SEGUNDO TROVÁRIO
DESEMBOCA NA UTOPIA, EM TODO O SONHO
Escolha ao acaso um número entre 125 e 240, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
125 - Desemboca na Utopia, em todo o sonho
Desemboca na Utopia, em todo o sonho,
Este verso regular, de passo certo,
Com a rima em que disponho
Do atractivo onde ponho
Qualquer lonjura aqui perto.
Porém, sempre a lonjura
Fica fora de alcance
Por mais que me lance
À procura.
Vislumbro-lhe a cor
E o sentido,
É quanto basta da vida ao calor
A esperança, porém, hei perseguido
De a meta de vez não ter perdido.
126 – Muda
Mudar deverei tentar
Qualquer alma de quenquer
Se um povo quero mudar.
E tenho de procurar
Mudar a comunidade
Qualquer muda para haver
Numa personalidade.
É o círculo a refazer
Que ao porvir nos persuade.
127 – Desnutrido
Era o maior magricela,
Com uns braços de palito,
Descalço, nariz à vela,
Desnutrido, a fome é um grito.
Dele o pedido de esmola
Era mais uma exigência.
Quando lha pus na sacola,
Estranhei dele a premência:
Foi logo a correr jogá-la
No “conquistador do espaço”!
Puxa alavancas, embala,
Fura um corredor escasso
À nave, entre meteoritos,
Esquiva-se ao inimigo,
Aos mísseis, por entre gritos,
Escapa a qualquer perigo,
As frotas espaciais
São de vez aniquiladas,
Bem como as bases astrais,
Por mão dele estilhaçadas,
E o super-herói do mal
Ali fica derrotado
Em pirotecnia tal
Que o jogo nem é notado.
O miúdo já não é
Nenhum pedinte descalço,
Por momentos pôs de pé
O grande herói que aos céus alço,
Atinge e conquista estrelas,
É um guerreiro espacial
Com galácticas sequelas,
Um Senhor universal…
- E eu para aqui à espera
De o petiz desperdiçar
Dinheiro em comida mera
Quando o infindo é o seu lugar!
128 – Vulneráveis
Os que forem investidos
Com os mais altos poderes
Vulneráveis são mantidos
Tal quenquer doutros misteres,
Sujeitos à inconsistência,
Das convicções à mudança.
A grandeza é prevalência
Da convicção que se alcança
Mas também, em igualdade,
É de elevar-se além dela
Manter a capacidade,
- É poder devir estrela.
129 – Baseado
Quando um homem vai atrás
Do que feliz o tornar,
No que o coração lhe traz
Baseado então actuar
E na própria identidade,
Devém ali tão fecundo
Que parece de verdade
Vir revigorar o mundo.
130 – Estima
Não podemos tolerar
Que nos vão apreciar
Por aquilo que não somos.
Preferível é o desprezo
A uma estima sem o peso
Do que forem nossos pomos.
Que gozo dá, na verdade,
Um gozo que é falsidade?
131 – Sublime
No dia em que nós nascemos
Começamos a morrer.
Como alcançar poderemos
O sublime enquanto houver
Em nós este antro da besta,
A morte que a frecha assesta?
Ou em nós algo de eterno
De nós nos visa o superno?
Sempre o amor, com o erotismo
Promete saltar o abismo.
Será mesmo que o consegue
Ou é uma ilusão que adregue?
No fim, apenas a fé
Aposta naquilo que é.
132 – Sonho
Todo o sonho é realidade,
Somos os sonhos do Autor,
Reais dele por vontade.
Os nossos sonhos supor
Hão-de, para ser reais,
Em nós tais vontades, tais
Que a ascender nós nos sentimos
Elevando-nos aos cimos.
133 – Lutar
Nada é mais libertador
Que lutar por uma causa
Do que nós próprios maior,
Que nos envolva sem pausa,
Porém que determinada
Não seja nunca, na essência
Da transcendente jornada,
Por nossa vil existência.
Que seja sempre este Além
Do sonho que me convém.
134 – Instruir
A planura luxuriante
É para nos relaxar,
O titânico arvoredo
Da floresta murmurante
É para nos instruir:
Contra o medo, contra o medo,
Aprender a olhar, a olhar…
E a verdade perseguir
É para nos elevar
E pôr de vez, a seguir,
A voar, voar, voar…
135 – Realiza-te
“Se te queres realizar,
Realiza-te então em Mim”
- Diz-nos Deus em confidência.
Mas como assim, como assim?
“Faz por mim, em meu lugar,
Faz tudo, tudo, por Mim.
És minha luminescência,
Todo o teu trabalho faz,
Consultas, aulas, palestras,
Projectos, escritos, vendas,
Barro humilde ou traves mestras,
Tudo de que és tu capaz,
Tudo o que na vida orquestras,
Faz por Mim, em minhas sendas.”
- Então é que por meu grito
Vou dando à luz o Infinito.
136 – Incarnar-se
Eu não morro, sou eterno
Como tu, como os demais
Que em redor são do superno
A incarnação dos sinais.
Por isso vais ao deserto,
À viagem dos contrários,
Teu lado oposto desperto
Contigo a juntar fadários.
Quando ao Todo te inicias
E o Infindo te comanda
Multiplicas energias,
A plenitude em ti anda.
137 – Gastar
As pessoas são capazes
De gastar muito dinheiro
Que às vezes nem sequer têm
Para comprarem cabazes
Do que é nada por inteiro,
Cuja realidade retém
Só o que têm nas cabeças:
- O sonho no qual tropeças!
138 – Cheirinho
Aqueles a quem a vida
Tudo dá terão mais sorte
Que aqueles que, de seguida,
Hão-de dar, até à morte,
Tudo a uma vida madrasta?
Uma vida realizada
Não é nunca uma que encastra
Estritamente a fiada
De projectos que se tem:
Pode ser uma colagem
Gloriosa do que advém,
Surpreso, à mão, na viagem.
E como é maravilhoso
Não sabermos desde já
O cheirinho saboroso
Do que amanhã nos trará!
139 – Medir
Quase não será viver
Medir o tempo, medir.
As horas passam, a encher
Dum modo ou doutro, a fluir,
Mas não vivo, mas não vivo:
Suporto a existência vaga,
Não a gozo, a tudo esquivo,
É um deserto a minha plaga.
- Só vivo quando o porvir
De afecto encho a usufruir.
140 – Passo
Passo a vida a comparar:
Presente com o passado,
Sonho com realidade,
O desejo que eu visar
Com os desígnios do fado.
Porém, disto o que me agrade
No resultado final
Nem sempre é consolador:
É que as rédeas do real
São curtas ao se me impor
E a fantasia que fito
Estende-se ao infinito.
141 – Exprime
O amor pela humanidade
Vive preso do futuro.
De arte o amor, em igualdade,
É porvir que eu inauguro.
Sempre arte será esperança,
Não que esta nela só poise,
Mas que inteira ali se alcança
Nas obras onde repoise.
Arte é norma, pela imagem,
Da humanidade ultimada
Felizmente: ainda em viagem,
Vislumbro-a já consumada.
142 – Dormem
Em quantas casas tristonhas,
Portas, janelas cerradas,
Dormem vidas enfadonhas!
Amanhã, às alvoradas,
Quando a estrela matutina
Se apagar de vez no céu,
Retomam, a cada esquina,
A vida em todo o escarcéu.
E nunca compreenderão
Do mundo a beleza, nunca,
Esta profunda emoção
Que aquela distracção trunca
Mas que existir vai poder
Em cada simples minuto.
Só os mortos o vão saber,
Olham do campo o produto
E têm pena de nós.
Santos e poetas também
Sabem daquilo algo após,
Mas não logram ir além.
E o reino dos santos não
É deste mundo jamais
E os poetas sempre são
Homens vagos e fatais,
Tímidos que falam baixo,
Que evitam a turbamulta.
- E assim é que nunca encaixo
A luz que se desoculta.
143 – Aplicação
A verdade apenas é buscada
Tendo em vista a aplicação geral.
Cada homem que quiser, de entrada,
Pressentir a humanidade tal
Como um todo que ela é sempre, logo
Por traidor de sua classe estreita
É tratado e condenado ao fogo.
O valor não negará que espreita
No recanto a que se achar ligado,
Mas procura ir além dele, ao todo,
Quase cósmico é o pendor visado,
Comunhão de ilimitado modo.
Cada eu é vizinhança aqui,
Através de que devemos ir
Cada vez mais englobando em si
Todo o ser, até o total gerir.
Significa, a melhorar o curso
Dos eventos, que é de luta o rumo,
Nunca irá, no que acontece incurso,
Ser moldado como ao vento o fumo.
144 – Ficção
De ler ficção a vontade
É um desejo de viver,
De ampliar a estreita herdade
Que em sorte coube a quenquer,
Participar doutras vidas,
Viajar noutros lugares.
Não são fugas doloridas
De asfixias e pesares.
Nas histórias há o convívio
Com outrem de iguais problemas:
Se os resolverem, que alívio
E que rumo nos meus lemas!
Se os não resolvem, ao menos
Resta-me, ao vê-los, consolo
Que os meus torna mais pequenos
Por partilhar o meu bolo.
A leitura satisfaz
Fome íntima de romance,
Ânsia da viagem que apraz,
De audácias que nem se alcance.
É um desejo de aventura
Como o gosto de assistir
À anedota que se apura
No gozo de divertir.
A vontade de ficção
É pôr asas e voar
Para além deste meu chão
Rumo a um sonho onde habitar.
145 – Uso
Qualquer uso da palavra
Tem para nós importância.
É charrua que nos lavra,
Motor de forte impedância,
Cria em nós o movimento,
O processo evolutivo,
É energia, força ao vento,
Como um combustível vivo,
Ignição das atitudes,
Base da física força.
A virtude das virtudes
Sempre a uma palavra orça.
146 – Simplificar
Cada ser humano pode
Simplificar sempre a vida,
Se a motivar-se ele acode,
Até de vez conseguida
Ter a própria autonomia
No êxito que sonharia.
Este hábito hereditário
De achar que o dia em geral
É difícil, salafrário,
Complicado ou infernal,
Incómodo, trabalhoso,
Insolúvel, perigoso,
E mais jeitos aflitivos
Que acentuam a visão
De pendores negativos,
Faz logo brotar do chão
E como tal ser vividas
Tais vertentes denegridas.
Reconhecer, todavia,
Quanto este funcionamento
Desesperou da magia,
Constrangeu, foi um tormento,
Vai ser entrar na aventura
Da palavra que nos cura:
Da palavra motivada
Nasce uma nova alvorada
Onde a luz que nos fugia
Da palavra bebe o dia.
147 – Degrau
A vida vale demais
E tudo o mais representa
Um degrau nos siderais
Caminhos que o sonho inventa.
A família, o casamento,
Olhados em perspectiva,
Mais não são que este elemento
Da vida a tentar ser viva.
A perspectiva, porém,
Perdemo-la facilmente,
A eternidade intervém
Dos momentos na corrente.
Nos belos dias de sol
Como nos custa cuidar
Que há-de chegar o arrebol
Da invernia a negrejar!
Na escola como na empresa,
Uma vez de hábitos feitas,
Ninguém admite nem preza
Que de vez serão desfeitas.
E então, quando a paixão vem,
Prendê-la da eternidade
Parece o que mais convém,
Sem mais trânsito à verdade.
E, quando o amor acabou,
Feito o sonho em desespero,
Infindável se pintou,
Dentro em mim, um erro mero.
E, todavia, nenhuma,
Destas tais eternidades
Perdurou ao fim, em suma,
Todas elas vacuidades.
Todas desapareceram,
Apenas eu resto intacto
Para os degraus que me geram
No Todo que gero em acto.
148 – Mártir
É mártir o iniciador,
O que jamais é razão
De desistir da missão
Que tiver de se propor.
Viver para um ideal
É aquilo que vale a pena
E morrer por ele acena
De ser homem o fanal.
Então baseia a esperança
Num porvir que lento avança.
A cidade eterna aclama
Dele o nome por quem chama.
149 – Nuvens
Porvir é nuvem batida
Por mil nuvens violentas,
Amor, ódio, sina de ida,
Fantasia, o Deus que atentas…
Maior profeta há-de ser
Palavra de ordem quem der
Mais imprecisa, esfumada,
Do sonho convite à entrada.
150 – Felicidade
Felicidade deveras
É não ter mesmo ambição
E trabalhar com as veras
Dum mouro a ganhar o pão,
Como se, afinal, tivera
Toda a ambição duma era.
Longe é dos homens viver
E sem deles precisar
Mas amar todo e qualquer,
Tal se o mundo fora um lar,
Como se, ao fim, me prendera
A todos como uma hera.
Estar no Natal e após
Ter bebido e bem comido,
Fugir para longe a sós,
Dos laços todos sumido:
Por cima de nós, estrelas,
Aos lados, dunas e velas.
Ver que em nosso coração
A vida realizou
A derradeira função,
O milagre de meu voo:
A vida, em quaisquer estradas,
Tornou-se um conto de fadas.
151 – Arte
Arte é encantamento mágico.
Forças homicidas, cruas,
Se aceitam no ventre trágico
De nossas entranhas nuas,
Funestas pulsões de odiar,
De matar, de destruir,
De humilhar, de desonrar…
Em seu jeito de fluir,
Com a flauta pastoril,
Brota de arte então a aberta:
Logo um novo céu de anil
Desabrocha e nos liberta.
152 – Efémera
Em nossa efémera vida
Deveras há eternidade.
Descobri-la, definida,
É que custa, em soledade.
São as freimas de cotio
Que nos desviam a vista.
Só um escol, em desafio
Trepa ao cume que resista.
O mais é o vulgo ignorante.
Deus deu-lhe a religião
Para poder ir avante
Com algo de eterno à mão.
153 – Muda
A cada instante muda Deus de face.
Feliz aquele que pudera vê-lo
Sob cada máscara com que Ele passe.
Ora é um copo de água fresca,
Ora um filho que o cabelo
Vos prende, em rocambolesca
Aventura nos joelhos,
Uma mulher feiticeira,
Ou meros hábitos velhos,
Como andar do mar à beira…
Pouco a pouco, à minha volta,
Sem nada mudar de forma,
A vida é de sonho envolta,
Terra e céu são um por norma.
154 – Somos
Somos todos mentirosos,
A nós próprios nos mentimos,
O que nos torna animosos.
Temos o ideal dos cimos,
Mundo perfeito, correcto,
Eficaz, limpo dos limos.
Mas depois o que detecto
É que cobrimos o mundo
De lixos até ao tecto.
Só de fadigas me inundo,
Somos vermes de estrumeira
Chafurdando em charco fundo,
Para ter uma lareira,
Um piano em ampla sala,
Um mordomo, um carro à beira,
Uma casa que regala…
E cá vamos divertidos,
A arrastar a nossa mala
A mundos desconhecidos.
E o pé que daqui se abala
Húmus pisa apodrecidos.
155 – Carne
Carne exteriorização
É do espírito somente,
A integral transmutação
Pode ser perfeitamente
Do corpo físico a via.
A não ser que o não queiramos,
Que ao ritmo do dia-a-dia
Escravos nos submetamos,
Que nos imobilizemos,
Estáticos, deslocados
Da vida que aqui vivemos,
Da vontade separados.
Antes morrer que aguentar
Uma vida maquinal
Que apenas seja o lugar
De repetir-me, fatal.
Morrer é com o invisível
Marchar e com alegria
Acolher o incognoscível,
Ter no ignoto parceria.
É uma festa desde então.
Mas automaticamente
Viver como escravo à mão,
Do ignoto sem a semente,
É uma ignomínia e vergonha.
Na morte jamais há disto,
Mecanizada peçonha,
É vida em que não existo.
Fica além de qualquer traço
Da sujeira que não quites
A morte como um espaço
Duma vida sem limites.
156 – Criança
É uma filha do mistério
A criança que nasceu
Ou não foi gerada a sério.
Ignota desceu do céu:
Não vem dum antepassado,
É o desconhecido nado.
157 – Meio
Viver num meio diverso!
Todavia, um mundo novo
Do velho é sempre o reverso,
A desenvolver-se do ovo.
Isolar-se aí então
Não era encontrar aquele
Mas criar uma ilusão,
Mesmo se outrem uno à pele.
E não há uma alternativa,
Seja lá o que for que eu viva.
158 – Penetrar
Cada qual tem um destino,
O que importa é descobri-lo.
Como as palavras: ter tino
É penetrar no sigilo,
Mergulhar até ao fundo.
Um homem fia e desfia,
O diabo tece o mundo,
Até que alguém desconfia…
De repente, aquele nada
E eis que se me abre uma estrada.
159 – Sagrado
Se não há nada sagrado para alguém,
Tudo então logo de novo ali devém
Bem sagrado num sentido mais humano:
A centelha se venera, sem engano,
Que pulsar até na vida da minhoca
E que a obriga alguma vez a vir da toca.
Do maior ao mais pequeno tudo é santo
E fulgura o rosto em tudo dum encanto.
160 – Passa
Nada passa, tudo deixa,
Vestígio dele ao passar.
De meus passos a madeixa,
Por mais que insignificar,
Tem sentidos que inauguro
Desde aqui rumo ao futuro.
161 – Aprender
São a vida ultrapassagens:
Aprender a ser criança
É a primeira das viagens;
E ser jovem quem alcança
Sem novas aprendizagens?
Ser adulto após requer
Ter muito mais que aprender.
Então é viver conselhos,
Aprendemos a ser velhos.
E teremos muita sorte
Se aprendermos bem a morte.
É sempre este salto além
Aquilo que nos convém.
162 – Caminhemos
Voltar atrás ninguém pode,
Caminhemos, pois, em frente.
Não ao sonho: não acode
Nunca ao colo do presente.
Sim ao acto que lhe rume,
Que nisto a vida se assume.
163 – Débil
Nada é tão desesperado
Que algum modo de esperança
Não haja de ter ficado
Que, embora débil, alcança
(Com a vontade e o desejo
Do que o vai levar a cabo)
Saída ao primeiro ensejo,
Parecer que ao fim lhe gabo
Viável quão desejável:
- E a porta se abre, moldável.
164 – Imagino
O que imagino dum bem
Sempre o mesmo bem excede
E então o perco também
Se o alcanço no que mede.
A fortuna, conquistá-la
Não é tanto possuí-la
Como antes é desejá-la
No longe que se perfila.
165 – Ídolos
Os objectos que entretêm
A nossa vaidade e estima
São como ídolos também:
Veneram-se em dado clima
E fora daquele império
Dão lugar ao vitupério,
Em lugar de adoração:
Mármore que aqui daria
De imagem de santo o dom,
Além é lastro de via…
Todos na vaidade a par,
Cada objecto é o que eu sonhar.
166 – Realidade
A realidade é o real,
Mas da extinção gradual
Dos sonhos à morte lenta
Vai só um passo que nos tenta.
O que importa é reagir
E abrir a porta ao porvir.
167 – Procuro
Não voltarei a partir.
Procuro dentro de mim,
Na lembrança a me imiscuir,
A navegar na saudade
Para além de meu confim:
Dentro é que sou de verdade
E serei até ao fim
Sei lá bem que realidade!
168 – Convés
Do convés olho as estrelas
E vejo-me, aos olhos delas,
Uma gota em vasto mar,
E acabo por me assombrar:
Como um minúsculo ponto
De tanto sonho tem conto;
De pensar contraditório
É fiel repositório,
De tantos ódios e amores,
Lágrimas, risos, temores;
Tem coragem e tem medo,
Certeza, dúvida e credo…
- Que tantos mundos se somem
No que faz de mim um homem!
Sou milagre caminheiro,
Num nada o Cosmos inteiro.
169 – Voar
Voar é mau quando nos dá
Uma perspectiva errada
De eventos e gentes que há,
Levando a vista apontada
Às coisas limpas do céu
E não à podre levada
De dejectos com que encheu
A crosta da terra a vida.
Assim é que Deus morreu:
De tão remota a medida
Tirar ao mundo, perdeu
A noção que lhe é devida.
Doravante um Deus de seu
Busca o mundo, sem ferida
Do que um lado só sorveu.
170 – Inventa-os
O homem sem mitos
Não pode viver.
Inventa-os benditos
Para depois ser
Deles sempre escravo
Venerador bravo.
E a contradição,
Sendo insuperável,
É que o mantém são.
É injustificável,
Por irracional.
- Mas é o ideal!
171 – Tendência
É minha tendência erguer
Todo um muro à minha volta,
Tudo, tudo a proteger
Que criei e largo à solta
E com que me sinto bem,
Onde sou eu, mais ninguém
Mas tenho de continuar
A deitar abaixo o muro.
Tenho de me comandar:
“Vamos largar o seguro
Por sítios que não conheço,
Por onde acaso tropeço!”
Esperamos ser capazes,
Se o somos sempre, não sei.
Tentamos, porém, tenazes,
É a postura que faz lei.
E assim é que prosseguimos
Rumo sempre a outros cimos.
172 – Emigração
A emigração é um motor
Da marcha da humanidade.
É uma sorte haver um ror
De gente que se persuade
A ser ponte cultural
Entre povos, continentes…
O futuro mundial
É a mistura das sementes.
De nova síntese a leira
É sempre nova fronteira.
Logo que ela é conseguida
Novo é o mundo, nova, a vida.
173 – Noutra
Noutra espécie não seria
Incentivo denodado,
Mas eu vivo atormentado
Pela apetência sem dia
Pelo remoto e trancado.
Ah, como eu adoraria
Navegar no mar vedado,
Desembarcar na magia
Das terras do outro lado,
Em meio à selvajaria,
Como um facho levantado!
174 – Fé
A fé, tal como um chacal,
Dos túmulos se alimenta
Mas colhe o melhor fanal
Da esperança do que tenta,
Não dum acaso da sorte,
Mas da incerteza da morte.
Abrindo uma porta Além
Dá rumo à vida que tem.
175 – Dificuldade
Para a Deus obedecer
Quantas vezes nós teremos
De a nós desobedecer!
Na desobediência a haver
A dificuldade vemos
A Deus em obedecer.
Isto de trepar aos céus,
Só rasgando os braços meus!
176 – Engalana
Por detrás de cada pena
Há uma festa garantida
E quão mais aquela é plena
Mais esta engalana a vida,
Quão maior é o mastro grande
Mais profunda rompe a quilha.
A alegria é quem comande
Quem se impõe tudo o que brilha,
Inabalável, oposto
Dos falsos deuses ao rosto.
A felicidade é a festa
Vislumbrada além da fresta.
177 – Perigosa
A perigosa viagem,
Mal finda, vem outra logo
E outra se atrela à engrenagem,
Cadeia sem desafogo.
É no que consiste, é nisto,
Em desfraldar sempre o pano,
Nosso imenso esforço humano:
- É nisto que, enfim, consisto.
178 – Menciona
O que é mais maravilhoso
É o que se menciona menos.
Memória a que mais me entroso
Epitáfio nos terrenos
Jamais terá: não são plenos
Os sinais do que der gozo.
O destino do inefável
É no imo só detectável.
179 – Máscaras
Máscaras de papelão
São os objectos visíveis.
É que em cada ocasião,
Por trás dos factos sensíveis,
Algo há de desconhecido
Mas pejado de razão
Que mostra cara e sentido,
Tudo o que tem escondido
Da máscara atrás do vão.
Se é preciso desvelar,
Desvele-se o que haja além
Do que a máscara ocultar.
Pois como é que o prisioneiro
O exterior que o tem refém
Vai conseguir alcançar
Sem o derrube primeiro
Do muro que o apertar?
Quem isto não quiser ver
Será o prisioneiro eterno
Do lado de cá do ser,
De vez perde o ser superno.
180 – Mineiro
O mineiro subterrâneo
Que em nós cava, taco a taco,
Como é que aqui, coetâneo,
Vai poder adivinhar
Onde é que acaba o buraco,
Em que tempo, em que lugar,
Se muda constantemente
De direcção, de sentido,
E se ele escava de ouvido
Com picareta silente,
Sem que nunca seu ruído
Ouça um ouvido de gente?
Quem se não sente atraído,
Quem não sente, quem não sente,
Pela força incontrolável
Que há num sonho inadiável?
Canoa que é rebocada
Como se pode manter
À beira dum cais qualquer
De vez imóvel, parada?
181 – Sintas
Não te sintas infeliz
Só porque alguns de teus sonhos
Não se realizam, viris.
Apenas os que, tristonhos,
Nunca sonharam, matizes
Reais terão de infelizes.
182 – Cultura
Uma cultura de massa
É uma cultura da imagem
Para a qual a linguagem
É um subtítulo que passa.
É a cultura que receia
O silêncio, a solidão,
Aquilo para que ameia
O abismo negro do chão.
Ninguém desvenda os efeitos
Da destruição geral
Disto que era, radical,
Lavrar dos campos os leitos.
183 – Infindo
Nem mesmo Deus poderia
Criar aqui, contingente,
A instituição que abrangia
O infindo infinitamente.
Nossos esquemas estreitos
Não poderiam conter,
A pobre invólucro afeitos,