DÉCIMA  PRIMEIRA  REDONDILHA

 

 

 

                                    RUMO  A  UM  IGNORADO  OLHAR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1133 e 1240 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                1133 - Rumo a um ignorado olhar

 

                                                                Rumo a um ignorado olhar

                                                                Virarei o timão

                                                                Da barca a navegar

                                                                Na humana infinita solidão.

 

                                                                Terra à vista

                                                                Anotarei

                                                                E o mais leve vislumbre que revista

                                                                A vinda do que espero e nunca sei.

 

                                                                As alvoradas

                                                                Tocarei nos clarins do verso

                                                                A estimular as caminhadas

 

                                                                Por onde interminável me disperso.

                                                                Minhas jornadas

                                                                Na palavra terão delas o berço.

 

 

1134 - Nunca

 

Ele nunca aliciava,

Persuadia.

Ele, não, nunca adulava,

Encorajava quem via.

 

- Que admira depois que o melhor

Rebente em cada qual como uma flor?

 

 

1135 - Cimos

 

Quando já não conseguimos

Aquilo que desejamos,

Se para os cimos

Caminhamos,

O melhor é começar,

Para exorcizar os demos,

A gostar

Mas é daquilo que temos.

 

 

1136 - Poesia

 

A poesia não é escrita

Para ser interpretada,

Concita

A um nada

Inspira sem razão,

Toca sem compreensão…

 

A poesia é tudo,

Aquele todo maior que a soma das partes…

Não as dividas, põe-te mudo,

Que o mistério é para ser ouvido.

Não acartes

Com a maldição do além

Que mora escondido

Nas franjas de sentido

Que qualquer poema indelevelmente tem

Só porque o não contém.

Nem retém.

 

 

1137 - Tela

 

Pintar uma tela em branco…

O pior é que a vida dum homem

Não é a tela que atravanco

De tintas que se somem.

 

Esquecer para recomeçar…

Só quando o esquecimento

Fora inútil por não haver lugar

À memória, ao passado, à dúvida dum momento.

 

Minha tela está cheia de coloridos

De todos os meus eus que já são idos.

 

Todo o recomeço

É uma mudança

A ver se o que meço

Minha pegada o alcança.

 

 

1138 - Enraizado

 

Recusar o mundo é impossível,

Nele estou enraizado,

Por mais que seja terrível.

Somos nós que o fazemos

E ele faz-nos, por seu lado.

Em cada qual e no todo

Mora o drama que vivemos.

Depois da noite e seu modo

Vem o alvor de cada dia,

Embora a noite arredia

Lhe venha após suceder.

O que temos de tentar

É a noite tanto encurtar

Que nem noite fique sequer.

Que o que lhe sucederia

Não seja um dia qualquer,

Seja o dia, o eterno Dia.

 

O porvir não adivinho,

Porém, aponto um caminho.

 

 

1139 - Materiais

 

Ninguém recolhe os materiais da vida:

Vivem-se, Ou então nós os inventamos.

 

Vivência ou invenção pode escolhida

Ser se sabemos para onde vamos,

Porém,

E como queremos ir.

 

Como convém,

Quando entalhamos o comum porvir.

 

 

1140 - Parcela

 

A vida é uma parcela

Do que quero e que não há:

É no fundo o que sonhamos dela,

Não o que nos dá.

 

 

1141 - Traça

 

Como o tempo passa!

E como pelo tempo nós passamos

Sem deixar traça

Do que quer que sejamos.

 

Ou deixamos

E o que nunca passa

É o que sonhamos

E jamais somos, por nossa desgraça.

 

 

1142 - Fronteira

 

Não são os escolhos,

É a fronteira que nos reduz:

- Temos olhos,

Mas não podemos ver se não há luz.

 

O sinal

É que além das encostas jamais veremos

Do vale

Por cujo leito fundo caminhemos.

 

O tempo é uma estrada larga

Mas quando vamos através dele

Torna-se porta tão estreita e amarga

Que nos rasga a pele.

 

Defende-te da tentação

De escolher rumo claro e seguro:

Isto cega-te ao que o rumo tem de impuro,

Leva sempre à estagnação

E acaba num muro.

 

 

1143 - Dentro

 

Planos dentro de planos, dentro de planos…

Sou mesmo refém!

Nu fundo dos arcanos

Serei um plano de Alguém?

 

 

1144 - Mecanismo

 

A aposta no progresso

Age, tal mecanismo protector,

A abrigar-nos, dela no recesso,

Do futuro contra o terror.

 

 

1145 - Caminho

 

O caminho que conduz

Da escravatura à liberdade

É da literacia a luz,

Rumo ao saber e à verdade.

 

Tantos tipos de escravatura

E de liberdade tantos!

A postura

Que destes promete os encantos

É um discreto cadinho

Que apura o ser:

- O caminho

É o de ler!

 

 

1146 - Planeta

 

A ciência não mente:

A Humanidade mora

Neste planeta para evoluir, pelo menos agora,

Conscientemente.

 

 

1147 - Lentamente

 

O que faz

O presente

É o futuro lentamente

A caminhar para trás.

 

É o grande ausente

Que nos traz

De presente

Os anos que cada qual faz,

Os anos cuja semente

De sonho e de paz

O mundo inteiro sente,

O mundo inteiro pressente…

E depois fica incapaz,

Incoerente,

Impotente,

Ineficaz…

 

O futuro

É o presente que inauguro

Sem entender sequer como se faz.

 

 

1148 - Hoje

 

Como o que inovo

Me foge!

O novo é novo

Apenas hoje…

 

 

1149 - Fugir

 

Cada qual tem de assumir

A própria cura.

Entregá-la aos outros é fugir

E o medo perdura.

 

Ora, vencer o medo

É o segredo

Para o porvir que se inaugura.

 

Porvir individual

Ou colectivo:

- Sem a marca de meu sinal

Não vivo.

 

 

1150 - Polarização

 

Há uma polarização

Entre quem crê que há um porvir

E quem só vê negação:

- É o que impede de seguir.

 

A caminhada

Irá tão mais devagar

Quanto mais demorar

O consenso da chegada.

 

 

1151 - Transição

 

Na transição cultural

Finda a civilização:

Velhas certezas se desfarão,

Os pontos de vista dão sinal

De evoluir para nova tradição.

 

A curto prazo

Às ansiedades dão aso.

 

Enquanto alguns despertam

Para uma íntima ligação de amor,

Entre eles se alertam

E concertam

Para rápidos evoluírem com vigor,

Outros perdem o rumo

Na demasiada para eles rapidez.

 

Devêm receosos, em resumo,

E controladores, por sua vez.

Se lhes aumentam os problemas

Poderão chegar, perigosos,

Às medidas extremas.

 

- É o que sempre na memória

Nos envenena os gozos

Da História.

 

 

1152 - História

 

A História,

Mais do que um avatar,

É a memória

Dum longo caminho de acordar.

 

 

1153 - Controlo

 

Libertar-me dum evento de controlo

De mim sobre outrem, doutrem sobre mim,

De ansiedade faz que me rebolo

E me enrolo

Em descontrolo,

Do princípio até ao fim.

 

O terror vai-me subir

Antes de haver conseguido

No imo o caminho do devir

Para deixar de andar perdido.

 

A noite escura

Precede a euforia

Do dia

Que me apura.

 

 

1154 - Capaz

 

Não proclames perante quenquer,

Sem intervalo,

O que és capaz de fazer:

- Fá-lo!

 

 

1155 - Mimada

 

A criança mimada

Sofre e desespera,

Duma assentada

Detestável fera

E pomba encantadora.

 

Quis a Lua

Que demora,

Logrou passeá-la pela rua

E já não sabe que fazer dela agora.

 

Limita-se a agarrá-la

Com ambas as mãos,

Vendo que dela cada vez mais abala,

Que todos os músculos são vãos,

Por mais que finque os pés,

Para evitar que lhe fuja de vez.

 

A humanidade mimada,

Fera e pomba,

Quando o sonho tomba

Assim perde o rumo pela estrada.

 

Como se o sonho não fora primícia mera

Do que a espera

Na adultez, com a medida

Doutro patamar de vida.

 

 

1156 - Nuvem

 

Até a nuvem que no primeiro momento

Cabe na palma da mão

Pode vir a toldar o firmamento

Em toda a imensidão.

 

 

1157 - Seguintes

 

Não na minha vida nem na tua,

Na seguinte das seguintes…

Que importa? Lutar é que pontua,

Até acertarmos nos vintes.

 

A luta

Mais dura

Virá depois de toda a disputa.

É na paz

Que a verdadeira guerra perdura:

Aí é que a vida apraz

E se apura.

 

Aí é que a vida nos faz,

Segura.

 

 

1158 - Ricaço

 

O ricaço amaldiçoa

Alto e bom som.

O ricaço resiste, à toa,

A quanto cheire a modificação,

Desde que, como um agoiro,

Se inventou o oiro.

 

É o travão

Do futuro.

Por isso o que inauguro

É sempre em contra-mão.

E o mais que apuro

É uma ilusão,

Seja embora o único seguro

Contra a definitiva podridão.

 

Na ilusão e na derrota,

Afinal, estou a ir:

- Ferido e humilhado, sou a rota

Do porvir.

 

 

1159 - Frondes

 

Nas frondes dos jardins

Quantos projectos perdidos,

Esperanças adiadas para confins

De horizontes desmedidos!

Quantos sonhos que hão morrido

Há tanto tempo, tanto,

Que já nem valem o pranto</