DÉCIMA  REDONDILHA

 

 

 

VAI  O  SENTIDO  TRAÇANDO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1000 e 1132 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                1000 - Vai o sentido traçando

 

                                                                Vai o sentido traçando

                                                                De infindos contratempos de procura

                                                                O verso de dor e cura,

                                                                No passo incerto do porquê, do quando.

 

                                                                Quando a luz fica brilhando,

                                                                Apura

                                                                A palavra com lisura

                                                                Onde o alvor registe que for coando.

 

                                                                Aqui

                                                                Fica a dureza do corte

                                                                De tudo quanto descobri

 

                                                                E o recorte

                                                                Com que a pulso recobri

                                                                A ignara escuridão que nos trazia a morte.

 

 

1001 - Base

 

Tem base a democracia

Na convicção

De que de homens um milhão

Terá mais sabedoria

Do que o destino consente

A um homem somente.

 

A autocracia, ao contrário,

Crê que um homem é um vidente

E um milhão, discricionário

Somatório incompetente.

 

Não há luz na multidão

E um somente é garantia

De que é sempre uma ilusão

Todo o alvor que ela luzia.

 

O controlo eficiente

Que quer a democracia

o que apenas nos garante

É que acabo a ir em frente,

Mais atrás, mais adiante,

Quando tal a maioria

Deveras sonhar um dia.

 

 

1002 - Coragem

 

A coragem

É o complemento do medo.

Sem medo quem são os que agem?

- Os tolos, só por toledo!

 

 

1003 - Palavra

 

O mistério dos mistérios é a palavra:

- Como é que um pensamento tem som?

 

E o que o mistério ainda mais agrava:

- Como é que muda de termo e de tom,

Terra a terra, país a país,

E o fogo que lavra

É sempre o mesmo de raiz?

 

Um em todos, todos num,

Espírito que incarna puro,

É um deus, pelo seguro,

Ou não faz sentido algum:

 

- Donde vem a magia

De afinar tão vasta sinfonia?

 

 

1004 - Dores

 

Mundo de trabalhadores,

Não de poetas:

Quem entende as dores

Secretas?                                                              

 

Quem tempo irá arranjar

Para haver lar?

Quem vai ler Camões

Ou Eça ou Aquilino,

Furando além os senões

Do destino?

Quem, à proa,

Pesca a madrugada

Numa canoa?

 

É verdade

Que estoutra caminhada

Não aguilhoa a Humanidade

Na corrida tresloucada.

Porém, à vida de quenquer,

Isto é que a torna digna de viver.

 

O mal

É a poupança disto ser pequena?

- A vida só vale a pena

Por aquilo que nada vale!

 

 

1005 - Levada

 

Deste ribeiro a levada

Tem centenas de milhares de anos

E renova-se a cada chuvada.

 

Tais da vida são os arcanos:

Vejo-a, com esperança e mágoa,

À vida e a tudo o que arquiva,

Ao ver este tropel de água.

- É um tropel de realidade viva.

 

 

1006 - Pouco

 

Que mal faz

Um pouco de socialismo na mocidade?

Conhece-se o inimigo, do que é capaz,

Para quando chegar a maioridade…

Então é só dar-lhe para trás!

 

- A verdade

É que a verdade ali jaz.

 

 

1007 - Perturba

 

Perdido por entre a turba

Descubro o que mais me lesa:

Não é a dúvida que perturba,

- É a certeza!

 

 

1008 - Imorais

 

São sempre os mais imorais,

A imitar visos de santos,

Que vão impor aos demais

As morais

Que eles chutam pelos cantos.

 

 

1009 - Pobre

 

Em casa de pobre

Quando não entra a jorna,

Entra fome que sobre.

Os bem-pensantes

Proclamam, confiantes:

- É tudo sorna!

 

 

1010-Altura

 

Somos todos tal e qual,

É que o defeito é da altura.

Mal

Aos píncaros trepamos,

Tanto a luz fulgura

Que para baixo encegueiramos.

 

Então, quando anda,

O pé calca a formiga

Que não pôde subir.

Quem comanda

Acaba sempre nesta briga

Dos que não têm porvir.

 

Nos homens, há formigas e há pardais

A disputar o mesmo grão de trigo.

Não há inimigo nem amigo,

Todos têm de ser por direito iguais.

Mas quem nos livra do perigo

Das bicadas ancestrais?

 

Aos de baixo não há via segura

Que os proteja da vertigem dos da altura.

 

 

1011 - Pensamento

 

Um pensamento qualquer,

Seja dito ou não,

É real e tem poder:

Orienta sempre a mão.

 

 

1012 - Ovnis

 

Ovnis: crença ou descrença?

Ausência de prova não é prova de ausência.

Primeiro, porém, a primeira evidência:

- Não é prova de presença.

 

Assim,

Ficamos então

Aguardando a prova controlável do sim

Ou do não.

 

Até lá,

Porque o não vi,

Porque de prova comprovada o não deduzi,

Ficarei por cá,

De janela aberta,

A curiosidade alerta,

Até que da neblina brote de algo o resquício

Ou o mero empedrado da estrada.

 

Dou da dúvida o benefício,

Mais nada.

 

 

1013 - Peneira

 

No fundo, a sabedoria

É saber do não-saber,

Compreender

Onde acabo e principia

O mundo de meus senões,

Onde a fronteira

Me peneira

De minhas limitações.

 

 

1014 - Enredados

 

Ficaremos sempre enredados

No erro.

De cada geração os traslados

São o que transpôs do cerro

Dos enganos

Através dos anos.

O mais que pode esperar

É diminuir a margem de erro

Sem jamais a ultrapassar.

 

É a beleza

De nosso braço de ferro

Com a natureza.

 

 

1015 - Sumidade

 

Não creias na sumidade

Porque erra como qualquer.

Faz a prova da verdade

A tudo o que dela houver

De se colher.

 

Por muito que ela o não queira,

Se a não sujeitas a tal,

Logo escorregas à beira

Dum erro fundamental.

 

A verdade

Indiscutível,

Por pagá-la quem acaba, previsível,

Será sempre a Humanidade.

 

 

1016 - Incrível

 

O pedido mais incrível:

“A verdade, toda a verdade e nada mais que a ver-dade”.

 

Impossível,

Fica além de nossa capacidade!

 

A memória é falível

E a ciência é mera aproximação.

 

Mesmo que um pouco menos que dantes,

Somos tão

Ignorantes

Da Imensidão!

 

 

1017 - Par

 

Saber,

Saber explicar:

Dois modos de ser

Nem sempre a par.

 

Qual é o segredo?

Apenas um:

- Muda os termos do mesmo credo

Quando falas ao comum.

 

É que aos termos do cientista

Não há vulgo que resista.

 

Mas igualmente também,

Ao encantamento

Dum portento

Ninguém

Resiste nem um momento

Para dar um salto além.

 

 

1018 - Dominam

 

Crês que são os humanos

Que dominam a vida,

Que mandam neste mundo de enganos.

É uma causa perdida.

 

É Deus que manda:

Resta acolher as Escrituras,

Da salvação em demanda.

 

Só que, depois, o que apuras

É que Deus anda,

- Juras,

A ordenar que és tu quem comanda!

 

Dentro ou fora da igreja,

As posturas são iguais

Para quem a sério

Leia os sinais

Do Mistério.

 

 

1019 - Pigmeus

 

A ideia de evolução

Como substituto de Deus

É de Deus ter a noção

Bem miúda de pigmeus.

 

A evolução é a via

Que Deus criou e mentém viva

Para manter eternamente activa

A criação que queria.

 

Ou então

É apenas outro vector da noção

Do poder da energia

Que Ele é no que nos envia.

 

Ou, como Ele continua a criar,

Como tudo continua a devir ser,

Sei lá bem qual é seu lugar

A não ser que lugar não tem qualquer!

 

 

1020 - Distância

 

A morte primeira

É a distância intransponível.

A morte verdadeira,

Dela com todas as ânsias,

É apenas a mais incrível

Das distâncias.

 

 

1021 - Investimento

 

Mais que o que nele arriscar

Todo o investimento rende.

Não vende apenas quem vende,

Ao vender anda a comprar.

 

No ensinar

É que se aprende:

E não apenas a dar

Quanto, enfim, se compreende

Mas a ver que é que se entende

Do saber a partilhar.

 

Quanto mais se ele divide,

Mais por nós além progride.

 

 

1022 - Insatisfeito

 

Viver insatisfeito

Comigo

É o pior inimigo.

Se o tomo a peito,

Não encontro mais abrigo

Senão no leito

Dum jazigo.

 

Comigo a reconciliação

É que ao mundo traz

A paz

Do perdão.

 

Não a de quem jaz,

Senão a de quem é capaz,

Ainda e sempre em função.

 

Meu recorte,

De seguida,

Não é de morte,

É de vida.

 

 

1023 - Álcool

 

Álcool de beber a dor

Não a bebe, é enganador.

Quem naquilo se distrai,

Cai,

Nem dele próprio é senhor.

Se não amaina a tormenta

E atormenta o bebedor,

Quem aquilo tenta

Que dor tenta sobrepor

À dor que tanto lamenta?

 

Álcool de beber a dor

Não a bebe, é enganador.

 

 

1024 - Desperdício

 

A questão fundamental

é se o desperdício de água

Será só de Portugal

Ou é o destino fatal,

Disfarçado pela mágoa

Nacional,