NONA  REDONDILHA

 

 

 

DE  AMOR  TRILHA  IRREGULAR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 907 e 999 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                907 - De amor trilha irregular

 

                                                                De amor trilha irregular

                                                                Trilha o verso insatisfeito,

                                                                Em preito

                                                                A quanto é inseguro amar.

 

                                                                É, porém, no insatisfeito

                                                                Pé que anda a deambular

                                                                Que, ao azar,

                                                                Me tomo, afinal, a peito.

 

                                                                Tomo nota

                                                                Das margens, das altitudes,

                                                                Tiro a cota.

 

                                                                É um poema de virtudes

                                                                Em que o sonho não se embota

                                                                Aquele em que, amor, me iludes.

 

 

908 - Protege

 

A idade não nos protege

Do amor.

Mas a lei que nos rege

Tem este pendor:

A estranha verdade

É que o amor

Protege da idade!

 

 

909 - Importa

 

O que importa ter à mão

No mundo, não nos esqueça,

- Começa no coração,

Não na cabeça!

 

 

910 - Casa

 

Quem não casa pelo que quer e sonha

Mas pelo que socialmente é,

Então que se deponha

Do amor abandonado ao pé,

Porque vai

Não ser:

Se muito enrica,

A verdade é que cai,

Nem sequer

Fica.

 

E se crê

Que isto é que o vai tornar feliz

Não há fé

Que o salve da podridão da raiz.

 

O amor é gratuito.

O dinheiro

Custa muito:

- Mata o servo dele por inteiro!

 

 

911 - Sempre

 

Sempre juntos e para sempre separados,

Sei o que é ser dia e noite.

Somos o alvor de sóis mal nados

Até ao crepúsculo em que a morte nos acoite.

 

Um sem o outro não podemos existir,

Nem ao mesmo tempo os dois.

E é sempre este o modo de ir

Depois.

 

No amor que nos convida

Como em tudo o mais na vida.

 

 

912 - Redor

 

Levamos uma vida inteira a aprender

A ficar sentados olhando o mundo em redor:

Só velho pode quenquer

Ser capaz de sentar-se lado a lado,

Sem nada dizer, ao brando calor,

E sentir-se realizado

E contente.

 

Quem é novo é impaciente,

Interrompe o silêncio.

Que desperdício!

O silêncio é puro e santo:

Incense-o,

Pare o bulício!

 

Ele é que nos une aqui no canto:

Só quem se sentir à vontade com os mais

Consegue ficar sentado,

Lado a lado,

Sem falar nem por sinais.

 

E eis o paradoxo mais estranho:

- Esta é a comunicação de maior ganho!

 

 

913 - Companhia

 

Ninguém pode suportar

Um caminho qualquer

Se tiver

Por companhia quem nunca lhe ganhar

Afeição,

Ou de quem nunca souber

Conquistar

O coração.

 

A pior condenação

Na estrada

É a da solidão

Acompanhada.

Aqui não há caminhada,

Não!

Apenas, em surda revolta,

Intérminos, fatigados passos em volta

Da prisão.

 

 

914 - Sós

 

Vivemos sós,

Mais acompanhados do que cremos:

Quanta gente mora dentro de nós,

Quantas faces nos olhos de mosca com que vemos!

 

 

915 - Arma

 

Chego-me ao amor,

Embora sempre em vão,

Com teimosia que não desarma,

Como um caçador

Que vai à caça ao leão

- Sem arma!

 

 

916 - Esculpida

 

A mulher finda esculpida

Pela mão que lhe tocar,

Que a afagar enternecida.

 

O amor

Melhor sabe e mais moldar

Do que o maior escultor.

 

 

917 - Sociedade

 

O homem de sociedade

Em pleno apenas se realiza

Se qualquer individualidade

Que primeiro visa

A não puder, a seguir,

De vez trair.

 

Não posso ter o coração

Ao lado de minha gente

E as pantufas no serão

Do inimigo ali em frente.

 

 

918 - Sonho

 

O amor é um sonho sem medida,

Um sonho sem valor.

Mas quem não sonha encontra na vida

Algum sabor?

 

 

919 - Fossa

 

Para não tombares na fossa,

Cria amigos,

Que pão de homem não se adoça

Sem perigos.

Olha os abrigos, os abrigos!

E nunca ligues à troça

Que mascara os inimigos.

Cultiva os trigos

Na roça

E deixa aos pardais os figos.

O mais endossa

- Mas cuida de teus amigos!

 

 

920 - Espiritualidade

 

O que é espiritualidade?

Séculos a falar dela,

A descrevê-la,

A professar fé nela.

Porém sempre, na verdade,

Foi uma ligação abstracta,

Em que se crê intelectualmente,

Para evitar o mal que nos maltrata

Em lugar do bem que se tente.

 

Quando os outros amamos,

É tudo diferente.

Fico activo,

Vivo, vivo, vivo!

A vida evolui e por ela circulamos

E, em todos os ramos,

Devém tudo positivo.

 

Para quê o conceito,

A palavra,

Se pelos actos é que tomo a peito

A lavra?

 

 

921 - Flores

 

Não é o ciclo eterno

Das dores:

As crianças morrem no Inverno

Porque são flores.

 

 

922 - Aleijões

 

Quem vê caras,

Não vê corações,

- Tornam-se as virtudes raras,

Só ressaltam aleijões.

Quando às vezes basta um pouco de intimidade…

E de nobreza quanta raridade!

 

 

923 - Esvazia

 

Enquanto se esvazia

Dando o seio ao bebé que ampara,

A mãe repara

Que nasce. Como o dia!

 

 

924 - Castigado

 

“Quem o merecer

Deverá ser castigado!”

- Que importa a quem grita um castigo, sequer,

Quando o merecer, por seu lado?

 

Só que ele, porém,

No próprio juízo,

Jamais merece o castigo de ninguém,

- Fica o aviso.

 

É sempre contra quem mora ao lado

Que alguém berra o postulado.

 

 

925 - Filigrana

 

Das manhãs a filigrana

Orvalhada de luar

No tédio toda se fana,

Cotio de falta de ar,

 

Não fora a soalheira relva dos anos

De antanho, distantes,

Que vivem, infantis, com os arcanos

Encantados da ternura que houve dantes

 

Dentro de nós:

- De antigamente com o calor,

Eco de parentes e de avós,

Toda a banalidade respira logo amor.

 

 

926 - Horror

 

Todo o horror é provocado,

Em parte,

Pela tendência de presumirmos que determinado

Indivíduo é naturalmente mau:

Pomo-lo aparte,

Controlado a varapau.

 

Não logra ninguém acreditar

Que outrem pode agir como age

Sem intrinsecamente não prestar.

Então o coage,

Hostilizando-o,

A se desumanizar.

 

O medo entre todos aumentando,

Traz ao de cima

O que de pior houver em quem vitima.

 

 

927 - Indesejável

 

Por mais indesejável

Que seja doutrem o comportamento

Temos de compreender que o mais viável

 

Caminho para o despertar

Busca deveras a todo o momento.

…Como nós, aliás, do vagar, do vagar

Com o tormento,

Por azar!

 

 

928 - Sensato

 

Quem o rapaz ensina a ser sensato,

Da sensatez que a rapariga sabe?

Não o desejo de correr mundo ao desbarato,

Onde o sonho jamais cabe,

Antes a felicidade surpreender

No que perto dele

Estiver,

Ali mesmo à flor da pele

Sem o dar a perceber.

 

Quem lhe há-de ensinar,

Quem,

O lugar

Discreto

Onde germina a cecém

Debaixo do mesmo tecto?

 

 

929 - Piolhos

 

Enquanto o homem trata da imortalidade

Do corpo e da alma,

A mulher trata dos piolhos.

Qual a via da verdade,

Quem da vitória leva a palma

Sobre os escolhos?

 

Continuamos todos a morrer,

Embora cada vez mais tarde.

Ninguém logra definitivo compreender

Onde é que o fogo arde.

E nossas vidas com ambos apenas

Deixam, lentas, de ser tão pequenas.

 

 

930 - Vontade

 

Não compreendo a vontade de Deus

Mais que meus filhos a minha:

Confiam-se-me, nada incréus,

Certos de que os acarinha

Meu amor.

 

Prontos sempre a acreditar

Que saberei do que ninguém melhor

Deles qual o lugar,

Para eles o que for bom.

 

E é como devemos encarar

De Deus a questão:

- Mora aqui, nunca nos abandona sós

E, acima de tudo, olha por nós.

 

 

931 - Alturas

 

Que estranha a fé do homem

Tão certo de ver a Deus nas alturas

Que nem vislumbra as solitárias criaturas

Que ao lado as misérias consomem!

 

Que Deus é esse

Que nos esquece?!

 

Quem é que pode crer

Num mero pretexto para não nos ver?!

 

 

932 - Imperceptível

 

Vislumbro na jovem esposa

Da natureza a sensibilidade misteriosa

Que, mesmo cedendo ao arrebatamento

Do homem sedento,

Aparte se mantém

Com um imperceptível sorriso de desdém.

 

Dos campos e bosques o sorriso indefinido,

Noite e dia soalheiro e enluarado,

Das árvores e regatos o gemido

Indiferente e delicado,

Da flor

O suave e vibrante odor,

Das rochas e do canto das aves

Os murmúrios graves

À luz do sol e das estrelas,

- Nenhum pede licença nem nos liga

Quando a ser parte se obriga

Das belas

Miríades de prendas que nos cabe em sorte

Fruir do nascimento à morte.

 

 

933 - Velas

 

Nas zonas equatoriais as velas

Murcham à míngua de vento,

Dia a dia diminuindo, por mor delas,

As probabilidades de salvamento.

 

Tal do casamento

As sequelas

Quando a ilusão do intento

Se vai esvaindo nas querelas.

 

Sem amanhã,

Nenhum sol alvorece

Pela noite vã.

 

A pouco e pouco tudo esmorece,

A promessa de alvor em cada manhã

Fenece.

 

Não é dos tubarões

Que matam no mar,

É das desilusões,

As desilusões que matam devagar.

 

 

934 - Repleto

 

Artista completo

Ninguém poderá ser

Sem de amor ficar repleto,

Sem ter amado a valer.

 

 

935 - Avassaladora

 

Avassaladora revolução

Do primeiro amor:

De mim a ti a submissão,

Voluntária escravidão,

Incônscia renúncia de me impor

Em absoluto,

Em prol da união

Total e duradoira.

Em prol do produto

Que, de tão elevado, oira,

Quando nele me precipito:

- Em prol do infinito!