SEXTA  REDONDILHA

 

 

 

PEDE  AS  NORMAS  DA  RAZÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 630 e 726 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                630 - Pede as normas da razão

 

                                                                Pede as normas da razão

                                                                O poema que, passo a passo,

                                                                Intenta prender no laço

                                                                O abraço da mente ao chão.

 

                                                                Neste primeiro compasso

                                                                Recolho o saber mais vão,

                                                                Tantas vezes ilusão,

                                                                Com que meu cotio traço.

 

                                                                É da gleba um arroteio

                                                                A permitir sementeira

                                                                Que o futuro me garanta.

 

                                                                Do saber de base cheio,

                                                                Me semeio, leira a leira,

                                                                E há vida em mim que se implanta.

 

631 - Esgalhada

 

Nenhum homem é uma ilha,

Antes árvore esgalhada.

Quem de vez isto perfilha

Vê que tem de ser podada.

 

Então que vantagem tem

que seja por guerra ou fome,

Se à partida poda bem

Uma pílula que tome?

 

Não é uma questão de gosto,

Nem religião que crês:

- Religião é suposto

Signifique estupidez?

 

 

632 - Narrador

 

Era um velho narrador.

Seu estilo narrativo

Era como um condutor

A estacionar, pensativo,

 

Junto à berma do passeio

Em rua movimentada:

Arrancava e, com receio,

Logo a marcha atrás na estrada

 

Fazia mui cuidadoso,

Ia à frente e recuava,

Enquanto ao lado passava,

Velozmente e sonoroso,

O cordão doutras ideias

Tracejando ruas cheias.

 

 

633 - Sacode

 

Da culpa o detonador

sacode na luz do dia.

Fala, ri dele, vem pôr

Ante o mais o que doía.

 

Verás como, de repente,

Tanta culpa incontrolável

Se revela inconsequente

E a vida, bem mais saudável.

 

 

634 - Esconde

 

Quem de culpas é afectado

Mérito esconde e vitória.

Põe tua culpa de lado,

Reconhece meritória

 

Toda a atitude escorreita,

Reconhece que o que atinges

Não é calha tão estreita

Que a esmagar os mais te cinges.

 

 

O facto de ires viajar

Nunca aos mais pôs um travão,

Nunca impediu de o lugar

Tomar de onde quer que vão.

 

 

635 - Demente

 

Aquele que é inteligente

Simplifica o que é complexo,

Como aquele que é demente

Complicará, desconexo,

O que é simples, simplesmente.

 

 

636 - Mal

 

Se alguma coisa sai mal,

Quase sempre há remedeio:

Passo o vermelho sinal,

aprendo lá pelo meio,

Nego até que foi real…

 

Se perdi algo ou alguém

é que se acabou de vez:

Ora é a rapariga a quem

Não falou a timidez,

 

Ora o grupo musical

Que nunca cheguei a ver,

Ora a equipa principal

Que nem aplaudi sequer,

 

O professor na reforma

Cujas aulas bem queria,

O familiar que informa

Que afinal nem conhecia…

 

A lista é longa demais.

Longa e bem pouco consigo

Este lema que persigo

Da vida nos lamaçais,

Que dito de amigo a amigo:

- Vede lá se a encurtais!

 

 

637 - Janela

 

Por trás daquela janela

Ninguém descortina nada.

Não é o frio da geada

Que impede a luz de entrar nela.

A janela embaciada

É doutro frio a sequela:

- É o bafo duma vida já passada.

 

 

638 - Frio

 

O frio que não se extingue,

Não há fogo a o dissipar,

É aquele, para que vingue,

Que demora a acumular

Oitenta e nove anos ou mais

Da vida nos temporais.

 

 

639 - Apressados

 

Para os homens apressados

O tempo perde o sentido,

Correm só desesperados

E nunca chegam aos lados

Aonde buscam ter ido.

 

Afastam-se mais e mais

Do que querem atingir,

Quão mais correm, mais reais

Serão os desvios, tais

Que lhes nem resta aonde ir.

 

E, sendo gente concreta,

Devêm nisto tão drogados,

 Que já correm sem ter meta…

- Não há aposta que prometa

Em corcéis desenfreados!

 

 

640 - Devagar

 

Um homem e um escritor

Fazem-se todos os dias,

Devagar, pelo sabor,

E a chocar as fantasias.

 

Saltando contradições,

Sempre em busca de saídas,

Trepam degraus aos senões

Na escada de assalto às vidas.

 

 

641 - Contas

 

Pedimos contas à vida,

Quando a vida, ao fim de contas,

É que pede, desabrida,

Contas a nós, sem medida,

Da raiz até às pontas.

 

 

642 - Cobra

 

A vida é uma cobra às voltas.

Quem sabe, as voltas da vida,

Sempre de veneno envoltas,

Não nos livram de seguida?

 

Vida é corda embaraçada

Com nós que mal se precatam:

Ou se trepam de escalada

Ou prendem e não desatam.

 

 

643 - Primeiro

 

Não quero ficar artista,

Primeiro um homem me quero

Para que às nuvens resista

Da terra no sangue fero.

 

Volto-me aqui para o homem,

Não irei, descarrilado,

Mal fingir que me consomem

As suas chagas do lado.

 

Não olharei para mim

Senão enquanto retrato

Do princípio até ao fim

Dos desterros de que trato.

 

 

644 - Viciosa

 

Que uma mulher viciosa

Será o medo bem pior:

Agarra quem o desposa,

Vício mau mas que alguém goza

E mata tão mais quão for

A vida e o mundo maior

Que para além nele entrosa.

 

Que uma mulher viciosa

Será o medo bem pior…

 

 

645 - Unida

 

Quando a lei mais o dever

Uma apenas frente dão

Sagrada em religião,

Ninguém nunca então vai ser

Uma mente consciente

Dela mesma inteiramente:

 

- Será sempre um pouco menos

Que os marcos de seus terrenos:

 

Quanto mais estreitos são

Mais te prendem, coração.

 

 

646 - Miséria

 

Miséria humana evitável

Não tanto é da estupidez

Quão da ignorância infindável

De nosso próprio revés.

 

A luz da vela vacila,

Tremula a pequena mancha,

Cresce a escuridão tranquila:

Já o demónio se perfila

No mundo que se desmancha.

 

- Ora, enquanto ele se agita,

Que pode acalmar-me a grita?

 

 

647 - Fanáticos

 

Muito mais crimes e abusos

De crianças cometidos

São por fanáticos usos

 

Em nome de Deus vividos,

De Jesus, de Maomé,

Que por Satanás sustidos,

 

Por diabólica fé.

- Muitos são disto ofendidos,

Poucos logram vê-lo até!

 

Quem dele a fé põe no crivo

De ver se mata ou põe vivo?

 

 

648 - Tristes

 

Uma das lições mais tristes

Que a história nos ensinou

É a de que sempre resistes,

Se tempo longo escoou

 

Durante o qual enganado

Foste em tua boa fé,

Resistes a qualquer dado

Que a fraude mostre qual é.

 

Deixarás de te importar

Com a verdade, que dói

Ser levado a confessar

Como levado se foi.

 

Se demos a um charlatão

O poder sobre nós mesmos,

Nunca mais tenho em mim mão,

Nem que os mais faça em torresmos.

 

Assim as fraudes mais velhas

Têm tendência a persistir,

Mais as novas que nas gelhas

Daquelas cevam porvir.

 

 

649 - Parceira

 

Igualmente verdadeira

Em todo o lado que houver,

Apreciada parceira

Rebuscada por quenquer,

 

Independente de etnia,

De religião, de cultura,

De língua, de ideologia,

- A matemática dura,

 

De verdade aura primeira

Sempre para a Terra inteira.

 

 

650 - Pretextos

 

Os pretextos mudarão,

Fica o mesmo o resultado:

Concentrar numa só mão

Mais poder, mais elevado,

Suprimir da opinião

A divergência do lado.

 

Embora a prática prove

Os perigos deste rumo

E nunca ninguém aprove

De desgraças tal resumo,

Tal é o motor que nos move

- E o mais é dum sonho o fumo.

 

 

651 - Função

 

Não é função do Governo

Evitar que o cidadão

De erros caia num inferno.

Mas do cidadão função

É de ao Governo evitar

Que a vida inteira ande a errar.

 

 

652 - Usados

 

À força de tão usados,

Em objectos piedosos

Acabarão transmudados,

De serafins para gozos,

 

O Direito e as liberdades.

Não se vendem nem se mercam.

Estas são as qualidades:

- Que ou os usem ou os percam!

 

 

653 - Mistura

 

É mistura de estratégia

E carácter, o comando.

Se um faltar, que a pena régia

Caia naquela, que rege-a

O carácter, quando mando.

Se este faltar ou for parco,

Tudo tombará no charco.

 

 

654- Abismo

 

Um corpo sem memória, curioso

Há-de ser e, portanto, é disponível.

Corre à vontade a vasculhar o incrível,

A tentação do abismo perigoso.

 

A criança e a inocência

São o sonho e a falência.

 

- E somo-lo todos,

De todos os modos.

 

 

655 - Estátuas

 

As estátuas sempre são

Projecção além da morte,

Pétrea sacralização,

Bronze de eterno recorte

Mas que nunca tem a sorte

De um dedo mexer da mão.

 

- Termina ali da ilusão

Nosso incurável transporte.

 

 

656 - Vilão

 

“País de brandos costumes”

- Enganaram-nos em vão.

Se queres ver o vilão,

Não te iludas com perfumes

Que não passam de ilusão,

De vez ignora azedumes

E põe-lhe a vara na mão.

Então vês quem tem razão:

Em toda a parte, queixumes

Das vítimas pelo chão.

 

Vais ter de afiar os gumes

E ter a justiça à mão,

Sem de amor os tredos lumes

Que só te embaraçarão:

- Vais ver os baques que dão

No chão que deles estrumes!

 

 

657 - Neurasténico

 

Neurasténico antes seja

Espiritualmente vivo,

Que insuportável me veja,

Vitorioso recidivo,

Porém sem encontrar porto,

De espiritualmente morto.

 

 

658 - Planura

 

Hoje é dia de planura,

Sem terramotos, vulcões,

E amanhã tudo perdura

Como ontem, sem aleijões.

 

Cremos que as forças que um dia

Brutas a terra agitaram

Algo as adormeceria,

Para sempre se finaram.

 

- Que é que, porém, de repente,

Vem tão silenciosamente

Cutucar-me aqui no ombro

Como fantasma de assombro?…

 

 

659 - Pacífica