SÉTIMO  TROVÁRIO

 

 

                                            REGRAS  A  DEFINIR

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha ao acaso um número entre 763 e 909, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                763 - Regras a definir

 

                                                Regras a definir

                                                O poema irregular rimando vai

                                                No caminho do porvir,

                                                Os passos vida além a dirigir

                                                Pois sem norma tudo em fumo se esvai.

 

                                                São roteiros do caminho,

                                                Mapa de estradas

                                                Enrugado dos fios de linho

                                                Com que tropeço nas jornadas.

 

                                                As normas vão modelando

                                                As pegadas hesitantes

                                                Que no escuro se aventuram nefando.

 

                                                E assim me garantem constantes

                                                O apresto dos instantes.

 

 


764 - Justiça

 

Do Homem a capacidade

Para a justiça obvia

A Democracia.

Do Homem a inclinação

Para a injustiça atrabiliária

Há-de

Então

Tornar a Democracia necessária.

 

 

765 - Odeio

 

Odeio a ordem em que alguém

É arvorado em superior:

Não há raça nem povo nem ninguém

Da superioridade com a cor

Nem o teor.

 

Creio na diferença

E no potencial dela

Para rasgar novas regueiras de mantença

Para todos, em cada gabela.

 

E jamais como arma de arremesso

Contra a inferioridade mentida

De quenquer com que tropeço

Na vida.

 

 

766 - Mente

 

Deveria a mente apenas servir

Para analisar e viabilizar

O que todo o mundo sentir

E não para aniquilar,

Como actualmente,

O que mais fundo sentimos,

Através do que a razão argumente

Mais dos medos que aduzimos.

 

Assim dele próprio e dos mais,

Radicalmente,

Acaba cada qual por demais

Hoje em dia ausente.

 

É um desvio

Que dentro em nós represa o rio:

 

Já não atingem as levadas

As campinas desertificadas.

 

 

767 - Escolhes

 

Escolhes primeiro quem gostarias de ser,

Depois procuras o que fazer

Para reflectir tal personalidade,

A qual, de tanto a querer,

Julgas a teus pés,

Que é tua vera identidade.

 

Então, em vez

Dum trabalho que reflicta quem no fundo és,

Irás ter

Um trabalho para poder ser outro qualquer.

 

Daqui brota a perca:

Vai desgastar tua energia,

A partir de tudo o que te cerca,

O mal-estar deste trabalho dia a dia.

 

O desemprego

Então de alerta é o susto contra o apego:

 

Se o ouvires, de ti na esmagada parte,

Poderás vir a encontrar-te.

 

 

768 - Cais

 

Qualquer vida tem destino,

Tem um cais onde aportar.

Para onde é que me inclino

Dedos de alma o hão-de apontar.

 

O livre arbítrio, porém,

É sempre meu, sempre teu.

Podes escolher ir por além

Ou não,

Conforme o prato da balança pendeu:

O eu superior

Conhece bem a missão,

O inferior

Pode escolher cumpri-la ou não.

Do mapa cada um deles tem a metade:

O tesoiro só o iremos encontrar

Quando, em verdade,

O mapa se completar.

 

 

769 - Reino

 

Para ficares seguro

Em teu reino da matéria,

Do trabalho todo o apuro,

Da carreira toda a féria

Decides que é de raiz

O que te fará feliz.

 

Se para teu consciente

Encarrilas tal focagem,

Só te sentes bem presente

Do trabalho na voragem,

Só te sentirás completo

A laborar em concreto.

 

Trocas ser pelo fazer,

Só fazendo logras ser,

 

Teu emprego é a segurança

Que te alcança.

 

Espiritualmente, de vez,

Nada disto, porém, funciona em quenquer:

Deverás fazer porque és,

Não para ser.

 

Primeiro, és quem fores, no fundo de ti.

Depois de te descobrires ali,

 

Irás então acolher

O que fazer,

 

De modo que reflicta a tua escolha:

Quem tu és deveras, em toda a malha de recolha.

 

 

770 - Perda

 

Descobrir que a perda tem um motivo,

Que há um motivo na doença,

Que o despedimento que vivo,

Que a falência, a morte que nos vença,

 

Na perspectiva do céu,

Têm um motivo, debaixo do véu

Que de além os encobre,

 

Mesmo que eu mais nada aprenda,

É já um avanço em que me desdobre

E a que me renda.

 

Cuidar que a perda não é por acaso

É parar de culpar os mais

De a tal conjuntura darem azo

E parar, infecundo,

De me vitimizar perante o mundo.

 

É urgente aprender os sinais,

Mudar é desejável e fatal:

A muda limpa as almas triviais,

Limpa a vida real.

 

Ao mudar,

Ouvindo a voz interior

E acolhendo o que ela vier propor

(Embora apenas ainda um mero sentimento),

Ao mudar hei-de logo evitar

A perda, no próprio momento.

 

À muda quanto menos alguém resistir

Menos se irá deparar

Com o bloqueio do caminho do porvir

De quem recusa andar.

 

E sempre deverá ser feita a muda

Antes que a ventania a torne aguda.

 

 

771 - Comunica

 

Contigo comunica tu imo sublime,

Mesmo quando o não vês:

Qualquer alma exprime

Ao coração o que és,

Nunca à cabeça

Que nele apenas sempre tropeça.

 

Quão mais alto trepas

Mais teu imo comunica

Com teu coração,

Maior a emoção

Te eriça as repas

No chão que te fica.

 

A meio de teu peito

Reciclas as emoções.

Se as controlas a teu jeito,

Se choras pouco, as pulsões

Goradas

Encontram-se bloqueadas.

 

Quando te elevas,

A pressão para desbloquear

É tão grande contra as trevas

Que vai doer, se calhar.

 

Após o desbloqueio, todavia, passa

E tudo é graça.

 

 

772 - Conexão

 

Ganhas autonomia

Com tua conexão ao imo supremo:

Que nunca mais ninguém em nenhum dia,

Actue porque outrem disse, alguém mandou,

Nem por temer a esteira do remo

Que a vida lhe ordenou.

Os outros não sabem dar conselhos,

Não te desvelam a vida em pormenor,

Ignoram teus quelhos,

Teu crepúsculo e alvor

E jamais, aqui ou ali,

Podem escolher por ti.

Teu imo pode ajudar

Por conhecer o passado inteiro,

O porvir que te apelar,

Mais a missão que pontua

Tua vida no compasso mais certeiro.

A escolha final, porém, é sempre tua.

 

 

773 - Importa

 

Que é que importa a autonomia?

É que a verdade não é igual para todos:

O que um dia

É bom para um, tem mil engodos,

É mau para outro e depois

Chega a mudar de sentido para os dois.

 

Que ninguém a dogmas fique amarrado,

A encaixotadas verdades

Em que afinal não crê, em nenhum traslado,

Nem entende, por mais que tenha capacidades.

 

Conectado a teu imo superior

Ficas autónomo, de ti senhor.

 

 

774 - Dúvida

 

Nunca mais precisas de aceitar

Que algo é bom para ti sem o sentir.

Na dúvida, é só ir

A teu imo, à pedra angular,

E ela responde

Se algo é bom ou mau para ti

Agora, neste tempo que te esconde,

Na conjuntura que vives aqui,

E se te vai ajudar

À missão que juntos andam a planear.

Apenas ele dispõe de tais respostas

Para bem poderes utilizar

Teu livre arbítrio em todas as apostas.

 

 

775 - Muda

 

A vida consiste, em grande parte,

Em nada querer ficar onde se encontra.

Venha, pois, a muda que isto acarte

Com o desassossego que terá contra

Toda a gente,

A lamentar-se mutuamente.

 

Todos teremos de acatar

A condenação do fatal resguardo

De connosco próprios carregar

Como se fora um fardo.

 

 

776 - Demolidor

 

A mulher consternada

Pelo demolidor poder

Que sobre outrem tiver

Deverá ser lembrada

 

De que pode despir a couraça:

Que os outros deixe de julgar,

De validar ou invalidar

(Feita autoridade que os enlaça

Ou deslaça)

Os modos de sentir, pensar ou viver

De todos e de quenquer.

 

Quando se aperceber

De que tem algo a partilhar

E a aprender

Com quem na vida se cruzar,

E que, portanto, a todos é igual,

Liberta-se, finalmente,

Do peitoral

De serpente

E do maléfico efeito

A que ele anda sempre atreito.

 

 

777 - Íntimo

 

No íntimo a focagem,

O ponto fixo, é que dá significado

Ao agir de quantos agem.

O ponto de mergulho interno

É que é o adequado

A firmar os pés na terra

No meio do caos externo,

Da desordem, da guerra

Ou da azáfama vulgar

E quotidiana do lugar.

 

Ali ancorado,

Cada qual descobre, em seguida,

Ao tomar rumo,

Que a vida

Tem sumo

E adquire mesmo significado.

 

 

778 - Reflectir

 

Devemos reflectir primeiro

E agir depois,

Examinar racionalmente cada sendeiro

Mas, a seguir, buscar onde piscam arrebóis.

Basear a decisão

Nesta estrela:

A possibilidade de nosso coração

Estar ou não com ela.

 

Mais ninguém nos pode dizer

Se o nosso coração está envolvido

E a lógica é incapaz de fornecer

Uma resposta com sentido.

 

 

779 - Profundos

 

Dos mais profundos buracos

Poderemos sair

Se nos não dermos por vencidos,

Por mais que no poço da vida em cacos

Se cair.

É de usarmos, destemidos,

A terra que nos atiram para cima

Para trepar pelos torrões, sempre em frente,

Cada passo mais acima,

A borda até saltar contra a corrente.

 

 

780 - Monstros

 

Em monstros transmuda o medo

Os vultos indistintos da profundeza

Da psique humana colectiva.

Trazê-los à flor de água é o sossego

Do que é visto, tocado e que se preza,

Em onda transformado viva.

 

Todos pressentimos a presença,

No mais secreto de nosso imo,

Daquelas forças indistintas,

Primitivas e sem detença,

De tremendo poder, a que me arrimo.

Delas tememos jogos e fintas

Até que um deus poeta,

Escritor, compositor, bailarino,

Psicólogo, artista plástico arquitecta

Um modo clandestino

De à superfície as trazer

Da criação pelo fogo a arder.

 

Tal génio

Cavalga a natureza instintual,

À vontade no elemento emocional,

E, sem requerer qualquer convénio,

Troca os medos entorpecentes

Em qualidades humanas conscientes.

 

E assim nos liberta

Deixando em nós, finalmente, a porta aberta.

 

 

781 - Vertente

 

Quando a vida

Parece confinada

E de sentido desprovida,

Ou com uma vertente gravemente errada

Em nosso modo de a viver,

Ou no que andamos a empreender,

Não podemos deixar

De nos aperceber da discrepância

Entre os arquétipos no imo a pressionar

E os papéis visíveis, deles à distância.

 

Somos muitas vezes apanhados

Entre os arquétipos do mundo interior

E os estereótipos estandardizados

Do mundo em redor.

São os arquétipos predisposições

Poderosas,

Capazes de explosões

Letais ou vitais tenebrosas.

Na forma de imagens e mitos

Todos contemos pulsões,

Característicos fitos,

Emoções

Que nos arroteiam como grade

A personalidade.

 

Geramos energia

Quando agimos em conformidade,

Através da profundidade

E do significado que afia

 

O gume deste papel em nós.

Se, ao invés, formos connosco desconformes,

Dos tapetes do imo desatamos os nós

E os buracos serão cá dentro enormes.

 

 

782 - Sacrificando

 

Quem tente conformar-se

Com o que esperam dele,

Sacrificando a ligação,

Com tal disfarce,

Ao mais autêntico da natureza

Vivida por dentro da própria pele,

Pode a glória que preza

Atingir no mundo,

Mas vai sentir destituído

De pessoal sentido

Este êxito infecundo,

Ou falhar também em tal identidade,

Depois de fiel não ter podido

Manter-se à própria autenticidade.

 

Em contrapartida,

Se for aceite pelo que é

E, nesta medida,

Compreender

De boa fé

Quanto importa desenvolver

Vertentes sociais e competitivas,

A adaptação atingida

Não vai sê-lo à custa

De autenticidade nem auto-estima:

Ao invés ajuda-o, de seguida,

A aperfeiçoar-se, justa,

E a saltar o obstáculo por cima.

 

 

783 - Autêntico

 

Sentir-se autêntico alguém

É ser livre de desenvolver

Vertentes e potenciais que detém

Como predisposições inatas para ser.

 

Quando és aceite

E te permitem ser genuíno,

Deténs ao mesmo tempo de auto-estima o enfeite

E de autenticidade o hino.

 

É o que acontece

Quando, em vez de desencorajados,

Somos incentivados

Por quem nos aparece

Como significativo para nós,

Quando somos espontâneos e verdadeiros

Ou quando ficamos absorvidos, tão a sós

E inteiros,

No que nos causa alegria

Que vivemos magia.

 

Desde a infância,

Primeiro a família,

Depois a cultura,

São os espelhos, ora com, ora sem ânsia,

Em que nos vemos reflectidos, em vigília

Que nos apura,

Ora como aceitáveis

Ora como inaceitáveis.

Quando precisamos de nos conformar

Para sermos aceites,

Podemos acabar por usar

Um rosto falso de falsos deleites

Ou por desempenhar um papel vazio

Impregnado de inconfesso fastio,

Se uma grande distância existir

Entre o que por dentro de nós opera

E se faz sentir

E o que de nós se espera.

 

É uma bênção quando

Os dois campos se acabam conciliando.

 

 

784 - Perto

 

Quem viver perto do mar agitado

Ou da sísmica região,

Deve ter a meteorologia ao lado,

O relatório sismológico à mão.

 

Deve compreender o que o espera

E aprender a construir a barreira

Que a uma vaga sobrevivera,

Que um terramoto aniquilador aligeira.

 

Quem corre o risco de ser dominado

Pela emotividade

Deve atender a tal vulnerabilidade,

Aprender o desafio de tal estado

E usar os sinais de alarme

Para que jamais o desarme.

 

Maneiras deverá desenvolver

De com tal vertente poderosa

Que se lhe entrosa

Conviver.

E o afectado

Por tal poder destruidor

Noutrem incarnado

Deve aprender a detectar

Os fumos de alerta que ele enviar.

Pode-se então afastar, diligente,

Ou acaso por um desvio

Se esgueirar,

Para escapar do terramoto eminente

Ou à inundação do rio.

 

Por dentro de nós como por fora

Igual prudência nos escora.

 

 

785 - Porta

 

Construir a harmonia

É porta de felicidade.

Caminhar na correcta via,

Formar com ela uma unidade,

Um labor efectuar absorvente,

Consonante com nossos valores

E para o qual temos dons permanentemente.

Harmonia é ter amores,

 

Ter companheiros ou viver a sós

Ou com animais ou a natureza,

Numa urbe, país ou lugar, e após

Viver a surpresa

 

Duma autêntica pertença.

Harmonia é sentir mágoa profunda

Por uma perda que nos vença,

Maremoto que nos inunda.

É espontaneidade desinibida,

Sem constrangimentos,

Riso imediato, lágrima sentida

A jorrar pelo rosto dos tormentos.

 

Acontece harmonia

Quando acto e convicção se fundem,

Quando a íntima energia

E a vida exterior se confundem,

 

Uma da outra expressões,

E fiéis nisto andamos a ser

À nossa identidade, a nossos corações.

Só cada qual, só eu poderei reconhecer

 

Que aqui me sinto em casa,

Que em meu labor me absorvo inteiro,

Colho alegria que me abrasa,

Que amo e da felicidade me abeiro.

 

 

786 - Despenderá

 

No trabalho, na guerra e no amor

Despenderá demasiada energia,

Esforço maior,

Se se limitar

Ao que de si alguém esperaria

E nenhum arquétipo, íntimo vulcão,

O inspirar.

Pode o esforço ganhar-lhe um quinhão

De consideração,

Não será, porém,

Para o coração gratificante.

Operar pela vida além,

Em contrapartida,

Aquilo de que gostar, fará que se agigante,

Promove a afirmação íntima vivida,

É prazer e alegria:

É o acordo com aquilo que é,

Não com qualquer fantasia.

Se depois for recompensado

E reconhecido, de boa-fé,

Pelas almas do mundo exterior,

Brilhará então com o esplendor

De homem deveras afortunado.

 

 

787 - Macacos

 

Primeiro,

Os macacos viviam em ilhas afastadas,

Umas das outras isoladas,

E jogavam-lhes batatas doces como se fora dinheiro.

 

Para as apanharem,

Os macacos das árvores saltavam

Enquanto os cientistas, a observarem,

Investigavam.

 

Eis senão quando, a jovem macaca Imo

Desce para o mar,

Vinda, com uma batata, lá do cimo,

E trata de a lavar.

 

Gostou,

Mostrou-o aos companheiros e à mãe,

Cada qual por si o comprovou

E a novos parceiros o mostrou mais além.

 

No princípio são adultos a copiar as crias

Mas logo outros mais os vão imitar

Nas inovadoras vias

De batatas doces ir lavar.

 

Até que a certo momento,

A um qualquer centésimo macaco,

Generaliza-se instantâneo tal comportamento

A tudo e todos, taco a taco.

 

Mas o mais extraordinário

É que tal se generaliza

A todas as ilhas, pelo mar vário,

Quando entre elas nenhum contacto se divisa.

 

A anónima centésima gota

Faz transbordar a taça

Que, virada, desemboca

Na realização instantânea da visada graça.

 

É o peso do esforço individual

Para salvar o planeta, o clima, a ecologia,

Ou qualquer outro ideal:

Amadurece até que há um salto de magia.

 

Alguém tem de ser o primeiro,

O vigésimo e assim por diante,

Até que o centésimo parceiro

A inesperada vitória geral instantâneo nos garante.

 

 

788 - Adulta

 

A idade adulta é um glaciar

Silente

Pela nossa juventude a avançar.

 

Quando chega, indolente,

A marca da infância congela

Instantaneamente,

O nosso último acto na tela

Registando definitivamente,

Na pose em que nos apanhou o gelo da idade.

E é o acto que acate

A íntima individual verdade

Em seu embate.

 

Sempre que deveras ser quisermos,

Não há como aqui volvermos.

 

 

789 - Riqueza

 

Se alguns prosperam,

A comunidade fica a ganhar

E, nesta medida, aqueles operam

Para nós, a par.

 

Em vez de ficar irritado,

Devo compreender

Que deles a riqueza tem beneficiado

Também a todos e quenquer.

 

Partindo daqui, qualquer justo acerto

Fica então mais perto.

 

 

790 - Úteis

 

Úteis a nós

Nunca o poderemos ser

Sem aos outros atender.

Queiramo-lo ou não,

Atam-nos nós,

Vivemos interligados

Mão a mão,

Torrão a torrão,

Daqui aos poentes mais afastados.

É inviável o fanal

Duma felicidade

Meramente individual:

Quem só de si quer saber,

Acaba na orfandade

A sofrer.

 

Quem, ao invés, se preocupar

Com os outros apenas

Bem de si acaba por cuidar,

Sem pensar em tal

Nem aguentar cenas.

 

Mesmo quando a vontade principal

For egoísta,

Reparemos

Se vamos na mais inteligente pista:

- Os outros ajudemos!

 

 

791 - Construir

 

Quanto mais se preocupar

Doutrem com a felicidade

Mais vai construir, a par,

A sua em profundidade.

 

Não pense nisto, porém,

Enquanto estiver a dar,

Não fique à espera de nada.

Tenha em vista apenas o bem

Dos que encontrar pela estrada.

 

 

792 - Guarda-costas

 

Quanto mais guarda-costas houver

De nós em volta,

Mais urge de guarda permanecer

A nosso espírito à solta.

 

Quantas vezes tropeço,

O corpo ao salvar,

No preço

De o espírito matar!

 

 

793 - Pejado

 

O mundo pode aparecer

Como amigo ou inimigo,

Dos defeitos pejado que eu quiser

Ou de qualidades como abrigo,

Conforme, ao calhar,

Meu modo de pensar.

 

De vantagens ou de inconvenientes

Não há nada apenas feito,

Quer no que temos a jeito

- Comida, roupa, detergentes… - ,

Quer naqueles com quem vivemos

- Família, amigos, mestres supremos… - ,

Pois todos somam, nos trejeitos,

Virtudes e defeitos.

 

Para julgar correctamente

O real

Temos de reconhecer cada ente

Como ele for, afinal,

Preto, branco, de todos os tons

Dos lados dele maus e bons.

 

E aprender a acolher o todo

É da plenitude a via e o modo.

 

 

794 - Aspiram

 

Todos os entes,

Mesmo para nós os mais hostis,

Da dor e sofrimento são tementes

E aspiram da alegria aos frenesis.

 

Como nós,

Todos têm o direito a ser felizes,

A não sofrer nem dor leve nem atroz,

Sejam quais forem deles os matizes.

 

Deixemos de olhar nossos umbigos,

Preocupemo-nos com os mais sinceramente,

Quer amigos, quer inimigos:

A compaixão o amor vai tornar presente.

 

 

795 - Favorecem

 

Pensamentos e actos de amor

Favorecem claramente

A saúde física e mental

De quem a tal

Propor

Se tente.

 

São conformes, com certeza,

A nossa verdadeira natureza.

 

Actos violentos, tenebrosos, cruéis,

Surpreendem-nos, ao invés.

 

Portanto,

Precisamos de falar deles

Muito mais

E o destaque é tanto,

Do maior ao mais reles

Dos jornais.

 

O problema é que, pouco a pouco,

Insidiosamente,

Acabamos a pensar que o homem é louco

Ou de má mente.

 

Algum dia cuidaremos, sem tardança,

Que para o homem não há esperança:

Tal pendor, pior que arbitrário,

É suicidário.

 

 

796 - Progresso

 

Económico e tecnológico,

O progresso é desejável

E é um vector antropológico

Fatal, irremediável.

 

Seria ingénuo pensar

Que, se o interrompêramos,

Se evolariam no ar

Os problemas que tivéramos.

 

O progresso deveria,

Todavia, acompanhar-se

Do desenvolvimento na via

De valores que não esgarce.

 

Ambas as tarefas em conjunto

Deveríamos realizar,

Desbravando o assunto

A par.

 

É a chave do futuro:

Se o desenvolvimento material e espiritual

Coexistindo inauguro,

Devir feliz devém real.

 

Não o atinjo com templos e mosteiros,

Nem sequer com escolas.

As famílias são os esteios primeiros

Das ferramentas que amolas.

 

Se em família reina a paz

E, além do saber de base,

Valores morais satisfaz,

Se, por trás de sua gaze

 

Aprendemos a viver

De modo justo e altruísta,

Podemos então erguer,

Da sólida pista,

 

A comunidade inteira

Como montanha altaneira.

 

 

797 - Grupo

 

Em todo o grupo há-de haver contradição.

É uma vantagem,

Não um senão:

Quanto maior a gama de triagem

Entre a diferente opinião,

Maior

A ocasião

De compreender melhor

O outro e a respectiva corrente

E de melhorar indefinidamente.

 

Se entrar em conflito

Com quem pensa diferente,

A pedra que brito

Brita meus pés somente.

 

Não devo ficar fechado

Em minha ideia singular,

Antes, aberto a todo o lado,

Dialogar.

 

Então comparo

Opiniões divergentes

E eis como me deparo

Com pontos de vista antes em mim inexistentes.

 

Daqui, então, inauguro,

O futuro.

 

 

798 - Tendemos

 

Tendemos a pensar

Que não estar de acordo

Automaticamente há-de ser entrar

Em conflito,

Onde mordo,

Com atrito

Vário,

Um irredutível adversário.

 

E há-de sempre terminar,

Como um fado,

Com um vencedor e um vencido

A par,

Com um triunfo destemido

E um orgulho humilhado.

 

Ao invés, a todo o momento,

Deveríamos antes procurar

Um terreno de entendimento.

 

De partida o fundamento

É cada qual se interessar,

Desde logo,

Por quem pisa um outro chão

Com as pegadas de neve ou de fogo

Que tecem doutrem a opinião.

 

Seguramente,

Quenquer,

Tendo-o em mente,

Será capaz de o bem fazer.

E as sínteses irão brotar

Deste caminho inteligente

De ir a par.

 

 

799 - Rico

 

De ser rico a maior vantagem

É de outrem poder ajudar mais,

O resto é uma paisagem

De egoísmos venais.

 

Desempenhando um papel mais importante,

É mais influente,

Pode germinar o Bem pelo mundo adiante,

Se agir correctamente.

 

Se, porém, for mal intencionado

Muito mal pode fazer o emproado.

 

Depende, no final,

Da escolha

De cada qual

O bem e o mal

Que o mundo dali recolha.

 

 

800 - Distingue

 

Embora ricos, tomem consciência

De ser humanos.

Nenhuma evidência,

Apenas enganos,

Vos distingue dos pobres.

 

Por mais que os ganhos dobres

Que o mundo inteiro preza,

Em comum só partilhamos todos a necessidade

Daquela riqueza

Que é a felicidade

Interior.

 

Ora, a esta,

Por maior

Que seja o custo,

Ninguém a compra em nenhuma festa,

Não há para ela um preço justo.

 

 

801 - Ganhar

 

Nada têm a ganhar os ricos

Em deixar a conjuntura mundial

Degradar-se continuamente.

Atingi-los-ão cada vez mais salpicos

Do ressentimento dos pobres e cada qual

Mais medo sente.

 

Onde os ricos são ricos demais

E os pobres por demais pobres,

Os dobres

A finados

São os sinais

Da violência, do crime, da guerra civil

Por todos os lados.

 

O mais vil

Dos celerados

Facilmente subleva os mais desfavorecidos,

Ao crerem que por ele são protegidos.

 

Se o rico ajudar o pobre em redor,

Se mudar a economia

Deste em favor,

Se mais equitativa cada dia

For a distribuição

De rendimentos e bens,

Se em tal rumo mudar cada instituição,

Mais saúde e desenvolvimento

Obténs

Do pobre em aumento

E o pobre desata a gostar

Do rico então que o ajudar.

 

Pobre e rico acabam amigos,

Os pobres ficam contentes,

Os ricos livram-se de abrigos

Frágeis, trementes

E ficam contentes também.

 

Na desgraça

Todos se compadecerão.

Se, porém,

De egoísmo for antes toda a traça,

Da desgraça do rico os pobres se alegrarão.

 

Como entes comunitários,

Quando amigável é nosso ambiente

Sentimo-nos solidários,

Mais felizes, hilariantes,

Automaticamente

Confiantes.

 

Não há dúvida quanto à alternativa

Que cada hora torna mais viva.

 

 

802 - Erro

 

Quem tiver boa atitude

Pode ser feliz na pior condição.

Quem se ilude,

Não.

 

Quem interiormente não viver em paz,

Por muito que o erro lhe agrade,

Não é o conforto, não é a riqueza que lhe traz

A felicidade.

 

 

803 - Remédio

 

Se há remédio, não é de inquietar,

Aplica-o já!

Se a remédio não houver lugar,

Remediado está!

 

A inquietude não tem valor:

Apenas serve para agravar a dor.

 

 

804 - Escapamos

 

Não é perdendo a coragem

Que escapamos à miséria.

Falhados do sonho, não desencoragem,

Qualquer que seja da vida a vossa féria!

 

Quem diz: "hei-de conseguir!"

Atinge o fim, a seguir.

 

Quem pensar que é inexequível,

Que não tem as faculdades,

Há-de falhar, sofrível,

Em todas as idades.

 

É pela postura que quenquer herda

O rumo da vitória ou o da perda.

 

 

805 - Malfeitores

 

Malfeitores potenciais somo-lo todos

E os que mandamos para a prisão

Não são piores, ante os engodos,

No fundo do coração,

Do que qualquer um de nós,

Na hora aziaga de ser feroz.

 

Tombaram à ignorância, à cólera, ao desejo,

Doenças que nos afectam igualmente

Ao menor ensejo,

Apenas a um nível diferente.

 

Nosso dever é o de ajudar

Qualquer doente a se curar.

 

E a prisão também devia

Operar como terapia.

 

 

806 - Delinquente

 

Para o delinquente detido