PRIMEIRO  TROVÁRIO

 

 

 

                PRIMEIRO GERMINA O AMOR, POEMA REGULAR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha ao acaso um número entre 1 e 124, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 


 

                                                1 - A Mansão da Infinidade

 

                                                Primeiro germina o Amor, poema regular,

                                                Desemboca na Utopia, em todo o sonho,

                                                Normativo logo após se há-de tornar

                                                Com aquilo que define a caminhar.

                                                E, poema irregular, de Amor disponho

 

                                                Pela Utopia além verrumando,

                                                Regras a definir,

                                                O Ser que entendo a perseguir.

                                                Depois, a quadra regular de Amor e Sonho laçando,

                                               

                                                Atinjo a norma de fermentar o que desvendo,

                                                Até que toco a irregular quadra de utopia e afectos

                                                Culminando a regra a ordenar o que compreendo.

 

                                                Aqui chegados, sonetos e trovários são projectos

                                                Que agasalham da ironia e bom-humor os tectos.

 

 

                                                2 – Primeiro germina o Amor, poema regular

 

                                                Primeiro germina o Amor, poema regular,

                                                Em verso bem medido e bem rimado.

                                                A raiz aqui vou soletrar,

                                                Nas pegadas que alinhar,

                                                Do que nos destina o fado.

 

                                                Tanto pelo amor-paixão

                                                Como pelo fraterno ou parental

                                                Ou da humanidade universal

                                                Caminharei, raso ao chão.

 

                                                Contudo, de olhar ao alto,

                                                Explorando no afecto

                                                O trampolim do salto.

 

                                                Algum dia no infindo o projecto

                                                Culminará o trajecto.

 

 


 

 

 

 

 

 


 

 

3 – Sabor

 

Na máquina de café

Ajunto o sabor dos povos

De Moçambique à Guiné,

De Angola trago renovos,

De Timor à Arábia até,

Em lotes de sabor novos.

 

O fruto das lavras ponho

Todo inteiro a se abraçar

E das fazendas disponho,

A machamba e a roça a par,

O alegre povo, o tristonho,

Juntos tudo a perfumar.

 

Pode o mundo fazer guerra,

Que o sabor de tudo enlaço.

Nós cá somos terra a terra

E preferimos o abraço

Ao dente que tudo ferra,

Que a festa prende no laço.

 

Nós enlaçamos o mundo

E, nele nos enlaçando,

Damos o abraço profundo

Que juntos nos prende, quando

De amor tudo é tão jucundo

Que o mundo acaba inundando.

 

 

4 – Poetas

 

Dum amor toda a fervura

Os poetas transmudaram

Numa infinita impostura:

 

As rimas deles colaram

De palavras duas bocas

Que as vidas mal decalcaram.

 

Sempre o amor que em nossas tocas

Os fados nos destinaram

Menos belo e que o que evocas.

 

Os degraus para o infinito,

Que lonjura em nosso grito!

 

 

5 – Mudar

 

É o amor o derradeiro

Meio de mudar os seres,

Mesmo cheios por inteiro

De ódio quando os acolheres.

 

Se exprimires este amor

Em contínuo, sem enfado,

Tocá-los-ás do fervor,

Tarde ou cedo, a teu agrado.

 

 

6 – Angústias

 

Para angústias combater

É preocupar-se menos

Consigo que com os mais.

Alguém ao deveras ver

Ruins dos outros os terrenos

Maus os seus não vê jamais.

 

Quando os outros ajudamos,

Nossa confiança aumenta,

Nossa angústia diminui,

Desde que francos sejamos.

Paga a mais quando se tenta

Só do mal que em nós influi

 

Nos livrarmos, finalmente,

Noutrem a apostar em frente.

 

 

7 – Argumento

 

Quando argumento, a razão

É sempre a quem me dirijo.

Se amor manifesto, então,

Ou carinho é que de rijo

 

Me comunico à pessoa,

Eu inteiro ao outro inteiro,

Não a qualquer parte à toa

Donde ao todo não me abeiro.

 

Dali é que então alguém

Muda no encontro que tem.

 

 

8 – Jóia

 

É sempre uma fancaria

A jóia de minha prenda?

Tanto mais se distinguia

Da ternura que eu te renda.

 

E é tão mais de pechisbeque

Quanto o amor que tece os dias

Das emoções todo o leque

Nos enche de fantasias.

 

Uma prenda é uma janela

Para a paisagem soalheira

E és tu nesta a minha estrela

A aquecê-la toda inteira.

 

 

9 – Ouvi

 

Venho aqui testemunhar

Que ouvi bem a Tua voz,

Identifico o sinal.

E venho, pois, te impetrar

Que me não faças, após,

Dele indigno, no final.

 

Venho dizer que, ao olhar

Meu amor, a Ti descubro:

Já não és mais invisível,

Difuso, uma sombra de ar,

Mesmo se eu estou ao rubro,

Mas concreto, perceptível,

 

Vivente, reconfortante,

Fonte de amor amor dando,

Sempre a intervir actuante.

Ajuda-me, que ajudando,

 

Tu que és amor, a que eu ame,

Vou consumir-me no amor

E não temer dele o fogo.

Que ante o risco não me escame,

Que ante o medo, sem tremor,

O terror desgaste logo.

 

Ajuda-me a não fugir,

Não traficar, degradar,

Não aviltar, corromper.

Ajuda-me a distinguir

O vero do que falsear

E ajuda-me a não ceder

A emboscadas de inimigos

Do amor, os grandes perigos.

 

Eu e Tu, então, de vez

Juntos no rosto que eu amo

Somos Um em dois, os três,

De Deus o inefável tramo

Vivo em nossa pequenez.

E somos divino um ramo

Com inteira solidez

Junto ao mais que em vida acamo.

 

 

10 – Perdido

 

Falei-te de plenitude

E o que vejo nos teus olhos

É o paraíso que ilude

Perdido por entre abrolhos.

 

Cada qual o possuía,

Ao paraíso perdido.

Hoje é dele a nostalgia

Da vida e morte o sentido.

 

Quando eu olho nos teus olhos,

Quando tu olhas nos meus,

Os milagres são aos molhos,

É o tempo, o tempo de Deus.

 

Em ti eu O encontro a Ele

E me reencontro a mim,

Tua pele é minha pele,

Tuas mãos, minhas assim.

 

Amo-te, não tenho medo,

Tens a beleza do sol:

Quando ris é um raio, cedo,

Da madrugada que bole.

 

Sai de ti, inunda o mundo:

- Como tudo põe jucundo!

 

 

11 – Auréola

 

Extremamente fugaz,

Além do mais, é a beleza.

Uma vaga auréola traz,

Uma irradiação mal presa,

Um odor que é tão esquivo

Que mal se inscreve em ser vivo.

 

Tem a intensidade cega

Que nos prende e ninguém pega.

 

 

12 – Encontrado

 

É uma ideia aterradora

O amor que podia ser

E não é, mera demora.

 

Quem eu poderia ter

Encontrado e todavia

Nem o vislumbrei sequer.

 

Amor que então deviria

Aventura em negativo:

O que não é mas seria…

 

O estranho do amor esquivo

É que a sublime aventura

É a que eu podia, vivo,

 

Ter vivido em tal altura

E não vivi, morto arquivo

Do que nunca tem figura.

 

É meu mundo paralelo

A que nunca apus o selo.

 

Lugar do sonho perdido

Que sou sem nunca ter sido.

 

 

13 – Sol

 

Cada qual é detentor

Dum sol que ciosamente

Conserva em seu interior

E que desde adolescente

Esconde, a aguardar mais ganhos,

De familiares, de estranhos.

 

Chegará, porém, o dia

Em que tropeça em alguém

Que lhe desvenda a magia

Do segredo que em si tem

E que o assume tal qual

Na alegria que o iguale.

 

Ou então somos nós quem

Penetrará no segredo

Que o imo doutrem contém,

Que o assumimos sem medo

Como festa de magia

Que em nós também principia.

 

Não há de sangue algum laço

Que mais ligue, irreversível,

Que a descoberta que faço

Deste sol indestrutível

Que por graça ou por acaso

Se me impõe como meu caso.

 

 

Abençoados aqueles

Em que é mútua a descoberta:

Descubro teu sol que impeles

Quando o meu te abre uma aberta.

E mil bênçãos se fiéis

Forem sempre a tais anéis.

 

 

14 – Descobriste

 

Se nos dias que hão-de vir,

Pelo sol te condenarem

Que descobriste fulgir

No peito dos que se amarem,

Lembra-te: digno hás-de ser

De quanto sol aquecer.

 

Se te pregarem na cruz,

Anjos do céu vão descer,

Vestidos de branco e luz,

Que te irão lá desprender.

Mesmo selado em sepulcro,

Ressuscitarás mais pulcro.

 

E, se for justo fazê-lo,

Que tu próprio saibas ser

O anjo libertador belo

Daqueles que hão-de sofrer

Por mor da fidelidade

A todo o amor que os invade.

 

 

15 – Fruto

 

Se aquele que se apresenta

Como sendo um esperado

Gerar não nos faz nem tenta,

É só fruto malogrado.

 

Um desejado anuncia,

Não um cilício de esparto,

Mas aquilo que se cria

Através da dor de parto.

 

E quem ama, se calhar,

A contradição requer

De só conseguir amar

A quem tal fizer sofrer.

 

 

16 – Amo-te

 

Amo-te de cravo e rosa,

 

Amo-te de amor-perfeito.

És poema em minha prosa,

És a vida a que ando afeito.

És tão eu, tão eu que, enfim,

Sem ti nem eu era em mim.

 

 

17 – Corresponder

 

O amor incondicional

Não é aquele amor terreno

Em que se ama cada qual

Se corresponder em pleno

Dele ao que espero que vale.

 

Outro é o que importa deveras:

Amo-te pelo que fores,

Respeito, em quaisquer esferas,

Teu trajecto ao te propores.

 

És o que és e tens direito

A tomá-lo sempre a peito.

 

 

18 – Campo

 

Um só campo de energia

Nos une a todos no mundo.

Somos todos a magia

Dum cordão imenso e fundo,

Fisicamente ligados

Todos por todos os lados.

 

Estão mesmo entretecidas

As do meu com as do teu,

As moléculas hauridas

Do Cosmos no gineceu.

Uma só força ata os nós

A agir dentro em todos nós.

 

 

19 – Embora

 

Embora tenha o poder

De interferir e evitar

A dor que um filho tiver,

Optarei por mostrar

 

Amor deixando-o aprender

À própria custa a esmoer.

 

Faz parte do crescimento

A dor de cada momento.

 

É assim que nós aprendemos

Não na estufa que amornemos.

 

 

20 – Procuro

 

Que procuro, que procuras?

Certamente, não o amor:

Não o compram sinecuras

Nem a vontade o há-de impor.

 

Ao amor ninguém o alcança,

Corra, salte ou atropele,

Pouco importa o que se cansa:

- Quem nos alcança é sempre ele.

 

 

21 – Guerra

 

Em tempo de guerra o amor

Chega a não ter importância,

Tal a importância do horror:

O amor é uma irrelevância,

De tanta insignificância.

 

O amor, porém, é que empresta

O sentido e peso à vida.

Por isso a guerra não presta,

Tem de ser, nesta medida,

A todo o custo impedida.

 

 

22 – Choque

 

É dentro de nossa casa

Que o inimigo é pior.

O choque que chispa em brasa

Não é de servo e senhor,

 

Vai ser entre pai e filho,

Entre marido e mulher,

Entre irmãos, quando o cadilho

Que os ata se retorcer…

 

Quando Deus se faz presente,

Não é paz mas divisão

Que o rio arrasta em torrente

Até regar todo o chão.

 

 

23 – Fronteira

 

Vais a um sábio perguntar

O que é que entre noite e dia

Faz fronteira a separar:

Se estrela que não luzia,

 

Se linha branca de preta

Distinguir sem hesitar.

E o sábio o que te interpreta

É que és um cego sem par:

 

Aquilo que te separa

O dia sempre da noite

É quando olhas cara a cara

Qualquer homem que se afoite

 

E vês que ele é teu irmão.

Se vives num tempo novo,

É nisto que vês então

Que o velho é morto e o renovo

 

Inaugura um novo dia

Dum olhar nesta harmonia.

 

 

24 – Purifica

 

Nada purifica tanto

Como a afeição. As questões

De família enxugam pranto,

De rasas devirem tanto:

- A união eleva, emoções

A tudo emprestam encanto,

Troca a vida corações.

 

 

25 – Súbditos

 

De súbditos mais amado

Te vale ser que odiado.

 

Decerto benevolência

É mais própria, por essência,

 

Que orgulho, na ocasião,

Para ganhar afeição.

 

Aposta no bem-querer:

Comandas mais que quenquer.

 

 

26 – Juntas

 

Por que é que há-de ser loucura?

Se duas pessoas se amam

Nunca mais pára a procura,

Por que de vez não se acamam?

 

Se ao fim dum mês andam fartas

Uma já da outra então,

Se com o outro já repartas,

Mau comparsa, o jogo em vão,

 

Não ficais associados,

Partilhando a mesma estrada:

Cada qual, os pés pisados,

Só da dor é camarada.

 

 

27 – Erguer-se

 

O sentimento de irmãos,

Uma afeição arreigada

À vida, de mãos nas mãos,

Por nenhum choque abalada,

 

Por mil pequenas disputas

Ofendida num instante

Mas sempre a erguer-se das lutas

Mais forte e mais viva adiante,

 

Quando a pressão se fundiu;

Uma afeição que nenhuma

Paixão depois destruiu,

Que nem um amor resuma,

 

Iguale em força, constância:

Que um amor fere, cruel,

Com tais angústias, tal ânsia,

Que nossas forças impele,

 

Num ápice devoradas

Pelas chamas ateadas;

 

- Uma afeição sem tormentos

Nem fogueiras a queimar,

É consolo dos momentos,

Bálsamo a cicatrizar.

 

O sentimento de irmão

Brevemente sintoniza

Coração com coração

E ambos disponibiliza.

 

 

28 – Mesma

 

Jamais há felicidade

Onde não houver mudança.

A monotonia invade

Tudo quanto o amor alcança.

 

A morte e a monotonia

Farão então parceria,

 

Uma na outra repoisa,

- São ambas a mesma coisa.

 

 

29 – Ilusão

 

A vida é uma ilusão, mas não o amor.

O amor é a mais real, mais duradoira,

Mais doce e mais amarga fina-flor

Que conhecemos firme ao sol que a doira.

 

É poderoso como a morte,

Dele a doçura é fugidia

E o aguilhão é de tal porte

Que fica sempre em duro corte,

Cruel tortura, noite e dia.

 

Isto, a menos que se trate

Dum amor retribuído.

Mas romances são dislate,

A epiderme do sentido:

 

Mostram a superfície verdejante

E tentadora, enfim, do pantanal,

Não reflectem a face perturbante

Do fundo que ela encobre e é lamaçal.

 

Há casamentos felizes,

Se é recíproca a atenção

E sincera nos matizes

E se em harmonia estão

As mentes, desde as raízes.

 

Porém, nunca inteiramente

Um casamento é feliz,

Tal a ferida inclemente

Que nos tolheu a matriz.

 

 

30 – Mães

 

As mães nunca julgam, nunca,

E nunca condenam, amam.

É a missão delas que junca

De jardins tudo o que acamam.

 

E depois quem é que sabe

O que sofre um criminoso,

Quando isto é quanto não cabe

Da lei no laço oneroso?

 

Não vai ser ela que negue

Do filho morto à memoria

Um perdão total, entregue

Sem condições nem história.

 

É que a mãe tudo perdoa:

Aos pés da cruz que redime,

Da forca que amaldiçoa,

Adora ou bendiz, sublime.

 

Ao filho que o coração

Aos cães da amásia lhe leva,

Se o jovem tombar ao chão,

Logo a voz da mãe se eleva

 

Inquieta, terna e sem brilho:

“Magoaste-te, meu filho?”

 

 

31 – Capricho

 

Capricho do coração

É que a mente mais contida

Na baia das leis da vida

Sofre uma fascinação

 

Por aquele que escoucinha

Qualquer tirante que o prende,

Não faz caso nem se rende

À moral que mais convinha.

 

Chega a ser o predilecto,

Ídolo aos olhos dos pais,

Mesmo se lhes rouba o tecto

E pisa todos os mais.

 

 

32 – Nada

 

Sentir a inutilidade,

Nada e ninguém ser no mundo,

Terror da mortalidade,

Morrer um dia infecundo,

 

Sem conhecido ou amigo

À beira a quem dar a mão,

Mais dura falta de abrigo

É, pior condenação

 

De suportar que a vergonha

Ou pobreza que lhe aponha.

 

Principia aqui o inferno

Antes do que for eterno.

 

 

33 – Decisão

 

A decisão do doente

Em cultivar a esperança

É fundamento premente

E mais quando ela se entrança

 

Com a família e amigos

À volta em igual postura.

É de aderir-lhe aos abrigos,

Fugir com desenvoltura

 

Da atitude apreensiva

E da fatalista mais.

De alimentar é a furtiva

Melhoria com sinais

 

De feições esperançadas,

Pensar com discernimento,

Firmeza e coerência armadas

No íntimo cometimento.

 

Nosso corpo tem linguagem

De advertência que é preciso

Saber ouvir, na triagem

De decifrar-lhe o juízo.

 

A razão é conselheira

Se com equilíbrio usada.

O sintoma é uma bandeira

Para a muda a ser tomada

 

Numa atitude coerente,

Com o acto correspondente.

 

 

34 – Pensavam

 

Não pensavam na criança

Naquela noite os amantes.

Não pensam no que os alcança,

Só sentem o amor, impantes,

 

O amor que nasce tão vasto,

Tão vago, impregnando o mundo:

Quanto vêem é amor fasto,

Quanto sentem é jucundo.

 

E o que é difuso e sem forma

Concretiza-se, discreto.

É o jeito deles, por norma,

Que toma o perfil concreto

 

Dum homem e uma mulher,

Deles os próprios contornos

Que se apuram, tomam ser

Com força e ritmo, em adornos

 

Com o frémito do sangue

E do corpo na exigência.

O ser que aguardava, langue,

Ei-lo chamado à existência.

Eles, porém, não sabiam.

A mãe era virgem, jovem,

E nem todas propiciam

O que as mães dos deuses movem.

 

Nem sempre é suficiente

A primeira das visitas.

Nem sempre um pai será o ente

Em que os deuses tu concitas.

 

Os dois jovens não sonhavam

Com o íntimo da criança,

Nebulosa onde adensavam

Pontos fixos, dança a dança.

 

Não tinham, pois, consciência

Daquele ente que esperava

E que viria à existência

Por entre o amor que se dava.

 

Um do outro só noção

E das trémulas mãos dadas

Tinham e do corpo, chão

De sementes germinadas,

 

Que lhes palpita em fervor,

Até que a revelação

Consume de vez do amor

Num filho em carne e oração.

 

 

35 – Quererás

 

A inteira compreensão

Quererás entre dois entes,

Definitiva fusão

Tal que um só são, entrementes.

 

A verdade é que são dois

E que, quanto mais se amarem,

Menos se entendem depois,

Por menos se harmonizarem

 

Um com o outro nas pegadas.

Do amado a mera presença

Faz pulsar desordenadas

No coração, tal doença,

 

As batidas que ele der.

Quando o ritmo assim se altera

Como alterado há-de ser

Tudo o mais que a par vivera!

 

Como é que a felicidade

Por trás disto nos invade?

 

 

36 – Recordações

 

Quando um homem já viveu

Tem sempre algo então consigo:

Tem recordações de seu.

E quem recorda, ao abrigo

Estará da solidão:

Só não vive em seu pascigo,

Reparte-se em comunhão.

 

 

37 – Mérito

 

Homem que ama e renuncia

À ventura dum amor

Cedendo-o a quem mais teria

Direito ao seu esplendor

Do mérito se socorre

Dum homem que mártir morre.

 

 

38 – Correr

 

Quero correr atrás do sonho,

Quero que creias no que diz

Teu coração a que me aponho,

Quero que vivas de raiz

 

Só pelo amor. E quando pronto

Já te encontrares, vem comigo

Ter, que te espero. Ao cume aponto

E tenho o céu por meu abrigo.

 

 

39 – Sofre

 

Do homem sofre o coração

Quando chove, ao vendaval…

Não devo contudo, não,

Por isto querer-lhe mal:

É que de nós não depende

Para onde o sentir pende.

 

 

40 – Soubera

 

Se soubera o que dirão

A pedra, as flores, a chuva!

Acaso chamam em vão,

Ninguém ouve a dor viúva.

 

Quando é que nossos ouvidos,

De nós todos, se abrirão?

Quando é que olhos refundidos

Hão-de ver na escuridão?

 

Quando é que abriremos braços

A nos abraçar a todos,

Pedra, flor, chuva e mormaços,

Dos povos todos os modos?

 

 

41 – Caído

 

Eu terei caído tanto

Que, se houvera de escolher

Entre por uma mulher

Apaixonar-me entretanto

 

E antes um bom livro ler

Sobre o amor jamais vivido,

Teria o livro escolhido

Por melhor me parecer.

 

Assim é que o mundo em vão

Vive de alucinação,

 

Enquanto ao lado o regato

Da vida se esvai pacato.

 

42 – Aldeões

 

Os aldeões correm aos lares,

Alegres, esfomeados,

Para as ceias e manjares

E para sentir traslados,

 

No mais fundo das barrigas,

Do que for a Encarnação,

O mistério doutras migas

Que os ventres revelarão.

 

É nesta sólida base

Que pão, vinho, em camafeus

Mudarão do que ali case:

- Só deles se cria Deus.

 

 

43 – Alegria

 

Cuidada, abundante ceia,

Braseiro aceso à lareira,

Corpo onde o adorno se alteia,

Embandeirado, e que cheira

A flores de laranjeira

 

- Tudo pequenos prazeres

Corporais e bem humanos.

Que rápido vês tais teres

Das almas salvas de enganos

Volverem festa sem danos!

 

Não há mesmo outra mestria

Do que fundar a alegria.

 

 

44 – Sepulcro

 

Dum homem o coração

Sepulcro é de sangue cheio.

Nas beiras se deitarão

Os mortos de meu enleio,

De barriga para o chão,

A beber sangue a estuar

Para se reanimar.

 

E quão mais queridos são,

Mais sangue nos beberão.

 

Por isso é que a desligar-nos

Temos todos de aprender,

Para amá-los como amar-nos

Sem gavinhas nos prender,

Manter do amor a envolvência

Sem nenhuma dependência.

 

 

45 – Príncipe

 

Um príncipe, muitas vezes,

Não torna a mulher feliz

Como os pelintras soezes

Que se entregam de raiz.

 

É que os príncipes do mundo,

No momento em que beijavam,

Cuidavam como jucundo

Pôr o reino em que mandavam.

 

O pelintra esquece tudo

E não há maior prazer,

Contando pelo miúdo,

De que goze uma mulher.

 

A  mulher que é verdadeira

Goza mais com o prazer

Que der que do que se abeira

Dum homem de receber.

 

 

46 – Fim

 

No fim, ficamos a sós,

Do amor fora da influência.

Há um eu impessoal em nós,

Ultrapassa amor, vigência

 

De emotivas ligações.

Mas a ilusão preferimos

De que do amor os tendões

São a raiz donde vimos.

 

Não é raiz, são os ramos.

A raiz mergulha além,

Do isolamento em tais tramos

Que não encontra ninguém

 

Com quem vá se misturar,

Sempre incapaz de o fazer.

Na pessoa singular

Há um além, sempre, em quenquer,

 

Mais distante que o amor

E fora de nosso alcance

Como há estrelas em redor,

Da vista além que lhes lance.

 

 

47 – Morre

 

Quem morre e antes de morrer

Apto for a crer e amar

Vivo irá permanecer,

De existir não vai findar:

Nos entes amados dura

Como em si de forma pura.

 

 

48 – Fonte

 

É o amor fonte perene

De alegria e sofrimento,

Ânsia que eu apenas drene

Na própria dor que alimento.

 

Se êxtase for de prazer,

Dá vida e transmuda tudo

Que sob o céu florescer,

De adoração teste mudo,

 

E o mundo devém pequeno

Para tão grande ventura.

Se em angústia, porém, pleno,

Rasga em peito amante dura,

 

Voluptuosa ferida

Que depois há-de querer,

Com beijos, após sofrida,

Cicatrizar a correr.

 

É nesta contradição

Que baloiça o coração.

 

E não há nunca saída

À contradição vivida.

 

 

49 – Infelicidade

 

A infelicidade é bem mais fácil

Que a felicidade de exprimir.

Na miséria vemos, não é grácil

A vida em que temos de existir:

Esta minha dor é individual

E o nervo que crispo, por igual…

 

A felicidade me aniquila,

Perco, de repente, a identidade:

Em termos de amor se nos perfila,

Dos cantos na voz, a divindade;

E findo a usar termos de oração

Dum amor ao dar explicação.

 

Também submetemos a memória,

Como o imaginário ou o intelecto,

Privação sofremos, noite inglória,

No amor como em místico projecto.

E, por recompensa, isto nos traz

Por igual, às vezes, certa paz.

 

Tem do amor a cópula descrita

Sido tal pequena morte enfim

E também o amante às vezes dita

Viverá feliz e, no confim,

Minúscula paz experimenta,

- Dilui no Infinito quanto inventa.

 

 

50 – Impotente

 

O amor é impotente em muitos casos,

O amor nele mesmo não produz

Tangíveis benesses, bródios rasos.

Por isto difícil se traduz

 

Encontrar o amor de Deus oculto

Sob realidades materiais

Onde sempre andou, alheio ao culto,

O que sugerir parece mais

 

Que Deus não existe, ou que não fala,

Ou que vive irado e então se cala.

 

Tal no amor humano a ambiguidade

Dos frutos do amor que nos invade:

 

Ou exalte ou queime tudo a esmo,

O amor se bastou sempre a si mesmo.

 

 

51 – Companhia

 

Todo o homem vive o anseio

De companhia durável,

Solidária, num enleio,

Que lhe partilhe, amorável,

 

Todo o fatal sofrimento,

Que com ele chore, tal

Como a mãe chora o tormento

Que um filho suporte mal.

 

Deus não pode responder

À imagem dum pai severo,

Antes deve parecer

Esta mãe a quem dói, fero,

 

O sofrimento dos filhos,

Que os acompanha chorando.

Quem O testemunha, atilhos

Ao infortunado atando,

 

Por ele ora e a dor lhe sofre.

Então bem-aventurado

É quem chora: tem em cofre

Tesoiros de quem é amado.

 

 

52 – Morrer

 

Morrer pelos que nos amam

É fácil, depois de tudo.

Mas que feridas se acamam,

Como dilacera, agudo,

 

Oferecermos a vida

Por quem não nos corresponde,

Não entende a oferta havida.

É fácil morrermos onde

 

Formos heróis gloriosos,

Mas difícil sumamente

Para a morte em pedregosos

Leitos ir duma corrente

 

De incompreensão, de insulto,

De escárnio sem fundamento.

Jesus sabia que inulto

Viveria tal tormento,

 

Que a morte o arrasava ao chão

Mais abjecta que a dum cão.

 

Tanto mais o cume brilha,

Do amor suma maravilha.

 

 

53 – Período

 

O amor pode despertar

Num período mui breve.

Mas, para se aprofundar

Requer tempo longo e leve

Até vir-se a transformar

Num sentimento durável,

Forte e de vez confiável.

 

Um amor é, sobretudo,

Entrega, dedicação,

Mais um certo conteúdo,

A certeza que terão

Os amantes de que tudo