SÉTIMA  REDONDILHA

 

 

 

APROFUNDA  A  REFLEXÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 727 e 821 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                727 - Aprofunda a reflexão

 

                                                                Aprofunda a reflexão

                                                                Cada joeira da crítica

                                                                Desbravando a teia mítica,

                                                                Luz trazendo à escuridão.

 

                                                                Num verso é boa política

                                                                Sabedoria em filão

                                                                Nele entrosar como um dom

                                                                De resistência granítica,

 

                                                                Não vá perder-se de vez

                                                                Nos desencontros dos dias,

                                                                Das paixões nas contrafés.

 

                                                                Ao gravá-las na palavra

                                                                Todas as sabedorias

                                                                Semeio no chão da lavra.

 

 

728 - Capital

 

A estupidez não se cura

Com dinheiro, educação,

Nem por lei ou com procura,

E não é pecado, não.

 

Mas é o crime capital

De castigo universal:

- A sentença dele é a morte

Imposta na evolução

Quando a estupidez condão

For da espécie que a transporte.

 

 

729 - Dialogar

 

Há quem, ao dialogar,

Ultrapasse minhas frases

Como quem fora, em lugar,

No acelerador pisar,

Para o amarelo capazes

Os pneus serem de passar.

 

Apertam-me contra a berma,

Tiram faixa de rodagem,

De raspão batem na enferma

Minha opinião já erma,

Precipitam-se em voragem

(Minha ideia não vão ler-ma!)

 

Para o estacionamento

 

Habitual e relaxado

De seu próprio pensamento.

Nunca vivem um aumento

Nem vislumbram o outro lado:

- São carros sem movimento!

 

 

730 - Culpado

 

Na maioria dos casos,

Alguém sentir-se culpado

Pode ser, findos os prazos,

Construtivo em todo o lado.

 

É a voz civilizadora

Que evita que se magoem,

Perturbem, se vão embora,

Desiludam (que se doem)

 

Os demais com que lidamos.

Porém, se não abrandar

A culpa de que inculpamos

Nossos actos, ao azar,

 

Após havermos tentado

Corrigi-los, caso a caso,

Ou se tal é derivado

Ao que à mão nos não deu azo,

 

Então é uma falsa culpa

A que põe-me em carne viva.

Torna-a quem se não desculpa

De vez autodestrutiva.

 

 

731 - Aceitemos

 

É preciso que aceitemos

Que não somos poderosos

A ponto que controlemos

Tudo o que ocorre e que vemos

Que nos traz dores e gozos.

 

O mundo era antes de nós

E depois de nós será,

Não somos quem ata os nós

Nem quem os desatará.

 

 

732 - Falha

 

Esperar a perfeição

De nós próprios, benefícios

não nos traz tal situação,

Mata-lhes mesmo os resquícios.

 

Quem de culpa já sofrer

Colha a falibilidade

que todos temos de ter:

- Falha é ser da Humanidade!

 

 

733 - Manipular-nos

 

Muitos de nós temos gente

Que pode manipular-nos

Para, ao fim, vir a inculpar-nos:

Um suspiro deprimente

 

Por parte da mãe mergulha

A muitos num sentimento

De culpa cujo tormento

Atiça qualquer faúlha.

 

Identifique primeiro

O detonador da culpa,

A coisa que não desculpa,

Que inseguro o põe inteiro,

 

Que pode ser o trabalho,

Os filhos ou a mulher,

A dádiva por quenquer

A esmagá-lo como um malho.

 

Quem é que pode accionar

qualquer dos detonadores?

Todo o poder dos mentores

Trate de lho retirar.

 

Veja após quem você é:

Não é nenhuma criança!

E o outro que não alcança

Não é um deus ali de pé:

 

Decerto que tal pessoa

Nem sempre terá razão…

- Sua vida tenha à mão,

Não viva mais vida à toa!

 

 

734 - Tempo

 

O tempo não nos ajuda

A manter-nos no caminho:

Nada há nele que me aluda

A que ele vai sempre em frente,

Mas agora, sem carinho,

São pedras, são pedregulhos

De cada dia o presente,

Da vida inteira os engulhos

A tropeçar em meus passos,

Mais e mais só de cansaços.

 

Há poucos anos ainda,

Como eu os ignoraria!

Mas com a velhice advinda

Sou balão de fantasia:

Esponjoso, indiferente

E cada dia mais mole…

Aquilo em que sou frequente

É a buscar o que não bole.

 

- Até que o tempo virá

E mais nada bulirá.

 

 

735 - Melancólico

 

Melancólico, por certo,

Depois de haver-me entregado,

Pelo mundo então negado

Da vida no desconcerto:

 

No gosto de discutir,

Na liberdade de escolha,

Nos véus que haja a descobrir

Para poder discernir

O caminho a que me acolha.

 

Meteram-me aqui num mundo

De infindas pequenas cercas:

Isto, não; aquilo é imundo;

Olha além, que te não percas…

 

É uma vida clandestina,

Deveio recalcamento,

Juízo que não atina

A interrogar um momento.

 

Uma razão que não age

Enrola-se num novelo,

Estéril, já não reage,

Com o mundo perde o elo.

 

Revirado para dentro,

Cada qual descobre em si

Paisagens até ao centro

Ignorado que haja ali.

 

Mas, esgotada a substância,

Parado no pessimismo

Pela descrença, com ânsia,

Morre o poema da infância,

Dele próprio é um mimetismo.

 

Nova máscara do medo,

Nunca dirá que é cobarde

E assim degrada seu credo

No sofisma onde se tarde.

 

 

736 - Irracionalismo

 

É sempre o irracionalismo

Que espalha sementes de ódio,

Dos choques o cataclismo

São deformações em bródio

E a verdade é que a verdade

Daqui sempre ela se evade.

De ódios espalha as sementes

A desrazão entre as gentes.

 

 

737 - Juiz

 

Juiz do tempo é o escritor

E o tempo é dele o juiz,

Se é testemunho de amor

Ou só,de aspirações vis.

 

A um tempo juiz e réu,

Que infernos lhe custa o céu!

 

738 - Requisitos

 

A lista de requisitos

Na escolha dum funcionário

Requer técnicos quesitos,

Mas poucos, em leque vário.

 

Tudo o mais, que é quase tudo,

É com dele a honestidade

E confiança, sobretudo,

Mais a maneira de ser

Com que inteiro persuade

Ou dissuade quenquer.

 

O académico saber

Não leva a vencer ninguém:

Se tem alguma valia,

A valia que ele tem

 

É de ao mais trazer mestria

Para o mal ou para o bem.

 

 

739 - Primeiro

 

O pragmático até cá

Foi o primeiro escolhido

E o santo só rezará

Por ele a um canto escondido.

 

O santo é que doravante

Deve ter a primazia

E o pragmático, prestante,

Servi-lo então deveria.

 

 

740 - Direito

 

Para viver a criança

Precisa de saber onde:

Onde seu direito alcança,

Onde é que o dos mais se esconde,

 

Decida então desenhar

Linhas de separação

Entre um e outro lugar,

Mostre-lhas sem confusão.

 

Hoje e sempre, seja firme.

Mas fuja a um erro comum:

Com rigidez não afirme,

Mata o excesso qualquer um.

 

 

741 - Sorte

 

O que nós temos é sorte

Por não ter o que queríamos

E antes termos o que temos.

Vendo-lhe bem o recorte

(Aquilo que não sabíamos),

Se espertos formos, havemos

De confessá-lo ao ouvido:

- Se o soubéramos, teríamos

Antes isto preferido!

 

 

742 - Barco

 

A nossa Terra parece

Um barco sempre encalhado

À borda do mar bravio.

E o mar a bater, refece,

Desfazendo-o, descuidado…

E a gente neste navio!

 

Não há nunca quebra-mar

Que garanta eternamente,

Ao menos, algum presente,

Que nos reserve um lugar.

 

Lá vamos, neste navio,

Por um fio, por um fio…

 

 

743 - Mesmo

 

Religião e política

A viajar no mesmo carro:

Logo vem a crença mítica

De que com nada me esbarro,

Não há muros no caminho.

É avançar e bem depressa

Sempre em frente da cabeça!

Que importa ser adivinho?

 

Os obstáculos aparte,

Esquecemos desde início

Que, a quem corre de tal arte,

Se mostrará o precipício,

Sem indícios nem sinais,

- Quando for tarde demais!

 

 

744 - Patamar

 

Se me não preocupar

Com o que é verdade ou não,

Tão imoral patamar,

Onde há só o que é meu quinhão,

Será como o de não ver

Donde me vem o dinheiro

Desde que eu o venha a ter,

Nem que mate meu parceiro!

 

 

745 - Jeito

 

A ciência é um instrumento

Que não é nada perfeito

Para obter conhecimento,

Mas é o melhor que anda a jeito.

 

É como a democracia:

Não nos dita as actuações,

Mas esclarece o que agia

Por trás de quaisquer senões.

 

Por muito que seja mau,

Se a verdade ao fim lhe escapa,

Serve-lhe de varapau

Com que os buracos lhe ataca.

 

 

746 - Aparência

 

Procurar uma aparência

A favor de meu desejo

E não ligar à evidência

Do que se opõe ao que almejo,

Eis a grande tentação.

Agradar ao que concorda,

Dar ao desagrado um não

É que me roeu a corda,

Precipitou na ilusão:

Da verdade a caminhada

É o invés desta pegada.

 

 

747 - Teorizar

 

É um erro teorizar

Antes de os factos colher,

Que, para a ideia vingar,

Vão-se todos distorcer.

 

E então, de verdade alguma

Ninguém dá conta que existe,

Pois que realidade, em suma,

Contra uma ideia subsiste?

 

Já nada então se amerceia

Com que nós façamos pacto.

Um facto vai contra a ideia?

- Tanto pior para o facto!

 

 

748 - Contraditório

 

Invalidar a razão

Tem algo contraditório:

Ou se faz com ela, ou não.

Se for com ela, é ilusório,

 

Que desmente o que comprova

Neste acto de o comprovar.

Se é sem ela, qual é a prova

Em que o vou fundamentar?