QUINTA  REDONDILHA

 

 

 

DE  AMOR  POEMA  MAIS LONGO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 538 e 629 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                538 - De amor poema mais longo

 

                                                                De amor poema mais longo

                                                                Marca a regularidade

                                                                Com que o amor nos invade,

                                                                A crescer em bolha, oblongo,

 

                                                                Até que a totalidade

                                                                Atinge no imo do ser.

                                                                No regular verso ver

                                                                Irei quanto me persuade

 

                                                                E quanto o fogo que queima

                                                                Não me queima mas me apura

                                                                Tão mais quão maior a teima

 

                                                                Em buscar o que me cura:

                                                                Um amor é aquela freima

                                                                Que ao largar-me me segura.

 

539 - Papagaios

 

Papagaios de papel,

Estrelas, eis nossos filhos.

Gastamos vida a granel

Fazendo-os voar por atilhos,

 

Corremos ao lado deles,

Sem fôlego até ficar.

Despenham-se, arranham peles…

Vamos caudas aumentar,

 

Remendamos com carinho,

Ajustamos, ensinamos,

Garantimos o caminho,

Que um dia voam juramos.

 

Ei-los, finalmente, no ar!

Mas precisam de mais corda,

Continuamo-la a soltar.

No novelo quão mais morda

 

A guita ao desenrolar,

Mais distante o papagaio

De nós nos fica a pairar,

Em volteio nobre e gaio.

 

Breve a bela criatura

Cortará a linha virtal,

Planará livre e segura

Pelo espaço sideral.

 

Apenas então sabemos,

Nas mãos vazias da ceifa,

Que a casa voltar podemos,

Que cumprimos a tarefa.

 

 

540 - Colecção    

 

A vida é uma colecção

De muitas pequenas vidas

E todas elas vividas,

Tal se fora a mão na mão,

Um dia de cada vez.

A descobrir a beleza

Da flor que houver cada mês,

Do animal a ouvir a reza

Que reza cada entremez.

 

Que um dia a viver de sonho,

De aurora e de pôr-de-sol

É o melhor de que disponho

Dos dias em todo o rol.

 

Nada pode ser melhor

Que o que o dia de hoje for.

 

A vida é de ser passada

À beira deste ribeiro

Com minha mão repousada

Na mão dela o dia inteiro.

 

 

541 - Milagre

 

Não mates nunca ninguém.

Todo o homem é um frustrado

E um frustrado és tu também

E um milagre te retém:

- Podes ser ressuscitado.

 

Ao menos nalgum sentido

Ninguém nunca está perdido.

 

 

542 - Físico

 

Um amor físico pode

Arrancar ao manicómio

O que, de pânico, explode,

Carente de algum encómio.

 

É um refúgio como a droga,

Como o álcool, como a guerra:

Esquecer de si afoga

A cobardia que aterra.

 

Então, quem for impotente,

Ao tomar esta desforra,

Quem de si viver ausente

A vida terá mais forra.

 

 

543 - Medíocres

 

Os medíocres não deixam

De andar nas horas sangrentas

De revolta a que se enfeixam.

 

E durante as horas lentas

Em que armas figas à sorte,

O medíocre só tentas,

 

Ele só clama por morte.

Mais que os de hora derradeira,

Tarde vem fazer a corte.

 

É o autómato que inteira

Esta civilização

Gera frenética, à beira

 

De encher, milhão a milhão,

Um mundo sem interior,

De monstros sem coração.

 

Dali não vem nunca amor,

Vem a feroz perversão

Que nos mata, horror a horror.

 

 

544 - Moda

 

Esta é a moda velha:

Fora o homem  quer,

Debaixo de telha

Quem manda é a mulher.

 

Eis a moda nova:

Homem ou mulher,

Dentro e fora inova,

Por igual, qualquer.

 

O problema é a moda:

- Não são vida toda,

Só pequena parte

Que vive destarte.

 

 

545 - Asas

 

Todos, nas falas de amor,

Sonham o mundo com asas

De rouxinol cantador.

Que culpa terão, Senhor,

Se o mundo que lhes aprazas

Não se deixa, ao fim, criar

Ao sabor do que imaginam?

Já bem lhes basta este azar

De aquilo a que se destinam

Nunca às mãos lhes vir parar,

Quando a tal fatais se inclinam!

 

 

546 - Floreia

 

O amor floreia mas é melindroso

E quanto mais ele floreia mais

Lhe vai doer a raiz do terno gozo.

 

No fim restarão só meros sinais,

Fio de aranha ali que se entretece

De aparências e não já de reais

 

Gestos do dom que a pouco e pouco esquece.

Para que os mais não falem se mantém

O que amizade contarão que aquece,

 

Rebento derradeiro de cecém,

Coisa bonita de meter em jarra.

Assim chamamos ao que ao fim se tem

 

De sofrimento que um ao outro amarra,

Calado e dolorido: é que convém

À tonteira fugir que nos agarra.

 

Sob as cinzas, porém, se manterá

O derradeiro grito: “quem vem lá?”

 

 

547 - Miséria

 

A miséria que passamos

Vem muito da ideia errada

De que perfeitos sejamos

Ou ninguém nos ama nada.

 

Deus ama-te tal qual és.

Se ficar desiludido

Com o que fazes talvez,

Com o que és não faz sentido,

 

Que te fez gente falível,

Com a implicação lutando

De quem sabe, impreterível,

O bem e o mal. Talvez quando

 

Quando partilhas o medo,

Venhas descobrir, no espanto,

Que os mais gostam bem mais cedo

De ti, se tremes ao canto.

 

Aos mais o que mais importa

É ter certezas acerca

Da integridade que exorta,

Não da perfeição que perca.

 

Quando és culpado deveras,

Que a culpa se prenda ao acto,

Não a ti: por que é que esperas?

Muda a vida, já, de facto!

 

Senão devém destrutiva,

Rápida te paralisa.

Fica a pessoa cativa:

Não vale nem é precisa.

 

Se fazes algo de errado,

A parte boa de ti

Fica em guerra contra o lado

Fraco, egoísta, que anda ali.

 

Perdes a totalidade

De ti que é o que te permite

Empreender de verdade

O que apraz-nos, no limite.

 

Duma certa, estranha forma,

Seremos bem mais inteiros

Se algo nos falta, por norma,

Que voamos mais leveiros.

 

Aquele que tudo tem

Será sempre alguém que é pobre:

Ânsias sabe lá de alguém,

Esperanças de que sobre!

 

Nunca logra alimentar

O íntimo dele do sonho

De algo com que melhorar,

Devém-lhe o mundo medonho.

 

Não conhece esta vivência

De alguém que o ama lhe dar

O que quis com mais premência

Mas jamais pôde alcançar.

 

Inteireza há na pessoa

Que aceita as limitações,

Que é tão corajosa e boa

Que se livra dos papões,

 

Dos sonhos irrealistas,

E se não sente falhada

Por ter riscado das listas

A utopia de seu nada.

 

Aceitar que a imperfeição

É parte do ser humano,

Continuando pelo chão

Da vida até ao tutano,

 

É que alcança uma inteireza

Que ao fim é o que Deus nos pede:

Não da perfeição beleza,

A integridade é que o mede.

 

 

548 - S. Pedro

 

S. Pedro tem uma chave,

Dizem que é de abrir o céu.

Anda enganado o conclave:

Abre o coração que é teu.

 

S. João, que é menineiro,

Levou as moças à fonte,

Levou três cá do terreiro,

Já seis vêm no horizonte…

 

S.º António trava a briga

A fazer sermões aos peixes.

Bem me importa o que ele diga

Se juras que me não deixes!

 

 

549 - Alteia

 

O homem é uma casa cheia,

Sol da vida da mulher.

Por ele a mulher se apeia

E, se precisão houver,

Rasteja no chão de areia

Para o homem dela ter

Como ante os mais quem se alteia.

 

Então, pela vida fora,

Ela é quem acende a aurora.

 

E merece tal respeito

Quem tão nobre talha a sorte

Que na vida nem na morte

Jamais é demais o preito

Que alguém presta a tal consorte.

 

E o homem, do mesmo jeito,

Deverá tomá-la a peito,

Amando-a de igual transporte.

 

Se ela é quem acende o alvor,

Ele é do sol o calor.

 

 

550 - Castanhas

 

Há no Natal um perfume

A castanhas, rabanadas,

Resina a queimar ao lume

Das coisas que são amadas.

 

Voga o perfume pelo ar

Na atmosfera renovada,

Todo o mundo cheira a lar,

A vida é mulher amada.

 

Neste laço de ternura

É que a vida partilhada

Afinal mais nos perdura,

Vale o que vale uma estrada.

 

Ao trocarmos de presentes,

Trocamos gestos e sonho,

São presentes os ausentes…

- É só então que aqui me ponho

Por inteiro e consumado

E não há lar noutro lado.

 

 

551 - Doçura

 

A doçura do Natal

São doces tradicionais

Temperados com o sal

Dos gestos fundamentais.

 

São bolos de bem-querer

Nesta mesa repartida,

No bacalhau que couber

Às hortaliças da vida.

 

São castanhas, rabanadas,

Pão nosso de cada dia

Com ternuras marinadas

No azeite da almotolia.

 

Ovos mexidos tão doces,

Formigos a pingar mel!…

- Natal é como se fosses

Do céu roubar ao pincel,

A integrá-la em tuas posses,

Toda a cor que for a dele.

 

E, depois desta vigília,

De azul puro fica a Terra,

Quase inteira uma família

Paz cobrando em toda a guerra.

 

O Natal é uma doçura

Cá dentro como ali fora:

- A doçura da ternura

É que ao fim mais edulcora

Cada doce da fartura

Que até na pobreza mora.

 

 

552 - Exortados

 

Em Miqueias exortados

A proceder com justeza,

De misericórdia armados,

Fomos já com singeleza.

 

Somos no Êxodo proibidos

De assassínio cometer.

No Levítico os pedidos

São de amar outrem, quenquer.

 

 

Os Evangelhos culminam

A amar o nosso inimigo…

- Depois, na História, dominam

Rios de sangue, ao abrigo

 

Dos livros que ali contêm

As lições que mais convêm!

 

Afinal, que nos congraça

Para tamanha desgraça?

 

 

553 - Misteriosa

 

Toda a resposta que vem

Misteriosa ter comigo

Na realidade provém

Sempre doutrem que então tem