PRIMEIRO TROVÁRIO
PRIMEIRO GERMINA O AMOR, POEMA REGULAR
Escolha ao acaso um número entre 1 e 124, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1 - A Mansão da Infinidade
Primeiro germina o Amor, poema regular,
Desemboca na Utopia, em todo o sonho,
Normativo logo após se há-de tornar
Com aquilo que define a caminhar.
E, poema irregular, de Amor disponho
Pela Utopia além verrumando,
Regras a definir,
O Ser que entendo a perseguir.
Depois, a quadra regular de Amor e Sonho laçando,
Atinjo a norma de fermentar o que desvendo,
Até que toco a irregular quadra de utopia e afectos
Culminando a regra a ordenar o que compreendo.
Aqui chegados, sonetos e trovários são projectos
Que agasalham da ironia e bom-humor os tectos.
2 – Primeiro germina o Amor, poema regular
Primeiro germina o Amor, poema regular,
Em verso bem medido e bem rimado.
A raiz aqui vou soletrar,
Nas pegadas que alinhar,
Do que nos destina o fado.
Tanto pelo amor-paixão
Como pelo fraterno ou parental
Ou da humanidade universal
Caminharei, raso ao chão.
Contudo, de olhar ao alto,
Explorando no afecto
O trampolim do salto.
Algum dia no infindo o projecto
Culminará o trajecto.
3 – Sabor
Na máquina de café
Ajunto o sabor dos povos
De Moçambique à Guiné,
De Angola trago renovos,
De Timor à Arábia até,
Em lotes de sabor novos.
O fruto das lavras ponho
Todo inteiro a se abraçar
E das fazendas disponho,
A machamba e a roça a par,
O alegre povo, o tristonho,
Juntos tudo a perfumar.
Pode o mundo fazer guerra,
Que o sabor de tudo enlaço.
Nós cá somos terra a terra
E preferimos o abraço
Ao dente que tudo ferra,
Que a festa prende no laço.
Nós enlaçamos o mundo
E, nele nos enlaçando,
Damos o abraço profundo
Que juntos nos prende, quando
De amor tudo é tão jucundo
Que o mundo acaba inundando.
4 – Poetas
Dum amor toda a fervura
Os poetas transmudaram
Numa infinita impostura:
As rimas deles colaram
De palavras duas bocas
Que as vidas mal decalcaram.
Sempre o amor que em nossas tocas
Os fados nos destinaram
Menos belo e que o que evocas.
Os degraus para o infinito,
Que lonjura em nosso grito!
5 – Mudar
É o amor o derradeiro
Meio de mudar os seres,
Mesmo cheios por inteiro
De ódio quando os acolheres.
Se exprimires este amor
Em contínuo, sem enfado,
Tocá-los-ás do fervor,
Tarde ou cedo, a teu agrado.
6 – Angústias
Para angústias combater
É preocupar-se menos
Consigo que com os mais.
Alguém ao deveras ver
Ruins dos outros os terrenos
Maus os seus não vê jamais.
Quando os outros ajudamos,
Nossa confiança aumenta,
Nossa angústia diminui,
Desde que francos sejamos.
Paga a mais quando se tenta
Só do mal que em nós influi
Nos livrarmos, finalmente,
Noutrem a apostar em frente.
7 – Argumento
Quando argumento, a razão
É sempre a quem me dirijo.
Se amor manifesto, então,
Ou carinho é que de rijo
Me comunico à pessoa,
Eu inteiro ao outro inteiro,
Não a qualquer parte à toa
Donde ao todo não me abeiro.
Dali é que então alguém
Muda no encontro que tem.
8 – Jóia
É sempre uma fancaria
A jóia de minha prenda?
Tanto mais se distinguia
Da ternura que eu te renda.
E é tão mais de pechisbeque
Quanto o amor que tece os dias
Das emoções todo o leque
Nos enche de fantasias.
Uma prenda é uma janela
Para a paisagem soalheira
E és tu nesta a minha estrela
A aquecê-la toda inteira.
9 – Ouvi
Venho aqui testemunhar
Que ouvi bem a Tua voz,
Identifico o sinal.
E venho, pois, te impetrar
Que me não faças, após,
Dele indigno, no final.
Venho dizer que, ao olhar
Meu amor, a Ti descubro:
Já não és mais invisível,
Difuso, uma sombra de ar,
Mesmo se eu estou ao rubro,
Mas concreto, perceptível,
Vivente, reconfortante,
Fonte de amor amor dando,
Sempre a intervir actuante.
Ajuda-me, que ajudando,
Tu que és amor, a que eu ame,
Vou consumir-me no amor
E não temer dele o fogo.
Que ante o risco não me escame,
Que ante o medo, sem tremor,
O terror desgaste logo.
Ajuda-me a não fugir,
Não traficar, degradar,
Não aviltar, corromper.
Ajuda-me a distinguir
O vero do que falsear
E ajuda-me a não ceder
A emboscadas de inimigos
Do amor, os grandes perigos.
Eu e Tu, então, de vez
Juntos no rosto que eu amo
Somos Um em dois, os três,
De Deus o inefável tramo
Vivo em nossa pequenez.
E somos divino um ramo
Com inteira solidez
Junto ao mais que em vida acamo.
10 – Perdido
Falei-te de plenitude
E o que vejo nos teus olhos
É o paraíso que ilude
Perdido por entre abrolhos.
Cada qual o possuía,
Ao paraíso perdido.
Hoje é dele a nostalgia
Da vida e morte o sentido.
Quando eu olho nos teus olhos,
Quando tu olhas nos meus,
Os milagres são aos molhos,
É o tempo, o tempo de Deus.
Em ti eu O encontro a Ele
E me reencontro a mim,
Tua pele é minha pele,
Tuas mãos, minhas assim.
Amo-te, não tenho medo,
Tens a beleza do sol:
Quando ris é um raio, cedo,
Da madrugada que bole.
Sai de ti, inunda o mundo:
- Como tudo põe jucundo!
11 – Auréola
Extremamente fugaz,
Além do mais, é a beleza.
Uma vaga auréola traz,
Uma irradiação mal presa,
Um odor que é tão esquivo
Que mal se inscreve em ser vivo.
Tem a intensidade cega
Que nos prende e ninguém pega.
12 – Encontrado
É uma ideia aterradora
O amor que podia ser
E não é, mera demora.
Quem eu poderia ter
Encontrado e todavia
Nem o vislumbrei sequer.
Amor que então deviria
Aventura em negativo:
O que não é mas seria…
O estranho do amor esquivo
É que a sublime aventura
É a que eu podia, vivo,
Ter vivido em tal altura
E não vivi, morto arquivo
Do que nunca tem figura.
É meu mundo paralelo
A que nunca apus o selo.
Lugar do sonho perdido
Que sou sem nunca ter sido.
13 – Sol
Cada qual é detentor
Dum sol que ciosamente
Conserva em seu interior
E que desde adolescente
Esconde, a aguardar mais ganhos,
De familiares, de estranhos.
Chegará, porém, o dia
Em que tropeça em alguém
Que lhe desvenda a magia
Do segredo que em si tem
E que o assume tal qual
Na alegria que o iguale.
Ou então somos nós quem
Penetrará no segredo
Que o imo doutrem contém,
Que o assumimos sem medo
Como festa de magia
Que em nós também principia.
Não há de sangue algum laço
Que mais ligue, irreversível,
Que a descoberta que faço
Deste sol indestrutível
Que por graça ou por acaso
Se me impõe como meu caso.
Abençoados aqueles
Em que é mútua a descoberta:
Descubro teu sol que impeles
Quando o meu te abre uma aberta.
E mil bênçãos se fiéis
Forem sempre a tais anéis.
14 – Descobriste
Se nos dias que hão-de vir,
Pelo sol te condenarem
Que descobriste fulgir
No peito dos que se amarem,
Lembra-te: digno hás-de ser
De quanto sol aquecer.
Se te pregarem na cruz,
Anjos do céu vão descer,
Vestidos de branco e luz,
Que te irão lá desprender.
Mesmo selado em sepulcro,
Ressuscitarás mais pulcro.
E, se for justo fazê-lo,
Que tu próprio saibas ser
O anjo libertador belo
Daqueles que hão-de sofrer
Por mor da fidelidade
A todo o amor que os invade.
15 – Fruto
Se aquele que se apresenta
Como sendo um esperado
Gerar não nos faz nem tenta,
É só fruto malogrado.
Um desejado anuncia,
Não um cilício de esparto,
Mas aquilo que se cria
Através da dor de parto.
E quem ama, se calhar,
A contradição requer
De só conseguir amar
A quem tal fizer sofrer.
16 – Amo-te
Amo-te de cravo e rosa,
Amo-te de amor-perfeito.
És poema em minha prosa,
És a vida a que ando afeito.
És tão eu, tão eu que, enfim,
Sem ti nem eu era em mim.
17 – Corresponder
O amor incondicional
Não é aquele amor terreno
Em que se ama cada qual
Se corresponder em pleno
Dele ao que espero que vale.
Outro é o que importa deveras:
Amo-te pelo que fores,
Respeito, em quaisquer esferas,
Teu trajecto ao te propores.
És o que és e tens direito
A tomá-lo sempre a peito.
18 – Campo
Um só campo de energia
Nos une a todos no mundo.
Somos todos a magia
Dum cordão imenso e fundo,
Fisicamente ligados
Todos por todos os lados.
Estão mesmo entretecidas
As do meu com as do teu,
As moléculas hauridas
Do Cosmos no gineceu.
Uma só força ata os nós
A agir dentro em todos nós.
19 – Embora
Embora tenha o poder
De interferir e evitar
A dor que um filho tiver,
Optarei por mostrar
Amor deixando-o aprender
À própria custa a esmoer.
Faz parte do crescimento
A dor de cada momento.
É assim que nós aprendemos
Não na estufa que amornemos.
20 – Procuro
Que procuro, que procuras?
Certamente, não o amor:
Não o compram sinecuras
Nem a vontade o há-de impor.
Ao amor ninguém o alcança,
Corra, salte ou atropele,
Pouco importa o que se cansa:
- Quem nos alcança é sempre ele.
21 – Guerra
Em tempo de guerra o amor
Chega a não ter importância,
Tal a importância do horror:
O amor é uma irrelevância,
De tanta insignificância.
O amor, porém, é que empresta
O sentido e peso à vida.
Por isso a guerra não presta,
Tem de ser, nesta medida,
A todo o custo impedida.
22 – Choque
É dentro de nossa casa
Que o inimigo é pior.
O choque que chispa em brasa
Não é de servo e senhor,
Vai ser entre pai e filho,
Entre marido e mulher,
Entre irmãos, quando o cadilho
Que os ata se retorcer…
Quando Deus se faz presente,
Não é paz mas divisão
Que o rio arrasta em torrente
Até regar todo o chão.
23 – Fronteira
Vais a um sábio perguntar
O que é que entre noite e dia
Faz fronteira a separar:
Se estrela que não luzia,
Se linha branca de preta
Distinguir sem hesitar.
E o sábio o que te interpreta
É que és um cego sem par:
Aquilo que te separa
O dia sempre da noite
É quando olhas cara a cara
Qualquer homem que se afoite
E vês que ele é teu irmão.
Se vives num tempo novo,
É nisto que vês então
Que o velho é morto e o renovo
Inaugura um novo dia
Dum olhar nesta harmonia.
24 – Purifica
Nada purifica tanto
Como a afeição. As questões
De família enxugam pranto,
De rasas devirem tanto:
- A união eleva, emoções
A tudo emprestam encanto,
Troca a vida corações.
25 – Súbditos
De súbditos mais amado
Te vale ser que odiado.
Decerto benevolência
É mais própria, por essência,
Que orgulho, na ocasião,
Para ganhar afeição.
Aposta no bem-querer:
Comandas mais que quenquer.
26 – Juntas
Por que é que há-de ser loucura?
Se duas pessoas se amam
Nunca mais pára a procura,
Por que de vez não se acamam?
Se ao fim dum mês andam fartas
Uma já da outra então,
Se com o outro já repartas,
Mau comparsa, o jogo em vão,
Não ficais associados,
Partilhando a mesma estrada:
Cada qual, os pés pisados,
Só da dor é camarada.
27 – Erguer-se
O sentimento de irmãos,
Uma afeição arreigada
À vida, de mãos nas mãos,
Por nenhum choque abalada,
Por mil pequenas disputas
Ofendida num instante
Mas sempre a erguer-se das lutas
Mais forte e mais viva adiante,
Quando a pressão se fundiu;
Uma afeição que nenhuma
Paixão depois destruiu,
Que nem um amor resuma,
Iguale em força, constância:
Que um amor fere, cruel,
Com tais angústias, tal ânsia,
Que nossas forças impele,
Num ápice devoradas
Pelas chamas ateadas;
- Uma afeição sem tormentos
Nem fogueiras a queimar,
É consolo dos momentos,
Bálsamo a cicatrizar.
O sentimento de irmão
Brevemente sintoniza
Coração com coração
E ambos disponibiliza.
28 – Mesma
Jamais há felicidade
Onde não houver mudança.
A monotonia invade
Tudo quanto o amor alcança.
A morte e a monotonia
Farão então parceria,
Uma na outra repoisa,
- São ambas a mesma coisa.
29 – Ilusão
A vida é uma ilusão, mas não o amor.
O amor é a mais real, mais duradoira,
Mais doce e mais amarga fina-flor
Que conhecemos firme ao sol que a doira.
É poderoso como a morte,
Dele a doçura é fugidia
E o aguilhão é de tal porte
Que fica sempre em duro corte,
Cruel tortura, noite e dia.
Isto, a menos que se trate
Dum amor retribuído.
Mas romances são dislate,
A epiderme do sentido:
Mostram a superfície verdejante
E tentadora, enfim, do pantanal,
Não reflectem a face perturbante
Do fundo que ela encobre e é lamaçal.
Há casamentos felizes,
Se é recíproca a atenção
E sincera nos matizes
E se em harmonia estão
As mentes, desde as raízes.
Porém, nunca inteiramente
Um casamento é feliz,
Tal a ferida inclemente
Que nos tolheu a matriz.
30 – Mães
As mães nunca julgam, nunca,
E nunca condenam, amam.
É a missão delas que junca
De jardins tudo o que acamam.
E depois quem é que sabe
O que sofre um criminoso,
Quando isto é quanto não cabe
Da lei no laço oneroso?
Não vai ser ela que negue
Do filho morto à memoria
Um perdão total, entregue
Sem condições nem história.
É que a mãe tudo perdoa:
Aos pés da cruz que redime,
Da forca que amaldiçoa,
Adora ou bendiz, sublime.
Ao filho que o coração
Aos cães da amásia lhe leva,
Se o jovem tombar ao chão,
Logo a voz da mãe se eleva
Inquieta, terna e sem brilho:
“Magoaste-te, meu filho?”
31 – Capricho
Capricho do coração
É que a mente mais contida
Na baia das leis da vida
Sofre uma fascinação
Por aquele que escoucinha
Qualquer tirante que o prende,
Não faz caso nem se rende
À moral que mais convinha.
Chega a ser o predilecto,
Ídolo aos olhos dos pais,
Mesmo se lhes rouba o tecto
E pisa todos os mais.
32 – Nada
Sentir a inutilidade,
Nada e ninguém ser no mundo,
Terror da mortalidade,
Morrer um dia infecundo,
Sem conhecido ou amigo
À beira a quem dar a mão,
Mais dura falta de abrigo
É, pior condenação
De suportar que a vergonha
Ou pobreza que lhe aponha.
Principia aqui o inferno
Antes do que for eterno.
33 – Decisão
A decisão do doente
Em cultivar a esperança
É fundamento premente
E mais quando ela se entrança
Com a família e amigos
À volta em igual postura.
É de aderir-lhe aos abrigos,
Fugir com desenvoltura
Da atitude apreensiva
E da fatalista mais.
De alimentar é a furtiva
Melhoria com sinais
De feições esperançadas,
Pensar com discernimento,
Firmeza e coerência armadas
No íntimo cometimento.
Nosso corpo tem linguagem
De advertência que é preciso
Saber ouvir, na triagem
De decifrar-lhe o juízo.
A razão é conselheira
Se com equilíbrio usada.
O sintoma é uma bandeira
Para a muda a ser tomada
Numa atitude coerente,
Com o acto correspondente.
34 – Pensavam
Não pensavam na criança
Naquela noite os amantes.
Não pensam no que os alcança,
Só sentem o amor, impantes,
O amor que nasce tão vasto,
Tão vago, impregnando o mundo:
Quanto vêem é amor fasto,
Quanto sentem é jucundo.
E o que é difuso e sem forma
Concretiza-se, discreto.
É o jeito deles, por norma,
Que toma o perfil concreto
Dum homem e uma mulher,
Deles os próprios contornos
Que se apuram, tomam ser
Com força e ritmo, em adornos
Com o frémito do sangue
E do corpo na exigência.
O ser que aguardava, langue,
Ei-lo chamado à existência.
Eles, porém, não sabiam.
A mãe era virgem, jovem,
E nem todas propiciam
O que as mães dos deuses movem.
Nem sempre é suficiente
A primeira das visitas.
Nem sempre um pai será o ente
Em que os deuses tu concitas.
Os dois jovens não sonhavam
Com o íntimo da criança,
Nebulosa onde adensavam
Pontos fixos, dança a dança.
Não tinham, pois, consciência
Daquele ente que esperava
E que viria à existência
Por entre o amor que se dava.
Um do outro só noção
E das trémulas mãos dadas
Tinham e do corpo, chão
De sementes germinadas,
Que lhes palpita em fervor,
Até que a revelação
Consume de vez do amor
Num filho em carne e oração.
35 – Quererás
A inteira compreensão
Quererás entre dois entes,
Definitiva fusão
Tal que um só são, entrementes.
A verdade é que são dois
E que, quanto mais se amarem,
Menos se entendem depois,
Por menos se harmonizarem
Um com o outro nas pegadas.
Do amado a mera presença
Faz pulsar desordenadas
No coração, tal doença,
As batidas que ele der.
Quando o ritmo assim se altera
Como alterado há-de ser
Tudo o mais que a par vivera!
Como é que a felicidade
Por trás disto nos invade?
36 – Recordações
Quando um homem já viveu
Tem sempre algo então consigo:
Tem recordações de seu.
E quem recorda, ao abrigo
Estará da solidão:
Só não vive em seu pascigo,
Reparte-se em comunhão.
37 – Mérito
Homem que ama e renuncia
À ventura dum amor
Cedendo-o a quem mais teria
Direito ao seu esplendor
Do mérito se socorre
Dum homem que mártir morre.
38 – Correr
Quero correr atrás do sonho,
Quero que creias no que diz
Teu coração a que me aponho,
Quero que vivas de raiz
Só pelo amor. E quando pronto
Já te encontrares, vem comigo
Ter, que te espero. Ao cume aponto
E tenho o céu por meu abrigo.
39 – Sofre
Do homem sofre o coração
Quando chove, ao vendaval…
Não devo contudo, não,
Por isto querer-lhe mal:
É que de nós não depende
Para onde o sentir pende.
40 – Soubera
Se soubera o que dirão
A pedra, as flores, a chuva!
Acaso chamam em vão,
Ninguém ouve a dor viúva.
Quando é que nossos ouvidos,
De nós todos, se abrirão?
Quando é que olhos refundidos
Hão-de ver na escuridão?
Quando é que abriremos braços
A nos abraçar a todos,
Pedra, flor, chuva e mormaços,
Dos povos todos os modos?
41 – Caído
Eu terei caído tanto
Que, se houvera de escolher
Entre por uma mulher
Apaixonar-me entretanto
E antes um bom livro ler
Sobre o amor jamais vivido,
Teria o livro escolhido
Por melhor me parecer.
Assim é que o mundo em vão
Vive de alucinação,
Enquanto ao lado o regato
Da vida se esvai pacato.
42 – Aldeões
Os aldeões correm aos lares,
Alegres, esfomeados,
Para as ceias e manjares
E para sentir traslados,
No mais fundo das barrigas,
Do que for a Encarnação,
O mistério doutras migas
Que os ventres revelarão.
É nesta sólida base
Que pão, vinho, em camafeus
Mudarão do que ali case:
- Só deles se cria Deus.
43 – Alegria
Cuidada, abundante ceia,
Braseiro aceso à lareira,
Corpo onde o adorno se alteia,
Embandeirado, e que cheira
A flores de laranjeira
- Tudo pequenos prazeres
Corporais e bem humanos.
Que rápido vês tais teres
Das almas salvas de enganos
Volverem festa sem danos!
Não há mesmo outra mestria
Do que fundar a alegria.
44 – Sepulcro
Dum homem o coração
Sepulcro é de sangue cheio.
Nas beiras se deitarão
Os mortos de meu enleio,
De barriga para o chão,
A beber sangue a estuar
Para se reanimar.
E quão mais queridos são,
Mais sangue nos beberão.
Por isso é que a desligar-nos
Temos todos de aprender,
Para amá-los como amar-nos
Sem gavinhas nos prender,
Manter do amor a envolvência
Sem nenhuma dependência.
45 – Príncipe
Um príncipe, muitas vezes,
Não torna a mulher feliz
Como os pelintras soezes
Que se entregam de raiz.
É que os príncipes do mundo,
No momento em que beijavam,
Cuidavam como jucundo
Pôr o reino em que mandavam.
O pelintra esquece tudo
E não há maior prazer,
Contando pelo miúdo,
De que goze uma mulher.
A mulher que é verdadeira
Goza mais com o prazer
Que der que do que se abeira
Dum homem de receber.
46 – Fim
No fim, ficamos a sós,
Do amor fora da influência.
Há um eu impessoal em nós,
Ultrapassa amor, vigência
De emotivas ligações.
Mas a ilusão preferimos
De que do amor os tendões
São a raiz donde vimos.
Não é raiz, são os ramos.
A raiz mergulha além,
Do isolamento em tais tramos
Que não encontra ninguém
Com quem vá se misturar,
Sempre incapaz de o fazer.
Na pessoa singular
Há um além, sempre, em quenquer,
Mais distante que o amor
E fora de nosso alcance
Como há estrelas em redor,
Da vista além que lhes lance.
47 – Morre
Quem morre e antes de morrer
Apto for a crer e amar
Vivo irá permanecer,
De existir não vai findar:
Nos entes amados dura
Como em si de forma pura.
48 – Fonte
É o amor fonte perene
De alegria e sofrimento,
Ânsia que eu apenas drene
Na própria dor que alimento.
Se êxtase for de prazer,
Dá vida e transmuda tudo
Que sob o céu florescer,
De adoração teste mudo,
E o mundo devém pequeno
Para tão grande ventura.
Se em angústia, porém, pleno,
Rasga em peito amante dura,
Voluptuosa ferida
Que depois há-de querer,
Com beijos, após sofrida,
Cicatrizar a correr.
É nesta contradição
Que baloiça o coração.
E não há nunca saída
À contradição vivida.
49 – Infelicidade
A infelicidade é bem mais fácil
Que a felicidade de exprimir.
Na miséria vemos, não é grácil
A vida em que temos de existir:
Esta minha dor é individual
E o nervo que crispo, por igual…
A felicidade me aniquila,
Perco, de repente, a identidade:
Em termos de amor se nos perfila,
Dos cantos na voz, a divindade;
E findo a usar termos de oração
Dum amor ao dar explicação.
Também submetemos a memória,
Como o imaginário ou o intelecto,
Privação sofremos, noite inglória,
No amor como em místico projecto.
E, por recompensa, isto nos traz
Por igual, às vezes, certa paz.
Tem do amor a cópula descrita
Sido tal pequena morte enfim
E também o amante às vezes dita
Viverá feliz e, no confim,
Minúscula paz experimenta,
- Dilui no Infinito quanto inventa.
50 – Impotente
O amor é impotente em muitos casos,
O amor nele mesmo não produz
Tangíveis benesses, bródios rasos.
Por isto difícil se traduz
Encontrar o amor de Deus oculto
Sob realidades materiais
Onde sempre andou, alheio ao culto,
O que sugerir parece mais
Que Deus não existe, ou que não fala,
Ou que vive irado e então se cala.
Tal no amor humano a ambiguidade
Dos frutos do amor que nos invade:
Ou exalte ou queime tudo a esmo,
O amor se bastou sempre a si mesmo.
51 – Companhia
Todo o homem vive o anseio
De companhia durável,
Solidária, num enleio,
Que lhe partilhe, amorável,
Todo o fatal sofrimento,
Que com ele chore, tal
Como a mãe chora o tormento
Que um filho suporte mal.
Deus não pode responder
À imagem dum pai severo,
Antes deve parecer
Esta mãe a quem dói, fero,
O sofrimento dos filhos,
Que os acompanha chorando.
Quem O testemunha, atilhos
Ao infortunado atando,
Por ele ora e a dor lhe sofre.
Então bem-aventurado
É quem chora: tem em cofre
Tesoiros de quem é amado.
52 – Morrer
Morrer pelos que nos amam
É fácil, depois de tudo.
Mas que feridas se acamam,
Como dilacera, agudo,
Oferecermos a vida
Por quem não nos corresponde,
Não entende a oferta havida.
É fácil morrermos onde
Formos heróis gloriosos,
Mas difícil sumamente
Para a morte em pedregosos
Leitos ir duma corrente
De incompreensão, de insulto,
De escárnio sem fundamento.
Jesus sabia que inulto
Viveria tal tormento,
Que a morte o arrasava ao chão
Mais abjecta que a dum cão.
Tanto mais o cume brilha,
Do amor suma maravilha.
53 – Período
O amor pode despertar
Num período mui breve.
Mas, para se aprofundar
Requer tempo longo e leve
Até vir-se a transformar
Num sentimento durável,
Forte e de vez confiável.
Um amor é, sobretudo,
Entrega, dedicação,
Mais um certo conteúdo,
A certeza que terão
Os amantes de que tudo