QUINTO  TROVÁRIO

 

 

               E,  POEMA  IRREGULAR,  DE  AMOR  DISPONHO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha ao acaso um número entre 560 e 657, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                560 - E, poema irregular, de Amor disponho

 

                                                E, poema irregular, de Amor disponho

                                                Rimando apesar da irregularidade,

                                                Que o amor que proponho

                                                É que traz a norma ao sonho

                                                Que há-de um dia devir realidade.

 

                                                O acerto no desacerto

                                                É do amor a regra

                                                Com que todo o longe perto

                                                Integra.

 

                                                Fermento na massa,

                                                É sempre no longe e na distância

                                                Que o amor que aqui me toca ao fim perpassa.

 

                                                Mais que homenagem à beleza e à elegância,

                                                O amor sacia do infindo qualquer ânsia.

 

 


561 - Espiritualidade

 

Será que amei, que amo deveras,

Não daquele amor que cobra,

Que quer em troca as quimeras

Ali mesmo feitas obra,

 

Mas daquele amor infinito

Que recebo ao exercitar

A espiritualidade que em mim concito

E que distribuo ao calhar,

 

Com gratuita generosidade,

Por toda, toda a humanidade?

 

 

562 - Adivinha

 

Quem pelo Amor se oriente e deixa atrair

Adivinha que lá em cima algo deve existir.

 

Mesmo que não veja seu Eu Superior

Há-de-o pressupor

Instintivamente

A ajudar nas árduas tarefas

De viver, presente

Da matéria entre as ambíguas sinalefas.

 

Os que por aqui vão

Farão menos perguntas,

A ser limitar-se-ão:

És tanto mais quanto mais juntas

Mente e coração.

 

Ser é saber que sentir

Determina tudo:

A missão a prosseguir,

O foco a que me grudo

E como chegar ao cume do nadir.

 

Aponta se estás no rumo certo,

Se ainda o não encontraste,

Se corres longe ou perto

Quanto baste.

 

Ser é saber sentir,

Utilizar a mente

Para dar vida, as portas ao abrir,

Eficaz, ao que se sente.

E, para tal,

Se entregar,

Total,

Confiar.

 

Acreditar

Que nas alturas da interioridade

Tudo e todos andam atentos

A enviar sinais em continuidade

E que estes apenas são

Argumentos

Compreendidos pelo coração.

 

Os sinais enviados

Não são lógicos traslados:

 

Aos lógicos somente

Os entende a mente.

 

Ora, o que pela mente é descodificado

É um arremedo:

Anda inexoravelmente

Camuflado

Pelo medo.

 

Os sinais que a profundeza relata

Dela no vulcão

Têm leitura imediata

No coração.

 

 

563 - Provável

 

A mulher tem razão:

É mais provável findar condenada

Uma relação

Se não houver a camaradagem que lhe agrada.

 

E o homem tem razão:

Maior perigo

Corre a relação

Se não houver de independência algum abrigo.

Demasiado afastamento

Acabará por matar, sem resquício,

O amor que acalento

De início.

 

Demasiada proximidade

Que ao outro não permite

Ser ele próprio de verdade

Mata o casamento num desquite.

 

A chave do sucesso

É abrirem juntos, com tino,

Caminho às energias do progresso

Masculino e feminino.

 

 

564 - Rituais

 

Casal feliz em casamento feliz

Cria rituais de ligação:

Para sair, noites de fadas com cariz,

De família serões de atar a união,

Por telefone conversas,

Por electrónico correio,

Quando um deles viaja pelo meio

Das berças…

 

Tais rituais devirão o pilar

De sustentação do lar.

 

Nem todos os momentos da relação

Íntimos terão de ser.

Marido e mulher

Sabem quais

Os rituais

De ligação

Que do amor

Mantêm o poder

Quando a vida se agitar com mais furor,

Tensa.

 

E nela não há mais imprevisto nem furacão

Que os vença.

 

 

565 - Domínios

 

Felizes os que um ao outro permitem

Domínios conjugais privados diferentes

Que os não limitem,

Antes incitem

Contentes.

 

Criam grupos de amigos diferentes

E um ao outro incentivam

As amizades que, separados, cultivam.

 

Se um projecto, um passatempo, um desporto,

Uma forma de socialização,

É para qualquer deles o porto

De salvação,

O outro, sem mais apelos,

Logo ajuda a promovê-los.

 

Deste modo, cada parceiro

Tem o próprio domínio,

O tempo dele por inteiro,

A actividade de fascínio

Que lhe transmitem poder

E o sentimento de ser.

 

É deixar a biologia

Dar o rumo, ser o guia

 

Do amor que mais se preza

Natural e duradoiro.

Em seu peloiro,

Muito sábia, muito sábia é a natureza!

 

 

566 - Acabando

 

Ela pode apaixonar-se

Por um homem forte

E depois perde o norte

Por não conseguir

Manter nenhuma competição

Que aos dois os não esgarce

Fora da relação,

Acabando por a destruir.

 

Se ele obtém reconhecimento

E ela, em lugar

De com o facto se alegrar,

Do êxito dele fica com ressentimento

E descobre maneira de o ofuscar,

Tal competitividade atropela

E destrói o amor do marido por ela.

 

Se aos êxitos dela ele reagir

Como se ela o estivera a vencer

Ou superar, a seguir

É dela o amor por ele que irá morrer.

 

Se ambos forem incapazes

De pôr cobro à competição,

Qualquer desafio traz as tenazes

Que lhes estrangulam o coração.

 

Do irrelevante ficarão sob o império

Quando tomado demasiado a sério.

 

 

567 - Silentes

 

Como águas silentes são profundas,

Afectos introvertidos à superfície não bolem.

Tais vivências, por mais jucundas,

Ao não ser demonstrativas,

Levam a que nelas se atolem

As pessoas acaso mais significativas

Para alguém,

Porque poderão

Jamais descobrir que o são.

 

A solidão valorizada

Devém,

Então, abandono,

Quando a pessoa amada

Ignora tais afectos

E deles o dono

Larga sem tectos.

 

Também

É triste quando alguém

Quer ser amado por este amor das profundezas

E o consegue,

Mas, das represas

Irremediavelmente incerto,

Quando ele adregue

Nunca o sabe ao certo.

 

 

568 - Possessiva

 

A possessiva mulher

Cresce quando se liberta

Da urgência de manter

Os mais dependentes, sob a coberta

De mentores, tutores e aias,

Debaixo das saias.

 

A dependência mútua, ao fazê-lo,

Pode transmudar-se em apreciação

E afecto mútuos, num singelo

E permanente da vida serão.

 

 

569 - Sonho

 

Tanto o homem como a mulher

Precisam de imaginar

Que o sonho deles é viável

E de ter

Outra pessoa qualquer

A olhar

Para eles e para o sonho inefável

Com a vontade estimuladora

Do desenvolvimento que demora.

 

Tão poucas mulheres líderes, artistas,

Maestrinas, filósofas, escritoras!

Faltaram-lhes nas pistas

Mãos do sonho portadoras.

 

As mulheres têm

O sonho dos homens alimentado.

Os homens, por seu lado,

Não têm muito bem

Tido na conta devida

O sonho das mulheres de sua vida.

 

 

570 - Atraídos

 

Sentimos a alquimia

Quando somos atraídos por alguém

E nos apaixonamos da noite para o dia.

Sentimo-la também

Quando somos tocados dela pelo poder

De transformar, criar e surpreender.

 

Sentimo-la quando avaliamos

A magia de transmudar

Aquilo em que nos focamos

Num belo, valioso, pleno de fulgor

Raio de luar

Quando o imbuímos de amor.

 

O mais vulgar e tosco,

O material vil da vida quotidiana,

Porventura de mau agoiro,

Pode, afinal, de fosco

Transmudar-se em fulgor de oiro,

Quando de mim dimana

A faísca de pasmo

Pela alquimia de meu entusiasmo.

 

 

571 - Dançámos

 

Dançámos a melodia que deveio

Nossa naquele instante.

Mantivemo-nos calados no meio

Das vagas do mundo, para trás, para diante,

Enquanto eu a fazia de leve girar,

Numa rapariga a transformando a me olhar

Como nenhuma outra me olhara,

Para além, infinitamente para além de minha cara.

Perante isto senti-me mais que um príncipe qualquer,

De minha patrulha à vida nas rondas,

Acabado de nascer

Na crista das ondas.

Conferiu-me a beleza

Que eu não detinha.

Minha alma orgulhosa ficou e surpresa

Da fúria de gavinha

Com que me desejava

E a meu imo se enrolava.

Senti-lhe o ardor

A criar

Algo de luminescente

Em redor

E o mundo desatou a meus olhos a brilhar

Até à fímbria do horizonte infinitamente.

 

 

572 - Palavra

 

A palavra ajuda mas não é precisa,

Amor é limpar o vómito da camisa

E da cama da mãe,

A diarreia dela que o chão tem.

É voar todo um continente

Ao saber que ela está doente.

É ir buscar

Um irmão inacessível

E trazê-lo sem o magoar

Do chão até ao nível.

É trazer um pai bêbado a casa

Centenas de vezes, centenas,

Durante uma vida que se abrasa

Nestas penas.

É criar sozinho e com brilho

Uma filha, um filho…

 

Amor é agir, que isto é que dói.

- Não é conversa nem nunca o foi.

 

 

573 - Mulher

 

A mulher mais precisada

Urgentemente,

Não de arrimo,

Mas de ser libertada

É a mulher presente

De cada homem no imo:

Quem é

Nem ele nem ninguém vê

Da terra ao cimo.

 

 

574 - Forja

 

Um amor não consumado,

A mulher inatingível,

O afecto não retribuído

Têm sempre alimentado

O fogo da forja imarcescível

Que transforma o íntimo sentido,

Quando em mim a vivo

Como um arquétipo activo.

 

O fogo da forja é a paixão

Irrealizada, sem chão,

Que inspira muito do trabalho criativo.

 

 

575 - Ferida

 

Nossos pais são quem nos fere:

Todos temos uma ferida parental

E um progenitor ferido, por igual,

Cuja ferida com a nossa confere.

 

A ferida tornada mito

E o ferido progenitor

Transmudam-se no modelo inscrito

Como regulador,

Em seguida,

Em que o progenitor é lido como a ferida:

Responsabilidades tais

Atribuímo-las a nossos pais.

 

O dito, porém,

De que o progenitor é a ferida

Pode significar também,

Doutro modo a palavra entendida,

Que feridas tais

Podem-nos, afinal, servir de pais:

Poderão devir, se não tomarmos tino,

No pai e na mãe de nosso destino.

 

 

576 - Privilegia

 

Vivemos num patriarcado

Que privilegia os preferidos

E o favoritismo vive incorporado

De nossa psique em todos os sentidos.

 

Nossas atitudes

De repúdio ou de acolhimento

De partes de nós como vícios ou virtudes

São moldadas a todo o momento

Pela família ou pela cultura,

Na espontaneidade incônscia que as apura.

 

Com quem nos assemelhamos

Individualmente mais,

Dos arquétipos quais

São mais nós, são nossos ramos,

Eis das predisposições as vertentes

A nós naturalmente inerentes.

 

Depois

Serão bem ou mal aceites,

O que cada um retalha em dois

Quando bem de perto o espreites.

 

 

577 - Nível

 

A nível privado,

Individual,

O patriarcado

Molda, em geral,

A relação entre pai e filho,

O modelo, o nó e o cadilho.

 

A nível mais exterior,

Dos costumes,

Os critérios patriarcais de valor

Determinam os traços, os portões e os tapumes,

Os padrões estimulados e recompensados,

E, portanto,

Os arquétipos que primarão, sobrelevados,

Sobre outros que perderão encantos,

Tanto dentro dum homem como entre todos.

 

Para melhor

Se conhecer

E então dispor

De mais poder,

Um homem tem de descobrir os modos

De ganhar consciência

Desta influência

Nas atitudes e comportamentos:

Tem de compreender o patriarcado,

Como dele sopram os ventos,

Como o modela por todo o lado,

Como, com ilusórios brilhos,

Lhe molda os filhos…

 

Apenas então a viabilidade vislumbra

De qualquer lonjura que o deslumbra.

 

 

578 - Cólera

 

Quando a cólera e os punhos

Se viram contra mulheres e crianças,

Os testemunhos

Que do homem belicoso alcanças

 

É que foi espancado e humilhado

Em miúdo

E se transformou então, depois de tudo,

Num maltratado

Que maltrata:

 

Dele qualquer emoção,

Fera na mata,

Desencadeia uma agressiva reacção.

 

No corpo dum homem destes

Habita

Uma criança maltratada,

Aterrorizada,

Humilhada,

Sempre doravante prestes

À desdita

De fustigar ou espancar

Quenquer:

Basta congeminar

Que pô-lo de lado há-de querer.

 

Perpetuam-se em cordões

Os pecados dos pais

Ao longo das gerações,

Repetindo obsessivos gestos iguais.

Para sobreviver à temível infância

Cada qual reprimiu o terror e a impotência

E, em consequência,

Não reconhece a importância

De se colocar

Da vítima no lugar.

 

Melhor que ninguém deveria

Imaginar o que é ser espancado

Por alguém descontrolado,

Capaz duma razia

De danos,

Já que nas feridas tanta vez infectou panos.

Não consegue, porém,

Empatizar com a vítima sem

Correr o risco de revelar

A vítima que foi no antigo lar.

Então o actual devém

Campo de batalha onde pode maltratar

A família que tiver formado,

Mal suspeite que é posto de lado.

 

Da guerra o arquétipo raivoso

Age em nome da criança que o habita,

Do garoto humilhado, maltratado, que, desgostoso,

Se tornou, do lar para desdita,

Bastante poderoso

Para toda a violência que o agita.

 

 

579 - Separe

 

O mundo patriarcal requer

Que o homem se separe a vida inteira.

Cada ruptura há-de-o romper

De dupla maneira.

O menino que é da mãe afastado

Separa-se dela emocionalmente

E de seu pendor íntimo é separado

Que próximo dela vivera presente.

 

O menino que vai para a escola

E descobre que não pode revelar

A inocência ou ignorância que leva na sacola,

Que dele irão troçar,

À postura se molda aceitável:

Rompe com o inocente

Que lhe vivia agradável

No corpo e na mente.

O rapaz cujo melhor amigo

Não lhe acompanha a passada

Rompe com a amizade no primeiro abrigo

E com a parte dele que se condoía a cada topada.

 

O que chorava quando triste

E aprendeu a não chorar

Pôs cobro à língua que já não existe

E contra as emoções teve de se barricar.

 

Na ruptura entre homens e rapazes

Sacrifica-se dos jovens a inocência inteira

Para eles serem capazes

De integrar dos homens a fileira.

 

Num mundo onde o valor é definido

Pela económica recompensa,

O maior êxito é exercido,

Contra o que a maioria sente e pensa,

Em escritórios e gabinetes

Onde esforçado te metes.

 

Há muito quem germine

Neste ambiente

Mas é normal que ele à maioria mine

A semente.

 

Uns a terra gostariam de trabalhar,

De laborar com as mãos,

De música gerar,

De educar crianças, do mundo pelos desvãos,

Mas nunca o protagonizam:

Deles próprios romperam com esta parte

E o que visam

É meramente de escritórios e gabinetes arte.

 

Acumulam a perda

E, pela meia idade,

O que cada qual herda

É a depressão que o invade

Com sentimentos de mágoa e solidão

E o aguilhão afiado

Duma sensação

De falta de significado.

 

 

580 - Amigo

 

O bom amigo vimos

No trilho de nossa dificuldade

Quando lho pedimos.

O grande amigo, sem o sentirmos,

Agrade-lhe ou não lhe agrade,

Fá-lo sem lho pedirmos.

 

 

581 - Filho

 

Um filho é uma promessa

Que o tempo faz a um homem,

A garantia em que cada pai tropeça

De que sejam quais forem as freimas que o consomem,

 

Aquilo a que tenha mais apego

Será um dia tido por loucura.

E aquele a quem mais ama, do mundo no pego,

Nunca o irá compreender, finalmente, porventura.

 

 

582 - Perca

 

Há muito quem perca a vida

A querer o que não deve.

O mundo confunde a lida

E faz que leve

Quenquer a dirigir-se, nas jornadas,

Para as metas erradas.

 

O requisito-mor

Que ser feliz acoberta

É amar o que é digno de amor

Na medida certa.

 

Não os livros nem dinheiro,

Nem qualquer coral de loas,

Nem da carreira o sendeiro,

- Mas apenas as pessoas!

 

Adultos

Que não entendam tais matrizes

São estultos

E nunca serão felizes.

 

 

583 - Perdemos

 

Perdemos a vida a correr

Dum para outro lado

Atrás do prazer.

E ele sempre nos tem escapado

Por entre as mãos sem jeito,

Deixando cada qual insatisfeito.

 

Procuramos ser felizes

A todo o custo

Sem nos interrogarmos sobre os matizes

Do que é justo,

Se ao fazê-lo não estaremos também

A magoar alguém.

 

Dispostos a tudo,

Acumulamos e defendemos bens.

Nenhum é durável, por mais graúdo,

Nem é a fonte que tens

Jorrando à beira

A felicidade verdadeira.

Na vida o que te acende o calor

É por outrem ter amor.

 

 

584 - Pendor

 

Os que vêem todo o mundo

Pelo pendor pessimista

Em ninguém confiam, no fundo,

E sentem-se sós, no termo da lista.

 

Tudo somente

Porque nos mais não pensam

Bastantemente.

 

E então os apensam

Deles à medida,

Cuidando que os mais os apercebem,

Em seguida,

Como eles os olham na pessimista mira.

Não concebem,

Maninhos,

Que assim não admira

Que se sintam tão sozinhos.

 

 

585 - Preterir

 

Ao correr da idade

Todos temos a tendência

A preterir qualquer humana qualidade

Natural de evidência:

A compaixão, a bondade,

O bom entendimento,

De perdoar a capacidade,

O culto do bom sentimento…

 

Na infância

Ligámo-nos aos outros facilmente,

Sem ânsia,

Tudo foi água corrente.

Bastou rir uma vez

Com outrem juntamente

E ficámos amigos por um mês,

O que era então uma vida inteira em frente.

Que nos importou o trabalho ou raça dele!

Bastou ser humano

E termos criado a amizade que nos impele

Na aragem dos dias a todo o pano.

 

Crescemos, porém,

E cada vez demos menos importância

Ao afecto, à amizade, à entreajuda,

Veio o desdém,

Veio a ganância,

Veio a inveja mais bicuda…

 

Deveio fundamental

A raça, a religião,

O país donde cada um é natural,

A cultura, a feição…

 

- Obliterado o mais importante,

Passa o irrisório para diante.

 

 

586 - Solidão

 

A solidão que nos consterna

É por andarmos tão atarefados

Na vida moderna.

Por alguém sermos abordados,

Mesmo que apenas para um "olá!",

É sentir que foram esbanjados

Dois segundos, já!

Ainda mal findámos de trabalhar

E já mergulhamos no jornal,

As notícias a verificar.

 

Ignoramos o principal:

Conversar com um amigo

O tempo equivale a perder

A olhar para o próprio umbigo

E assim quenquer

Devém o seu próprio inimigo.

 

 

587 - Indiferença

 

A indiferença relativamente aos mais

É o pior dos piores defeitos.

Pensar em si apenas, sem mais eleitos,

Sem querer saber da várzeas nem pantanais,

São binóculos de olhar o mundo tão estreitos,

Envergadura de pensamento

Tão fraca, tão de vento,

Que a dimensão interior se adivinha

Maninha por inteiro e mesquinha.

 

Dos outros dependemos

Desde que fomos concebidos

E nascemos

Despidos.

 

O futuro e a felicidade

De que disponho e a que me fundo,

O mais pequeno objecto utilizado,

A mera sobrevivência quotidiana

Decorrem do trabalho acumulado

Da inteira raça humana.

 

A oração e outros rituais

Terão efeito garantido, porventura,

Do outro lado, noutra figura,

Mas é o acto que praticais

Que o mundo configura.

 

 

588 - Agitadamente

 

À cólera ao ceder

Jamais temos a certeza

De fazer mal ao inimigo.

Podemos, todavia, ver

Que o faremos, sem defesa,

A nós próprios, por castigo.

Perdemos a paz interior,

De agir correctamente não somos capazes,

Digerimos mal e com dor,

Não dormimos, agitadamente tenazes,

Repelimos quem nos visita,

Enfuriamo-nos, em desalinho,

Contra quem tem a desdita

De nos cruzar o caminho.

 

Tornamo-nos impossíveis

Aos que vivem connosco

E os amigos mais credíveis

Com um esgar corremos tosco.

E como cada vez menos

Resta quem connosco simpatize,

Cada vez ficamos mais distantes e pequenos,

Sozinhos neste deslize.

 

Quanto ao suposto inimigo,

Tranquilo sentado em casa,

Se um vizinho lhe lobrigo

A contar como me arrasa,

 

Como ele fica contente!

E depois, se ele vislumbra

Que ao hospital mui doente

Fui parar, como o deslumbra!

 

Irritar não tem sentido:

Um inimigo punir

É calmo haver reflectido

No que fazer a seguir.

 

 

589 - Luz

 

O amor fortifica

Mas acaba por cegar

Quem por amor se deslumbrar:

A luz tão mais forte fica

Quão mais densas nos ameiam

As trevas que nos rodeiam.

 

 

590 - Impotência

 

A impotência desesperada partilhar

De ver crianças a morrer

Porque não há nada para lhes dar

Por parte de quenquer,

Sequer!

 

Assistir apenas,

Sem probabilidade de solucionar,

Como é difícil a nossas mãos pequenas,

Mas como é tão importante

Manter o lugar

Firme, constante!

 

Simplesmente estar lá,

Estrela apontada ao norte

Na noite má,

Para partilhar o sofrimento

Da vida e da morte,

Do nascimento.

 

Quando já nada temos para dar,

Somos forçados a abrir os corações

Para compartilhar

Dos outros a dor das emoções.

 

Que dizer,

Partilhar que sentido

Com a mulher

Cujo filho acaba de ser abatido

Ou cujo bebé morreu de subnutrição

Ou à que não tem dentro do lar

Uma côdea de pão,

Quando vivemos na mesma condição

De desespero singular?

 

Mais difícil é fugir,

Algo que por dentro nos aqueça

Tentar atingir

Por atacado ou à peça,

- Mas apenas na partilha silente da dor

Se revela o amor.

 

 

591 - Cuidado

 

Bem mais importante

Que fruir

De bens e de objectos

É descobrir

O amor, o cuidado constante

Com que, por mil trajectos

Mal adivinhados,

Foram sendo produzidos,

Reunidos,

Embalados.

 

Cada vez que reparo

Em minhas pobres

Riquezas,

Elas falam-me, nobres,

Do carinho e do amparo

Daqueles que, recolhendo as presas,

Tão cuidadosamente tiveram de pensar

No que eu haveria de precisar.

 

 

592 - Coragem

 

A coragem de morrer por suas ideias

É uma das sequelas

Dos que não viverem a meias,

Tiveram a coragem de viver por elas.

 

A vitória final sobre o medo e a dor

É a gloriosa etapa derradeira

De mil vitórias e derrotas, no fervor

Da luta travada diariamente, na canseira

De cada momento,

Na mente a das almas humanas no abismo:

A luta contra o fermento

Do egoísmo.

 

Batalha inglória e absurda

Para os que ficam de fora:

Negação constante do que o desejo urda,

Ficar na cama com demora,

 

Comer e beber para além do justificável,

Com os estúpidos ser intolerante,

Acumular bens em montanha interminável,

Da fome do vizinho passando adiante…

 

A liberdade é um trilho lento,

Radicalmente doloroso.

Não é frumento

Dos que não têm um horizonte luminoso

 

A atrair,

Uma bandeira por que lutar.

Liberdade é apenas de quem fremir,

Rendido à energia angular:

- O amor.

 

Amor aos homens que é o amor a Deus,

Unidos terra e céus,

Os dois lados do mesmo cimeiro

Fervor,

Quando o amor deveras for

Íntegro e verdadeiro.

 

 

593 - Amorosos

 

Quando amorosos um homem e uma mulher

Coabitam,

Deus está com eles,

Penetra-lhes as peles,

E o prazer

Que habitam,

Preciso,

É premonição do Paraíso.

 

Dum homem e duma mulher o amor

Que considerais acaso o pecado maior

É, por natureza,

Oração que reza,

As glórias conclamando seguras

Do Deus das alturas.

 

É da estupidez humana

A torpeza,

A sujidade,

A pecaminosidade

Que dele acaso dimana.

 

É um bloqueio na estrada,

Mais nada.

 

Removido,

Tudo volta a ter o originário sentido.

 

 

594 - Receber

 

Neste mundo o melhor

É receber algo de graça.

O pior

Que nos retraça

É dar algo que desemboca

Em nada, em troca.

 

Por isto é que o amor

Que é gratuito

Dói muito

Mas é tão compensador:

Inaugura sempre, no fundo,

Outro mundo.

 

 

595 - Operar

 

Quando alguém operar com o coração,

Temos de permitir-lhe que o faça,

Que o poder de amar expande-se-lhe então

E o ultrapassa.

 

Se lhe negar

A oportunidade,

Já de o alcançar

Não terá porventura mais capacidade.

 

 

596 - Enamorado

 

"Tendes a magia

Da luz da Lua"

- O enamorado confia,

Encantado, da rua.

 

"Não é minha a luz

Que vedes em mim.

Antes traduz,

Enfim,

A que, vinda de vós, concito

E, como um arrebol,

De mim após reflicto:

Não há Lua sem Sol."

 

Novos ou velhos,

O mesmo fulgor,

- É o jogo de espelhos

Do amor.

 

 

597 - Esperes

 

Não esperes amor

De quem o não souber sentir.

Não o odeies, apieda-te do negror

Que o cobrir,

Porque nem sequer

Pode sofrer,

Já que por ninguém nada sente

Nem por ele próprio tão somente.

 

Teu sofrimento

É amor, é sentimento,

Pois a dor

Do amor pela ausência

É verdadeiro amor,

É de amor essência.

 

Um dia há-de ele desejar

Ter como tu sofrido,

Ter podido

Vibrar

Alguma vez, com pudor furtivo,

Por alguém:

- Ter-se sentido também

Vivo, vivo, vivo!

 

 

598 - Alavanca

 

O amor é a alavanca do Universo,

Material de que tudo é construído,

Motor direito e inverso

De tudo o que é movido.

 

Quem o próprio íntimo dele enche

Participará do Todo

E da força que o preenche

E eis o seu melhor engodo.

 

 

599 - Carne

 

Um caso de amor,

Carne viva enxertada em carne viva,

É plástica cirurgia de tal teor

Que rompê-lo equivale, em recidiva,

De nós mesmos a vermos arrancados

Grandes bocados.

 

 

600 - Amado

 

É aquilo o amor,

De angústia aquele sentimento,

De amputação espiritual, a frio a dor,

Quando o ente amado está longe a todo o momento.

 

É aquele desejo louco,

Escaldante, de olhar

Com olhos de ver

A vastidão de experiência sempre de sabor a pouco,

De a sentir e o sabor saber

A um coração a pulsar.

 

Triunfo e desespero,

Auto-glorificação ou auto-humilhação

São as moedas falsas que circulam no atoleiro,

Constantemente e sem travão,

Sem peias na lei

Da humana relação

Nem da teia da grei.

 

O coração,

O coração apenas,

Sabe dar sem restrição,

Ilimitadamente, nas horas grandes e pequenas.

 

 

601 - Todos

 

Todos estamos perdidos

Como todos encontrados,

Todos caídos,

Todos levantados,

Os homúnculos tal qual

Os semideuses, tudo igual.

 

E nenhuma segurança

Existe, ao fim, neste mundo,

Nem nas armas que se alcança,

Nem no paiol que encho ao fundo,

 

No esplêndido isolamento,

Na riqueza de mil fados,

Num novel conhecimento,

Saberes ilimitados…

 

Não, nenhuma segurança,

E