DÉCIMO TERCEIRO TROVÁRIO
AQUI CHEGADO, SONETOS E TROVÁRIOS SÃO PROJECTOS
Escolha ao acaso um número entre1526 e 1643, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1526 - Aqui chegado, sonetos e trovários são projectos
Aqui chegado, sonetos e trovários são projectos
Que em todos os pendores perfilam
Realidade e sonho, normas e afectos
Sob cujos tectos
As derrotas se obnubilam.
Em todos os vectores
É o tegumento da vida que mordes
Nos sabores
E nos acordes.
São erguidas bandeiras
No horizonte
De que dos longes te abeiras.
São a inesgotável fonte
Do que de mim a mim faz sempre a ponte.
1527 - Pensa
Apesar de numerosos
Terra além, aqui, ali,
Cada qual só pensa em si.
Vêm dos outros os gozos,
Para nos alimentarmos,
Para também nos vestirmos,
Para da fama fruirmos,
Para trabalho arranjarmos…
E depois consideramos
Os outros como inimigos,
Embora no imo estejamos
Ligados pelos umbigos.
Isto que será senão
Connosco contradição?
1528 - Redes
As redes que se jogaram
Às águas para pescar
Por que é que se retiraram?
Foi por amor, se calhar.
Cobranças que se não cobram
Quando eram de receber
Por que é que tais em nós obram?
É por um amor qualquer.
Um amor de tal feição
Não pode por inimigo
Ter a Deus, na ocasião,
Nem Deus vê nele perigo:
Seja qual for dele a forma,
Nem que seja contra a norma.
1529 - Cuidado
Cuidado com os que esperam
Que os filhos não vão passar
A adversidade que houveram
Eles antes de aguentar.
É que foi a adversidade
Que de nós fez sempre aquilo
Que somos em nossa idade,
De vida este humor tranquilo.
Podemos em desvantagem
Pô-los de muita maneira
E uma delas é, quando agem,
Terem só vida lanceira:
- É que leva a atrofiar
Não ter tido de lutar.
1530 - Parece
Parece que tu te encontras
Do lado externo de tudo,
Sem vibrar olhando as montras,
Os mais sem ver amiúdo,
Sem sentir como eles sentem,
Sem olhar como eles olham…
Todos, parece, consentem
Em dançar, todos acolhem
Os pés musicais na pista,
Mas tu ficas lá sentado,
A passar tudo em revista,
Sempre a olhar, posto de lado.
Como é que a vida um acerto
Te oferta num tal deserto?
1531 - Evento
A vida há-de ser apenas
Qualquer evento aceitar
Tal como se apresentar,
Tentar resolver as cenas
O melhor que for viável
E aguardar então que a sorte
Não nos falhe, indesejável.
Que aquilo que mais importe
Seja tentar proceder
O mais acertadamente
Que nos caiba no poder,
Tão bem quanto este demente
Mundo estúpido o permita.
- E eis o que nos dita a dita.
1532 - Adormecidas
Ao ir a meu lado oposto
Forças e tensões evoco
Adormecidas com rosto
Que então dentro de mim toco,
Dentro da minha energia.
Desperto-as então e as gasto:
Tensões aumentar iria
Se lhes não tocara o pasto.
Minha força bloqueavam
De tal forma que atrair
Uma perda ainda acabavam
Ao explodir a seguir.
Assim tomo-lhes o freio
E à rédea as trago ao meu seio.
1533 - Uno
Uno estar será já não
Distinguir nem escolher:
É viver sem restrição
O que houver para viver,
Ir em frente para onde
Nós tivermos de seguir,
Onde a unidade responde
Em vez do que dividir.
Ser uno é vivenciar
O Todo em cada parcela
Sem nenhuma rejeitar,
Nenhuma, no que for ela,
Até o Todo conseguir
Dentro e fora construir.
1534 - Cuida
Cuida que os dias passem devagar,
Aproveita a visão para aprender.
Deixa planar teu imo a meditar,
Mais não vás que feliz te recolher.
Aproveita, desfruta a tua vida,
Aqui em baixo vive, vive inteiro.
O tempo das mudanças nos convida
A grandes almas ter, livre viveiro.
Lá não vamos, porém, antes do tempo.
A vida saboreia que escolheste,
Prepara os grandes voos a destempo,
Que eles virão depois, no vento agreste.
Prepara-te tostando ao sol da praia,
Que a jornada virá, mal o sol caia.
1535 - Angústia
A angústia sempre vai continuar
E vai aumentar sempre o desconforto,
A não ser que descubras disto a par
Que tudo, patamar a patamar,
Faz parte do processo de a bom porto
Levar a Humanidade a evoluir.
Que tudo tem seu tempo e que o que é feito
Ao que o Cosmos almeja presta preito:
Qualquer que seja o rumo, é sempre a ir.
Que entendas que o trabalho nunca acaba,
Nunca chegamos lá, tal não existe,
Que eterno para a luz tudo desaba.
Hás-de morrer um dia e jamais viste
Fim, que o labor eterno é o que persiste.
1536 - Materialista
Porque é materialista a mais o mundo,
Para o céu ninguém olha, apenas olham
O reconhecimento que, facundo,
Um acto em recompensa tem por fundo.
Se morrem, isto faz que não acolham
(Que o não sabem) olhar para as alturas,
No céu não logram ver a luz que houver,
Íman para as guiar sem sinecuras.
Deambulam pela terra sem saber
Afinal, o que buscam: a luz, de alta,
Não a conseguem ver. Quem se elevar
É que luz mais que os mais traz à ribalta.
Então a febril alma há-de encostar
A quem lume algum tem a partilhar.
1537 - Zero
O zero infindo que morar no sofrimento,
Nada e vazio, é finalmente preparado
A receber uma energia com alento,
A luz, fulgor sofisticado, alor do vento:
É nesta altura que a energia do ser dado
Toca a energia que é do céu, fonte primeira:
Aí ocorre a mutação que é radical,
É nesta perda por inteiro que lá inteira
Ocorre a troca que será fundamental.
Em tal altura é que a luz entra então deveras,
Tudo começa verdadeiro a ter sentido:
Tudo o que tinhas já não é, e o novo esperas.
A consciência agora aceita o inatendido
E não apenas o que quer do que é vivido.
1538 - Limpa
A consciência esvaziada a funcionar
Principiou, começa agora a receber,
Coisa que o ego, antes de a luz iluminar,
Este ego sempre se recusa a operar,
Inchado inteiro com o plano a ter de ser.
É nesta altura que acontecem as catarses,
Naquele zero que, absoluto, nada tem,
No fundo caos, no não-medo sem disfarces.
Isto ocorrido, então depois, sendo também
Que balizado tudo fica dentro em mim,
Começa breve um novo trilho a se mostrar,
Com outros rumos e valores, outro fim:
E principia, ao mesmo tempo, vindo atrás,
O itinerário em que me sinto mesmo em paz.
1539 - Escapar
Para escapar ao sofrimento a Humanidade
Usa de Cristo o sofrimento: é coisa alheia.
Um sofredor à confiança persuade,
Tal se quem sofre carreara mais verdade
Que quem feliz se confirmara de mão cheia.
Tudo por medo, medo até de ser feliz:
Quando felizes, logo cremos nalgo errado.
Não confiamos na abundância em todo o lado
E ganho o céu se da alegria me desfiz.
Ora, quem sofre inflige a si mal com dureza,
Em derradeiro se coloca e não é isto
Que o sofrimento alcançar deve com presteza:
É uma revolta que extirpar devera o quisto
E a nova terra edificar em paz que avisto.
1540 - Encadeado
Uma dor incompreendida
É memória inconsciente
Dum determinismo em vida,
Encadeado, de seguida,
Detrás até ao presente.
A dor que não aceitei
Torna sempre, reencarnada,
Até se lhe aceitar a lei,
Ser limpa de vez a estrada.
Não fujas do que te vem
Naturalmente no dia:
Vive a dor e a festa bem!
Se a dor vives e a superas
Não volta mais pelas eras.
1541 - Mudança
A mudança é a rainha da alquimia,
Na mudança é que tudo se transforma,
Redefine, mistura noutra via
Com possibilidades de magia
Num leque muito vasto, além da norma.
Se não tiverem medo os povos todos,
(E o medo é o que mais todos atrapalha),
Vão conseguir sentir escolha e modos,
Melhor a cada qual o que é que calha.
No campo material e espiritual
Importa conciliar: o coração
Sente, a mente analisa e dá o aval.
Hoje em dia ao contrário todos vão:
Só sinto ao me a cabeça ofertar chão.
1542 - Clarividentes
Todos temos o poder de ler os dados
Como são, clarividentes, desprendidos,
Na harmonia do que é útil fecundados.
Sempre sabe cada qual que passos dados
Do caminho são que deve ter medidos.
Quando nascem todos são, porém, jogados
Para um poço de terror intransponível.
Se ao evento inesperado confrontados,
Ao incógnito de rosto inexprimível,
Em lugar de se deixar ir na corrente,
Disparado é logo o filtro de tal medo:
Nada fica como dantes, tudo é doente.
Desfocado finda tudo no arremedo,
A energia já não flui e ao peso cedo.
1543 - Filtro
Quem nos destrói o filtro vil do medo?
Ninguém o logra, mas aqui se molda:
Quão mais trepares para cima cedo,
Quanto mais alto te ligares, ledo,
Menos teu pé no chão de cá se solda,
Menos raízes tens prendendo à terra.
O medo está na terra que te agarra:
Quem levitar um palmo acima a garra
Do chão se solta e nenhum medo o ferra.
É voar fora dum alcance estreito,
Trepar ao céu e olhar do infindo o nada
Que aqui nos prende de afogado em leito.
É só elevar-nos e fenece à entrada
O medo que nos tolhe na jornada.
1544 - Trabalho-a
Quando a dor vem, eu aceito,
Trabalho-a, deixo doer.
Quando o medo vem e o peito
Me garrota, nem o jeito
De o disfarçar vou querer,
Não fujo para o cinema
Nem saio com os amigos:
De perder da vida a gema
Tremo mas sofro os perigos.
Quando a tristeza me advém
Eu apenas fico aqui,
Pisando por ela além…
-Mas por que é que o trilho em si
Fere como nunca vi?
1545 - Águias
As águias longevidade
De anos setenta terão,
Mas aos quarenta, em verdade,
Terão a necessidade
Duma dura decisão.
É que aqui as unhas ficam
Compridas, frágeis demais
Para a presa a que se aplicam
Prenderem em anos tais.
O bico se encurva ao peito
E as asas, de tão pesadas,
Perdem para o voo o jeito…
- Morro então se renovadas
Não forjo armas das finadas.
1546 - Meia
As águias na meia vida
Fazem a renovação
Trepando à montanha erguida,
Buscando um ninho à medida
Encostado a um paredão.
Com o bico na parede
Batem até o arrancar.
Com um novo as unhas, vede,
Tiram sem tergiversar.
Removem, por fim, as penas.
Após seis meses de dor
Retornam de outrora às cenas.
- Na vida é de nos propor
O custo do inovador.
1547 - Resguardar-nos
Em nossa vida muitas vezes temos
De resguardar-nos algum tempo e então
Urge pegar com nossas mãos nos remos
E começar a pesquisar extremos
Do longo rio de inovar o chão.
Para vogar desprenderei de ideias,
Conceitos mil, de tradições, lembranças
Que dor causaram e de perda cheias.
Somente livre das pesadas franças
De antanho posso aproveitar o efeito
Da inovação que novas plantas traz.
Do peso antigo libertado, o jeito
Terei de abrir-me a algum perfil capaz
De vida haurir numa colheita em paz.
1548 - Bêbado
O bêbado precisa de aceitar
A sensibilidade que ele tem.
É tamanha que o leva a se afastar
Do mundo em que não quer participar,
Pretende levitar de tudo além.
Quereria voar, subir ao céu,
Ver, abrindo o canal, nova entidade
Cósmica desvelada de seu véu,
Quer sonhar e quer crer que, de verdade,
Vale a pena esta vida, fazer planos
E quer vir a poder vê-los crescer…
Sente tanto que murcha dos enganos.
- A si próprio ajuda-o a querer:
Que beba a vida nova que vier.
1549 - Compreender
Quando o homem compreender
Deveras do céu a lógica,
Vê no que andar a fazer
Que simples é o guião a ter
Como é falsa e demagógica
A lógica habitual
Que já não serve à vivência.
- Então começa, afinal,
A andar com nova valência.
Para tal nos vem a perda:
Para que errada entendamos
A razão que detrás se herda.
A perda faz que tenhamos
Outra ter com que ganhamos.
1550 - Perda
Da perda os homens precisam:
Ela apenas perceber
Pode fazer que o que visam
As lesões é que enfatizam,
Que outro rumo é de empreender.
O mundo material
É de repensá-lo inteiro,
Programar outro carreiro
Mais unido, universal:
Sem um sistema dual,
Sem os contrários fendidos,
Sem a corrida humanal
A lutar por escolhidos
Contra os que são preteridos.
1551 - Dual
Todo o dual tem um contrário,
Se há um contrário, quer escolha,
Se há que escolher, arbitrário,
Terá de julgar, sumário,
Não há síntese que acolha.
Toda a vez que nós julgamos
Rejeitamos um dos lados:
Um do outro separados,
Tudo desarmonizamos.
Desarmonizo a matéria,
Toda a perda então enfuno
Quando a divisão é séria.
Se os dois lados não coaduno,
Que perda até ficar uno!
1552 - Fará
Ninguém o fará por mal,
Mas pior não há que alguém
Que de auto-estima o sinal,
A glória individual,
Da vida doutrem retém.
Quanto mais alguém precisa
Doutrem para se encontrar,
Ao seu Eu, onde enraíza,
Mais vai desenergizar.
Se outrem quer para julgá-lo,
Perdeu a própria energia,
De si se alheia no abalo.
E a doença principia
No buraco que anuncia.
1553 - Culpa
A culpa tem-na quem foi ajudado,
Quem é levado pela conjuntura
A agradecer o nunca deprecado,
Que a ver com ele nada, doutro lado,
Terá por fim, por vir doutra figura.
Pois martiriza-se ao cuidar que não
Correspondeu ao gesto que ajudou:
Eis como o intuito de ajudar ao chão
Esmaga alguém que grato ser tentou.
Quando o ajudado já só culpa sente,
Por vezes faz o que é-lhe aconselhado
E corre mal o intento, de repente,
Não dará conta do solicitado:
- É vida doutrem que lhe corre ao lado.
1554 - Ajuda
Uma ajuda corre mal
Se a energia da pessoa
Ajudada, enquanto tal,
Não confere como igual
Com a da que a ajuda à toa.
Corre mal, que a solução
De meus problemas é dentro
De mim que tem o portão,
Não doutro onde jamais entro.
A culpa sempre obedece,
Por medo de recusar
O que as pegadas lhe empece.
É por isto errado andar
Que corre mal ajudar.
1555 - Requer
Em perda quem estiver
Como quem tem um problema,
Requer, para o resolver,
A energia que tiver
Por si próprio como lema.
E limpo terá de estar,
De espírito positivo.
Que o deixem utilizar
A lógica que o tem vivo.
O problema dum não pode
Na lógica resolver-se
Doutro qualquer que lhe acode.
Ajudar é que outrem verse
A raiz que em si converse.
1556 - Foges
Tu foges da própria vida
Ao ir ajudar alguém,
Se é mais fácil resolvida
Ver doutrem a dor ferida
Que a que em ti próprio te tem.
É que outrem merece pena
E tu pões-te aqui na altura,
Mais te vendo ante a pequena
Coisa que ele é na figura.
Ajudo e então me distraio
E mostro como sou bom,
Doutrem bom conceito atraio.
Mas só Deus julga: em meu tom
De ser Deus me arrogo o dom.
1557 - Sinto
Quando não estou centrado
Em minha vida, a agressão
Sinto do que me for dado
De fora e nunca gerado
De meu imo na impulsão.
Todos em redor requerem
De nós o que adorariam
De nossas vidas fazerem
E em vez de nós tal aviam.
Todos querem ajudar
O coitadinho, com pena.
Se a tal não sou similar,
Invade e rasga-me a cena
Toda esta gente pequena.
1558 - Invadem
Invadem a nossa vida
Com as próprias opiniões,
Na perspectiva mentida
De que sabem a medida
Melhor de nossas funções.
Querem que façamos tudo
Conforme tais instruções.
Pretendem-me sempre mudo,
Mexem eles meus botões.
Eles vão manipular
Afinal, a nossa vida.
Depois, o mais singular
É que ver agradecida
Querem a invasão sofrida.
1559 - Estratégia
Nem sempre tudo faremos
Do que quiserem de nós,
Nem sempre concordaremos
Com a estratégia que vemos
Por eles moldada após.
Nem sempre quero que os mais
Resolvam os meus problemas,
Nem agradeço que os tais
Me invadam em meus dilemas
Com suas próprias certezas.
Pior, se num caos vivem,
Da infelicidade presas.
A ajuda encobre o que esquivem:
- Buscam vanglórias que arquivem.
1560 - Bebé
Primeiro o bebé nasce e logo ei-lo culpado
De tudo o que acontece: quando algo de mal
Em redor dele ocorre, um pendor há tão grado
A culpabilizar-se que, por todo o lado,
Apazigua tudo, atento e serviçal.
Vida própria não tem, precisa de outrem ver
Que fica bem antes de bem ficar por si,
O mundo inteiro em ordem antes de sequer
Poder ir descansar. Com tanto frenesi
Que nos sufoca a todos de preocupação:
Sentimos desconforto de ter de andar bem
Para então bem andar quem nos aplana o chão.
E daí maior culpa lhe impomos também
E o cerco continua, tudo ao fim refém.
1561 - Agarra
Tem medo de perder e então que faz?
Agarra, agarra tudo: os indivíduos,
Os materiais bens que o ganho traz…
Quanto mais se agarrar mais dele atrás
Vai arrastando pesos desmedidos
Do sistema de opostos a um dos lados.
Eu não devo julgar nem escolher
Do mundo entre os pendores, que os vetados
Dentre os medos virão para os viver.
O contrário de ter será perder:
Então a perda vem, num desafio,
De tanto a me escapar ainda me ver.
Se o medo de perder da vida é o fio,
Então atraio a perda em longo rio.
1562 - Odeia
Alguém odeia o mundo, colhe-o doutras vidas,
Desde o berço rejeita tudo o que o rodeia,
Confronta-se, entra em choque. Em redor, comovidas
Tudo para agradar-lhe irão fazer, rendidas,
As pessoas que o ódio combale e permeia.
Mas ele não acolhe este amor que lhe toca,
Cada vez mais arisco e dividido fica,
Rejeita o mundo inteiro que ao ódio convoca.
Aos poucos cada qual se afasta, o amor aplica
A quem de devolver mais capaz é o amor.
Aquele mais e mais há-de findar sozinho
Mais ataca e mais todos afasta em redor.
Quem se pautar por ódio, de ódio tece o ninho,
Quanto mais o semeia, mais dele é vizinho.
1563 - Sofre
Alguém que sofre muito, por tudo e por nada,
E que não visa nada, não vai para a frente,
Vontade de ajudar noutrem suscita grada,
Mas não a aceita nunca, pois julga de entrada
Que mérito não tem para tal precedente.
Apesar de andar sempre a pedir desalmado
Não consegue sair donde está prisioneiro.
Tem pena dele próprio, não se crê julgado
Merecedor de livre se achar do atoleiro.
Vive com isso e bem, com tanto sofrimento
Muita atenção dos mais há-de atrair, enfim,
Até que estes se cansam, ninguém fica atento.
Se eu tiver de mim pena, pena atraio a mim,
O que vai volta sempre e nunca mais tem fim.
1564 - Protótipo
O protótipo do adulto,
Limpo, esclarecido, tem
Alguns valores de culto
De elitismo bem estulto
Que ao humano não convêm.
É que os contrários na terra
Causam desapontamentos:
Tudo se rege e se aferra
Em inversos elementos.
É o bem contraste do mal,
Humano, do desumano,
Luz das trevas, por igual…
No contraste não me engano,
Frente e avesso, é todo o pano.
1565 - Duas
Há duas forças contrárias
Em nós em luta constante,
Emoção-mente primárias,
Coração de pistas várias,
Raciocínio olhando adiante.
Lutamos interiormente
Contrários a harmonizar
Mas a educação nos mente,
É escolher e rejeitar.
Requer dum o afastamento,
Tudo se desarmoniza,
Desequilibra no intento.
A rejeição que isto visa
Nunca mais nos totaliza.
1566 - Entre
Entre o coração e a mente,
Um pior, outra melhor,
Querem que eu a escolha tente
Que não ajuda quem sente,
É fraco quem por lá for.
Só quem usar a cabeça
Deveras é inteligente,
Este é que jamais tropeça
E na vida segue em frente.
Quantos, porém, não acertam
Na vida com a razão,
Quando amor nunca despertam?
O sinal disto é o guião
Da vida: a insatisfação.
1567 - Troca-me
A linguagem da emoção
É das almas a linguagem:
O grau de insatisfação
Que sinto no coração
Troca-me de vez a imagem.
Meu imo não é feliz
Mesmo se a mente diz bem,
Só porque a razão condiz.
Outro mundo há para além:
Só vives se algo te agrada
No contraste com o inverso
Que venceste em tua estrada.
E é quando infeliz converso
Que de ser feliz eu verso.
1568 - Ego
O ego é poder, resistência,
O ego é guerra e salvaguarda,
Quatro pedras de evidência
Que constituem a essência
De má vida a montar guarda.
Primeiro um ego é poder,
Ser mais bonito, mais rico,
Ter mais quem reconhecer,
Mais reino onde pontifico…
Necessidade de ser
E de ser mais do que os mais
É vontade de poder.
- Em troca de laços reais,
Só isolamentos letais.
1569 - Garantir
Um ego faz resistência:
Se algo houver que funciona,
Ninguém lhe muda a existência,
A garantir a valência
Do bem que proporciona.
O problema é, se apesar
Da vida boa que der,
Deprimido se ficar,
De ineficaz tudo ser.
Cuida que não faz sofrer
Teu ego, que não tens medo,
Que não te leva a perder.
Dor, medo e perda - eis o credo
Com que te leva ao degredo.
1570 - Insistes
O problema é que apesar
Dos esforços do teu ego,
Tu insistes em deixar
O teu coração falar,
Mudar para um outro apego.
Teu ego então te resiste,
Com o medo de perder
E o sofrimento que existe
Numa mudança qualquer.
Nos medos de que mais foges
Ganha a batalha da vida,
Faz que no ego mais te alojes.
Só que a dor que assim te elida
A maior dor te convida.
1571 - Defendes-te
Medo do desconhecido
Se tens, como do amanhã,
Da ideia nova e sentido,
Do ramo reverdecido,
- Defendes-te com afã.
Nunca te expões mas te escondes
Numa máscara falseada,
É atrás de ti que respondes,
Dum tu de face inventada.
Reténs o velho, não te abres
A novos mundos, conceitos,
À defesa com mil sabres.
De feliz crês nisto os jeitos
E à dor só são mesmo atreitos.
1572 - Guerra
Ter a guerra como certa
É de jogar à defesa
Justificação esperta:
O ego sempre se acoberta
Do sol, chuva, da tristeza…
Se o mundo é mau, o melhor
Então é fugir do mundo:
O ego livra do temor,
Crê-se cumprindo, fecundo.
Não nos deixa conectar
Com o imo. Mas ser feliz
Não vem doutro caminhar:
Só no imo achas a matriz
Do porvir de teu cariz.
1573 - Desenvolve
Desde sempre o ser humano
Desenvolve uma estadia
Mais fecunda de ano em ano,
Duma geração o arcano
Dando a outra em melhoria:
Vive mais e mais aprende.
Seria de acreditar
Que em desenvolver-se rende
Igual no espírito a par.
Porém, não ocorre tal:
Os antigos aos céus iam,
Hoje a poucos isto vale.
Os cultos hoje desviam
Da raiz donde irradiam.
1574 - Culto
O culto da inteligência
Para tudo é meio passo.
Premiamos com urgência
Quem dela trepa à eminência,
Cientista, inventor colaço…
O culto da inteligência
Vem matando a humanidade:
Quão maior a refulgência
Mais murcha a interioridade.
A inteligência não chega,
Aniquilou o melhor
Dos recursos que ela nega:
Do sentimento o calor,
A emoção que gera o amor.
1575 - Órgão
Órgão vira o coração
Que se estuda, que se opera…
Desistiram da emoção,
De sentir os pés no chão,
A clínica é que lidera.
Eis como o intelecto tapa,
Como obstrui, mata e perfura
A vivência com a capa
Da matéria que ali cura.
Ninguém convida a sentir,
Mas sentir é a comunhão,
Coração e alma a se unir.
Ele ao Todo dá fusão
E o código é o coração.
1576 - Vivenciar
A missão do ser humano
É vivenciar os opostos
Da matéria em qualquer plano:
Mente e coração, sem dano,
Pensar e sentir os gostos,
Racional-emocional…
Bem difícil de vencer
Vai ser duelo que tal,
Sempre às turras em quenquer.
Nunca conjugar os dois
Logramos na perfeição:
Quem manda, quem ganha, pois?
- De hoje a pior condenação
É que mato o coração.
1577 - Irresponsáveis
Irresponsáveis, loucos, despropositados,
Como irrealistas são os que do coração
Pretenderem viver: os bem intencionados
Juntam-se a convencer os jovens descuidados
Deles a esquecer sonhos, que a terra é que é chão.
O caminho espedaçam que o coração dita:
"Se tu vais por aí, repara, irás sofrer,
Qual vida para ti!" Quando um sonho palpita
Logo um frustrado advém, o trilho a interromper.
Dele o sonho seguir não conseguiu, portanto,
Não suporta que alguém possa seguir o seu:
Jamais a inteligência empolada foi tanto.
A inteligência a lógica quer e teceu,
Lógica o coração não tem nem a pediu.
1578 - Ilógico
O que é ilógico não presta,
Só serve o que a mente entenda
- É o que ensina a quem se apresta
A cultura que nos resta,
Sem ver quanto nos ofenda.
Quem acorda triste um dia,
(Sonhou com a mãe defunta)
Quer chorar em demasia,
É o que o coração lhe assunta.
Só no fim da dor há paz:
Ele devia chorar
Até dor não ter atrás.
Mas não, tem de ir trabalhar,
- Vida contra si trilhar!
1579 - Lógica
Não tem lógica a tristeza
Que súbita atinge alguém.
Como apenas razão preza
Quem na vida nada lesa,
Logo o choro enxuga bem:
"Ainda bem que inteligente
Sou e que uso da cabeça
E não caio, de repente,
Numa estéril dor à peça!"
Mesmo prontas a sair
Ficam tristezas à espera,
Juntam-se às mais sem porvir,
Morre de lógica a era,
Não tem realidade vera.
1580 - Bloqueio
A tristeza acumulada
É bloqueio emocional.
A lágrima não chorada,
De a nao sentir, camuflada,
Um dia devém letal.
Ninguém j