OITAVA  REDONDILHA

 

 

 

DA  LONJURA  OUVINDO  O  GONGO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 822 e 906 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                822 - Da lonjura ouvindo o gongo

 

                                                                Da lonjura ouvindo o gongo,

                                                                Aqui vou eu a caminho,

                                                                Semeio o pão, colho o vinho,

                                                                Que o itinerário é longo.

 

                                                                Não fatigo o passarinho,

                                                                Cujo canto, de longada,

                                                                É que encantatória a estrada

                                                                Me aparenta que apadrinho.

 

                                                                Nem faz medo aquele monte

                                                                Que me esconde o horizonte.

                                                                É que imagino por trás

 

                                                                A promessa derradeira

                                                                Que a passada faz leveira

                                                                Do caminho que me traz.

 

823 - Escolhas

 

Quão mais alto o chamamento

E quão mais vasta a visão

Mais escolhos no incremento

Ao homem se lhe imporão.

 

O âmbito da criação

Será este, o de escolher:

Geração a geração

Corre o rio que eu quiser.

 

Para sempre permanece,

Escolhe em sabedoria,

Mas escolhe, que se esquece

Sempre o amor que não havia.

 

 

824 - Contradições

 

Há contradições ocultas

Nos que amam a Natureza

Que deploram, por incultas,

Do artifício miudezas.

 

O Homem não fará parte

Da Natureza que apoiam?

Castores têm melhor arte

Nas barragens onde bóiam

 

Que uma barragem humana?

- Tal naturalista acua

Quem soltou asas com gana

E viajou para a Lua!

 

 

825 - União

 

A capacidade é aquilo

Que sou capaz de fazer.

Motivação é o sigilo

Do que o leva a acontecer.

 

A atitude a perfeição

Nos marca do que fazemos.

 

- Todas três em união

Elevam-nos aos extremos.

 

 

826 - Informação

 

Eu recebo informação

Por muitas vias e meios,

Em todo o momento e dose.

É chegada a ocasião

De medir os meus receios,

De ver que linha me cose.

 

De meu porvir a visão

Nem vai por ali sequer:

- Será conseguir viver

Dispensando informação.

 

 

827 - Labrego

 

O labrego deitas à terra

Um punhado de sementes.

Vibra ao lavrá-la, na guerra

Contra o tempo de entrementes.

 

Acompanha o germinar

De cada flor que acarinha

Com cuidado, com o olhar

Que intempéries adivinha.

 

Vive e sofre do que faz

Com profundas alegrias.

A escravidão dele traz

À libertação mais vias:

 

- A seara é a apoteose

De quanta vida alguém goze.

 

 

828 - Erro

 

Um homem requer agir

Sabendo que pode errar,

Para o erro não por ir,

Que seria se matar,

Mas por jamais conseguir

Os acertos garantir

De quem não quer procurar

A morte, mas, se surdir,

É o risco a ter de pagar.

 

Quantas vezes uma vida

É uma morte consentida!

 

- Isto é, duma vida a sério,

O mais profundo mistério.

 

 

829 - Partida

 

Há sempre algo a recear

Dos que chegam ao ideal

Mesmo à hora de fechar,

Já da partida ao sinal.

 

Viajante de última hora

Porque tão tarde começa,

Não sabe como demora,

Tem, por norma, muita pressa.

 

 

 

830 - Romance

 

Um romance é uma montanha,

Por vezes inacessível,

Que a predilecção nos ganha

Por ser tal sonho impossível.

 

Um romance é uma mulher:

A inacessível demais

A mais amada há-de ser,

- Tem doutro mundo os sinais!

 

 

831 - Passarinho

 

Vida, breve passarinho

De muitas penas que mudam

Ou que ficam, fazem ninho,

À nossa pele se grudam,

Até que todos se iludam

De aves num sonho adivinho.

 

A vida é um pardal que voa

Ora raso, ora bem alto.

Dentro em nós vive ele à toa,

A fugir quando me falto,

Tantas vezes dando o salto

Fora do que a vida ecoa.

 

Muitos deixam-no fugir

No momento de nascerem.

Como pedras vão cair

Vida fora, sem viverem

Nem darem conta que querem

Voar nos céus do porvir.

 

 

832 - Coragem

 

O que é preciso é coragem

Para rumar sempre em frente

Porque muda, de repente,

Toda a esteira da viagem.

 

E torna-se o mal em bem

Quando esgotado o haja alguém.

 

Como manter o meu fito

Quando devém um delito?

 

Como não, se ao invés dele,

Bem é o que me morde a pele?

 

- O que é preciso é coragem

Para usar, sábio, da aragem.

 

 

833 - Perspectiva

 

Na perspectiva da fé,

O dia em que escolhi Deus

Pouco importa, já que ele é

Fruto de caprichos meus.

 

O que importará deveras,

Que tem o dedo do céu,

É o dia gerador de eras,

Dia em que Deus me escolheu.

 

 

834 - Terra-mãe

 

Lutam pela terra-mãe,

Eu luto pelo futuro.

O tiro que lhes convém

Não convém ao que inauguro.

 

Da bala fica refém,

Eu, da seara que amaduro.

- Qual de nós, afinal, tem

À terra amor mais seguro?

 

 

835 - Sentidos

 

Ultra-sons, com que audição?

Raios X como sentirmos?

Em que é que anda a vida envolta?

Que sentidos faltarão

Para vermos ou ouvirmos

Outro mundo à nossa volta?

 

É que há um outro que anda aqui

Que não sinto e nunca vi…

 

- E quantos mais haverá

Além, do lado de lá?

 

E Quem é que Além habita,

Que visão de lá me fita?

 

 

836 - Lógica

 

Do fundo do inconsciente

Vem-me a urgência penetrante

Dum Universo com lógica,

Com um sentido evidente.

Do real, porém, constante

É a certeza demagógica

De que anda sempre distante,

Sempre um passo além da lógica.

E eu esgarço-me, hesitante,

Nesta via mistagógica

Que se me perde diante.

 

 

837 - Graduais

 

O mais que posso esperar

São melhoras graduais

No saber que procurar,

Sem atingi-lo jamais.

 

É que a certeza absoluta

Sei de absoluta certeza

Que me fugirá impoluta,

Mecha apenas sempre acesa.

 

E eu sempre um passo atrás dela,

Sempre a dar um passo além

Para que o lume da estrela

Um passo aqui dê também.

 

 

838 - Humildade

 

O cientista não procura

Impor a necessidade,

O desejo, à natureza.

Ao contrário lhe assegura,

Interrogando a humildade,

Que o que lhe ouve é o que mais preza.

 

Há cientistas de renome

Que se enganaram de fome…

 

Compreendendo a imperfeição,

Insisto na independente,

Tenaz verificação,

Medida a frio e a quente.

 

Assim é que, dia a dia,

Ao invés de a condenar,

Eu encorajo a heresia

Rumo à verdade a alcançar.

 

E o primeiro a consegui-lo

Não será punido, não,

Tem um prémio a persegui-lo:

- A nossa libertação!

 

 

839 - Maravilhoso

 

O maravilhoso atrai,

Tanto atrai que nos embota,

O juízo perde a cota,

No irracional qualquer cai.

 

Como se nos não bastara,

Espaços além voando,

Do homem hoje em dia a cara

Ir-se em astro transmudando!

 

 

840 - Cortes

 

Os cortes orçamentais

Da investigação de base

É comer dos cereais

As sementes, não se atrase

 

A ceia para ninguém!

Mas se a nova sementeira

Ninguém já fizer, porém,

Amanhã quem ceifa a jeira?

 

Para nós e nossos filhos,

Nas invernias vindoiras,

Quem colhe fruto, em que trilhos,

Se searas não houver loiras?

 

 

841 - Tarefa

 

Tarefa que surge

Nunca se domina

Sem a crença que urge

Na força que mina.

 

Nem que um coração,

Apenas um fique

Guardando o guião

Que o passado explique

 

E queira o futuro.

- Só então me inauguro.

 

 

842 - Resolução

 

Tomar a resolução

Com esperança é correr,

Será mais longe alcançar,

De vida melhor o estilo

Pretender vir ter à mão.

…Acaso não vá ocorrer,

Como dantes ao falhar,

Ter entrado ao peristilo

E logo me acontecer

Nem mesmo em tal reparar,

Mantendo vago meu silo.

 

Tomar a resolução

É agarrar a ocasião.

 

 

843 - Degrau

 

O espanto entretém a vida,

Encurta o correr do dia.

A esperança então revida,

Entalha um degrau na via.

 

Penar hoje um amanhã

Aos ancestrais dá sentido.

 

Debaixo da telha vã

Quem nascer pela manhã,

Porém, mal agradecido,

Já se esqueceu do vagido

Do que ontem sofreu sozinho,

Dum amanhã adivinho.

 

O espanto gera a esperança

Mas quem mede o que ele alcança?

 

 

844 - acabamento

 

Somos gente começada

Que nunca foi acabada

 

E de cujo acabamento

Responsável o elemento

 

Não é de fado nenhum,

- Apenas de cada um!

 

 

845 - Imagem

 

Cada qual dentro de si

Dele próprio cria a imagem.

Sem tal, como houvera aqui

Da eternidade a sondagem

Para além do que vivi,

Abrindo-se o que senti

Mais que à cópia, à Grande Viagem?

 

 

846 - Inventar

 

Urge inventar um país.

Se o não inventas, na pele

Não caberás da raiz

Que mergulhas dentro dele.

 

Quando um país inventar

A mim é que irei criar.

 

 

847 - Torpezas

 

O país que nos calhou,

De pequeninas torpezas,

Não importará cantá-lo.

Enquanto nos tolhe o voo

Perdido em mil miudezas

Só por sadismo é um regalo.

 

Para vindoiras grandezas

Convém é desinventá-lo.

 

 

848 - Loucura

 

Todo o sonho é uma loucura,

Só as loucuras é que contam:

Um plano bom o que apura

São ideais que dele apontam.

 

- E é o ideal o que nos cura.

 

 

849 - Valor

 

Só tem valor uma coisa

Quando a lutar obrigado

Por ela se não repoisa.

 

Sem esforço o que me é dado,

Mero presente da sorte,

Nem prazer me há revelado,

 

Nada vale e cheira a morte.

O valor, quando é suado,

Tem de eldorado o recorte.