OITAVO TROVÁRIO
O SER QUE ENTENDO A PERSEGUIR
Escolha ao acaso um número entre 910 e 1047, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
910 - O Ser que entendo a perseguir
O ser que entendo a perseguir
Corre o poema irregular rimado
Com quanto lhe permite descobrir,
Embora o real esteja sempre a ir
De fatal mistério embuçado.
Ao ler-lhe, porém, sombras e luz,
Como as leis que o regem definidas,
O passo mais firme me traduz
Minhas idas.
Entendo e me arrepio
Ou me espanto,
Enquanto a correnteza vigio.
E, entretanto,
É o mistério que canta no meu canto.
911 - Respeito
O respeito ninguém o impõe,
É merecido.
Não há respeito devido
À força que a conquista pressupõe.
Os grandes pequenos ditadores
Que com a bota no pescoço do povo
Se impõem, senhores,
São mentecaptos a gorar no ovo
O que buscarão:
Não conquistam respeito nenhum
Apenas submissão.
Até que ao povo o grade
Algum dia, algum,
O grito da liberdade.
912 - Democracias
Democracias que brotam
Duma ditadura
Geram novos ditadores.
Só que, em vez dum, arrotam
Muitos mais na partitura,
Tenores bem menores,
Espalhados do país a toda a largura
E fundura
Dos pendores.
Depois, quanta saudade
Dos regimes anteriores!...
- Ora, então, quem persuade?
913 - Apontam
Quando um inocente
Apontam como agressor,
Fica a vítima impotente
Ante o agressor verdadeiro:
Impune doravante em terreiro,
Vitimizará quenquer que for.
As defesas
Eliminadas,
Ao erro presas,
É que findam agrilhoadas.
914 - Regime
Não há social bondade
Humana
Em regime de espontaneidade.
Os homens são capazes de tudo,
Se em interesse próprio promana.
Aproveitam a dureza do fascismo
Sobretudo
Para impor aos mais, como automatismo,
O que eles querem.
Aproveitam as liberdades da democracia
De que auferem
Para a eito
Promoverem
Tudo o que for em seu proveito.
Bondade social,
Não:
A espontânea é individual,
Doutro modo é instituição
E mais nada é real.
915 - Lei
Lei injusta
É aquela que a maioria
Vem impor à minoria
Para viver dela à custa,
Sem que, por outro lado,
Arbitrário,
O grupo maioritário
Se sinta por tal lei obrigado.
Aqui o fosso da iniquidade
É rei:
É a desigualdade
Feita lei.
Na lei justa a maioria
Obriga a minoria
A cumprir o que aquela
Pretende cumprir, na sequela.
O racional princípio da bondade
Aqui é rei:
Igualdade
Feita lei.
916 - Guiado
Quem vive guiado pelo medo
Anda sozinho,
Sente-se desprotegido,
Na boca sempre de credo,
E o efeito comezinho
É que finda de protecção destituído.
Vive à mercê do ego,
Encarado
Do mundo como separado,
Apenas a si próprio tendo apego,
Prisioneiro de objectivos imediatistas,
Básicos, da epiderme,
Sem interioridade,
Meramente materialistas,
E que o tornam, à falta de profundidade,
Perdida a derradeira identidade,
Um mísero verme.
917 - Pretensão
Tudo o que não entendem nem alcançam
Resolvem que não existe.
Que pretensão! E não cansam,
Nenhum desiste,
Como se souberam tudo!
As coisas que não sabem
Não são, simplesmente.
Como de defesa no escudo
Não cabem,
Pouco lhes importa,
Já que, como eles, todo o mundo mente…
-E batem com a porta!
918 - Fala
O homem fala e tu percebes,
O imo superior fala e tu intuis:
É mais subtil aqui o que recebes,
Linguagem do coração
Por onde fluis.
Maior dificuldade terão
Os ansiosos e controladores,
Quem tiver medo da vida
E do desconhecido,
Quem julgar que o coração é presumido,
Cheio de venenosas flores,
Não sabe o que ele diz nem com que lida,
Porque, ao invés do que convém,
Nenhuma lógica tem.
Muito mais facilidade há-de ter
Quem já aprendeu a aceitar.
Aceitar que a vida tem um plano qualquer
Para nós
E que, se eu ajudar
A jangada a evoluir na corrente,
Chegarei à foz
Para onde me inclino
Rapidamente:
- Chegarei ao destino.
919 - Estrangeiros
Sossegados, não, sossegados
Não podem ficar, sentados,
Estes estrangeiros inquietantes
Que são os ricos impantes.
Não há nada que os prenda,
Viajam ao sabor de ventos e vagas,
As coroas murmuram-lhes na cabeça a renda
Das veniagas,
As bolsas tilintam
Mundo fora, pelos recantos que fintam,
Que algures é sempre melhor,
E ao sol queimam o peito e ao calor.
E sempre a mesma resposta
À pergunta insone
De quem lhes contesta o céu:
- Quem é que na contracosta
Está ao telefone?
Daqui sou Eu!
Um eu tão Eu que pesa tanto
Que à vida lhes murchou de vez o encanto.
920 - Ignoramos
Ignoramos vulgarmente
Que penetrar na natureza
Envolve igualmente,
Antes, durante e após,
O caçador como presa,
A natureza dentro de nós.
De resto,
O reconhecimento
De nosso parentesco
Com o mundo natural
Universal
É o momento
De nossa vivência
Que mais vale
Em toda aquela experiência.
O mais,
Por maior que seja,
É sempre ficarmos, esquivos,
Fora da igreja
Onde ocorre o mistério dos sinais
Que nos mantêm vivos.
921 - Grandiosidade
Para quem parte
Há grandiosidade e silêncio,
Água límpida que a montanha reparte,
E o ar puro convence-o.
Vem a dádiva da lonjura,
Distante de relacionamentos e ritos diários,
Onde a energia apura
Do Universo nos ovários.
A natureza germina-o em nós,
Dela com a cunhagem particular,
Dominam-nos forças em dança veloz
E o corpo reage, na noite quente e crua,
Carnal e singular,
Ao atractivo invasor da Lua.
922 - Mulher
A mulher é um resultado
Com um conflito
Sobre as competências dela
E que, por todo o lado,
Se sabota, sem um grito,
A ela própria, na sequela.
Incarnação
De todos os perigos,
As dúvidas próprias são
Dela os piores inimigos.
Embora epidermicamente
Haja resistido ao poder do pai
De limitar-lhe as aspirações que teve em mente,
Incorporou (e não se esvai)
A atitude crítica dele,
Dela feita no imo a nova pele.
Luta contra a ideia
De que não é bastante boa,
Hesita quando granjeia
Novas oportunidades,
Tonta e à toa,
Realiza menos do que as capacidades
Lhe permitem
E, embora bem sucedida,
Crê-se inadequada àquilo a que a concitem
Na jornada empreendida.
É o padrão gerado por famílias e culturas
Que mais os filhos que as filhas valoram, sibilinas,
E que esperam que estas sejam estereotipadamente puras,
Ditas femininas.
923 - Efeito
Frequentemente
A mulher cerebral,
Inteligente,
Que exerce em redor
Um efeito demolidor,
Letal,
Não é consciente
De tal.
Não é intuito dela
Intimidar nem aterrorizar,
Apenas cumpre bem, da vida na procela,
O labor tal e qual como o encarar:
Os factos anda a recolher,
As premissas a examinar,
O material a ver
Como se estrutura
Ou que provas lhe assegura…
Não repara
Que, quando dissecamos,
Matamos
A vida que ali se examinara.
Com a atitude objectiva,
Com a pergunta incisiva,
Subestima o poder de criar
Uma relação, a par.
De autêntica comunicação
O potencial liquida
Em que o âmago de qualquer questão,
O coração de qualquer vida,
Pode, em todo o lado,
Ser partilhado.
E quantas vezes quem mais fica a perder
É tal mulher!
924 - Estrada
Em qualquer estrada ocorrem
Bifurcações cruciais
Que requerem decisão.
Que rumo meus pés percorrem,
Que seta escolho entre nos sinais?
Prosseguir na direcção
De princípios que são meus
Ou seguir doutros o chão?
Agir com honestidade
Ou do engano com os véus?
Ir para a Universidade
Ou antes ir trabalhar?
Ter um filho ou abortar?
Romper uma relação
Ou mantê-la em contramão?
Com alguém ir-me casar
Ou recusar?
Buscar imediatamente,
Vendo um caroço no peito,
Médico que a cura tente
Ou adiar, se me dá jeito?
Largar escola ou trabalho,
Buscar algo em que mais valho?
Pôr o casamento em risco
No risco duma aventura?
Desistir dentro do aprisco,
Insistir no que me apura?...
- Qual a escolha, por que via,
Que custo é que me anuncia?
A escolha é o meu distintivo
Dia a dia, enquanto vivo.
925 - Lágrimas
É atribuído, ao nascer,
De lágrimas um quinhão igual
Ao homem e à mulher.
Vertê-las, porém, como tal
Aos homens é proibido.
Sempre estes antes hão morrido
De coração prestes a estoirar,
A pressão arterial
A subir,
O álcool o fígado a envenenar
E diluir,
Tudo porque não dão
Vazão
De lágrimas ao lago
Dentro deles.
Para quantos, nem um único, um reles
Trago!
Morrem porque deles a cara
Presente
Nunca bastantemente
Nenhuma lágrima a regara.
926 - Difícil
Tal qual quenquer que vive,
Sou mais feliz
Lembrando o lugar onde estive
Ou onde gostaria de ir por ter qualquer matiz
Do que feliz sou
Aqui onde estou.
Muito difícil é ser um ente
Feliz no presente!
927 - Livro
Um bom filme nunca tem
Dum bom livro o mesmo efeito.
O livro o poder detém
De alterar à percepção,
Para sempre, o mundo a eito.
Um bom filme alterá-la-ia,
Em contraposição,
Apenas por um dia.
928 - Mundo
O mundo são maravilhas,
Riquezas, enigmas, poderes…
Quando o sondam nossas quilhas,
Pode, entre nossos haveres,
Deixar-nos horror, tristeza,
Espanto, confusão, alegria..
Nada, porém, nele entedia,
Aborrece ou menospreza.
O tédio é de alguma falha
Que dentro de nós existe,
Não do mundo que nos calha,
Sempre de aguilhada em riste.
929 - Corrompe
Tende o poder,
Inelutavelmente,
A corromper
E, como produto,
O poder absoluto
Corrompe absolutamente.
930 - Pendores
Aos pendores emocionais
Os homens amputam,
Como aos vulneráveis, instintuais.
Na psique, porém, as orelhas escutam
E o amputado ou enterrado
Persiste vivo, embora amodorrado.
Devirá subterrâneo,
Permanecerá fora da consciência
Tenazmente contemporâneo,
Mas pode ter uma reemergência
E ser remembrado
Quando pela primeira vez
O arquétipo é evocado
Numa relação
Ou, talvez,
Numa inamordaçável situação.
Para quem vive vidas secretas,
Afeições e gestas inaceitáveis
Existem na sombra, discretas,
Vividas subrepticiamente,
Inadiáveis,
Sem conhecimento do meio ambiente,
Até serem denunciadas,
Eventualmente,
Com grande escândalo das gentes gradas,
Em nome da ordem vigente
E respectivas facadas
Jamais por elas questionadas
No dogma assente.
Assim ou doutro modo, porém, os mortos revivem,
Por mais que os arquivem.
931 - Encontram
Quando encontram os mortais
Aos deuses e deusas fora do templo,
No recinto do fogo do lar não estão mais,
Devém ambíguo todo o exemplo.
O encontro com o arquétipo, íntimo deus,
Tão benéfico pode ser como arriscado,
Que há dedos destrutivos sob os véus.
Os deuses têm crentes apanhado
De surpresa e os dominam,
Impõem-lhes a vontade
Seduzindo-os, raptando-os e os afinam,
Com voracidade,
Castigando, castigando, castigando.
Assim um arquétipo seduz e conquista,
A cada qual então o desossando.
Quando nele se enquista,
Psicologicamente,
O indivíduo identifica-se apenas ao arquétipo-deus
Que dele se apoderou, do corpo à mente,
É barco à deriva no turbilhão dos macaréus.
932 - Arquétipo
Arquétipo é o padrão invisível
Que determina qual
A forma e estrutura dum cristal
Quando ele se tornar exequível.
Logo que formado realmente,
É o padrão
Então
Reconhecível,
Tal qual, em todo o lado,
Em toda a gente
Activado:
Todo o juízo e atitude
Fará que a ele se grude.
933 - Destinados
Como tudo no Universo,
Mais que a ir,
Vivemos destinados desde o berço
A divergir.
O tempo não é senão
A unidade de medida
Desta separação
Em toda a ida.
Partículas num mar de distância
Explodidas dum astro original,
Há uma certeza, desde a infância,
Então,
A dar aval
À nossa solidão:
Sem enganos,
Vivemos cada vez mais sós na proporção
Dos nossos anos.
934 - Preconceito
Preconceito de literatos
É a convicção secreta
De que a vida que vemos e nos afecta
São mil e um falsos retratos,
Da realidade imperfeita
Visão que mal se lhe ajeita.
As artes apenas,
Com óculos de ver ao perto,
Corrigiriam às cenas
O defeito certo.
Os eruditos e intelectuais
Andam animados dum rancor profundo
Contra os sinais
Do mundo.
Nenhum se reconcilia
Com a ideia de que a vida
Nunca segue a curva da via
A que um bom autor a convida.
Em eventos de pura perfeição
A vida é somítica, pequena.
Ora, isto, deles na convicção,
É uma pena.
935 - Desejo
O desejo busca ao fim
Ser satisfeito.
Se nos domina e lhe transpomos o confim,
Este feito
Não é jamais deveras alcançado.
E, em vez da felicidade
De momento,
Encontramos por todo o lado,
Na vulnerabilidade,
A gravidade
Do sofrimento.
936 - Frenética
Frenética actividade
Que vise a satisfação
Apenas duma ambição
Pessoal
E que, ao fim, aos que ela invade,
Os arreda extenuados,
De saúde arruinados,
Equivale
A se aniquilar na estrada,
Ao fim e ao cabo, por nada.
937 - Real
O mundo é feito
De coisas boas e más
E o que do real toma o jeito
É, na maior parte,
Fabricado, tenaz,
De nosso espírito por arte,
Não vem de fora nem de trás,
Cá dentro se forma aparte:
Somos nós os demiurgos
Das aldeias e dos burgos.
938 - Temas
Os temas dos média favoritos
São os roubos, a guerra,
Actos de ódio ou de cobiça,
Delitos
Que revolvem a terra
Como o aço da rabiça.
Contudo, do mundo no alfobre
Ninguém pode afirmar
Que nada germina de nobre,
Tudo o que da qualidade humana
Persistente e devagar
Dimana.
Não haverá ninguém
Que trate doentes,
Órfãos, velhos, deficientes,
Sem ser pelo lucro que obtém?
Não haverá quem doutrem por amor
Actue a favor?
Na verdade até há muitos,
Se calhar a maioria,
Mas habituámo-nos a pensar, gratuitos,
Que eles são a normal fasquia.
Ora, ninguém proclama
A vulgaridade,
A pretexto de que não tem chama,
Mesmo quando não é verdade.
Então é uma verdade mentirosa
Que nos enche a vida de prosa.
E é de vista distorcida
Que olhamos a vida.
939 - Repercute-se
A boa saúde colectiva
Repercute-se em cada um.
Não implica
Que me sacrifique e viva
Para a colectividade
Sem bem-estar individual algum,
Antes significa
Que cada vertente
Invade,
Na outra se imbrica
Indissoluvelmente.
Hoje em dia cuidamos que a sina
Do indivíduo e da sociedade
Se amputam pela metade,
Que uma a outra se não destina.
E que o mais importante
É o indivíduo, não a comunidade.
Ora, se alargarmos a perspectiva
Até ao horizonte distante,
Logo vemos, no horizonte perdido,
Que esta atitude esquiva
Não tem sentido.
Uma doutra é o alimento
E é de ambas que por igual me sustento.
940 - Interior
O interior contentamento
É basilar,
Não renuncies ao frumento
Elementar.
A um mínimo nos bodos
Tens direito, como todos.
Porque à vida imprescindível,
Devemos assegurá-lo:
Se contestar é exigível,
Contestemos com abalo,
Se uma greve é requerida,
Façamos greve, em seguida…
Todavia, não deveremos
Cair em extremos:
Se interiormente nunca estiver satisfeito
E quiser sempre mais,
Jamais a ser feliz serei atreito,
Hão-de sempre faltar quaisquer sinais.
A felicidade interior não vive sujeita
A conjunturas materiais
Nem dos sentidos à saciedade estreita.
No imo ganha raiz
E tal felicidade é que é nossa matriz.
941 - Repugna
Repugna à maior parte
Lembrar a própria morte,
É um aparte
De desnorte.
Passamos a vida, assim,
A acumular bens,
A gizar projectos sem fim,
A encher de cada dia os armazéns…
Como se fôramos viver eternamente,
Tal se não fora certo um destes dias,
Amanhã talvez, no instante presente,
Termos de partir de vez em paz,
Para trás deixando as fantasias,
Largando tudo para trás.
Porventura para continuar a viver,
Mas noutro mundo qualquer:
Deste
Não haverá nada que reste.
942 - Embora
Embora com bons amigos e a maior comodidade,
Se a atitude não for correcta,
Não é viável ser feliz de verdade.
A atitude mental bem mais afecta
Que os determinismos exteriores.
Contudo, para a maioria,
Os primeiros valores
São de onde a exterioridade espia
E o efeito pior
É que o mundo inteiro então negligencia
Como negra magia
A postura interior.
Da qualidade íntima a relevância
Urge que tome a primeira importância
Ou findará bem triste
O homem que existe.
943 - Falta
No mundo rico
Há muita gente infeliz.
Não lhes falta nada, verifico,
Têm os meios de raiz
Para viverem de modo confortável.
Não estão, porém, contentes
Com a sorte invejável
De que são utentes
Mal agradecidos.
Não são felizes por inveja,
Por apetites desmedidos,
Pelo que quer que seja.
Uns esperam um cataclismo,
Outros o fim do mundo…
Cada qual fabrica o próprio abismo
De sofrimento profundo,
Por ser incapaz em demasia
De pensar de maneira sadia:
Se mudara a maneira
De ver o que lhe corre à beira,
O tormento findaria.
Há, porém, quem tenha realmente
Razões para sofrer:
O doente,
O que a miséria tolher,
Os de catástrofes vitimados,
Os maltratados…
No pendor material,
Devem-se tratar;
Aos que os maltratam colocar ponto final;
O tribunal
Accionar;
Laborar duro
Para comer, para vestir o futuro…
Mentalmente, porém,
O problema é se adoptam atitude positiva:
Desta é que provém
Do sofrimento o grau ou a esquiva.
A dor dói-me então
Sem eu querer;
O sofrimento, não,
Só se em mim o acolher.
944 - Penúria
Os que sofreram a guerra
E a penúria que sobreveio
Não os aterra
No caminho
Qualquer pedra que topam pelo meio.
Estão contentes deles com a sorte,
Viram muito pior: viram a morte.
No cadinho,
Em contrapartida,
Os que a guerra não sofreram
E felizes gozam a vida
Num perene jardim infantil
Gemem, desmaiam, canceram
Ante a adversidade mais pueril.
Embora a boa estrela
Tenham à mão de semear,
Não logram, no limiar,
Reconhecê-la.
Tanto pende de nossa interioridade
A matriz
De ser feliz
E a da infelicidade!
945 - Colectividade
A colectividade é cada vez menos humana
E nossa vida, cada vez mais mecânica:
De manhã corremos ao trabalho que nos engana;
Quando finda, cambaleamos até à satânica
Discoteca ou a qualquer lugar onde ir,
A fim de nos distrair.
Meios toldados,
Voltamos tarde
Para dormir uns momentos mal roubados
Sem mais alarde.
De manhãzinha,
De novo o trabalho de ganhar a vida,
De mente entorpecida
Na terra maninha.
Cada qual se tornou numa das peças
Dum mecanismo de nós às avessas
E, queiramo-lo ou não,
É fatal
Seguirmos o atropelo da multidão
No movimento global.
Ao fim dum tempo é tão dura de suportar
A sentença
Que findamos a nos fechar
Na indiferença.
Porém, nenhuma descrença
Nos pode salvar.
946 - Inviável
É inviável um atestado
De bondade permanente
A qualquer bem-comportado.
O comportamento presente,
Embora entre os melhores,
Pode acabar com juízos prematuros:
Vitórias anteriores
Não garantes resultados futuros.
947 - Boa
Gente boa é bem capaz
De actos deveras hediondos.
Ninguém deles marca traz
Nos olhos redondos.
Por mais que sejam incríveis,
Improváveis,
Todos somos susceptíveis
Das práticas mais inconfessáveis.
Não quer dizer que meu vizinho
Amável e respeitador
Ande a amontoar com o ancinho
Os corpos da família que trucidou no corredor.
Mas que algures no mundo
O vizinho de alguém,
Por mais respeitador que seja no fundo,
Irá fazê-lo, mais aquém ou mais além.
E que, neste momento,
Nem ele próprio sabe que irá fazê-lo.
O mais perturbador elemento
Da probabilidade, contudo, é
O que lhe impõe o derradeiro selo:
- Tal vizinho pode ser você!
948 - Natureza
A natureza humana é imprevisível:
O comportamento exemplar,
De tão esquivo,
Não tem efeito regular
Cumulativo
Infalível.
Almas danadas,
Todos somos permeáveis ao mal
Em circunstâncias dadas.
E o que a todos nos reúne
É este signo fatal:
- Ninguém é imune.
949 - Perante
Se perante cada qual
Que te violente,
Em lugar de: "tem razão, sou diferente",
Disseres: "é mentira, sou igual",
Outro que não este era o lugar
Onde agora te viria encontrar.
A tua carne é a mesma
E teu sangue também,
Sofrerás por igual qualquer Quaresma,
Rirás qualquer Páscoa que sobrevém.
Teu destino, dia a dia,
Outro, porém,
Seria.
Este foi forjado por uma frase,
Não pela outra que o alteraria.
Tem uma medida
A verdade de base:
Foi uma frase que te talhou a vida.
Caíste
Porque uma frase te fez cair.
Subiste
Pelo ar
Porque outra te fez subir
E voar.
O fruto proibido
Que nos tirou do paraíso
Foi a palavra cujo sentido
Nos fez perder o juízo.
A linguagem, a fala
É que fez perder o encanto
Ao mundo que doravante não se iguala
Nesta ambiguidade entre riso e pranto.
950 - Influência
Se o Cosmos inteiro eu for,
Então não pode haver
Influência exterior:
Tudo o que eu fizer
É livre, espontâneo.
Do ponto de vista do místico
Ancestral e contemporâneo,
Característico
É que o livre arbítrio é relativo,
Limitado, no fim ilusório,
Como toda a leitura que vivo
Da realidade no envoltório.
951 - Tido
Económico e tecnológico desenvolvimento
É tido como fundamental
Por todo o político e economista.
Ora, neste momento,
É de clareza fatal
Que o que persista
Como expansão ilimitada
Num ambiente finito
É uma estrada
Que concito
Para um desastre
Onde nada mais se encastre.
E por ali me vou,
Contente,
Sem reparar onde estou
De vez demente.
952 - Científica
A científica teoria
A completa e definitiva realidade
Jamais nos enuncia,
Mas meras aproximações da verdade.
Com esta os cientistas não lidam,
Lidam com descrições limitadas, aproximadas,
Para onde nos convidam
Com hesitantes passadas.
953 - Cultura
A cultura favorece
O nosso lado direito,
O esquerdo esquece,
Mal afeito.
Prepondera o conhecimento racional
Sobre a intuitiva sabedoria,
A exploração dos recursos mundial
Sobre a conservação que urgiria,
A competição sobre a cooperação,
A ciência sobre a religião…
Tal ênfase, alimentada
Pelo padrão patriarcal
E encorajada
Pelo sensualista pendor cultural
Dos três séculos derradeiros,
Acarretou um desequilíbrio estrutural
De tão fundos atoleiros
Que a raiz serão donde inteira deslize
A nossa actual
Crise.
954 - Mudar
Qualquer coisa é definida
Dela pelas relações
Com outras com que ela lida,
Não pelo que forem dela própria as feições.
Mudar do objecto para a relação
O primado
Tem por consequência
A criação
Duma renovada ciência
Em todo o lado.
O fenómeno atómico é determinado
Pela conexão
Com o todo com que vibra interligado:
É a propriedade
Insofismável
Que o funde e nos funda numa insuperável
Probabilidade.
Não somos nada, não somos
Senão pelos laços e afectos de que dispomos.
955 - Subatómico
No subatómico nível, fundamentais
São as interacções entre as partes do todo,
Mais
Que as próprias partes, de qualquer modo.
Há movimento na teia inteira
Mas não existem, entrementes,
Em análise derradeira,
Objectos moventes.
Actividade há,
Mas não actores, que ninguém os alcança:
Não há dançarinos acolá,
Somente a dança.
956 - Cientistas
Os cientistas constroem uma teia
De teorias limitadas e aproximadas,
Modelos com que cada qual ameia
A lonjura das estradas.
Cada elo mais preciso que o anterior,
Nenhum representa, porém,
O completo e final teor
Do que ao fenómeno natural convém.
A ciência progride
Por respostas provisórias, conjecturais,
Rumo a uma cadeia de perguntas que lide,
Cada vez mais subtil e mais fundo,
Com o âmago dos fenómenos naturais
Do mundo.
957 - Partículas
As subatómicas partículas são
Umas das outras dinamicamente compostas,
De modo que cada uma delas, então,
Envolve todas as demais:
Mais que supostas,
Mais que por sinais,
Trá-las cada qual às costas,