QUARTO TROVÁRIO
COM AQUILO QUE DEFINE A CAMINHAR
Escolha ao acaso um número entre 381 e 559, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
381 – Com aquilo que define a caminhar
Com aquilo que define a caminhar
Vai o poema desbravando a rota,
A medir com metro regular
O que, dum lado e doutro, lhe rimar
Com cada nível da cota.
Para a pegada
Marcar o chão que pisa,
De tactear cada palmo da jornada
Cada verso precisa.
Na terra lisa ou em ruga
Despistado o que a enforma,
Desvendo o campo de ataque ou de fuga,
Senhor fico de talhar a norma,
Imprimo à pegada minha forma.
382 – Interior
No interior há preconceitos,
Mas tradições são mantidas,
Estabilizam os preitos
Que estruturam mundo e vidas.
Se houvera só capitais,
Cidades no mundo inteiro
Sem interiores tais,
A moral era um lameiro
Que, na primeira enxurrada,
Se escoa pela levada.
383 – Eventos
Aquilo que nos moldou
Não é só quanto ocorreu
Mas antes quanto mudou
Dentro em mim, do que sou eu.
Foi antes quanto senti,
Como reagi dentro e fora,
Que me fez o que eis aqui,
Mais que os eventos de outrora.
Não é uma infância infeliz
Que adultos faz depravados:
Muito há quem tem cicatriz
E que cura em muitos lados.
384 – Brota
O trabalho criativo
Brota dum envolvimento
Forte, apaixonado, vivo,
Como o dum amante atento,
Quando um artista ou alguém
Com um certo outro interage
E à luz algo novo vem.
Tal outro pode ser laje,
Tela, dança ou escultura,
Melodia ou manuscrito,
O barro que a mão tortura,
Teoria, invento aflito,
- Que durante um tempo absorvem
E fascinam totalmente.
Para aqueles que se envolvem
A criatividade sente,
É uma trama sensual,
Colhe momento a momento
Vivência sensorial,
Envolve som, movimento,
Tacto, imagens, mesmo olfacto
E acaso até paladar…
Como um amante de facto,
O artista absorto a criar
Descobre que estão alerta
Dele todos os sentidos
E esta teia é que desperta
De arte os efeitos nascidos.
385 – Crescimento
Crescimento de sementes
Depende de solo e clima,
De haver ou não nutrientes,
Do cuidado que os estima
Por parte dos jardineiros,
Depois, do recipiente,
Da robustez dos viveiros
Na variedade pendente…
Mesmo assim uma semente
Pode ou não desenvolver-se
Então pura e simplesmente
Do rebento que ali verse.
Mesmo se desenvolvendo,
Vai magnificentemente
Crescer ou ir-se tolhendo,
Por má sorte, eventualmente.
Tudo, pois, afectará
O aspecto particular
Do que a semente dará,
Mas a forma há-de lá estar
Ainda então reconhecível,
A identificar a planta.
O arquétipo em nós vivível
É mesmo assim que se implanta.
Basilar padrão humano,
Destreza inata maior
Terá, num ou noutro plano,
Nalguns, como é de supor:
É uma aptidão musical,
Do tempo um sentido inato,
Um dom psíquico especial,
Mental destreza a recato…
Uns parecem incarnar
Desde que mal respiraram
O arquétipo singular,
Com ele outros mal deparam.
Nuns será rumo de vida,
Noutros, de agora explosão
Que marcará de seguida
As pegadas pelo chão.
Mas é o ausente presente
Dentro em nós eternamente.
386 – Abaixo
São as coisas mais grandiosas,
São as árvores mais altas
Que abaixo vão, estrondosas,
Dos raios, mal as exaltas.
Adora contrariar
Da natureza o apresto
Ao que maior se antolhar
Cá por baixo do que o resto;
Não suporta nunca orgulho,
A não ser o dela mesma.
Tudo o mais será gorgulho,
Pisa-o no chão como à lesma.
387 – Resiste
Um corpo robusto
Resiste à doença
E cura depressa,
Faz com menos custo
Que o íntimo vença
Mal em que tropeça
Quando são enfrenta,
Quer uma tragédia,
Quer nova que o tenta.
Quando fraco, em média,
Todo mais se agita
E a turvação dura,
Perdura, infinita,
E ao fim nada apura.
388 – Mentira
Quando minha plenitude
É doutrem o sofrimento
É mentira que me ilude.
Então, a qualquer momento,
Chega, sem me aperceber,
A minha vez de sofrer.
389 – Escumalha
Bem mais que a incompreensão
Dos heterossexuais
A escumalha atira ao chão
E aterroriza demais
O jovem que se persuade
De homossexualidade.
É impressão devastadora
De que ser homossexual
É ser à margem, de fora,
Mesmo caricatural,
Degradante, se calhar,
E sempre a se exacerbar.
Este terror fulgurante
É o das neuroses profundas
Que aos mui jovens adiante
Presas fáceis, infecundas,
Das serpentes vai gerar
Que tais pardais vão caçar.
O gosto pela abjecção,
Para a corrupção tendência,
Queda na degradação…
Por quanta mais decadência
Tal imagem responsável
Não é no que é vulnerável?
Detém um deles na rua,
Procura-lhe a confidência:
Quanta depressão actua
E que terrível ausência!
E por trás uma palavra:
Angústia – que o escalavra.
390 – Escrita
A escrita dum escritor
É tal qual um palimpsesto,
Camafeu de alto valor,
Um gesto sobre outro gesto.
É um texto sobre outro texto
Que já existe anteriormente
Mas que não é, no contexto,
De ver-se imediatamente.
Ao escrevê-lo é que à vista
Salta o que antes lá resista.
391 – Leitor
Sempre o leitor subestima
A própria dele importância:
Se com o escritor não lima
De cada frase a elegância,
Se o livro não cria junto,
Nunca o livro terá vida.
Envolvimento no assunto,
Ao ler, impõe outra lida,
É o que vai distinguir ler
De olhar a televisão:
Nesta passivo há-de ser,
Uma esponja de absorção,
Não poderá mexer nada.
Ao ler, somos criadores,
Imaginamos a estrada,
Os cenários, os amores,
Vemos rostos a falar,
Ouvimos inflectir vozes…
Autor e leitor vão dar
Um ao outro o rosto e as poses,
Encontram-se as duas lavras
Numa ponte de palavras.
392 – Triste
O mais triste de hoje em dia
É que a ciência mais lesta
É, no saber que enuncia,
Do que a Humanidade atesta
Degraus de sabedoria.
É por esta discrepância
Que (quanto maior ciência,
Maior o fosso, na instância,
Para a minha conveniência)
Vivo numa inerme infância.
Este suplemento de alma
Que anda sempre em falta aqui
É que nos traria a calma:
A par o que em ciência li,
Deste imo que tudo acalma.
393 – Arte
Mesmo em arte a que um artista
É todo vocacionado,
Sobre a qual inteiro invista,
Para a qual vive apontado,
Mesmo ali qualquer ensejo
Aquém fica do desejo,
Nunca atinge o patamar
Que era então de desejar.
Estamos sempre a tentar,
Tentar a proximidade
Do limite em que apostar
Nossa possibilidade.
No fundo, busco o conduto
De que é feito um absoluto.
É o que ninguém nunca atinge,
Que ignora, mesmo se o finge.
O que sabemos ao certo
É ninguém nascer senão
Para morrer, longe ou perto:
Só a morte nos tem à mão.
É num além da esperança
Que a vida sempre balança.
Quem a esperança perdeu
Liquidou a terra e o céu.
394 – Tempo
O militar tem a glória,
No combate, da vitória
E tem-na o comerciante
No lucro somado adiante,
Mas um pintor, um artista,
Onde é que a vai ter à vista?
Não há nada exactamente
Que determine onde assente.
Qualquer arte é especial,
Só tem uma lei geral:
O tempo que a percorrer.
O tempo irá preencher
Papel final de juiz
Do fruto até à raiz.
395 – Horizonte
A força das circunstâncias
Os horizontes reduz
De cada um a distâncias
A tal ponto que traduz
Qualquer barraca em palácio
Que a palácio não convém.
Tudo é relativo, trace-o
Embora o sonho também.
Quando preso numa cela,
Qualquer tenda é liberdade;
Quando o tédio me atropela,
Não há palácio que agrade.
396 – Corpos
Vivemos aqui na terra
E nossos corpos são tudo
Que temos para viver.
Sem o corpo a que se aferra
Esta vida a que me grudo,
Sem suporte, a que me ater?
Mera chama sem chamiço,
Não fui feito para isso.
397 – Ténues
Ao longo cambaleamos
De nossas ténues cordas
Individuais que agarramos,
Estendidas pelas bordas
Do escuro abismo do medo,
Em meio ao negror da noite,
A oscilar, na boca o credo,
Sem canto que nos acoite,
Os dedos enclavinhados
De equilíbrio numa vara
Instável de ambos os lados
Da preocupação que a tara,
Dum lado com os temores,
Do outro com os desejos
Que não dão entre os pendores
Ao equilíbrio ensejos,
E sempre de ouvido atento
Ao estalido que marca
O brusco quebrar do vento
No fio que corta a Parca.
E depois é o sono eterno
Sem mais Verão nem Inverno,
Ou daquele em luz perene
Ou deste no escuro infrene,
À espera de que algum dia
Se nos desempate a via
E que seja para a Festa
Que se nos abra esta fresta.
398 – Cegos
O medo da solidão
Medo de ficar sozinho,
É o responsável malsão
De actos cegos que adivinho,
Actos sem os olhos de alma,
Só de forças de matéria,
De temor que nunca acalma,
A nos levar à miséria,
Quando a esvair começamos,
Tarde ou cedo, em mera perda,
Tudo o que mais estimamos,
Emprego, filhos, a esquerda
Saúde arrastada em queda,
Da vida desfeita a meda…
- E no fim, retrospectiva,
Vence a solidão esquiva.
399 – Atinge
Quenquer sabe tudo
O que há-de fazer
Tomando o conteúdo:
- Consciência do ser
Que alcança a verdade
Quando o Todo a invade.
Ao querer saber,
O que vier aceita
E sabe ir perder
E perde sem peita
E uma e outra vez
Perde sem revés:
Isto fará parte
Do que sempre é vida.
Consciência que acarte
A fundura haurida
Sabe resumir
Passado e porvir,
Nos céus funde na terra.
E o que isso traduz
É que a luz encerra
Toda a terra em luz.
400 – Artista
Todo o artista é um avatar,
Alma que irrompeu no mundo
Para fazer avançar
A Humanidade no fundo
Leito daquela mensagem
Por onde ele faz viagem.
Nenhum artista tem medo
Da vida e do seu segredo.
Então consegue trepar
Mais alto e trazer mensagens
Inspiradas naquele ar
Que respira nas paragens
Das alturas que reparte
Depois em criações de arte.
E o público, quando vê,
Toca qualquer obra de arte
(A que deveras tal é),
Se eleva, à aventura parte:
A espiritual energia
Arrebata o dia-a-dia.
401 – Funduras
Todo o mal que me fizerem
A si próprios fazem antes,
Que as funduras que me gerem
São de abismos mais distantes:
Moro sempre muito além
Do sofrimento que advém.
Quem ódio tiver-me a mim,
É dele que o ódio tem,
Que nele reside, enfim,
Ferida a infectar também:
Cada qual projecta fora
O que dentro dele mora.
Sempre dum peito magoado
É que o ódio é semeado.
402 – Gera
O sentimento de pena
Gera civilização
De gente muito pequena
Que diz: “Cristo é salvação
E por isso sofreu tanto,
Propugnou dele o ideal
E atraiu a dor e o pranto.
Ora, a me escapar de tal,
Nenhum ideal vou ter
Nem quero salvar ninguém.”
É a massa amorfa a crescer,
Nem missão nem fito tem,
Não tem foco de verdade,
Voga ao sabor da corrente.
Sem visão de eternidade,
Voa ao vento que então vente.
403 – Fé
Ter fé será mesmo crer
Que algo nos há-de ocorrer
E que tal algo, por certo,
É o melhor para aprender
E para evoluir, desperto,
Mesmo que, à primeira vista,
Julgue que não e resista.
É acolhimento de vez
Contra ventos e marés,
É sem condições entrega,
Qualquer que seja a refrega.
404 – Religiões
As religiões já não vão
Da vida espiritual
Ser jamais o coração:
A Humanidade é que vale.
Filosofia de vida
É que à espiritualidade
Nos vai levar de seguida
Cada vez mais de verdade.
A hora do entendimento
Que nos ajude a viver
Melhor a cada momento
Chegou já para quenquer.
É o que ajuda a conectar
Com o divino além, fundo,
Sacra força a nos guiar,
A nos proteger no mundo.
405 – Espiritualidade
A espiritualidade é perceber
E praticar que o que sentimos dentro,
No coração, vai sendo mais o centro,
Cada vez mais em nossa vida e ser.
A certa altura só se quer sentir
Aquele amor, aquela paz de vez,
Aquele estado unido com que um és
Com o Cosmos inteiro no devir.
E todos os apelos da matéria,
Bens de cotio, consumo e todo o ter
Deixam então sentido de fazer.
Espiritualizar-se em via séria
É o mundo encontrar novo, a prometida
Terra que aguardaremos cada dia.
Questão é deixar o ego que enfuria,
Com os desejos dele a que convida:
Jamais “eu quero aquilo” ou “de tal modo”.
É não levar ao céu mente pesada
De matéria, tropeço nesta estrada.
A comunicação com o céu todo
É muito mais subtil que a ligação
Com a matéria que é muito mais densa.
Quem não abandonar esta presença
Petrificada e dura, preso ao chão,
Já não se eleva acima e não percebe
A subtileza fina de ir ao céu,
Não o atinge, de ansioso, o medo ao léu,
Mais denso acaba e mais grilhões recebe,
Remata cada dia mais ligado
À matéria a que vive aprisionado.
406 – Silêncio
Do silêncio de mim mesmo ando a fugir
E através deste silêncio é que sentir
A mim mesmo vou poder, saber quem sou,
Para após ir escolher por onde vou.
Só sabendo quem eu sou posso escolher
Com o meu arbítrio livre o que fazer
Sem receio de que a escolha seja ao fim
Contra minha natureza, contra mim
E o caminho que na terra vim trilhar.
Respeitando quem eu sou posso triar,
Escolher com tal de acordo e os horizontes
No infinito ilimitar criando pontes,
Ampliando mais e mais minha energia
Radical, que era a de origem que se amplia.
A que é do ego, a que pretende isto ou aquilo,
Por convir a mim mais sê-lo, onde perfilo
A defesa de quem vibra pelo medo,
Não se amplia, retrocede, reduz cedo.
Ser é a chave da questão: se sou, se ouvir
O silêncio que em mim more, entro em devir,
Invencível findarei, que a força vem
Cá de dentro, da impulsão que a crença tem
De mover quaisquer montanhas, por poder
De quem crê que pode alar o que quiser.
407 – Retirar
Nunca podes retirar ninguém
Do lugar onde estiver presente,
Conjuntura que o colher além,
Dum parceiro em que ele a vida assente,
- Só porque ele é tal lugar, evento
E o parceiro do comum intento.
Retirar não poderás quenquer
Do que ele é, que só lá está por ser
Tudo aquilo e tanto assim que atrai
Para ele quanto houver ali:
Semelhante ao semelhante vai
Atrair, como fatal, a si.
Não adianta ocasiões de fora
Dares todas para alguém cá vir,
Sendo quem num outro sítio mora,
Que virá sem o daqui sentir,
Iguais vícios vai de lá trazer,
Tarde ou cedo volta a igual viver.
É deixar onde estiver quem for
E ajudá-lo a se moldar melhor,
O que pensa em relação a tudo
Ir mudando, em relação à vida
Como a si, para se olhar desnudo,
De escolher ter a ocasião devida
Quem ele é, mas sê-lo então deveras
E parar de ser quem outrem quer.
Com a ajuda nesta crença, as heras
Devagar irão então fazer
As raízes (em que crê) furar
Entre as pedras do anterior lugar.
Tal ambiente de ser deixa então,
Pois o choca na novel feição.
Preparado agora a estar começa
Para já dali sair ligeiro,
Já se não confunde mais, tropeça
Contra as bermas que ele foi primeiro.
408 – Harmonia
Deus não é castigador
Mas harmonia entre tudo.
Se o homem desarmoniza,
Desequilibra um pendor,
Do Universo o conteúdo
Todo então se mobiliza
Para tornar a repor
Tudo em devido lugar:
Nada pode isto alterar.
O Universo apenas pode
Se expandir, evoluir,
Porque mantém a harmonia
A qualquer custo e fasquia,
Este equilíbrio que acode
Entre opostos em devir.
A matéria é de oponentes:
Saúde versus doença,
Riqueza versus pobreza,
Bem e mal sempre evidentes.
Opostos cuja sentença
É equilibrar com presteza.
É que o homem vem à terra
Para vivenciar os dois,
Não só aquilo a que se aferra
Nem só o outro que há depois.
Quando um ego humano escolhe
Um dos lados dos opostos,
Toda a força do Universo
Se junta e tudo recolhe
A lhe enviar, contrapostos,
Os jeitos do lado inverso.
Quem só quer saudável ser
Então, mais cedo ou mais tarde,
Doença irá conceber:
Tem de a vivenciar como arde.
Quando de opostos me teço
O Universo inteiro meço.
409 – Morrer
Não, morrer não é o que pensas,
O que todos cuidam, gritam.
Morrer das matérias densas
É se libertar, que incitam
Leis fatais a retornar
Para um uno original,
Voltar à raiz, voltar
Ao sentir mais radical.
Quem agiu dele a missão,
Se desenvolveu a termo,
Chegou ao fim da função,
É de partir, deixar ermo
Tudo aí, para ensinar
Os mais através da perda.
Apenas é de o limpar
De quantos pesos ele herda,
Para que, após a partida,
Apesar do sofrimento,
Para voar na subida
Mantenha o discernimento.
É um divino protegido,
Ensina-nos muito a todos:
Da vida e morte o sentido,
Os espirituais engodos.
Chegou a hora fatal
De vivenciar a sorte
Da vera perda real:
A perda final da morte.
410 – Assustaste-te
Assustaste-te e tiveste medo,
Fez-te o medo aqui voltar à terra
E prendeu-te num subtil degredo.
Quem tem medo nunca mais desferra
E vogar nunca mais vai mar fora
E subir nunca consegue mais.
Quem tem medo fica em baixo agora
Agarrado às ânsias vãs que trais.
Fugir de algo atrair vai tal algo:
Quando alguém foge do medo, ausência
Vai sofrer do só jardim fidalgo
Que de medo não tem mais essência,
O Infinito, o céu imenso, enfim.
Quando tem medo é sempre um ego a impor-se,
Qualquer alma não tem medo assim.
Quanto mais espiritual se esforce
Por devir, menos alguém tem medo.
Não confundas, todavia, este
Com quem finge e o medo tapa, tredo,
De atributos de que falso o veste.
Quem tem medo nunca sobe além,
Quem tem medo não se eleva nunca,
Quem tem medo nunca sonhos tem,
Nunca voa: pobre o solo junca.
411 – Aliadas
Ciência e religião,
Longe de inimigas serem,
Antes aliadas são,
Duas linguagens que auferem,
Diferentes na lição,
A mesma história em função.
História de simetria,
Tensão entre céu e inferno,
Quente e frio, noite e dia,
Deus e Satanás no averno.
Assim rejubilaria
Saber de hoje, a fé em dia,
Na simetria divina,
Na eterna competição,
Ante que tudo se inclina,
Entre luz e escuridão.
É tudo o que mais fascina
No que na história domina.
412 – Contraditórias
Ciência e religião
Contraditórias não são.
Mas, simplesmente, hoje em dia
O que nos é dado ver
É a ciência em demasia
Jovem para o entender.
Se a contradição subsiste
É estreiteza do que viste.
A crise da juventude
Aqui, tal na vida, ilude.
413 – Facto
Em Deus acreditarás?
A ciência diz que Deus,
Se existir, é lá por trás.
A mente, em limites seus,
Diz que jamais é capaz
De entender o que há nos céus.
O coração, ao intuir
O que vislumbra dos véus,
Diz-me que nunca é eficaz,
Não deverei conseguir…
- Deus é o facto que revelo
De nunca vir a entendê-lo.
414 – Modelo
Não pergunto se acreditas
No que o homem diz de Deus,
Mas em Deus, que não debitas
Nenhum modelo dos céus.
Há uma diferença ali:
As escrituras sagradas
São lendas, contos que li,
São, história além, pegadas
Do esforço da Humanidade
Para poder entender
A própria necessidade
De significado ter.
Não te peço, pois, juízos
Sobre uma literatura
Mas se crês em Deus nos visos,
Além de qualquer figura.
Quando ficas estendido
De costas num campo em flor,
Sob as estrelas rendido,
Sentes o divino odor?
Sentirás lá bem no fundo,
Olhando o esplendor dos céus,
Que estás vendo, aqui do mundo,
O toque, afinal, de Deus?
415 – Religião
Religião, como a linguagem
Ou maneira de vestir,
Atrair-nos-á na imagem
Das práticas a seguir
Em que, infantes descuidados,
Fomos todos educados.
No fim, todos proclamamos
O mesmo: que a vida tem
Um significado. Estamos
Gratos ao poder também
Que nos impele e criou
Na magia que engendrou.
Muçulmanos ou cristãos
Depende só do lugar
Onde nascemos, que irmãos
Somos todos sempre a par.
É só ver como difundo
As religiões no mundo.
Não é a fé que é aleatória,
A fé sempre é universal.
Os métodos e a memória
De entendê-la é que, afinal,
Têm muito de arbitrário,
Que qualquer trilho é sumário.
A Jesus rezam alguns,
Outros vão antes a Meca,
E não encontras nenhuns
Que água não busquem à seca
Boca acaso tragicómica,
Mesmo numa bomba atómica.
No fundo, mui simplesmente,
Todos andam à procura
Da verdade evanescente,
Uma verdade segura
Que obriga a correr após
E que é maior do que nós.
416 – Depende
A ciência pode curar,
Pode matar a ciência:
Depende, no que a usar,
De que alma põe na ocorrência.
É o imo que mais importa,
Pois decide qual a porta.
417 – Cava
A meta do terrorismo
É criar terror e medo.
O medo cava um abismo,
Mina a fé de qualquer credo,
Enfraquece a instituição
E debilita o inimigo
De dentro, do coração,
Agitando sem abrigo
As massas que lhe aderiam.
O terror não manifesta
A raiva dos que enfuriam,
Tem mais testa do que atesta,
Frecha a infalibilidade
Dum governo e, ao removê-la,
Remove a fé na verdade
Em que o povo houver de tê-la.
Com brechas toda a fachada,
Prestes vem a derrocada.
418 – Revelação
A revelação divina
Às vezes significar
Quer que a mente se te inclina
De vez a sintonizar
Teu cérebro para ouvir
O que, em fundura, lá cabe:
O mistério que, ao sentir,
O teu coração já sabe.
419 – Excesso
O excesso de informação,
Longe de satisfazer
Interiormente quenquer,
Esvazia à exaustão.
No meio termo, a virtude
É o que afinal nunca ilude.
420 – Fujo-me
Pouco importa se me grudo,
Se rezo todos os credos,
Se prendo o tempo, se o travo:
- Por mais que me agarre a tudo,
Fujo-me por entre os dedos
Sem apelo nem agravo.
421 – Falta
Não será falta de fé
Que os homens leva a temer
O escrutínio da razão?
Se o fado irregular é,
Então a via há-de ser
De medo por todo o chão.
Uma fé robusta não
Precisa de ter receio,
Que, se Deus existe, então,
Fuja embora pelo meio,
Não pode a razão deixar
De até Ele nos levar.
Penso, o que implica, o que insiste,
Que, portanto, Deus existe.
422 – Máquina
Máquina a democracia
Não é que vá funcionar
Por si própria, por magia.
Sempre há-de solicitar
Quem o valor aprecia
Tudo dentro a fermentar.
Como a livre economia,
Sistema em mercado aberto,
Por si nunca operaria:
Alguém tem de andar por perto
Orientando a energia,
Refreando o desacerto.
Para termos a certeza
De que o que ali persuade
É um aumento de bondade
Mais que apenas de riqueza.
423 – Erro
Um erro fundamental
É o de nos havermos posto
No mundo só com cabeça.
Doutro lado, nem sinal:
Vamos arrastando o gosto
Como algo em que se tropeça.
Doravante estoutras partes
Se orientam só de acordo
Com animalescas artes
- E é por isto que o chão mordo:
Não cultivámos, primeiro,
Em nós o homem inteiro.
424 – Carrossel
Não é um acto a diversão,
É de espírito um estado.
Não é um carrossel no chão,
Que este pode ter girado,
No fundo, bem deprimido.
Diversão é andar à mão
No carrossel assumido
Como festa até mais não.
Assim é que é festa a vida
Quando é do fundo assumida.
425 – Fiéis
Gostaria de pensar
Que é Deus mais iluminado
Que os fiéis que conquistar.
Para Deus, recém-chegado
Qualquer pagão curioso,
Seria logo benvindo,
Pois descobriria o gozo,
Em tudo o dele provindo,
Doutra forma de ser crente.
De estranhar é, nesta jeira,
Que o altar jamais o sente,
Não lavra desta maneira.
426 – Ancestrais
Todas as normas e regras
Vão trazer raiva e tristeza,
Mesmo se delas te alegras
Por virem de quem se preza,
De Moisés, de Jesus Cristo,
De Buda ou Madre Teresa,
De ancestrais por quem subsisto.
Mas não era intuito deles
Que foram interpretadas
De forma tão rigorosa.
O que torna um homem reles,
Que o leva a abrir as portadas
À fachada mentirosa,
Às invejas, à violência,
É o que há dele na vivência,
É o que dentro cultivar.
É o que dentro dele preza
Que o há-de contaminar,
Não é o que é da natureza.
Nunca o que lhe vem de fora
Marca dentro o que ali mora.
427 – Fidelidade