DÉCIMO  TERCEIRO  TROVÁRIO

 

 

AQUI  CHEGADO,  SONETOS  E  TROVÁRIOS  SÃO PROJECTOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha ao acaso um número entre1526 e 1643, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                1526 - Aqui chegado, sonetos e trovários são projectos

 

                                                Aqui chegado, sonetos e trovários são projectos                   

                                                Que em todos os pendores perfilam

                                                Realidade e sonho, normas e afectos

                                                Sob cujos tectos

                                                As derrotas se obnubilam.

 

                                                Em todos os vectores

                                                É o tegumento da vida que mordes

                                                Nos sabores

                                                E nos acordes.

 

                                                São erguidas bandeiras

                                                No horizonte

                                                De que dos longes te abeiras.

 

                                                São a inesgotável fonte

                                                Do que de mim a mim faz sempre a ponte.

 

 


1527 - Pensa

 

Apesar de numerosos

Terra além, aqui, ali,

Cada qual só pensa em si.

Vêm dos outros os gozos,

 

Para nos alimentarmos,

Para também nos vestirmos,

Para da fama fruirmos,

Para trabalho arranjarmos…

 

E depois consideramos

Os outros como inimigos,

Embora no imo estejamos

 

Ligados pelos umbigos.

Isto que será senão

Connosco contradição?

 

 

1528 - Redes

 

As redes que se jogaram

Às águas para pescar

Por que é que se retiraram?

Foi por amor, se calhar.

 

Cobranças que se não cobram

Quando eram de receber

Por que é que tais em nós obram?

É por um amor qualquer.

 

Um amor de tal feição

Não pode por inimigo

Ter a Deus, na ocasião,

 

Nem Deus vê nele perigo:

Seja qual for dele a forma,

Nem que seja contra a norma.

 

 

1529 - Cuidado

 

Cuidado com os que esperam

Que os filhos não vão passar

A adversidade que houveram

Eles antes de aguentar.

 

É que foi a adversidade

Que de nós fez sempre aquilo

Que somos em nossa idade,

De vida este humor tranquilo.

 

Podemos em desvantagem

Pô-los de muita maneira

E uma delas é, quando agem,

 

Terem só vida lanceira:

- É que leva a atrofiar

Não ter tido de lutar.

 

 

1530 - Parece

 

Parece que tu te encontras

Do lado externo de tudo,

Sem vibrar olhando as montras,

Os mais sem ver amiúdo,

 

Sem sentir como eles sentem,

Sem olhar como eles olham…

Todos, parece, consentem

Em dançar, todos acolhem

 

Os pés musicais na pista,

Mas tu ficas lá sentado,

A passar tudo em revista,

 

Sempre a olhar, posto de lado.

Como é que a vida um acerto

Te oferta num tal deserto?

 

 

1531 - Evento

 

A vida há-de ser apenas

Qualquer evento aceitar

Tal como se apresentar,

Tentar resolver as cenas

 

O melhor que for viável

E aguardar então que a sorte

Não nos falhe, indesejável.

Que aquilo que mais importe

 

Seja tentar proceder

O mais acertadamente

Que nos caiba no poder,

 

Tão bem quanto este demente

Mundo estúpido o permita.

- E eis o que nos dita a dita.

 

 

1532 - Adormecidas

 

Ao ir a meu lado oposto

Forças e tensões evoco

Adormecidas com rosto

Que então dentro de mim toco,

 

Dentro da minha energia.

Desperto-as então e as gasto:

Tensões aumentar iria

Se lhes não tocara o pasto.

 

Minha força bloqueavam

De tal forma que atrair

Uma perda ainda acabavam

 

Ao explodir a seguir.

Assim tomo-lhes o freio

E à rédea as trago ao meu seio.

 

 

1533 - Uno

 

Uno estar será já não

Distinguir nem escolher:

É viver sem restrição

O que houver para viver,

 

Ir em frente para onde

Nós tivermos de seguir,

Onde a unidade responde

Em vez do que dividir.

 

Ser uno é vivenciar

O Todo em cada parcela

Sem nenhuma rejeitar,

 

Nenhuma, no que for ela,

Até o Todo conseguir

Dentro e fora construir.

 

 

1534 - Cuida

 

Cuida que os dias passem devagar,

Aproveita a visão para aprender.

Deixa planar teu imo a meditar,

Mais não vás que feliz te recolher.

 

Aproveita, desfruta a tua vida,

Aqui em baixo vive, vive inteiro.

O tempo das mudanças nos convida

A grandes almas ter, livre viveiro.

 

Lá não vamos, porém, antes do tempo.

A vida saboreia que escolheste,

Prepara os grandes voos a destempo,

 

Que eles virão depois, no vento agreste.

Prepara-te tostando ao sol da praia,

Que a jornada virá, mal o sol caia.

 

 

1535 - Angústia

 

A angústia sempre vai continuar

E vai aumentar sempre o desconforto,

A não ser que descubras disto a par

Que tudo, patamar a patamar,

Faz parte do processo de a bom porto

 

Levar a Humanidade a evoluir.

Que tudo tem seu tempo e que o que é feito

Ao que o Cosmos almeja presta preito:

Qualquer que seja o rumo, é sempre a ir.

 

Que entendas que o trabalho nunca acaba,

Nunca chegamos lá, tal não existe,

Que eterno para a luz tudo desaba.

 

Hás-de morrer um dia e jamais viste

Fim, que o labor eterno é o que persiste.

 

 

1536 - Materialista

 

Porque é materialista a mais o mundo,

Para o céu ninguém olha, apenas olham

O reconhecimento que, facundo,

Um acto em recompensa tem por fundo.

Se morrem, isto faz que não acolham

 

(Que o não sabem) olhar para as alturas,

No céu não logram ver a luz que houver,

Íman para as guiar sem sinecuras.

Deambulam pela terra sem saber

 

Afinal, o que buscam: a luz, de alta,

Não a conseguem ver. Quem se elevar

É que luz mais que os mais traz à ribalta.

 

Então a febril alma há-de encostar

A quem lume algum tem a partilhar.

 

 

1537 - Zero

 

O zero infindo que morar no sofrimento,

Nada e vazio, é finalmente preparado

A receber uma energia com alento,

A luz, fulgor sofisticado, alor do vento:

É nesta altura que a energia do ser dado

 

Toca a energia que é do céu, fonte primeira:

Aí ocorre a mutação que é radical,

É nesta perda por inteiro que lá inteira

Ocorre a troca que será fundamental.

 

Em tal altura é que a luz entra então deveras,

Tudo começa verdadeiro a ter sentido:

Tudo o que tinhas já não é, e o novo esperas.

 

A consciência agora aceita o inatendido

E não apenas o que quer do que é vivido.

 

 

1538 - Limpa

 

A consciência esvaziada a funcionar

Principiou, começa agora a receber,

Coisa que o ego, antes de a luz iluminar,

Este ego sempre se recusa a operar,

Inchado inteiro com o plano a ter de ser.

 

É nesta altura que acontecem as catarses,

Naquele zero que, absoluto, nada tem,

No fundo caos, no não-medo sem disfarces.

Isto ocorrido, então depois, sendo também

 

Que balizado tudo fica dentro em mim,

Começa breve um novo trilho a se mostrar,

Com outros rumos e valores, outro fim:

 

E principia, ao mesmo tempo, vindo atrás,

O itinerário em que me sinto mesmo em paz.

 

 

1539 - Escapar

 

Para escapar ao sofrimento a Humanidade

Usa de Cristo o sofrimento: é coisa alheia.

Um sofredor à confiança persuade,

Tal se quem sofre carreara mais verdade

Que quem feliz se confirmara de mão cheia.

 

Tudo por medo, medo até de ser feliz:

Quando felizes, logo cremos nalgo errado.

Não confiamos na abundância em todo o lado

E ganho o céu se da alegria me desfiz.

 

Ora, quem sofre inflige a si mal com dureza,

Em derradeiro se coloca e não é isto

Que o sofrimento alcançar deve com presteza:

 

É uma revolta que extirpar devera o quisto

E a nova terra edificar em paz que avisto.

 

 

1540 - Encadeado

 

Uma dor incompreendida

É memória inconsciente

Dum determinismo em vida,

Encadeado, de seguida,

Detrás até ao presente.

 

A dor que não aceitei

Torna sempre, reencarnada,

Até se lhe aceitar a lei,

Ser limpa de vez a estrada.

 

Não fujas do que te vem

Naturalmente no dia:

Vive a dor e a festa bem!

 

Se a dor vives e a superas

Não volta mais pelas eras.

 

 

1541 - Mudança

 

A mudança é a rainha da alquimia,

Na mudança é que tudo se transforma,

Redefine, mistura noutra via

Com possibilidades de magia

Num leque muito vasto, além da norma.

 

Se não tiverem medo os povos todos,

(E o medo é o que mais todos atrapalha),

Vão conseguir sentir escolha e modos,

Melhor a cada qual o que é que calha.

 

No campo material e espiritual

Importa conciliar: o coração

Sente, a mente analisa e dá o aval.

 

Hoje em dia ao contrário todos vão:

Só sinto ao me a cabeça ofertar chão.

 

 

1542 - Clarividentes

 

Todos temos o poder de ler os dados

Como são, clarividentes, desprendidos,

Na harmonia do que é útil fecundados.

Sempre sabe cada qual que passos dados

Do caminho são que deve ter medidos.

 

Quando nascem todos são, porém, jogados

Para um poço de terror intransponível.

Se ao evento inesperado confrontados,

Ao incógnito de rosto inexprimível,

 

Em lugar de se deixar ir na corrente,

Disparado é logo o filtro de tal medo:

Nada fica como dantes, tudo é doente.

 

Desfocado finda tudo no arremedo,

A energia já não flui e ao peso cedo.

 

 

1543 - Filtro

 

Quem nos destrói o filtro vil do medo?

Ninguém o logra, mas aqui se molda:

Quão mais trepares para cima cedo,

Quanto mais alto te ligares, ledo,

Menos teu pé no chão de cá se solda,

 

Menos raízes tens prendendo à terra.

O medo está na terra que te agarra:

Quem levitar um palmo acima a garra

Do chão se solta e nenhum medo o ferra.

 

É voar fora dum alcance estreito,

Trepar ao céu e olhar do infindo o nada

Que aqui nos prende de afogado em leito.

 

É só elevar-nos e fenece à entrada

O medo que nos tolhe na jornada.

 

 

1544 - Trabalho-a

 

Quando a dor vem, eu aceito,

Trabalho-a, deixo doer.

Quando o medo vem e o peito

Me garrota, nem o jeito

De o disfarçar vou querer,

 

Não fujo para o cinema

Nem saio com os amigos:

De perder da vida a gema

Tremo mas sofro os perigos.

 

Quando a tristeza me advém

Eu apenas fico aqui,

Pisando por ela além…

 

-Mas por que é que o trilho em si

Fere como nunca vi?

 

 

1545 - Águias

 

As águias longevidade

De anos setenta terão,

Mas aos quarenta, em verdade,

Terão a necessidade

Duma dura decisão.

 

É que aqui as unhas ficam

Compridas, frágeis demais

Para a presa a que se aplicam

Prenderem em anos tais.

 

O bico se encurva ao peito

E as asas, de tão pesadas,

Perdem para o voo o jeito…

 

- Morro então se renovadas

Não forjo armas das finadas.

 

 

1546 - Meia

 

As águias na meia vida

Fazem a renovação

Trepando à montanha erguida,

Buscando um ninho à medida

Encostado a um paredão.

 

Com o bico na parede

Batem até o arrancar.

Com um novo as unhas, vede,

Tiram sem tergiversar.

 

Removem, por fim, as penas.

Após seis meses de dor

Retornam de outrora às cenas.

 

- Na vida é de nos propor

O custo do inovador.

 

 

1547 - Resguardar-nos

 

Em nossa vida muitas vezes temos

De resguardar-nos algum tempo e então

Urge pegar com nossas mãos nos remos

E começar a pesquisar extremos

Do longo rio de inovar o chão.

 

Para vogar desprenderei de ideias,

Conceitos mil, de tradições, lembranças

Que dor causaram e de perda cheias.

Somente livre das pesadas franças

 

De antanho posso aproveitar o efeito

Da inovação que novas plantas traz.

Do peso antigo libertado, o jeito

 

Terei de abrir-me a algum perfil capaz

De vida haurir numa colheita em paz.

 

 

1548 - Bêbado

 

O bêbado precisa de aceitar

A sensibilidade que ele tem.

É tamanha que o leva a se afastar

Do mundo em que não quer participar,

Pretende levitar de tudo além.

 

Quereria voar, subir ao céu,

Ver, abrindo o canal, nova entidade

Cósmica desvelada de seu véu,

Quer sonhar e quer crer que, de verdade,

 

Vale a pena esta vida, fazer planos

E quer vir a poder vê-los crescer…

Sente tanto que murcha dos enganos.

 

- A si próprio ajuda-o a querer:

Que beba a vida nova que vier.

 

 

1549 - Compreender

 

Quando o homem compreender

Deveras do céu a lógica,

Vê no que andar a fazer

Que simples é o guião a ter

Como é falsa e demagógica

 

A lógica habitual

Que já não serve à vivência.

- Então começa, afinal,

A andar com nova valência.

 

Para tal nos vem a perda:

Para que errada entendamos

A razão que detrás se herda.

 

A perda faz que tenhamos

Outra ter com que ganhamos.

 

 

1550 - Perda

 

Da perda os homens precisam:

Ela apenas perceber

Pode fazer que o que visam

As lesões é que enfatizam,

Que outro rumo é de empreender.

 

O mundo material

É de repensá-lo inteiro,

Programar outro carreiro

Mais unido, universal:

 

Sem um sistema dual,

Sem os contrários fendidos,

Sem a corrida humanal

 

A lutar por escolhidos

Contra os que são preteridos.

 

 

1551 - Dual

 

Todo o dual tem um contrário,

Se há um contrário, quer escolha,

Se há que escolher, arbitrário,

Terá de julgar, sumário,

Não há síntese que acolha.

 

Toda a vez que nós julgamos

Rejeitamos um dos lados:

Um do outro separados,

Tudo desarmonizamos.

 

Desarmonizo a matéria,

Toda a perda então enfuno

Quando a divisão é séria.

 

Se os dois lados não coaduno,

Que perda até ficar uno!

 

 

1552 - Fará

 

Ninguém o fará por mal,

Mas pior não há que alguém

Que de auto-estima o sinal,

A glória individual,

Da vida doutrem retém.

 

Quanto mais alguém precisa

Doutrem para se encontrar,

Ao seu Eu, onde enraíza,

Mais vai desenergizar.

 

Se outrem quer para julgá-lo,

Perdeu a própria energia,

De si se alheia no abalo.

 

E a doença principia

No buraco que anuncia.

 

 

1553 - Culpa

 

A culpa tem-na quem foi ajudado,

Quem é levado pela conjuntura

A agradecer o nunca deprecado,

Que a ver com ele nada, doutro lado,

Terá por fim, por vir doutra figura.

 

Pois martiriza-se ao cuidar que não

Correspondeu ao gesto que ajudou:

Eis como o intuito de ajudar ao chão

Esmaga alguém que grato ser tentou.

 

Quando o ajudado já só culpa sente,

Por vezes faz o que é-lhe aconselhado

E corre mal o intento, de repente,

 

Não dará conta do solicitado:

- É vida doutrem que lhe corre ao lado.

 

 

1554 - Ajuda

 

Uma ajuda corre mal

Se a energia da pessoa

Ajudada, enquanto tal,

Não confere como igual

Com a da que a ajuda à toa.

 

Corre mal, que a solução

De meus problemas é dentro

De mim que tem o portão,

Não doutro onde jamais entro.

 

A culpa sempre obedece,

Por medo de recusar

O que as pegadas lhe empece.

 

É por isto errado andar

Que corre mal ajudar.

 

 

1555 - Requer

 

Em perda quem estiver

Como quem tem um problema,

Requer, para o resolver,

A energia que tiver

Por si próprio como lema.

 

E limpo terá de estar,

De espírito positivo.

Que o deixem utilizar

A lógica que o tem vivo.

 

O problema dum não pode

Na lógica resolver-se

Doutro qualquer que lhe acode.

 

Ajudar é que outrem verse

A raiz que em si converse.

 

 

1556 - Foges

 

Tu foges da própria vida

Ao ir ajudar alguém,

Se é mais fácil resolvida

Ver doutrem a dor ferida

Que a que em ti próprio te tem.

 

É que outrem merece pena

E tu pões-te aqui na altura,

Mais te vendo ante a pequena

Coisa que ele é na figura.

 

Ajudo e então me distraio

E mostro como sou bom,

Doutrem bom conceito atraio.

 

Mas só Deus julga: em meu tom

De ser Deus me arrogo o dom.

 

 

1557 - Sinto

 

Quando não estou centrado

Em minha vida, a agressão

Sinto do que me for dado

De fora e nunca gerado

De meu imo na impulsão.

 

Todos em redor requerem

De nós o que adorariam

De nossas vidas fazerem

E em vez de nós tal aviam.

 

Todos querem ajudar

O coitadinho, com pena.

Se a tal não sou similar,

 

Invade e rasga-me a cena

Toda esta gente pequena.

 

 

1558 - Invadem

 

Invadem a nossa vida

Com as próprias opiniões,

Na perspectiva mentida

De que sabem a medida

Melhor de nossas funções.

 

Querem que façamos tudo

Conforme tais instruções.

Pretendem-me sempre mudo,

Mexem eles meus botões.

 

Eles vão manipular

Afinal, a nossa vida.

Depois, o mais singular

 

É que ver agradecida

Querem a invasão sofrida.

 

 

1559 - Estratégia

 

Nem sempre tudo faremos

Do que quiserem de nós,

Nem sempre concordaremos

Com a estratégia que vemos

Por eles moldada após.

 

Nem sempre quero que os mais

Resolvam os meus problemas,

Nem agradeço que os tais

Me invadam em meus dilemas

 

Com suas próprias certezas.

Pior, se num caos vivem,

Da infelicidade presas.

 

A ajuda encobre o que esquivem:

- Buscam vanglórias que arquivem.

 

 

1560 - Bebé

 

Primeiro o bebé nasce e logo ei-lo culpado

De tudo o que acontece: quando algo de mal

Em redor dele ocorre, um pendor há tão grado

A culpabilizar-se que, por todo o lado,

Apazigua tudo, atento e serviçal.

 

Vida própria não tem, precisa de outrem ver

Que fica bem antes de bem ficar por si,

O mundo inteiro em ordem antes de sequer

Poder ir descansar. Com tanto frenesi

 

Que nos sufoca a todos de preocupação:

Sentimos desconforto de ter de andar bem

Para então bem andar quem nos aplana o chão.

 

E daí maior culpa lhe impomos também

E o cerco continua, tudo ao fim refém.

 

 

1561 - Agarra

 

Tem medo de perder e então que faz?

Agarra, agarra tudo: os indivíduos,

Os materiais bens que o ganho traz…

Quanto mais se agarrar mais dele atrás

Vai arrastando pesos desmedidos

 

Do sistema de opostos a um dos lados.

Eu não devo julgar nem escolher

Do mundo entre os pendores, que os vetados

Dentre os medos virão para os viver.

 

O contrário de ter será perder:

Então a perda vem, num desafio,

De tanto a me escapar ainda me ver.

 

Se o medo de perder da vida é o fio,

Então atraio a perda em longo rio.

 

 

1562 - Odeia

 

Alguém odeia o mundo, colhe-o doutras vidas,

Desde o berço rejeita tudo o que o rodeia,

Confronta-se, entra em choque. Em redor, comovidas

Tudo para agradar-lhe irão fazer, rendidas,

As pessoas que o ódio combale e permeia.

 

Mas ele não acolhe este amor que lhe toca,

Cada vez mais arisco e dividido fica,

Rejeita o mundo inteiro que ao ódio convoca.

Aos poucos cada qual se afasta, o amor aplica

 

A quem de devolver mais capaz é o amor.

Aquele mais e mais há-de findar sozinho

Mais ataca e mais todos afasta em redor.

 

Quem se pautar por ódio, de ódio tece o ninho,

Quanto mais o semeia, mais dele é vizinho.

 

 

1563 - Sofre

 

Alguém que sofre muito, por tudo e por nada,

E que não visa nada, não vai para a frente,

Vontade de ajudar noutrem suscita grada,

Mas não a aceita nunca, pois julga de entrada

Que mérito não tem para tal precedente.

 

Apesar de andar sempre a pedir desalmado

Não consegue sair donde está prisioneiro.

Tem pena dele próprio, não se crê julgado

Merecedor de livre se achar do atoleiro.

 

Vive com isso e bem, com tanto sofrimento

Muita atenção dos mais há-de atrair, enfim,

Até que estes se cansam, ninguém fica atento.

 

Se eu tiver de mim pena, pena atraio a mim,

O que vai volta sempre e nunca mais tem fim.

 

 

1564 - Protótipo

 

O protótipo do adulto,

Limpo, esclarecido, tem

Alguns valores de culto

De elitismo bem estulto

Que ao humano não convêm.

 

É que os contrários na terra

Causam desapontamentos:

Tudo se rege e se aferra

Em inversos elementos.

 

É o bem contraste do mal,

Humano, do desumano,

Luz das trevas, por igual…

 

No contraste não me engano,

Frente e avesso, é todo o pano.

 

 

1565 - Duas

 

Há duas forças contrárias

Em nós em luta constante,

Emoção-mente primárias,

Coração de pistas várias,

Raciocínio olhando adiante.

 

Lutamos interiormente

Contrários a harmonizar

Mas a educação nos mente,

É escolher e rejeitar.

 

Requer dum o afastamento,

Tudo se desarmoniza,

Desequilibra no intento.

 

A rejeição que isto visa

Nunca mais nos totaliza.

 

 

1566 - Entre

 

Entre o coração e a mente,

Um pior, outra melhor,

Querem que eu a escolha tente

Que não ajuda quem sente,

É fraco quem por lá for.

 

Só quem usar a cabeça

Deveras é inteligente,

Este é que jamais tropeça

E na vida segue em frente.

 

Quantos, porém, não acertam

Na vida com a razão,

Quando amor nunca despertam?

 

O sinal disto é o guião

Da vida: a insatisfação.

 

 

1567 - Troca-me

 

A linguagem da emoção

É das almas a linguagem:

O grau de insatisfação

Que sinto no coração

Troca-me de vez a imagem.

 

Meu imo não é feliz

Mesmo se a mente diz bem,

Só porque a razão condiz.

Outro mundo há para além:

 

Só vives se algo te agrada

No contraste com o inverso

Que venceste em tua estrada.

 

E é quando infeliz converso

Que de ser feliz eu verso.

 

 

1568 - Ego

 

O ego é poder, resistência,

O ego é guerra e salvaguarda,

Quatro pedras de evidência

Que constituem a essência

De má vida a montar guarda.

 

Primeiro um ego é poder,

Ser mais bonito, mais rico,

Ter mais quem reconhecer,

Mais reino onde pontifico…

 

Necessidade de ser

E de ser mais do que os mais

É vontade de poder.

 

- Em troca de laços reais,

Só isolamentos letais.

 

 

1569 - Garantir

 

Um ego faz resistência:

Se algo houver que funciona,

Ninguém lhe muda a existência,

A garantir a valência

Do bem que proporciona.

 

O problema é, se apesar

Da vida boa que der,

Deprimido se ficar,

De ineficaz tudo ser.

 

Cuida que não faz sofrer

Teu ego, que não tens medo,

Que não te leva a perder.

 

Dor, medo e perda - eis o credo

Com que te leva ao degredo.

 

 

1570 - Insistes

 

O problema é que apesar

Dos esforços do teu ego,

Tu insistes em deixar

O teu coração falar,

Mudar para um outro apego.

 

Teu ego então te resiste,

Com o medo de perder

E o sofrimento que existe

Numa mudança qualquer.

 

Nos medos de que mais foges

Ganha a batalha da vida,

Faz que no ego mais te alojes.

 

Só que a dor que assim te elida

A maior dor te convida.

 

 

1571 - Defendes-te

 

Medo do desconhecido

Se tens, como do amanhã,

Da ideia nova e sentido,

Do ramo reverdecido,

- Defendes-te com afã.

 

Nunca te expões mas te escondes

Numa máscara falseada,

É atrás de ti que respondes,

Dum tu de face inventada.

 

Reténs o velho, não te abres

A novos mundos, conceitos,

À defesa com mil sabres.

 

De feliz crês nisto os jeitos

E à dor só são mesmo atreitos.

 

 

1572 - Guerra

 

Ter a guerra como certa

É de jogar à defesa

Justificação esperta:

O ego sempre se acoberta

Do sol, chuva, da tristeza…

 

Se o mundo é mau, o melhor

Então é fugir do mundo:

O ego livra do temor,

Crê-se cumprindo, fecundo.

 

Não nos deixa conectar

Com o imo. Mas ser feliz

Não vem doutro caminhar:

 

Só no imo achas a matriz

Do porvir de teu cariz.

 

 

1573 - Desenvolve

 

Desde sempre o ser humano

Desenvolve uma estadia

Mais fecunda de ano em ano,

Duma geração o arcano

Dando a outra em melhoria:

 

Vive mais e mais aprende.

Seria de acreditar

Que em desenvolver-se rende

Igual no espírito a par.

 

Porém, não ocorre tal:

Os antigos aos céus iam,

Hoje a poucos isto vale.

 

Os cultos hoje desviam

Da raiz donde irradiam.

 

 

1574 - Culto

 

O culto da inteligência

Para tudo é meio passo.

Premiamos com urgência

Quem dela trepa à eminência,

Cientista, inventor colaço…

 

O culto da inteligência

Vem matando a humanidade:

Quão maior a refulgência

Mais murcha a interioridade.

 

A inteligência não chega,

Aniquilou o melhor

Dos recursos que ela nega:

 

Do sentimento o calor,

A emoção que gera o amor.

 

 

1575 - Órgão

 

Órgão vira o coração

Que se estuda, que se opera…

Desistiram da emoção,

De sentir os pés no chão,

A clínica é que lidera.

 

Eis como o intelecto tapa,

Como obstrui, mata e perfura

A vivência com a capa

Da matéria que ali cura.

 

Ninguém convida a sentir,

Mas sentir é a comunhão,

Coração e alma a se unir.

 

Ele ao Todo dá fusão

E o código é o coração.

 

 

1576 - Vivenciar

 

A missão do ser humano

É vivenciar os opostos

Da matéria em qualquer plano:

Mente e coração, sem dano,

Pensar e sentir os gostos,

 

Racional-emocional…

Bem difícil de vencer

Vai ser duelo que tal,

Sempre às turras em quenquer.

 

Nunca conjugar os dois

Logramos na perfeição:

Quem manda, quem ganha, pois?

 

- De hoje a pior condenação

É que mato o coração.

 

 

1577 - Irresponsáveis

 

Irresponsáveis, loucos, despropositados,

Como irrealistas são os que do coração

Pretenderem viver: os bem intencionados

Juntam-se a convencer os jovens descuidados

Deles a esquecer sonhos, que a terra é que é chão.

 

O caminho espedaçam que o coração dita:

"Se tu vais por aí, repara, irás sofrer,

Qual vida para ti!" Quando um sonho palpita

Logo um frustrado advém, o trilho a interromper.

 

Dele o sonho seguir não conseguiu, portanto,

Não suporta que alguém possa seguir o seu:

Jamais a inteligência empolada foi tanto.

 

A inteligência a lógica quer e teceu,

Lógica o coração não tem nem a pediu.

 

 

1578 - Ilógico

 

O que é ilógico não presta,

Só serve o que a mente entenda

- É o que ensina a quem se apresta

A cultura que nos resta,

Sem ver quanto nos ofenda.

 

Quem acorda triste um dia,

(Sonhou com a mãe defunta)

Quer chorar em demasia,

É o que o coração lhe assunta.

 

Só no fim da dor há paz:

Ele devia chorar

Até dor não ter atrás.

 

Mas não, tem de ir trabalhar,

- Vida contra si trilhar!

 

 

1579 - Lógica

 

Não tem lógica a tristeza

Que súbita atinge alguém.

Como apenas razão preza

Quem na vida nada lesa,

Logo o choro enxuga bem:

 

"Ainda bem que inteligente

Sou e que uso da cabeça

E não caio, de repente,

Numa estéril dor à peça!"

 

Mesmo prontas a sair

Ficam tristezas à espera,

Juntam-se às mais sem porvir,

 

Morre de lógica a era,

Não tem realidade vera.

 

 

1580 - Bloqueio

 

A tristeza acumulada

É bloqueio emocional.

A lágrima não chorada,

De a nao sentir, camuflada,

Um dia devém letal.

 

Ninguém j