua reinando. Porém, não governa: o governo de teu hoje é apenas teu, para bem e para mal.

 

E nada nem ninguém poderá modificá-lo. Assim to impõe o Deus que reina.

 

 

1335

Arte

 

Não te consolarás com a arte do que sofres de injustiça e de mentira.

 

A arte viverá sem ti.

 

Soberana, imorredoira força da natureza, verás a arte sobrenadar para além de tuas ruínas.

 

Antes de seres artista, sê homem, que muito mais é o que em ti lamentas que o lamento da mudez das musas.

 

Trágico é que te emudeça o ser e que o sonho continue. Definitivamente sem ti. Definitivo.

 

 

1336

Divórcio

 

Descobrirás o mais estranho: há um divórcio entre a poesia e o poeta, entre a música e o compositor.

 

Verificarás que o que nelas há de grande é neles pequenez.

 

Perguntarás como a grandeza brota de tamanhas nulidades.

 

Arte é mais do que o artista, germina maior que ele, existe por cima, para além dele.

 

Nem revoluções, nem quedas de impérios, nem o fim das eras poderão nada contra.

 

Que poderás tu, senão tentar tornar-te obra de arte?

 

Que poderás tu senão falhar e voltar a não desistir, interminamente?

 

 

1337

Ancestral

 

Quando mais não puderes, aos infelizes oferta ainda a novíssima arte de outrora:

 

A ancestral doçura do poema.

 

Espreme-lhe a fruta melíflua, benfazeja, sobre as feridas da humanidade.

 

Sentirás, breve e discreto, o lenitivo. Tão frágil e tão invictamente resistente!

 

 

1338

Camponês

 

Aprenderás a sabedoria do camponês: metade é paciência infinita, metade é confiança no labor do tempo. De si, pouco esperando, tudo faz.

 

Quem sabe?  Daqui a alguns milhares de milhões de anos, talvez um dia, afinal, dês o fruto...

 

 

1339

Rude

 

Viverás a tristeza e poupar-te-ás à fome com excessos de fastio.

 

Trabalharás rude, tão rude que a fadiga te esmague.

 

Encontrarás aqui o remédio-limite da angústia.

 

Fertilizarás o ventre da vida que te irá parindo pequenas alegrias dia a dia. Irás vida fora cada vez mais por dentro da vida.

 

E talvez te encontres, quem sabe, talvez te encontres...

 

 

1340

Bem

 

Procurarás o bem nos bens e o bem não encontrarás.

 

Procurarás no que não tens e até o que tens perderás.

 

Tarde descobrirás que não há maior bem do que aquele que se tem.

 

Quando do doutrem desdenhas será só porque o não tenhas.

 

Quando vives do que tens é que o todo conténs e só então te sentes bem.

 

O bem nunca será um bem mas o bem de se dar bem com todo o mundo e ninguém.

 

 

1341

Amizade

 

Procurarás a amizade e grande a procurarás.

 

À força de ser grande, descobrirás que por vezes devém mal.

 

Amizade e amor demais devirão possessivos, exclusivistas: tolhem-te os membros, cortam-te as asas.

 

E tu que só por eles algum dia voarás aos céus!

 

 

1342

Temido

 

Não te tornarás temido, que os atemorizados detestam a quem temem.

 

Far-te-ão mais mal um dia que o que algum dia lhes provocarás.

 

Nem que o não vejas nunca, que o mal amado até cego ficará. E tu findas detestado.

 

Perderás o ser quando menos deres por isso. Os ódios aniquilar-te-ão a fogo lento.

 

Quando todos rastejarem a teus pés, a ilusão do pedestal a que trepaste cai aluída: és o réptil maior de teus amesquinhados répteis.

 

 

1343

Desprezam

 

Pelos jardins e caminhos, as flores silvestres, as silvas agrestes serão tuas almas cristãs.

 

Quantos as desprezam, frequentes, pelo que não têm de belo nem de bom!

 

Não te privarás de quanto é prestável e salutar nas amoras e margaridas-dos-prados

 

Que proliferam nos esconsos de cada ignorado com que te cruzas nos descaminhos da vida.

 

 

1344

Confessarás

 

Confessarás que o mundo não é justo nem razoável.

 

Prestarás mais atenção ao bom coração do que ao mau aspecto,

 

Mais à excelência do que à mediocridade da roupa.

 

Ou a ti te condenarás e por mais que corras por fora farás marcha atrás por dentro.

 

E jamais chegarás a lado nenhum, já que nunca chegarás a ti.

 

 

1345

Feio

 

Olharás em ti quanto há de feio, antes de olhares a feiura do mundo.

 

Outrem espicaçará uma rã, arrancará as patas à vespa, pregará vivo o morcego...

 

Tu ponderarás que se deveras aniquilar tudo o que é feio, não terias mais direito a viver que qualquer deles.

 

Só então principiarás a viver-te inteiro, rumo à vida inteira que há no mundo.

 

Talvez um dia aconteças quando o mundo acontecer:

 

Ambos sereis um só infinitamente a revelar-se.

 

 

1346

Gerar

 

Verão teus olhos por bem o que bom for, verão com piedade o que for mau.

 

Não compreenderás por que é que as belas cortejadas com todos são coquetes, tal se todos agradaram.

 

Se foras bela, apenas pretenderas parecer e ser amável perante aquele que hajas eleito.

 

E, por mais feia que foras, assim bela te farias.

 

Por ti principiarias a gerar vida aos vindoiros: de ti como tu já irão nascendo.

 

Embora ainda ninguém o entenda.

 

 

1347

Útil

 

Saberás quanto é bom ter o amor duma bela.

 

Descobrirás quanto é útil a amizade duma feia.

 

E quão mais bela fica quanto mais desinteressada.

 

E quão sublime, quando sem despeito nem rancor.

 

Lobrigarás os deuses a espreitar discretos por trás de seus olhos conformados.

 

 

1348

Mulher

 

Transmudarás o rapaz em homem, ó mulher, não por mudar de idade, nem de sonhos, nem de projectos, nem de competência.

 

Teu coração de mulher não verá direito, a não ser neste desvio:

 

Um jovem revestir-se-á de homem, súbito, quando o vires acarinhado por outra mulher.

 

Nesta fronteira tombarás sempre um pouco mais pequena: por aqui não crescerás nem germinarás o mundo.

 

Como teu coração é diminuto para o tamanho de teu destino!

 

 

1349

Desnorteia

 

Dirás que a beleza desnorteia as belas e a fealdade desola as feias.

 

Tornar-te-ás tola crendo levianamente agradar e não devirás sábia metendo medo com a feiura.

 

Equilibrarás tua passada na senda estreita entre os abismos

 

E jamais viverás segura de encontrar ao termo a quinta ubérrima dos sonhos de infância.

 

Mas procurarás, eterna procurarás o horizonte perdido sabe Deus quando, sabe Deus onde...

 

 

1350

Crer

 

Descobrirás tarde em demasia que não é quem crê que fará crer a todos.

 

Descobrirás que, quem duvida de tudo, é quem tudo leva a crer aos outros.

 

Não porque duvide: é que após duvidar ou devém seguro ou poderá duvidar de novo.

 

Encontrarás a liberdade da dúvida que permite a entrega a qualquer causa porque sempre a pode recusar quando não lhe encontre sabor.

 

Só então ganhas a energia de arrasar montanhas ou de criar mundos. Sem anular ninguém.

 

Na fé de que um dia encontrarás o que tanto procuras e tanto foge.

 

 

1351

Mão

 

Descortinarás a boa mão com que se vem ao mundo. Ou a tens ou a não tens: é de nascença.

 

De nada servirá estudares para artista se a marca de artista não te veio impressa quando irrompeste na vida.

 

No que fores destro, o coração far-te-á encontrar o conveniente e a escola treinar-te-á os voos de tuas asas.

 

É o teu dom dos deuses: valerá mais que qualquer fortuna na empresa da vida.

 

 

1352

Falsa

 

Suspeitarás que não há crença, por mais falsa, sem um fundo de verdade.

 

O bom cuidado, a limpeza física e mental, o labor consciencioso verás que têm virtude: pendem para o êxito.

 

A negligência é a demissão com que o farás piorar.

 

É nestas insignificâncias que germinarás teu tamanho em tua pequenez.

 

 

 

1353

Despeito

 

Medirás teu despeito quanto dura: se és homem, mais do que ele durará teu pesar; se és mulher, além deste irá perdurando.

 

Só te equilibrarás sendo dois, sem que um ao outro se anulem.

 

Só te equilibrarás quando em cada um estiverem ambos e lograrem a harmonia.

 

Descobrirás que um mais um não serão dois mas de novo outra vez um: um em que serás muito mais um.

 

Resumirás em ti o outro, todos os outros, sem deixares de ser tu: serás tu, ao invés, indefinidamente mais.

 

Começarás a ser deus, começarás a criar deus. Começarás a criar-te como deus.

 

 

1354

Cuidado

 

Rapaz de bom aspecto e com posses, ocupar-te-ás duma donzela.

 

Injuriarás com teu cuidado todas as demais.

 

Criticarão tua escolha e tua jovem, nenhuma despeita calará.

 

A malevolência da mulher é veloz e alcança longe.

 

Como cultivarás a flor no meio daninho? Como fecundarás um oásis na aridez deserta?

 

Buscarás os resquícios vagos da vida e deles irás talhando sonhos de vergéis que jamais brotam.