QUARTO  TROVÁRIO

 

 

                    COM  AQUILO  QUE  DEFINE  A  CAMINHAR

 

 

 

 

 

 

 

Escolha ao acaso um número entre 381 e 559, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                381 – Com aquilo que define a caminhar

 

                                                Com aquilo que define a caminhar

                                                Vai o poema desbravando a rota,

                                                A medir com metro regular

                                                O que, dum lado e doutro, lhe rimar

                                                Com cada nível da cota.

 

                                                Para a pegada

                                                Marcar o chão que pisa,

                                                De tactear cada palmo da jornada

                                                Cada verso precisa.

 

                                                Na terra lisa ou em ruga

                                                Despistado o que a enforma,

                                                Desvendo o campo de ataque ou de fuga,

 

                                                Senhor fico de talhar a norma,

                                                Imprimo à pegada minha forma.

 

 


382 – Interior

 

No interior há preconceitos,

Mas tradições são mantidas,

Estabilizam os preitos

Que estruturam mundo e vidas.

 

Se houvera só capitais,

Cidades no mundo inteiro

Sem interiores tais,

A moral era um lameiro

 

Que, na primeira enxurrada,

Se escoa pela levada.

 

 

383 – Eventos

 

Aquilo que nos moldou

Não é só quanto ocorreu

Mas antes quanto mudou

Dentro em mim, do que sou eu.

 

Foi antes quanto senti,

Como reagi dentro e fora,

Que me fez o que eis aqui,

Mais que os eventos de outrora.

 

Não é uma infância infeliz

Que adultos faz depravados:

Muito há quem tem cicatriz

E que cura em muitos lados.

 

 

384 – Brota

 

O trabalho criativo

Brota dum envolvimento

Forte, apaixonado, vivo,

Como o dum amante atento,

 

Quando um artista ou alguém

Com um certo outro interage

E à luz algo novo vem.

Tal outro pode ser laje,

 

Tela, dança ou escultura,

Melodia ou manuscrito,

O barro que a mão tortura,

Teoria, invento aflito,

 

- Que durante um tempo absorvem

E fascinam totalmente.

Para aqueles que se envolvem

A criatividade sente,

 

É uma trama sensual,

Colhe momento a momento

Vivência sensorial,

Envolve som, movimento,

 

Tacto, imagens, mesmo olfacto

E acaso até paladar…

Como um amante de facto,

O artista absorto a criar

 

Descobre que estão alerta

Dele todos os sentidos

E esta teia é que desperta

De arte os efeitos nascidos.

 

 

385 – Crescimento

 

Crescimento de sementes

Depende de solo e clima,

De haver ou não nutrientes,

Do cuidado que os estima

 

Por parte dos jardineiros,

Depois, do recipiente,

Da robustez dos viveiros

Na variedade pendente…

 

Mesmo assim uma semente

Pode ou não desenvolver-se

Então pura e simplesmente

Do rebento que ali verse.

 

Mesmo se desenvolvendo,

Vai magnificentemente

Crescer ou ir-se tolhendo,

Por má sorte, eventualmente.

 

Tudo, pois, afectará

O aspecto particular

Do que a semente dará,

Mas a forma há-de lá estar

 

Ainda então reconhecível,

A identificar a planta.

O arquétipo em nós vivível

É mesmo assim que se implanta.

 

Basilar padrão humano,

Destreza inata maior

Terá, num ou noutro plano,

Nalguns, como é de supor:

 

É uma aptidão musical,

Do tempo um sentido inato,

Um dom psíquico especial,

Mental destreza a recato…

 

Uns parecem incarnar

Desde que mal respiraram

O arquétipo singular,

Com ele outros mal deparam.

 

Nuns será rumo de vida,

Noutros, de agora explosão

Que marcará de seguida

As pegadas pelo chão.

 

Mas é o ausente presente

Dentro em nós eternamente.

 

 

386 – Abaixo

 

São as coisas mais grandiosas,

São as árvores mais altas

Que abaixo vão, estrondosas,

Dos raios, mal as exaltas.

 

Adora contrariar

Da natureza o apresto

Ao que maior se antolhar

Cá por baixo do que o resto;

 

Não suporta nunca orgulho,

A não ser o dela mesma.

Tudo o mais será gorgulho,

Pisa-o no chão como à lesma.

 

 

387 – Resiste

 

Um corpo robusto

Resiste à doença

E cura depressa,

Faz com menos custo

Que o íntimo vença

Mal em que tropeça

 

Quando são enfrenta,

Quer uma tragédia,

Quer nova que o tenta.

Quando fraco, em média,

 

Todo mais se agita

E a turvação dura,

Perdura, infinita,

E ao fim nada apura.

 

 

388 – Mentira

 

Quando minha plenitude

É doutrem o sofrimento

É mentira que me ilude.

Então, a qualquer momento,

Chega, sem me aperceber,

A minha vez de sofrer.

 

 

389 – Escumalha

 

Bem mais que a incompreensão

Dos heterossexuais

A escumalha atira ao chão

E aterroriza demais

O jovem que se persuade

De homossexualidade.

 

É impressão devastadora

De que ser homossexual

É ser à margem, de fora,

Mesmo caricatural,

Degradante, se calhar,

E sempre a se exacerbar.

 

Este terror fulgurante

É o das neuroses profundas

Que aos mui jovens adiante

Presas fáceis, infecundas,

Das serpentes vai gerar

Que tais pardais vão caçar.

 

O gosto pela abjecção,

Para a corrupção tendência,

Queda na degradação…

Por quanta mais decadência

Tal imagem responsável

Não é no que é vulnerável?

 

Detém um deles na rua,

Procura-lhe a confidência:

Quanta depressão actua

E que terrível ausência!

E por trás uma palavra:

Angústia – que o escalavra.

 

 

390 – Escrita

 

A escrita dum escritor

É tal qual um palimpsesto,

Camafeu de alto valor,

Um gesto sobre outro gesto.

 

É um texto sobre outro texto

Que já existe anteriormente

Mas que não é, no contexto,

De ver-se imediatamente.

 

Ao escrevê-lo é que à vista

Salta o que antes lá resista.

 

 

391 – Leitor

 

Sempre o leitor subestima

A própria dele importância:

Se com o escritor não lima

De cada frase a elegância,

 

Se o livro não cria junto,

Nunca o livro terá vida.

Envolvimento no assunto,

Ao ler, impõe outra lida,

 

É o que vai distinguir ler

De olhar a televisão:

Nesta passivo há-de ser,

Uma esponja de absorção,

 

Não poderá mexer nada.

Ao ler, somos criadores,

Imaginamos a estrada,

Os cenários, os amores,

 

Vemos rostos a falar,

Ouvimos inflectir vozes…

Autor e leitor vão dar

Um ao outro o rosto e as poses,

 

Encontram-se as duas lavras

Numa ponte de palavras.

 

 

392 – Triste

 

O mais triste de hoje em dia

É que a ciência mais lesta

É, no saber que enuncia,

Do que a Humanidade atesta

Degraus de sabedoria.

 

É por esta discrepância

Que (quanto maior ciência,

Maior o fosso, na instância,

Para a minha conveniência)

Vivo numa inerme infância.

 

Este suplemento de alma

Que anda sempre em falta aqui

É que nos traria a calma:

A par o que em ciência li,

Deste imo que tudo acalma.

 

 

393 – Arte

 

Mesmo em arte a que um artista

É todo vocacionado,

Sobre a qual inteiro invista,

Para a qual vive apontado,

Mesmo ali qualquer ensejo

Aquém fica do desejo,

 

Nunca atinge o patamar

Que era então de desejar.

 

Estamos sempre a tentar,

Tentar a proximidade

Do limite em que apostar

Nossa possibilidade.

No fundo, busco o conduto

De que é feito um absoluto.

 

É o que ninguém nunca atinge,

Que ignora, mesmo se o finge.

 

O que sabemos ao certo

É ninguém nascer senão

Para morrer, longe ou perto:

Só a morte nos tem à mão.

É num além da esperança

Que a vida sempre balança.

 

Quem a esperança perdeu

Liquidou a terra e o céu.

 

 

394 – Tempo

 

O militar tem a glória,

No combate, da vitória

 

E tem-na o comerciante

No lucro somado adiante,

 

Mas um pintor, um artista,

Onde é que a vai ter à vista?

 

Não há nada exactamente

Que determine onde assente.

 

Qualquer arte é especial,

Só tem uma lei geral:

 

O tempo que a percorrer.

O tempo irá preencher

 

Papel final de juiz

Do fruto até à raiz.

 

 

395 – Horizonte

 

A força das circunstâncias

Os horizontes reduz

De cada um a distâncias

A tal ponto que traduz

 

Qualquer barraca em palácio

Que a palácio não convém.

Tudo é relativo, trace-o

Embora o sonho também.

Quando preso numa cela,

Qualquer tenda é liberdade;

Quando o tédio me atropela,

Não há palácio que agrade.

 

 

396 – Corpos

 

Vivemos aqui na terra

E nossos corpos são tudo

Que temos para viver.

Sem o corpo a que se aferra

Esta vida a que me grudo,

Sem suporte, a que me ater?

 

Mera chama sem chamiço,

Não fui feito para isso.

 

 

397 – Ténues

 

Ao longo cambaleamos

De nossas ténues cordas

Individuais que agarramos,

Estendidas pelas bordas

 

Do escuro abismo do medo,

Em meio ao negror da noite,

A oscilar, na boca o credo,

Sem canto que nos acoite,

 

Os dedos enclavinhados

De equilíbrio numa vara

Instável de ambos os lados

Da preocupação que a tara,

 

Dum lado com os temores,

Do outro com os desejos

Que não dão entre os pendores

Ao equilíbrio ensejos,

 

E sempre de ouvido atento

Ao estalido que marca

O brusco quebrar do vento

No fio que corta a Parca.

 

E depois é o sono eterno

Sem mais Verão nem Inverno,

 

Ou daquele em luz perene

Ou deste no escuro infrene,

 

À espera de que algum dia

Se nos desempate a via

 

E que seja para a Festa

Que se nos abra esta fresta.

 

 

398 – Cegos

 

O medo da solidão

Medo de ficar sozinho,

É o responsável malsão

De actos cegos que adivinho,

 

Actos sem os olhos de alma,

Só de forças de matéria,

De temor que nunca acalma,

A nos levar à miséria,

 

Quando a esvair começamos,

Tarde ou cedo, em mera perda,

Tudo o que mais estimamos,

Emprego, filhos, a esquerda

Saúde arrastada em queda,

Da vida desfeita a meda…

 

- E no fim, retrospectiva,

Vence a solidão esquiva.

 

 

399 – Atinge

 

Quenquer sabe tudo

O que há-de fazer

Tomando o conteúdo:

- Consciência do ser

Que alcança a verdade

Quando o Todo a invade.

 

Ao querer saber,

O que vier aceita

E sabe ir perder

E perde sem peita

E uma e outra vez

Perde sem revés:

 

Isto fará parte

Do que sempre é vida.

Consciência que acarte

A fundura haurida

Sabe resumir

Passado e porvir,

 

Nos céus funde na terra.

E o que isso traduz

É que a luz encerra

Toda a terra em luz.

 

 

400 – Artista

 

Todo o artista é um avatar,

Alma que irrompeu no mundo

Para fazer avançar

A Humanidade no fundo

Leito daquela mensagem

Por onde ele faz viagem.

 

Nenhum artista tem medo

Da vida e do seu segredo.

 

Então consegue trepar

Mais alto e trazer mensagens

Inspiradas naquele ar

Que respira nas paragens

Das alturas que reparte

Depois em criações de arte.

 

E o público, quando vê,

Toca qualquer obra de arte

(A que deveras tal é),

Se eleva, à aventura parte:

A espiritual energia

Arrebata o dia-a-dia.

 

 

401 – Funduras

 

Todo o mal que me fizerem

A si próprios fazem antes,

Que as funduras que me gerem

São de abismos mais distantes:

Moro sempre muito além

Do sofrimento que advém.

 

Quem ódio tiver-me a mim,

É dele que o ódio tem,

Que nele reside, enfim,

Ferida a infectar também:

Cada qual projecta fora

O que dentro dele mora.

 

Sempre dum peito magoado

É que o ódio é semeado.

 

 

402 – Gera

 

O sentimento de pena

Gera civilização

De gente muito pequena

Que diz: “Cristo é salvação

 

E por isso sofreu tanto,

Propugnou dele o ideal

E atraiu a dor e o pranto.

Ora, a me escapar de tal,

 

Nenhum ideal vou ter

Nem quero salvar ninguém.”

É a massa amorfa a crescer,

Nem missão nem fito tem,

 

Não tem foco de verdade,

Voga ao sabor da corrente.

Sem visão de eternidade,

Voa ao vento que então vente.

 

 

403 – Fé

 

Ter fé será mesmo crer

Que algo nos há-de ocorrer

E que tal algo, por certo,

É o melhor para aprender

E para evoluir, desperto,

 

Mesmo que, à primeira vista,

Julgue que não e resista.

 

É acolhimento de vez

Contra ventos e marés,

 

É sem condições entrega,

Qualquer que seja a refrega.

 

 

404 – Religiões

 

As religiões já não vão

Da vida espiritual

Ser jamais o coração:

A Humanidade é que vale.

 

Filosofia de vida

É que à espiritualidade

Nos vai levar de seguida

Cada vez mais de verdade.

 

A hora do entendimento

Que nos ajude a viver

Melhor a cada momento

Chegou já para quenquer.

 

É o que ajuda a conectar

Com o divino além, fundo,

Sacra força a nos guiar,

A nos proteger no mundo.

 

 

405 – Espiritualidade

 

A espiritualidade é perceber

E praticar que o que sentimos dentro,

No coração, vai sendo mais o centro,

Cada vez mais em nossa vida e ser.

A certa altura só se quer sentir

Aquele amor, aquela paz de vez,

Aquele estado unido com que um és

Com o Cosmos inteiro no devir.

 

E todos os apelos da matéria,

Bens de cotio, consumo e todo o ter

Deixam então sentido de fazer.

Espiritualizar-se em via séria

 

É o mundo encontrar novo, a prometida

Terra que aguardaremos cada dia.

Questão é deixar o ego que enfuria,

Com os desejos dele a que convida:

 

Jamais “eu quero aquilo” ou “de tal modo”.

É não levar ao céu mente pesada

De matéria, tropeço nesta estrada.

A comunicação com o céu todo

 

É muito mais subtil que a ligação

Com a matéria que é muito mais densa.

Quem não abandonar esta presença

Petrificada e dura, preso ao chão,

 

Já não se eleva acima e não percebe

A subtileza fina de ir ao céu,

Não o atinge, de ansioso, o medo ao léu,

Mais denso acaba e mais grilhões recebe,

 

Remata cada dia mais ligado

À matéria a que vive aprisionado.

 

 

406 – Silêncio

 

Do silêncio de mim mesmo ando a fugir

E através deste silêncio é que sentir

 

A mim mesmo vou poder, saber quem sou,

Para após ir escolher por onde vou.

 

Só sabendo quem eu sou posso escolher

Com o meu arbítrio livre o que fazer

 

 

Sem receio de que a escolha seja ao fim

Contra minha natureza, contra mim

 

E o caminho que na terra vim trilhar.

Respeitando quem eu sou posso triar,

 

Escolher com tal de acordo e os horizontes

No infinito ilimitar criando pontes,

 

Ampliando mais e mais minha energia

Radical, que era a de origem que se amplia.

 

A que é do ego, a que pretende isto ou aquilo,

Por convir a mim mais sê-lo, onde perfilo

 

A defesa de quem vibra pelo medo,

Não se amplia, retrocede, reduz cedo.

 

Ser é a chave da questão: se sou, se ouvir

O silêncio que em mim more, entro em devir,

 

Invencível findarei, que a força vem

Cá de dentro, da impulsão que a crença tem

 

De mover quaisquer montanhas, por poder

De quem crê que pode alar o que quiser.

 

 

407 – Retirar

 

Nunca podes retirar ninguém

Do lugar onde estiver presente,

Conjuntura que o colher além,

Dum parceiro em que ele a vida assente,

- Só porque ele é tal lugar, evento

E o parceiro do comum intento.

 

Retirar não poderás quenquer

Do que ele é, que só lá está por ser

Tudo aquilo e tanto assim que atrai

Para ele quanto houver ali:

Semelhante ao semelhante vai

Atrair, como fatal, a si.

 

Não adianta ocasiões de fora

Dares todas para alguém cá vir,

Sendo quem num outro sítio mora,

Que virá sem o daqui sentir,

Iguais vícios vai de lá trazer,

Tarde ou cedo volta a igual viver.

 

É deixar onde estiver quem for

E ajudá-lo a se moldar melhor,

O que pensa em relação a tudo

Ir mudando, em relação à vida

Como a si, para se olhar desnudo,

De escolher ter a ocasião devida

 

Quem ele é, mas sê-lo então deveras

E parar de ser quem outrem quer.

Com a ajuda nesta crença, as heras

Devagar irão então fazer

As raízes (em que crê) furar

Entre as pedras do anterior lugar.

 

Tal ambiente de ser deixa então,

Pois o choca na novel feição.

Preparado agora a estar começa

Para já dali sair ligeiro,

Já se não confunde mais, tropeça

Contra as bermas que ele foi primeiro.

 

 

408 – Harmonia

 

Deus não é castigador

Mas harmonia entre tudo.

Se o homem desarmoniza,

Desequilibra um pendor,

Do Universo o conteúdo

Todo então se mobiliza

Para tornar a repor

Tudo em devido lugar:

Nada pode isto alterar.

 

O Universo apenas pode

Se expandir, evoluir,

Porque mantém a harmonia

A qualquer custo e fasquia,

Este equilíbrio que acode

Entre opostos em devir.

 

A matéria é de oponentes:

Saúde versus doença,

Riqueza versus pobreza,

Bem e mal sempre evidentes.

Opostos cuja sentença

É equilibrar com presteza.

 

É que o homem vem à terra

Para vivenciar os dois,

Não só aquilo a que se aferra

Nem só o outro que há depois.

 

Quando um ego humano escolhe

Um dos lados dos opostos,

Toda a força do Universo

Se junta e tudo recolhe

A lhe enviar, contrapostos,

Os jeitos do lado inverso.

 

Quem só quer saudável ser

Então, mais cedo ou mais tarde,

Doença irá conceber:

Tem de a vivenciar como arde.

Quando de opostos me teço

O Universo inteiro meço.

 

 

409 – Morrer

 

Não, morrer não é o que pensas,

O que todos cuidam, gritam.

Morrer das matérias densas

É se libertar, que incitam

 

Leis fatais a retornar

Para um uno original,

Voltar à raiz, voltar

Ao sentir mais radical.

 

Quem agiu dele a missão,

Se desenvolveu a termo,

Chegou ao fim da função,

É de partir, deixar ermo

 

Tudo aí, para ensinar

Os mais através da perda.

Apenas é de o limpar

De quantos pesos ele herda,

 

Para que, após a partida,

Apesar do sofrimento,

Para voar na subida

Mantenha o discernimento.

 

É um divino protegido,

Ensina-nos muito a todos:

Da vida e morte o sentido,

Os espirituais engodos.

 

Chegou a hora fatal

De vivenciar a sorte

Da vera perda real:

A perda final da morte.

 

 

410 – Assustaste-te

 

Assustaste-te e tiveste medo,

Fez-te o medo aqui voltar à terra

E prendeu-te num subtil degredo.

Quem tem medo nunca mais desferra

 

E vogar nunca mais vai mar fora

E subir nunca consegue mais.

Quem tem medo fica em baixo agora

Agarrado às ânsias vãs que trais.

 

Fugir de algo atrair vai tal algo:

Quando alguém foge do medo, ausência

Vai sofrer do só jardim fidalgo

Que de medo não tem mais essência,

 

O Infinito, o céu imenso, enfim.

Quando tem medo é sempre um ego a impor-se,

Qualquer alma não tem medo assim.

Quanto mais espiritual se esforce

Por devir, menos alguém tem medo.

Não confundas, todavia, este

Com quem finge e o medo tapa, tredo,

De atributos de que falso o veste.

 

Quem tem medo nunca sobe além,

Quem tem medo não se eleva nunca,

Quem tem medo nunca sonhos tem,

Nunca voa: pobre o solo junca.

 

 

411 – Aliadas

 

Ciência e religião,

Longe de inimigas serem,

Antes aliadas são,

Duas linguagens que auferem,

Diferentes na lição,

A mesma história em função.

 

História de simetria,

Tensão entre céu e inferno,

Quente e frio, noite e dia,

Deus e Satanás no averno.

Assim rejubilaria

Saber de hoje, a fé em dia,

 

Na simetria divina,

Na eterna competição,

Ante que tudo se inclina,

Entre luz e escuridão.

É tudo o que mais fascina

No que na história domina.

 

 

412 – Contraditórias

 

Ciência e religião

Contraditórias não são.

 

Mas, simplesmente, hoje em dia

O que nos é dado ver

É a ciência em demasia

Jovem para o entender.

 

 

Se a contradição subsiste

É estreiteza do que viste.

 

A crise da juventude

Aqui, tal na vida, ilude.

 

 

413 – Facto

 

Em Deus acreditarás?

A ciência diz que Deus,

Se existir, é lá por trás.

A mente, em limites seus,

Diz que jamais é capaz

De entender o que há nos céus.

O coração, ao intuir

O que vislumbra dos véus,

Diz-me que nunca é eficaz,

Não deverei conseguir…

- Deus é o facto que revelo

De nunca vir a entendê-lo.

 

 

414 – Modelo

 

Não pergunto se acreditas

No que o homem diz de Deus,

Mas em Deus, que não debitas

Nenhum modelo dos céus.

 

Há uma diferença ali:

As escrituras sagradas

São lendas, contos que li,

São, história além, pegadas

 

Do esforço da Humanidade

Para poder entender

A própria necessidade

De significado ter.

 

Não te peço, pois, juízos

Sobre uma literatura

Mas se crês em Deus nos visos,

Além de qualquer figura.

 

Quando ficas estendido

De costas num campo em flor,

Sob as estrelas rendido,

Sentes o divino odor?

 

Sentirás lá bem no fundo,

Olhando o esplendor dos céus,

Que estás vendo, aqui do mundo,

O toque, afinal, de Deus?

 

 

415 – Religião

 

Religião, como a linguagem

Ou maneira de vestir,

Atrair-nos-á na imagem

Das práticas a seguir

Em que, infantes descuidados,

Fomos todos educados.

 

No fim, todos proclamamos

O mesmo: que a vida tem

Um significado. Estamos

Gratos ao poder também

Que nos impele e criou

Na magia que engendrou.

 

Muçulmanos ou cristãos

Depende só do lugar

Onde nascemos, que irmãos

Somos todos sempre a par.

É só ver como difundo

As religiões no mundo.

 

Não é a fé que é aleatória,

A fé sempre é universal.

Os métodos e a memória

De entendê-la é que, afinal,

Têm muito de arbitrário,

Que qualquer trilho é sumário.

 

A Jesus rezam alguns,

Outros vão antes a Meca,

E não encontras nenhuns

Que água não busquem à seca

Boca acaso tragicómica,

Mesmo numa bomba atómica.

 

No fundo, mui simplesmente,

Todos andam à procura

Da verdade evanescente,

Uma verdade segura

Que obriga a correr após

E que é maior do que nós.

 

 

416 – Depende

 

A ciência pode curar,

Pode matar a ciência:

Depende, no que a usar,

De que alma põe na ocorrência.

É o imo que mais importa,

Pois decide qual a porta.

 

 

417 – Cava

 

A meta do terrorismo

É criar terror e medo.

O medo cava um abismo,

Mina a fé de qualquer credo,

 

Enfraquece a instituição

E debilita o inimigo

De dentro, do coração,

Agitando sem abrigo

 

As massas que lhe aderiam.

O terror não manifesta

A raiva dos que enfuriam,

Tem mais testa do que atesta,

 

Frecha a infalibilidade

Dum governo e, ao removê-la,

Remove a fé na verdade

Em que o povo houver de tê-la.

Com brechas toda a fachada,

Prestes vem a derrocada.

 

 

418 – Revelação

 

A revelação divina

Às vezes significar

Quer que a mente se te inclina

De vez a sintonizar

 

Teu cérebro para ouvir

O que, em fundura, lá cabe:

O mistério que, ao sentir,

O teu coração já sabe.

 

 

419 – Excesso

 

O excesso de informação,

Longe de satisfazer

Interiormente quenquer,

Esvazia à exaustão.

No meio termo, a virtude

É o que afinal nunca ilude.

 

 

420 – Fujo-me

 

Pouco importa se me grudo,

Se rezo todos os credos,

Se prendo o tempo, se o travo:

- Por mais que me agarre a tudo,

Fujo-me por entre os dedos

Sem apelo nem agravo.

 

 

421 – Falta

 

Não será falta de fé

Que os homens leva a temer

O escrutínio da razão?

Se o fado irregular é,

Então a via há-de ser

De medo por todo o chão.

 

Uma fé robusta não

Precisa de ter receio,

Que, se Deus existe, então,

Fuja embora pelo meio,

Não pode a razão deixar

De até Ele nos levar.

 

Penso, o que implica, o que insiste,

Que, portanto, Deus existe.

 

 

422 – Máquina

 

Máquina a democracia

Não é que vá funcionar

Por si própria, por magia.

Sempre há-de solicitar

Quem o valor aprecia

Tudo dentro a fermentar.

 

Como a livre economia,

Sistema em mercado aberto,

Por si nunca operaria:

Alguém tem de andar por perto

Orientando a energia,

Refreando o desacerto.

 

Para termos a certeza

De que o que ali persuade

É um aumento de bondade

Mais que apenas de riqueza.

 

 

423 – Erro

 

Um erro fundamental

É o de nos havermos posto

No mundo só com cabeça.

Doutro lado, nem sinal:

Vamos arrastando o gosto

Como algo em que se tropeça.

 

Doravante estoutras partes

Se orientam só de acordo

Com animalescas artes

- E é por isto que o chão mordo:

Não cultivámos, primeiro,

Em nós o homem inteiro.

 

 

424 – Carrossel

 

Não é um acto a diversão,

É de espírito um estado.

Não é um carrossel no chão,

Que este pode ter girado,

 

No fundo, bem deprimido.

Diversão é andar à mão

No carrossel assumido

Como festa até mais não.

 

Assim é que é festa a vida

Quando é do fundo assumida.

 

 

425 – Fiéis

 

Gostaria de pensar

Que é Deus mais iluminado

Que os fiéis que conquistar.

Para Deus, recém-chegado

 

Qualquer pagão curioso,

Seria logo benvindo,

Pois descobriria o gozo,

Em tudo o dele provindo,

 

Doutra forma de ser crente.

De estranhar é, nesta jeira,

Que o altar jamais o sente,

Não lavra desta maneira.

 

 

426 – Ancestrais

 

Todas as normas e regras

Vão trazer raiva e tristeza,

Mesmo se delas te alegras

Por virem de quem se preza,

De Moisés, de Jesus Cristo,

De Buda ou Madre Teresa,

De ancestrais por quem subsisto.

 

Mas não era intuito deles

Que foram interpretadas

De forma tão rigorosa.

O que torna um homem reles,

Que o leva a abrir as portadas

À fachada mentirosa,

Às invejas, à violência,

É o que há dele na vivência,

 

É o que dentro cultivar.

É o que dentro dele preza

Que o há-de contaminar,

Não é o que é da natureza.

Nunca o que lhe vem de fora

Marca dentro o que ali mora.

 

 

427 – Fidelidade