DÉCIMA  SEGUNDA  REDONDILHA

 

 

 

 

NOS  SONETOS  NAVEGANDO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 1241 e 1379 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                1241 - Nos sonetos navegando

                                                               

                                                                Nos sonetos navegando

                                                                Rumarei ao Pólo Norte

                                                                Onde irei fazer a corte

                                                                Dos astros a todo o bando.

 

                                                                Voarei pelo Equador

                                                                Tomarei banho no mar,

                                                                Nas selvas irei a par

                                                                Das cachoeiras ao fragor.

 

                                                                Aqui amo,

                                                                Além descubro,

                                                                Inauguro depois um horizonte…

 

                                                                Ramo a ramo,

                                                                Ante o infinito a nudez minha encubro

                                                                E para a infinidade ergo uma ponte.

 

 

 

1242 - Frémitos

 

Como as árvores se enxugam

Dos frémitos da invernia,

Como os vendavais se estugam

A despi-las cada dia!

 

Tremelicam tenras folhas,

Pelos ramos as primeiras,

Quais pardais, por entre as molhas,

Deslumbrados nas canseiras.

 

Só lhes faltará cantar

Por gorjeios e trinados.

Cantam verduras pelo ar

Verde por todos os lados.

 

É nesta orquestra de cor

Que bebo o cósmico amor.

 

 

1243 - Compromissos

 

Um homem tem compromissos

Consigo e com o futuro,

Nenhum escapa aos enguiços:

Morto embora, ali perduro,

 

Nenhum de nós faltará.

Os homens de hoje nenhum

Dinheiro os prolongará,

Mas o que for cada um.

 

Em acto é que eu manifesto

Todo o peso que terei,

Valho o que valer meu gesto,

Não oiros que acumulei.

 

Para o bem ou para o mal

Nós é que somos sinal.

 

 

1244 - Circunferência

 

Era a circunferência a que faltava

Um gomo para a roda ser perfeita.

Então em todo o lado o procurava,

Que a falta lhe doía, tal maleita.

 

Mas, por ser incompleta, a volta atreita

A rolar vagarosa sempre andava,

Pelo que ia admirando a giesta, a feita,

As minhocas e o sol, do vale a cava…

 

Até que um dia encontra o encaixe certo.

Incorpora-o, feliz, e roda logo,

Vertiginosa o longe haurindo perto.

 

Tão depressa, porém, nem vê a paisagem…

Jogo então fora o gomo deste jogo:

- Gostoso devagar sigo viagem.

 

 

1245 - Ausência

 

Na vida, a ausência de Deus

Os homens não libertou

De nenhum dos ópios seus

Nem a escravidão matou,

 

Nem semeia em terra os céus,

Ninguém mais feliz tornou:

Parte a fé, ficamos réus

Da inquietação que ficou.

 

Ido terá Deus embora.

Muito embora tenha ido,

Não chegou a nossa hora

E o dilema do sentido

 

Da existência permanece

E a toda a hora aparece.

 

 

1246 - Vontade

 

Que vontade de viver

Com gestos dos mais graúdos

E com feitos façanhudos!

 

E este medo de morrer

A trocar-ma, sem eu ver,

Numa vida por miúdos.

 

Haverá morte pior

Do que a vida de quem tem

Pela morte um tal pavor

Que a troca por um vintém?

 

Vida morrendo aos bocados

Será vida ou só contém

Morte por todos os lados?

- Um homem sempre é um refém!

 

 

1247 - Absolutas

 

Podemos desejar verdades absolutas,

Podemos pretender tê-las mesmo atingido,

Fanáticos ou crentes num qualquer sentido

Que um vislumbre de luz lampeje em nossas grutas.

 

Pois certo nada há, nem as mais diminutas

Nem as mais comprovadas verdades que haurido

Haja através do tempo decorrido

Desde que, humano sendo, em torno monto escutas.

 

Nem puras matemáticas ao fim são certas,

Pois que dos pressupostos ficam dependentes

E eu tranco-lhes as portas ou tenho-as abertas.

 

As certezas, ao termo, disto decorrentes,

As únicas que as mentes nos mantêm despertas,

São certezas de dúbio ser tudo entrementes.

 

 

1248 - Encontro

 

O encontro da ciência com a natureza

Desperta reverência com algum temor,

Compreender celebra esta fusão de amor

Com da imensidão cósmica a frugal beleza.

 

O acúmulo mundial de saber e sageza

Ao longo das idades, do histórico alvor

Ao pináculo humano de que hoje é senhor,

Longe não andará de atingir, com certeza,

 

Aquela meta-mente que nos fundiria

Para além das fronteiras e das linguagens

Cantando o universal, única melodia

 

Eufónica a se ouvir em todas as paragens.

E, se num todo o espaço o saber alumia,

As gerações fundiu nas planetárias viagens.

 

 

1249 - Espiritualidade

 

Espiritualidade era toda a ciência

E uma fonte lustral de espiritualidade,

Que a mente, material não será de verdade

E a ideia uma sinapse não é de evidência.

 

Quando nosso lugar vemos na imensidade

Dos anos-luz, dos séculos na decorrência,

A beleza da vida toma tal cadência

Que é exaltação e júbilo sobre humildade.

 

É tão espiritual como nas emoções

Que a grande arte em nós toca na literatura,

Na música ou pintura, quando são vulcões

 

Que em nós rasgam janelas a olhar para a altura.

Espiritualidade e ciência, ambas de costas,

Ambas será perder em tudo quanto gostas.

 

 

1250 - Cuidados

 

Os parentais cuidados prestados aos novos

Serão a garantia de manter linhagem.

Parentes sorrirão à criança em rodagem,

Devolve esta o sorriso e gera então nos covos

 

Tentáculos que enlaçam, retraçam a imagem

Que germina fecunda em recônditos ovos,

Novos laços atando onde nascem renovos.

E todos nós sabemos: somos tal focagem.

 

Mal a criança vê, vai reconhecer rostos,

Bem antes de entender como qualquer actua,

Cada qual fotografa, foca-o de olhos postos

 

E só muito mais tarde vai descer à rua.

Porém, quando descemos, levamos impressa

A cara eternamente dentro da cabeça.

 

 

1251 - Alívio

 

Ah, que alívio que seria

Se a dúvida ser pudera

Abolida desta via

Finalmente! Quem dera!

 

Livres do pesado fardo

De nos ocupar de nós

Nunca mais picava o cardo

Que nos atara os ilhós.

 

Se de mim vou-me ocupar,

Preocupar-me irei também,

Com razão, não por azar,

 

Com o sentido que tem,

No porvir a conquistar,

Só comigo contar bem.

 

 

1252 - Alucinação

 

Quando toda a gente sabe

Que os deuses descem à Terra,

Na alucinação já cabe

Deles a mole que aterra:

 

Se os deuses são da família,

Se forem fadas, duendes,

Se espíritos em vigília…

- São tais fendas as que fendes.

 

Porém, quando os velhos mitos

Desaparecem, então,

De extraterrestres conflitos

 

Devém a alucinação.

- Continuam nossos gritos

A guiar-nos pela mão.

 

 

1253 - Dragão

 

“Um dragão na garagem minha vive lá!”

- Assevera com tão real seriedade

Que logo correremos a ver-lhe a verdade.

Perguntas ao vazio: “onde é que o dragão ‘stá?”

 

“É invisível” - confessa - “mas anda acolá!”

“Enfarinha-lhe o chão!” “Só que flutuar ele há-de!”

“Pois com o infra-vermelho que o fogo lhe invade

Podê-lo-ei detectar!” “O fogo esfriará…”

 

“E se um jacto de tinta sobre ele lançar?”

“Esqueci de informar que ele é mesmo incorpóreo!”

- E quando, assim por diante, nada comprovar,

Do deus tendo o vazio dentro do cibório,

 

Comprovarei ao menos que é urgente arranjar

A mente de quem tomba em tão louco avatar.

 

 

1254 - Absolutamente

 

Se absolutamente certo

Fico em minha convicção,

Os outros errados vão

A palmilhar o deserto.

 

Se o bem é que me motiva,

Os demais irão por mal;

Deus em mim tem voz activa,

Dela, noutrem, nem sinal!

 

E se for perversidade

Questionar uma doutrina

E se crer e obedecer

 

Dela é a missão de verdade,

- A caça às bruxas é a sina

Até disto o homem morrer.

 

 

1255 - Tabuada

 

Não há ciência nacional

Nem nacional tabuada.

A religião, por igual,

Quer-se universalizada.

 

 

Mas a questão com que cismo

E que não tem solução

É a desta religião,

Esta do nacionalismo!

 

Entre o facto e o valor

Não há nem nunca haverá

Nenhum paralelo a pôr.

E é bom vê-lo desde já!

 

Há nações, mas tal verdade

Tem valor de eternidade?!

 

 

1256 - Tirano

 

É provável encontrar

Miséria, tortura e crime

Onde o tirano reinar

Sem controlo que o encime.

 

Democrático regime

É aquele que, em seu lugar,

Convívio tente sublime,

Do rei cada qual a par.

 

Aquele tem muito mais,

Este aqui tem muito menos

Do mal traços e sinais.

 

Só porque há direitos plenos

De uns trocar pelos rivais

E outros, não, por mais pequenos.

 

 

1257 - Silenciar

 

Silenciar opinião

Ao fim é sempre um pecado.

Se for boa, a ocasião

De aprender ficou de lado.

Se for má, compreensão

De nosso ponto de vista

Muito mais aprofundado

Contra quanto lhe resista

É o que então terá lugar.

E nem o nosso argumento

Ao fim irei vislumbrar,

Sem vida escoado ao vento,

Pálido e sem mais vigor,

Mera lembrança de cor.

 

 

1258 - Diferentes

 

As coisas que nós vemos como belas

Poderão ser deveras diferentes,

Que as vertentes efectivas lá presentes

São iguais, lobrigadas nas sequelas.

 

Quando o belo saltar, então aquelas

Coisas em que saltou, luminescentes,

Devêm nítidas, de cor ingentes,

Vibram de forças em globais procelas.

 

Na paisagem do mundo, tal no amor,

As coisas, como a amada iridescente,

Ressaltam com o fogo do estupor

 

Perante a opacidade evanescente

Do resto que dormir-lhes em redor:

- O belo cria um mundo transcendente.

 

 

1259 - Tudo

 

Compreendo que tudo faz parte de mim,

Sentado aqui no cume da montanha a olhar

As paisagens que vão para todo o lugar,

Sinto meu corpo físico no meu confim:

 

Não é senão cabeça doutro corpo, enfim,

Afinal bem mais vasto até que meu olhar,

Porque para além vai do que logro alcançar,

Lobriga-se o Universo em mim até ao fim.

 

Não me começa a vida em minha concepção

Nem no meu nascimento no planeta errante.

Muitíssimo antes tudo afinal principiara,

 

Do início de mim próprio com a formação,

Meu corpo mais real, tão mais que o deste instante,

Meu corpo de Universo a olhar por minha cara.

 

 

1260 - Admiro

 

Quando admiro a beleza e a singularidade

Das infinitas coisas que dão corpo ao mundo

Dele acolho a energia que me toca o fundo

E desde o fundo me abre para a eternidade.

 

Então, quando acolá me deixo fascinar

E a estese atinge o nível da paixão de amor,

O meu coração arde como se o fulgor

Em mim eu recolhera do rosto que amar.

 

Então, como ao gratuito amor todo me entrego

Sem dele pretender negociar a troca

Nem paga, que a não há de quanto de vez lego,

 

assim, gratuito e leve, dou-me e desemboca

A