DÉCIMA  TERCEIRA  REDONDILHA

 

 

 

A  PALAVRA,  A  IRONIZAR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1380 e 1511 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                1380 - A palavra, a ironizar

 

                                                                A palavra, a ironizar

                                                                Dispara flechas certeiras,

                                                                A pretensão das asneiras

                                                                Repondo no seu lugar.

 

                                                                Com ironia ou sarcasmo

                                                                Varre cada verso o lixo

                                                                De toda a fruta com bicho

                                                                Que à vista nos tolhe o pasmo.

 

                                                                No terreno enviesado

                                                                Solto o gado

                                                                Bravio do verso indomável.

 

                                                                Talvez no prado

                                                                Que a vida houver arroteado

                                                                Do pasto germine algo de admirável.

 

1381 - Funcionário

 

Num país que é já maduro

Funcionário público é,

No dicionário mais puro,

Dono do público até!

 

 

1382 - Lavado

 

Se há sol e um dia lavado

De chuvas após dois dias,

Fim de semana há findado

E em segunda-feira o lias.

 

 

1383 - Criança

 

Ser criança é uma conquista

Que um adulto nunca alcança?

- Na cadeira do dentista

Quenquer volta a ser criança!

 

 

1384 - Culto

 

Ama seca é adolescente

Que tem de fazer de adulto

Para o adulto, impenitente,

Do adolescente ir ao culto.

 

 

1385 - Fax

Faz é aquele mecanismo

Com que qualquer alimária

Do trabalho cava o abismo

Sobre s tua secretária.

 

 

1386 - Perfeccionista

 

Perfeccionista é quenquer

Que a música só aprecia

De Tchaikovsky, se souber

Como é que o nome se lia.

 

 

1387 - Criança

 

A criança é uma pessoa

Que não quer um guardanapo

Para seu gelado à toa

Logo enfiar para o papo.

 

 

1388 - Emagrecer

 

Emagrecer é viver,

Após além ter gorduras,

Viver como outro qualquer

Mas para aquém das costuras.

 

 

1389 - Economia

 

Economia é uma forma

De gastar nosso dinheiro

Sem nos divertir, por norma,

Nada com este roteiro.

 

 

1390 - Sótão

 

O sótão será um lugar

Para lá guardar o traste

Até que fora o deitar

Fique decente que baste.

 

 

1391 - Minutos

 

Quando um homem diz: “querida,

Já só faltam dois minutos

Para o futebol findar”,

Usa de tempo a medida

Mesma que a mulher que, argutos,

Nos promete dois minutos

Para logo se aprontar.

 

 

1392 - Ventas

 

Desprezo dum homem pobre

Às ventas bem atirado

De quem no dinheiro sobre

- É milagre em qualquer lado!

 

 

1393 - Juventude

 

Será uma idade de asneira,

De atropelo e desalinho:

Juventude é bebedeira,

Mas bebedeira sem vinho.

 

 

1394 - Sílabas

 

Ele arvora-se de conde

E ela tanto de condessa

Que as sílabas batem onde

Baterão com a cabeça:

Prega, cada qual mais lesta,

Deles o nome na testa.

 

E o senhor conde, afinal,

Mas que cómico jogral!

 

E a condessa, por seu lado,

Ai, Jesus, que mau olhado!

 

 

1395 - Rato

 

Rói-me o tempo, beijo a beijo,

Como um rato a petiscar

Roubado naco de queijo:

Sou comido até findar.

 

 

1396 - Júri

 

Um júri é uma forma conhecida

E a mais prestigiada

De a injustiça cometida

Ficar de vez lavada!

 

 

1397 - Casa

 

Quando um homem casa,

Toma o nome dele a mulher,

Quando o testamento apraza,

Toma o nome dela o que tiver.

 

 

1398 - Sarilho

 

São precisas tantas malas,

Tanto porta-bagagem no tejadilho

Quando pretendes que abalas

De todo este sarilho!

 

 

1399 - Aldeia

 

Sob árvores de Natal

Cresce ao acaso uma aldeia…

“Falta à rua principal

- Diz alguém - uma assembleia

Que o caos urbano, tal

Como aqui à volta o vês,

Como aqui devém geral,

Pela lei trave de vez,

De vez a ver se o cerceia!”

 

 

1400 - Parceiro

 

O Natal é uma estação

Em que acabam sem dinheiro

As pessoas para não

Acabarem sem parceiro.

 

 

1401 - Contabilista

 

“Meu contabilista vale

Cada escudo que me cobra

Pelo tempo que me poupa:

Poupou-me já, por sinal,

Este ano que agora dobra,

Ter de cadastrado a roupa

Da prisão cinco a dez anos

Que arcariam meus enganos!”

 

 

1402 - Milhão

 

Se um milhão de mãos houver

A trabalhar para nós,

A má coisa que tiver

A hipótese num milhão

De vir a ocorrer, após

Ir-nos-á saltar do chão

Decerto mais que uma vez:

Uma por ano ou por mês!

 

 

1403 - Violência

 

Nem com revoltas nem prantos

Se nos troca esta evidência:

Têm um hábito os santos

- De morrer à violência!

 

 

1404 - Aberto

 

Manter o espírito aberto

Tem da virtude o condão.

- Não tão aberto, decerto,

Que o cérebro caia ao chão!

 

 

1405 - Nome

 

A política consiste

Em inventar novo nome

Para a instituição que viste

Que um ódio velho consome.

 

 

1406 - Diabo

 

Poderá sempre o diabo

Ir citando as Escrituras

Para a bem levar a cabo

As intenções mais perjuras.

 

 

1407 - Cativo

 

No limite, sou cativo,

Mesmo quando mais me exorto:

- Mais vale estúpido vivo

Do que inteligente morto.

 

 

1408 - Astrónoma

 

- Quer ser astrónoma a menina?

Que pena!

Não pode, é dela a sina,

Não tem qualidades para a cena…

 

- Como é que o podemos saber?

- Porque nunca foi astrónoma qualquer mulher!

 

 

1409 - Sela

 

Com objectiva verdade,

A ciência, nas apostas,

Provou que esta Humanidade

Não nasceu com sela às costas.

 

E mais, que uns tantos punhados

Que não trepam sem escoras,

Sendo privilegiados,

Não nascem de bota e esporas.

 

 

1410 - Laranja

 

“A laranja, bola de oiro,

Veste a laranjeira-fada…”

- Vem do mercador o agoiro

E a lenda é logo comprada.

 

 

1411 - Cavar

 

Cavar é pior que tudo:

É o mesmo que abrir a cova

Para o homem abelhudo

Morrer se tal vida prova.

 

 

1412 - Estreme

 

Pensa um optimista estreme:

Melhor mundo é o desta idade.

O que um pessimista teme

É que isto seja verdade!

 

 

1413 - Avalanche

 

Por mais que nos mais se enganche,

Olhe onde pende o seu dado:

Cada floco da avalanche

Se declara não culpado…

 

 

1414 - Charme

 

Poderei safar-me

Por quinze minutos

Apenas com charme.

É bom que após me arme

Com alguns produtos

- Ou que coisa alguma

Eu não saiba, em suma!

É que o ignorante

Sempre vence, impante,

O enorme fastio

De quem for vazio.

 

 

1415 - Convencidas

 

Nas pessoas convencidas

O que afinal há de bom

É que das demais, perdidas,

Não falam. É de bom tom!

 

 

1416 - Nunca

 

Como se educam crianças

Toda a gente sabe bem,

Sabem modos mil de tranças,

- Mas nunca aqueles que as têm!

 

 

1417 - Perder

 

Não há tempo (ou é infecundo)

Para dedicar a amigos

E há todo o tempo do mundo

A perder com inimigos!

 

 

1418 - Paciente

 

Ao psiquiatra, o paciente:

“Não, não ando perturbado

Com más ideias na mente,

Ando mesmo deliciado!”

 

Afinal, qual a sentença:

quem, ao fim , será doente,

Onde é que mora a doença,

No médico ou no paciente?

 

 

1419 - Candidato

 

Desconcertantes questões

Hoje em dia tomo a peito:

- Que é feito das soluções

Quando um candidato é eleito?

 

 

1420 - Decote

 

Decote a tudo arejar,

Neblinas nem há sequer…

- Deseja mesmo anunciar

Quem ao fim não quer vender?

 

 

1421 - Dobre

 

Todo o desejo de alguém

É que alguém lhe dobre o amor,

Não dando ele nem vintém

Do que lhe devera apor.

 

 

1422 - Dente

 

Vais achar toda a comida

Requeimada, a quebrar dente,

E é toda afinal devida

À tua boca doente.

 

 

1423 - Anedotas

 

As anedotas, que são,

Além do riso cordial,

Senão a compensação

Da impotência social?

 

 

1424 - Turista

 

Senhor turista,

Corra para cá,

Já, já, já,

E aprecie a vista:

- Visite Portugal enquanto há!

 

 

1425 - Cadilhos

 

Revoluções sempre cegam

E o pior de seus cadilhos

Afirmar não é o que negam,

É matar os próprios filhos.

 

 

1426 - Farmácia

 

Da farmácia todo o ar

Parece mesmo dizer:

- Quer leve ou deixe ficar,

Terá sempre de morrer!

 

 

1427 - Azedam

 

O leite e a amabilidade

É difícil conservá-los:

Se azedam, mesmo a metade,

Como amargam longe abalos!

 

 

1428 - Sumptuário

 

De vestido sumptuário,

Parece ela, o gesto raro,

Peça de mobiliário

Forrada de cetim caro!

 

 

1429 - Bêbado

 

Aquele bêbado somos

Que crê que bebem demais

Quantos de ébrio têm assomos.

- Ele, não, não é dos tais!

 

 

1430 - Influência

 

A mulher sobre o marido

Sempre exerce uma influência:

Ou para o que houver querido,

- Ou o invés, dela na ausência!

 

 

1431 - Regalo

 

Os jovens, de boa fé,

Crêem que a vida é um regalo.

Sabem lá o que é andar a pé!

Sempre andaram a cavalo…

 

 

1432 - Estupidez

 

Para alguém poder vir a conseguir

Uma dose integral de estupidez,

Nada como na mente lhe impingir

Questões irrelevantes vez a vez.

 

Assim é que a escola

Bem tradicional

A todos imola,

Tudo fica igual.

 

Não gritem que enguiça,

Dado que, afinal,

Ela faz justiça,

O metro é o normal.

 

Até porque a asneira,

Se normalizada,

Fica mesmo à beira

De devir sagrada!

 

 

1433 - Cura

 

A cura da humanidade

Requer aquele olhar

De recordar

Que eterna mocidade

Pretendo talhar de minha vida.

A cura é perseguida

Quando prefiguro

Um novo tipo de futuro

Que nos entusiasme,

Tornados todos nós gérmenes de deuses.

A inspiração Que me pasme

É que põe fim aos reveses

E nos leva a sentir bem.

De facto, ninguém

Ficará são

Por ver mais televisão!

 

 

1434 - Par

 

O que mais hoje nos trava

É que o sonho não comanda: