TERCEIRO TROVÁRIO
NORMATIVO LOGO APÓS SE HÁ-DE TORNAR
Escolha ao acaso um número entre 241 e 380, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
241 – Normativo logo após se há-de tornar
Normativo logo após se há-de tornar
O poema regular, se de alheado
Não se pretende apodar
Ante a vida que o crismar
Sagrado.
São regras de bem viver,
De bem conviver, de estar,
As atitudes a ter
Como um íman a inspirar.
Mapa traçado dos dias
Com o roteiro lá inscrito
Das ilhas das especiarias
Que ancestralmente concito
Na trilha que rumar ao Infinito.
242 – Estacionamento
Se em noite de temporal
Vais a conduzir sozinho
E cruzas, ocasional,
O estacionamento vizinho
Dos transportes colectivos
Onde três pessoas vês:
A despedir-se dos vivos
Uma anciã sem mercês;
De longa data um amigo
Que outrora salvou-te a vida;
E a pessoa a cujo abrigo
O amor ideal te convida,
- Se um só podes abrigar
A quem é que abrigarias?
A velhota a se finar,
O amigo de comuns vias?
Podes não mais encontrar
A criatura de sonho…
O melhor, neste lugar,
É se tudo assim disponho:
Ao amigo empresto o carro
Que a anciã põe no hospital,
E eu aguardo o autocarro
De amor com o ente ideal.
243 – Repetir
Como é sempre caminhando
Que o caminho se revela
Por dentro ou por fora, é quando
Solto ao vento minha vela,
Se repetir o bastante
O meu gesto motivado
Por atitude fundante,
Por princípio radicado,
É quando a me transformar
Acabo então por me ver,
Bem além do que sonhar,
Pelo que a sério fizer.
244 – Orgulho
De orgulho o pior defeito
É impedir de aperfeiçoar
Quem se lhe moldar ao jeito.
“Já sei tudo!” – vai pensar
E nunca aprende mais nada.
O pior para quenquer,
Da vida em toda a jornada,
É de orgulho entorpecer.
Por mais ruas que haja em branco,
Sempre as vai arrastar manco.
245 – Eleve
Tudo tem o seu limite
E, se queremos ser ricos,
Talvez qualquer bom palpite
Eleve o dinheiro aos picos,
Mas, mais dia menos dia,
A conjuntura impedir
Há-de qualquer demasia
E a frustração há-de vir.
Ora, em vez de suportar
A fronteira do exterior,
Mais nos vale a nós fixar
A que se ali tem de impor.
Deveremos reduzir
Nossos desejos prementes
E aprender, para o porvir,
A ficar de vez contentes.
246 – Causas
Quanto mais fizer sofrer
Mais as causas acumulo
De a mim próprio me doer.
Como a sociedade anulo,
Prejudicando-a destarte,
A mim próprio duplamente
Prejudico e ponho aparte
A sofrer infindamente.
247 – Perdermos
Se perdermos os instantes
Desta vida a fazer mal,
De nada agora nem antes
Serviu a vida, afinal.
Toda a gente tem direito,
Direito à felicidade,
Nunca, porém, de tal jeito
Que a doutrem com tal degrade.
Em caso algum duma vida
A finalidade pode
Ser noutra causar ferida,
Seja quem for quem acode.
248 – Ajudar
Outrem ajudar, ser bom
E moderar os desejos,
Satisfazer-se do dom
Que haja em todos os ensejos
Não é da religião,
Meio de agradar a Deus,
Vida eterna ter à mão,
- É de crentes e de ateus.
Quem quer paz interior
Há-de tais virtudes tê-las,
Não pode outro agir propor,
Não pode viver sem elas.
249 – Tendência
A tendência integrativa
Em nós é tão requerida
Quanto a auto-afirmativa,
Para a relação vivida
Com os outros e o ambiente
Ser de harmonia semente.
Auto-afirmação demais
É poder, dominação,
É controlo sobre os mais
Pela força que haja à mão.
Hoje é o padrão que domina
Nos povos que assim destina.
O político-económico
É da classe dominante
O poder trágico-cómico
De descriminar, impante,
Por orientações racistas,
Locais, regionais, sexistas…
A violação deveio
A metáfora fulcral
Duma cultura ante o meio:
Viola a mulher, por igual,
Quem pode (e é minoritário)
E da terra o santuário.
Ciência e tecnologia
Têm a crença secular
De que a terra só veria
Quem a terra dominar.
E o modelo mecanista
Só me exacerbou tal pista.
Hoje a técnica é malsã
E linearmente inumana,
Troca a natureza chã
E a complexidade humana
Por qualquer pré-fabricado
Ambiente simplificado.
A meta dela é o controle,
Produção massificada,
Padronização do rol
E gestão centralizada,
Na ilusão de dar recado
Dum crescer ilimitado.
A tendência afirmativa
Continua assim crescendo,
À submissão não há esquiva,
Que não completa, bem vendo,
Qualquer auto-afirmação,
Antes dela é a reversão.
A atitude afirmativa
É dos homens o ideal.
Que a mulher submissa viva
Mas também o pessoal,
O empregado, o executivo,
Cujo eu ficará no arquivo:
Neguem sua identidade
Individual e adoptem
Padrões em conformidade
Com o grupo em que se cotem.
Mesmo em campo educativo
Só vale o competitivo,
Mas também com restrições,
Já que é desencorajado
Ter ideias, são senões,
E questionar é vedado
A escolar autoridade,
Mesmo se não persuade.
Promover comportamento
De perfil competitivo
Em lugar, em detrimento
Do que for cooperativo,
Auto-afirmação à vista
É deste mundo em conquista.
É o erro de conceber
Que em comunidade a vida
É lutar para vencer,
Por que o mais apto progrida.
A economia compete
E o negócio tal repete.
Comportamento agressivo
A vida torna impossível:
Se for único, exclusivo,
O dia fica invivível.
Mesmo o mais ambicioso
Busca um abraço amoroso.
Quer apoio compreensivo,
Contacto humano bem quente,
De espontaneidade o esquivo
Momento que o acalente.
E então se obriga a mulher
Tudo isto a satisfazer.
Secretárias, enfermeiras,
Mães-do-lar, recepcionistas
Dedicam vidas inteiras
Vidas a tornar benquistas,
Confortáveis, de atmosfera
Onde após compete a fera.
Elas alegram patrões,
Fazem-lhes o cafezinho,
Pacificam confusões,
Acolhem qualquer vizinho
E entretêm-no, serenas,
Com as falas mais amenas.
Consultórios e hospitais
Têm o contacto humano
Dado a mulheres que tais
Que a cura encetam sem dano.
Servem chá, bolo às fatias,
Não discutem teorias.
Tudo actos integrativos,
De estatuto inferior
Nestes degenerativos
Vãos sistemas de valor
Comuns ao mundo presente
Que auto-afirmação só sente.
Então quem os desempenha
De miséria só salários
Recebe do que os desdenha.
São roteiros temerários
Que não pagam dons nem bens
A donas de casa ou mães.
250 – Viver
A Humanidade não pode
Viver sem as utopias,
Embora o que sempre acode
Na História, todos os dias,
É que tentar construir
A utopia fatalmente
Leva à violência a seguir,
Ao inferno em toda a frente.
Temos de renunciar
Às utopias mortais
Que são as que irão tentar
Transmudar-se em sociais,
Que ínvio sempre é organizar
Por inteiro a sociedade
Num modelo a idealizar,
Sem a individualidade
Destruir em tal parada.
Vamos gerar utopias
No lugar onde, de entrada,
Têm abertas as vias:
É do indivíduo no reino
Onde toda a diferença
É permitida e tem treino.
Cada qual, de si pertença,
Tem direito a construir
A vida pelos seus gostos,
Por desejos que sentir,
Carências que tenha a postos,
Desde que ele não afecte
Doutrem a soberania
Nem os passos intercepte
Que outrem dê na própria via.
Alguns têm conseguido
Utopias pessoais,
Místicos do além vivido,
Atletas que além vão mais,
Quantos logram perfeição
Em áreas donde dimana
Que as fronteiras outras são
Que as da condição humana.
251 – Preocupadas
Passam a vida preocupadas as pessoas
Com o futuro e passar deixam o importante.
Sempre a cuidar no êxito estão, em ganhar broas
Num ordenado ou num papel que se agigante
Na sociedade, até nas férias que hão-de vir,
Até se os filhos, ao crescerem, honrarão
Progenitores que se orgulhem do porvir…
Ninguém dedica tempo além o tempo então
Numa medida que nos deixe o suficiente
A saborear como é tão belo este presente.
252 – Conforme
Cometemos muitos erros neste mundo
E fazemos muito mal ficando impunes;
Praticamos muito bem que é bem fecundo,
Concertamos muita perda (unes, desunes…)
E pagamos isto caro muitas vezes:
É conforme tudo calha, sem remédio.
Importância nunca têm sorte ou reveses,
Que auferimos só num fim sempre intermédio.
O que importa é que aceitemos o que temos,
Que saibamos, o melhor que for possível,
Saboreá-lo, aproveitá-lo, que o vivemos
Como a prenda inesperada que é vivível.
253 – Corpo
Corpo não é mau nem bom,
Corpo é neutro, é nada nisto,
É um instrumento de som,
Ferramenta com que existo.
É tal qual como um machado
Com que posso rachar lenha
Para ao lar prestar cuidado
Mas que, se me não contenha,
Também serve para abrir
A cabeça dum vizinho.
Na forma como o gerir
O bom e o mau adivinho:
Posso amar e é construtivo
Tudo o que dele dimana;
Odiar e é destrutivo
O gesto onde invista a gana.
254 – Cara
Tudo está na cara suja,
Assustada e consumida,
Extasiada e perdida,
Mas que a tudo sobrepuja,
Dum miúdo seminu.
Não, ele não me conhece
Nem o trato eu por tu,
Língua comum nos falece
E viveu a vida dele
A dez mil milhas da minha:
Mesmo assim é minha pele,
É um cacho da minha vinha.
Nós somos uma unidade,
Importante, indissolúvel,
Unificada entidade,
E ele um auxílio volúvel
De mim precisa e requer
Tal como eu preciso, a par,
Como outro homem qualquer,
De acorrer e auxiliar.
É isto o que justifica
O destino a cada um,
Isto, não o que complica,
A verborreia comum,
Raciocínios petulantes,
De pensar máscara fria,
Nem qualquer ideologia
De fitos humanizantes.
Meu destino é confortar
Um homem quando ele sofre.
Tudo sofre, singular,
E a chave está neste cofre.
Todos vivemos nas trevas,
Sonâmbulos como somos,
A arrastar pesadas grevas
Que em cada pegada pomos,
Na direcção que traduz
Caminharmos rumo à luz.
255 – Intrusos
O que vem atrapalhar,
Que é de intrusos confundir,
Deve fazer repensar:
Confuso fica quenquer
Apenas, ao reagir,
Se não souber o que quer.
Importa, então, ver o fundo
Ou perdemos pé no mundo.
256 – Voo
Faças lá quanto fizeres,
Não te prendas, não te prendas!
Quanto mais livre estiveres
Para que ao voo te rendas,
Melhor: voa num projecto
Que concilie ajudar
O mundo aqui, sob o tecto,
Sem deixar de o projectar
Para cima, ao céu directo.
O de cima e o de baixo
Um só serão, se os encaixo.
257 – Fundo
A vida remoço
No que tem de plástica:
No fundo do poço
Há uma cama elástica.
Quando ao lado oposto
De ti próprio vais,
Se vês só desgosto,
Tropeças e cais.
Quando ao que negaste
E de que tens medo
Já te abalançaste,
- Tens um novo credo,
És um homem novo,
Bem polarizado,
Evoluis do ovo,
Já revigorado.
258 – Energia
A energia da violência
Que hoje a terra nos domina
Não inverte a recorrência,
Mais e mais à força inclina.
O homem anda violento
Como violento anda o mundo.
Urge mudar o elemento
Desta energia infecundo
Para a terra vir mudar.
Não adianta alguém querer
A terra noutra trocar
Se a energia mantiver.
Andamos sempre a tentar
Lutar contra quem o medo
Nos homens ande a causar.
Esquecemos, no degredo,
Contra o medo em nós vivido
Em nós mesmos de lutar.
Ora, pior que o infligido
Por um homem a seu par,
É o medo (que o não aflige)
Que a si próprio cada inflige.
259 – Experiência
Uma experiência quando não aceitas
Que o universo te proponha acaso,
Cada vez mais rumo a atrair te ajeitas
Eventos tais e no mais curto prazo,
Mais fortes, mais, até que os tomes bem,
Os vivencies, preparado enfim
Por encerrada para dar também
Tua vivência, agora em teu confim.
Mas não terás só de aceitar o evento,
Deves querer o que te vem de além:
Teu ego serve a controlar o intento,
Não a ser vítima, evolui também.
260 – Rumos
Tenta fazer com que mudem
As energias internas,
Os rumos a que se grudem,
Trilhos a que emprestem pernas,
Por que passem a atrair
Eventos não negativos,
A gerar e a gerir
Menos sofrimento aos vivos.
Enquanto não se alterar
O que dentro de ti vem,
Atrair não vai lograr
Vidas outras que convêm.
Muda os íntimos valores
Eliminando bloqueios,
A percepção de anteriores
Eventos, de hoje recheios…
- Noutra perspectiva ao veres
Mudas tudo o que quiseres.
261 – Harmonizar
Harmonizar os opostos
Eis das questões a questão:
Como unir o sim e o não?
O bom e o mau contrapostos
Como pôr em união?
Positivo e negativo
Como fundir no que vivo?
- Harmonizando os contrários,
Aceitando as diferenças
Sem juízos temerários,
Sem julgamento ou sentenças,
Sem uma via melhor
Achar que é e outra pior.
Na perspectiva dos céus
Tudo é mesmo indiferente,
Tudo é igual perante Deus
A nós é que o rumo assente
Traz remanso ou escarcéus
Nas rotas do mar ingente.
Se como Deus vivo em mim,
Fico em paz com tudo assim:
Só então fico preparado
Ao trilho a nós adequado.
262 – Repete
Esta norma de teu fado
Repete idades além:
- Para mim só destinado
Para sempre foi o bem.
Contra o que te causa medo,
Sentimento preferido
Do mal, de todo o degredo,
Joga a lei de teu sentido.
O mal amedronta as gentes
Com ideias negativas,
Obscenas e deprimentes.
Por um nada mentes vivas
Fazem a escolha contrária
Àquela que elas fariam
Em tendência solidária
Com o imo de que partiam.
Na terra o medo corrói
Quem mais espiritual
Mesmo toda a vida foi,
Tal fermento tem o mal.
A norma então de teu fado
Repete idades além:
- Para mim só destinado
Para sempre foi o bem.
263 – Intermediários
Intermediários, não:
Sempre foram responsáveis
Pela modificação
De espirituais e fiáveis
Leis que à vida rumo dão.
Cada qual pode ir lá acima,
Às profundezas do imo,
Buscar o que fundo o anima,
As leis que são dele arrimo,
Vivenciais, em que prima.
Não precisa de ninguém
Que lhe diga quais as leis
Que são dele e lhe convêm
Ao estatuto e papéis,
Que em si cada qual as tem.
Intermediários, não:
Não dão luz, só confusão.
264 – Desenvolvimento
Quando alma não há presente
Numa decisão qualquer,
O caminho a percorrer
Jamais é o da evolução,
Desenvolvimento são
Que nos for conveniente.
Caminho de teimosia,
Só pode levar à perca,
À tristeza que irradia,
Que de escuridão nos cerca.
Quanto mais alguém fizer
Conexão ao superior
Que do imo lhe dá vigor,
Mais vai poder esperar
Que alma presente há-de estar
Nas decisões que escolher.
Decidindo consoante
Os olhos que em alma tem
Caminha para diante,
Além rompe sempre e bem.
265 – Digamo-lo
Podemos dizer a todos
O que nunca lhes dissemos:
- Digamo-lo em pensamento!
Trocando os mais comuns modos,
Cheguemos onde cheguemos,
Tudo atinge estoutro intento:
Quero dizer a meus filhos
Quanto, afinal, gosto deles,
Dizer a minha mulher,
Num dia acaso qualquer,
Quão preciosos cadilhos
Nos atam, mesmo se imbeles
Continuam os meus lábios,
Por mais que se antolhem sábios?
Fecho os olhos e lhes digo.
Vejo-os sorrir e abraçar-me:
Ficam então ao postigo
Sempre, afinal, de meu carme.
E mesmo quando incomoda
É de partilhar assim:
Conversa de andar em roda
Melhor atinge o seu fim.
Algo ali finda a mudar
Na relação tida a par.
Poderá ser um mistério
Mas ocorre sempre a sério.
266 – Medo
Não é nunca a perda em si
Que nós temos de aceitar,
Mas o medo de perder,
A dor de alma que sofri
Da perda que me rasgar
- Que de aceitar hei-de ter.
Será sempre o medo e a dor
E jamais o evento em si.
E a diferença é maior
Do que tudo o que previ.
Que eu só tenho medo e dor
Se me não souber propor
Na perspectiva superna
Da visão que for eterna.
267 – Regridem
Apenas um dos caminhos
Dá bom desenvolvimento.
Os outros são descaminhos,
Regridem, vão contra o vento,
São atalhos na jornada
Para onde não há nada.
Quem seu caminho encontrar,
Evolui, trepa os degraus,
Para a frente a caminhar
Sem tropeçar nos calhaus.
Mas topar a via tem
Que se lhe diga também:
Ao infindo tem de ser
Por inteiro conectada:
Anseios de alma viver,
O que esta quer da jornada,
Evoluir e limpar
Quanto o passo lhe encurtar.
Quem não escolha o caminho
Conforme a própria energia,
Quem material talha o ninho,
Porque outrem o quer um dia,
Por segurança ou dinheiro,
Perde a força por inteiro.
Perdendo o favor da vida,
Vêm males e doenças.
São avisos à medida,
À navegação sentenças:
Convidam o rumo dado
A mudar de vez de lado.
268 – Sofrimento
Sofrimento, guerra, fome,
Azar, guerrilha, acidentes,
Toda a dor que nos consome,
Que os humanos crua tome,
Tem motivos, entrementes.
Cada qual capacidade
De anular-se por inteiro,
Sem defesa inermidade,
Sem resguardo ante a maldade,
Só tem quando, já leveiro,
Centro é da fragilidade,
É o núcleo do sofrimento:
Sente o uno, a unidade,
Ser e não ser na igualdade,
Ao mesmo tempo e momento.
Só nesta altura do zero,
Daquele zero absoluto,
Quando tudo é fumo mero,
O que se é já não é vero
Nem se tem nenhum produto,
É neste momento exacto
Que se opera a transfusão:
A cósmica força em acto,
Do sábio Cosmos o impacto,
De entrar encontra o portão.
O espaço que ocupa o ego
É o mesmo das almas todas.
Quando ele o ocupa, o sossego
Nunca advém de tal emprego.
A escolha é tua: qual podas?
269 – Acolhes
Sem julgamento acolhes o que vem:
Em vez de olhar a dor como o que é mau,
É apenas o que vem e o rio a vau,
Ao vivê-la, transpões, como convém.
Quando de processar a dor acabas,
Pronto então ficarás para acolher
A maior alegria que couber
Em teu íntimo, enfim de abertas abas.
Se encobres tua dor e a julgas má,
Recusas-te a vivê-la, encapotar-te
Irás de mil defesas com tal arte
Que não vais permitir que a força vá
De ti livre fluir e o sofrimento
Começas a atrair em tua esteira.
Este, porém, é tal que nunca à beira
De findar se mostrou nalgum momento.
Uma dor natural acaba ao fim
De algum tempo e releva o que é precário.
A dor pelo bloqueio do primário
Afecto que nos move nunca assim
Acaba: jamais finda. No que escolhes,
Entre a curta e a longa, qual acolhes?
270 – Gostar
Podes gostar de mim, de estar comigo,
Daquilo que te ensino, do que digo,
Do que passámos juntos, da fusão,
Desta nossa energia e protecção,
De quanto represento para ti
Como para os demais com que vivi…
Mas não dependas nunca, não dependas
De mim nem de ninguém. Convém que aprendas
Pela tua cabeça a pensar, são,
E a sentir pelo teu bom coração.
Não há no mundo nada, mesmo nada,
Que valha uma centelha iluminada
Divina, um imo a sós que aqui vagueia,
Germinando na terra onde tenteia
Vezes sem fim, tentando ser feliz.
Contigo amor, não medo, é o que condiz,
O alto e não o baixo é o atavio,
É o calor que acalenta e não o frio.
271 – Desbloquear
Desbloquear as energias,
Evitar a perda tem
Um segredo de ousadias:
Polarizar-se convém
Ao oposto de si mesmo
Ir em íntima viagem,
Retiro em que me ensimesmo,
Meditação da triagem,
Conexão ao superior…
Quem viver acompanhado,
Se a estar só não dá valor,
Tem de ir ao oposto lado
Estar consigo sozinho:
Melhor é sair durante
Uns dias, para, em caminho,
De si próprio ficar diante.
Quem às coisas materiais
Vive preso, aprisionado,
Para vidas sem reais
Faça então voluntariado,
Que nada de material
Aí encontra, só gente.
É simples o trilho ideal:
De que é que pavor se sente
É ver e depois seguir,
Denodado, ao seu encontro.
Da ferida ao lugar ir,
Sofrer daquilo o recontro.
Quando sair, livre está.
É o Calvário que fez Cristo:
Ir ao oposto que lá
Mais doía, tudo visto.
Quando acabar, evoluo,
Já que fui ao meu oposto
Tão negado em meu recuo,
Tenho agora novo rosto.
Como em mim já mora o Todo,
Nisto do Infindo sou modo.
272 – Batuques
Os batuques do deserto,
Das florestas tropicais…
Que longe nos fica o perto,
Com tanto barulho certo
A encobrir do íntimo o cais,
O silêncio a violar
Que houver dentro em cada um!
Milénios a batucar,
Cantarolar e dançar,
Para evocar no zunzum
As forças superiores
A nós próprios, para ter
Apoios que, redentores,
Se revelem os melhores,
Para se escapar quenquer
Dele mesmo, mundo fora,
Do próprio silêncio dele.
O silêncio que em nós mora
É tão fundo, sempre e agora,
Como o do deserto imbele.
É o mais profundo e mais denso,
O mais sepulcral que existe,
De suportar, por intenso,
O mais difícil, no censo
Que o homem conte e que liste.
Na maior parte das vezes,
Tenta, não aguenta e vai
O homem fugindo aos reveses,
Segue em frente nos conveses
Doutra aventura em que cai,
Sempre dele longe e fora.
É o silêncio para ouvir-se,
Barulhos cala na hora.
Só quem ouve sabe agora,
Só quem sabe há-de intuir-se,
Só quem se intui é que sente,
Quem sente vive: é o presente!
273 – Rótulos
Há quanto tempo é que andamos
A pôr rótulos nas coisas,
Nas gentes com que topamos?
Quantas guerras há nas loisas
Por os homens terem dito
Palavras em que não poisas
Jamais o que for teu fito?
O homem tem de parar
De falar sem ver o grito
Que virá de não pensar.
E tem de tomar o pulso
À própria vida, acabar
De encarar como algo avulso
Qualquer pensamento alheio,
De abusar matar o impulso.
De criticarem o meio
Achem de parar e parem
De achar, findem com o enleio.
Quanto menos opinarem
Sobre outrem tanto outrem menos
De quantos gestos vos arem
Irá julgar os acenos.
Ter opinião é julgar,
É crer que sabemos plenos
O bem e o mal de operar,
Que estaremos para além
De humano saber e estar,
Mais que tudo é saber bem
E mais que todos saber.
Quem julga é Deus, mais ninguém,
Ainda por cima absolver
É o que a quenquer sempre faz.
Que direito tem quenquer
De os mais julgar, ferrabrás,
De ter tanta opinião
E de os criticar por trás?
Convite à separação
É sempre a crítica feita.
E separados, então,
À trilha ninguém se ajeita,
A lado nenhum irão
E nada mais se aproveita.
274 – Julgado
Se tu não agradeceres,
Da ajuda se ao ideal
Ao fim não corresponderes,
Serás julgado, afinal,
Condenado de imediato,
Mal-agradecido, ingrato!
Cuidado com as ajudas,
Há lobos ante o rafeiro
Que, mal tu de pasto mudas,
Vestem pele de cordeiro.
275 – Resposta
Para a questão insolúvel,
Lembra-te da solução!
Não é o cérebro volúvel
Que resposta te dá, não,
Para aquele desafio
Que inviável desconfio.
Pede-lhe apenas, portanto,
Que ta recorde entretanto.
Se pressupões que soubeste
Em tempos qual a resposta,
Convicção íntima deste
De que existe e agora exposta
Pode ser com evidência,
Já não sentes a impotência.
Então, de escano escondido,
Vem-te uma luz com sentido.
276 – Abrir
Cada um de nós é um Deus,
Cada qual já sabe tudo.
O que temos, ante os céus,
De fazer é, sobretudo,
Abrir a mente vazia
E ouvir, rasgados os véus,
A própria sabedoria.
277 – Trocarei
Não trocarei as tristezas
Que houver em meu coração
Por festas da multidão.
Não gostarei que as represas
De lágrimas que as feridas
Fizerem brotar de mim
Se transformem, desabridas,
Em risos ocos por fim.
Gostarei que minha vida
Seja o encontro conciso
Da lágrima e do sorriso,
Sempre na justa medida.
278 – Culpas
Atribuir culpas, explicar,
É por demais simples, errado:
Pois cada qual é que acabar
Há-de a escolher qual o traçado
Do rumo que ele quer trilhar.
Todos nós temos a gaiola
Que os tubarões nos mantém fora,
Longe de quanto nos imola.
Quem abre a porta e que em tal hora
Se atreve a ir deles na cola
Fá-lo então sempre â própria conta,
Correndo o risco a que tal monta.
279 – Interessado
Poderei sempre esconder
Doutrem o que ele estiver
Interessado em não ver.
Até de mim poderei
Esconder o que já sei
Que acatar não lograrei.
Questão é o custo em saúde
De tudo o que nos ilude
E em vida desperdiçada
Pelas valetas da estrada.
280 – Tempo
Tens de ao tempo tempo dar,
Já que o mundo ser refeito