SEGUNDO  TROVÁRIO

 

 

O  DEVER  LENDO  EM  CADA  PEGADA  DO  TRILHO

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 142 e 283, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

142 - O dever lendo em cada pegada do trilho

 

O dever lendo em cada pegada do trilho,

O poema de métrica certa

E rima a apontar da meta o brilho

Os actos ata do sonho ao cadilho

De modo que a manhã seja manhã de descoberta.

 

Para com quem sou é o dever,

Para com quem és e o mundo além,

De tudo e todos respeitando o ser

E o Ser do Todo em tudo e todos por igual também.

 

No dever cumprido

Me desvendo

Como tendo sentido.

 

E tanto mais me irei lendo

Quanto mais for sendo.

 

 


143 - Problemas

 

Os problemas sexuais

Nem sempre andam junto às pernas,

Mas antes os principais

Moram entre os dois ouvidos.

Na atitude aonde adernas,

Nos preconceitos vividos

Por ti e pelos demais

Morrem as ocasiões

Dos anos de oiro vitais

E o pior dos aleijões

É o dos que sentem vergonha

De precisão tão medonha.

 

 

144 - Guerra

 

Após tudo dito e feito,

Na guerra tudo o que obremos

É de os outros ter no peito,

Fraternidade que temos.

 

Não é, pois, pelo país,

Nem pelo patriotismo,

Nem por programas servis

Montarem o automatismo,

 

Mas por mor do camarada

Que temos a nosso lado,

Pelo amigo de jornada,

A tê-lo vivo e arejado.

 

Todo o discurso altaneiro

Esbarra nisto e se enguiça:

O fundamento primeiro

É o desta simples premissa.

 

 

145 - Lições

 

A vida é uma aprendizagem

De lições encadeadas.

Temos de olhar à clivagem,

Atentos às aulas dadas.

 

Se tiver pena de mim

Bastará ver em redor:

Há sempre pior, ao fim,

Que a sina do meu pendor.

 

 

146 - Relâmpago

 

Como um relâmpago, a vida

Desaparece e aparece

Num instante, comedida.

Divirta-se na quermesse

E doutrem com qualquer ilha

Partilhe esta maravilha.

 

 

147 - Crescer

 

Crescer não é desistir.

Por que é que a criança olhamos

Nela antevendo o porvir,

Em germe, sem tronco ou ramos,

Com admiração gostosa

Pela inocência que goza,

A singela descoberta

Da vida em tudo o que a cerca?

 

É que uma parte de nós

Reconhece e sente a falta

Dessa parte e dos cipós

Que impelem para a ribalta.

A criança humanitária

Naturalmente é, sumária.

Já para o ser sem disfarce

Um adulto há-de esforçar-se.

 

Sempre, então, inspirador

Da criança é tal pendor.

 

E quem crescer então queira

A criança tem à beira.

 

 

148 - Devirei

 

Se eu tiver medo da morte,

Devirei mui cauteloso,

Preocupado da sorte,

Da vida de que então gozo,

Porque uma coisa qualquer

Pode, enfim, me acontecer.

 

Então, quão mais temo a morte

Mais temo a vida e, de esquivo,

De meu dia o que é o recorte,

É que, afinal, menos vivo.

 

 

149 - Poderei

 

Há muitas coisas deveras

Que não poderei mudar:

A ter sentido nas eras

Não posso a vida obrigar

Nem a ser justa, no fundo,

Bordando sonhos no mundo.

 

Mas sinto-me afortunado,

Basta-me olhar para a idade

Com que morre, em todo o lado,

Tanto jovem na cidade.

Serve-me então de lembrete:

Há uma sina e não repete.

 

Estou grato pelo aviso

Que é-me assim antecipado,

Tenho tempo de ter siso

Para agir bem avisado:

Não mais ignorando a morte,

Mais à vida atendo ao norte.

 

 

150 - Firme

 

Há-de sempre a informação

Ser a melhor terapia.

Quão mais alguém saberia

Mais firme pisara o chão,

Mais seguro se sentia.

 

Mesmo com notícias más:

Perene assusta a ignorância;

O conhecimento atrás

Dele acalma qualquer ânsia.

O pior, que mais mal faz,

 

Será sempre o não saber:

A paz ameaça em quenquer.

 

 

151 - Anseio

 

Optimista é quem transforma

Todo o anseio em desafio,

Confia encontrar a forma

De transpor da meta o fio

 

Que se interpõe no caminho.

Esta forma de esperança

Alimenta-se ao cadinho

De ter em si segurança.

 

Se inseguro houvera um dia,

Logo o rumo se esvaía.

 

O optimismo, de tão frágil,

Apoio quer forte e ágil.

 

Ao acaso nunca o deixe:

- Semeie, não se desleixe!

 

 

152 - Atitude

 

A atitude de esperança

Leva a desdramatizar

As adversidades, mansa,

Sem o peso lhes tirar,

 

E ao mesmo tempo a tentar

Nos impelirá de novo,

À luta por superar,

Sempre à espera dum renovo.

 

Por aqui nos distancia

Do que antes desistiria.

 

E ao que houver por alcançar

Sempre finda por chegar.

 

 

153 - Perspectiva

 

A perspectiva optimista

Que vemos mais proveitosa

Em contexto em que se arrisca

É a que induz-nos, ponderosa,

A esperar sempre o melhor

Mas prevenindo o pior.

 

Protegidos dos dois lados,

Levam-nos longe os rodados.

 

 

154 - Perseveraste

 

Perseveraste no empenho,

Trouxe-te isto a boa sorte.

Traz o que to lembre ao cenho,

Que a força em teu desempenho

À sorte é o que te deu norte.

 

 

155 - Benéfica

 

A benéfica auto-estima

É a dos êxitos frequentes,

Pequenos: aqui se anima

Sempre a esperança, entrementes,

No terreno desejável

Dum objectivo alcançável.

 

 

156 - Filtro

 

Quase todos conseguimos

Ver o ontem através

Dum filtro donde auferimos

Apenas, de lés a lés,

E sem qualquer atropelo,

A luz do bom e do belo.

 

Se o truque não funciona,

Irei recordar a infância

Como o que me traz à tona,

Não das ondas da ganância,

Mas de época sem magia

A que nem evoco um dia.

 

O aspirante à vida amarga

Vê o penoso do passado,

Valoriza a dura carga

De, jovem, se haver fanado,

Idade de oiro perdida

De vez até o fim da vida.

 

Converte-se cada dia

Numa fonte inesgotável

De mórbida nostalgia,

De aflição inconsolável.

E, em vez de viver a vida,

Vive ele a morte, em seguida.

 

 

157 - Pendor

 

O pendor mais proveitoso

E mais sensato da vida

Não lamenta, desgostoso,

 

A humanidade ferida

Sem ter em conta, primeiro,

Atributos que, na lida,

 

São positivo celeiro,

Mas antes vai ser aquele

Que a vida canta, leveiro,

 

Depois de quanto a atropele

Ter, atento, ponderado,

Negridão que enfim repele.

 

Depois de a enjeitar de lado,

Celebra a festa daquele

Pendor feliz arvorado.

 

 

158 - Contraditório

 

O optimismo não é nunca

Contraditório de ver

Do problema a garra adunca,

O pendor negro que junca

Uma situação qualquer.

 

Recusa a passividade,

Que se rejeite a estratégia

Que ajudar possa em verdade

A resolver como agrade

Os fados de forma egrégia.

 

O optimismo vem, então,

E melhora a situação.

 

 

159 - Doente

 

O doente positivo

A si fará bem e aos mais:

É sempre o antidepressivo

Do familiar furtivo,

Dos que o cuidam como tais.

 

E bem mais eficiente

Que remédio de doente.

 

 

160 - Porvir

 

Os seres humanos são

Criaturas vinculadas

Ao amanhã, porvir chão.

A nossa suposição,

Expectativas amadas

 

Sobre o futuro vão ter

Grande impacto no presente,

No estado em que aqui viver:

A esperança há-de exercer

Na cura um papel assente.

 

É por isto que um placebo

Mostra o pensar positivo

Indo além do que concebo:

É dele que em mim recebo

Quanto em mim for curativo.

 

Curando doença e vida,

Panaceia que em mim lida,

 

A esperança é um bem potente

Remédio de toda a gente.

 

 

161 - Dupla

 

Tem o nosso passaporte

Dupla nacionalidade:

Da saúde que transporte,

Da doença que me invade.

 

Muito embora prefiramos

Usar passaporte bom,

Mais tarde ou mais cedo usamos

Da doença a cor e o tom.

 

Este lugar inseguro,

Todavia, e doloroso,

Tolero-o com mais apuro

Com o alento laborioso,

 

O alívio, talvez a cura

Da esperança que mo augura,

 

De tal maneira é importante

Esperar um bem adiante.

 

 

162 - Empregados

 

Empregados optimistas

São sempre os mais populares

Nas empresas onde olhares.

Ocupam topos de listas

 

No trabalho a executar

E nos cargos superiores.

Ganham proventos maiores

Que os pessimistas, a par.

 

Apesar dos benefícios,

Poucos vemos procurar

Constantes estimular,

E menos com sacrifícios,

 

O seu pendor optimista,

A fim de que as laborais

Possibilidades reais

Melhorem no que se invista.

 

Os que esperam conseguir

Aquilo a que aspiram tendem,

No trabalho e no que rendem,

Mais firmes a prosseguir.

 

Durante mais tempo insistem

Do que quantos não esperam

Alcançar o que ponderam,

Logram mais metas que alistem.

 

São dois mundos contrastantes

Num e noutro o que garantes.

 

 

163 - Alimenta

 

O optimismo que é melhor

Não alimenta a tendência

De indiscriminado teor

De só pensar excelência.

 

Pensamento positivo

Promove a disposição

Esperançosa do aviso

Que melhor se ajuste então

 

À realidade que houver.

Sonhador idealista

Que não distingue sequer

Entre o atingível em vista

 

E qualquer meta impossível,

Que não avalia o risco

Da decisão corrigível

Chega, no olho com tal cisco,

 

A conclusões, nos juízos,

Que decerto estão erradas.

Na incerteza, os bons avisos

Nas perigosas estradas,

 

São de esperar o melhor

Sempre ao pior preparado.

Assim é que o lutador

Leva o flanco resguardado.

 

 

164 - Supre

 

Temperamento optimista

Melhor supre a adversidade

Que o pessimista que exista,

Desde a grave enfermidade

 

Até à mudança dura

Que a vida às vezes impõe,

Um divórcio que supura,

Bancarrota que supõe

 

Desemprego, emigração

Para um país estrangeiro…

Quem vive optimismo são

Talha ao fogo logo o aceiro.

 

 

165 - Aspecto

 

Um aspecto positivo

Duma atitude optimista

É que, a prazo, me motivo

A estimular toda a lista

 

De atingidos por desgraças,

Calamidades funestas,

A soltar amarras, graças

Às marés que trepem lestas,

 

A me livrar do rancor

De vítima anavalhada,

Toda a página de dor

A virar duma assentada,

 

A tomar em mãos o leme

Do barco da minha vida,

A seguir, não dor que geme,

Meta nova em toda a lida.

 

Além do mais o caminho

Da libertação alude

Ao que é bom, que é pão e vinho,

De alma e de corpo à saúde.

 

 

166 - Extroversão

 

Extroversão é vantagem

De quem for um optimista.

A palavra é uma viagem

Em que valido o que exista

 

No que sinto e desabafo.

Converso para exprimir

Minha emoção, solto o bafo,

É um saudável prosseguir

 

A organizar pensamentos

Ou a aliviar o medo.

Ao desafio dos ventos

Mais penosos a que cedo,

 

Todos nós bem precisamos

De nos ouvir em voz alta,

De ser ouvidos nos ramos

Em que faz o alento falta.

 

Nossas infelicidades

São para ser partilhadas.

A união de identidades,

Diálogo de mentes dadas,

 

Estimulam sentimentos

Rumo à universalidade:

Não sou único em momentos

De sofrer calamidade.

 

Animam a formular

As noções mais proveitosas

Para o stresse aliviar

Das horas antes brumosas.

 

 

167 - Defende

 

Muitas vezes quem acusa,

Mais que combater um erro

Ou defender a verdade,

Defende, nos modos que usa,

De poder seu parco aterro,

A sua tranquilidade

Ou, no ilusório fastígio,

Seu transitório prestígio.

 

Só que a capa de virtude,

Só quem quer dela se ilude.

 

 

168 - Medíocres

 

Tenhamos condescendência

Perante o triste destino,

Dos medíocres vivência:

Defender, sem fé nem tino,

Um prestígio com violência

Ou um valor que eles sabem

Que não têm nem lhes cabem?!

 

São, no fundo, uns desgraçados…

- Por quê dar-nos mais cuidados?

 

 

169 - Diferente

 

Uma maneira de ser

Não supera ou valiosa

Será mais que outra qualquer:

Só diferente é o que entrosa.

 

Não indica um estatuto

Superior nem inferior,

É um complementar produto

Ao cotio a se propor.

 

Tanto vale uma maneira

Como outra dela parceira.

 

 

170 - Momentos

 

Não só quando há males, mas se é bom também:

É mais importante acaso andar por perto

Se tudo bem corre que se o mal advém,

Mesmo se aqui busco um forte apoio certo.

 

Pode ser mais fácil encontrar pessoas

Bastante empenhadas, compassivas, ternas,

Em nossos malogros que cantando loas

A nos ajudarem, celebrando eternas

 

Aclamações do êxito que houver fecundo:

Há muita carência de aplaudir no mundo.

 

 

171 - Difícil

 

É difícil encontrar

Alguém que seja infeliz

Por atenção não prestar

Ao que noutrem tem raiz.

 

Os que, porém, não observam

De alma própria os movimentos

É que nunca se preservam

Dos infelizes momentos.

 

 

172 - Privados

 

O mais carregado de anos

E o que mais cedo morrer

Perdem o mesmo nos danos,

Que apenas privados ser

 

Podemos do que é o presente,

Único que possuímos:

Ninguém perde nunca um ente

Se o não tem da base aos cimos.

 

 

173 - Buscam

 

No campo, praia ou montanha

Quantos buscam o retiro!

Ninguém em si mesmo apanha

O ser único que afiro:

Em si próprio retirar-se

É que faz que não se esgarce.

 

Retiro a firmar ajuda

Só o ferrão que a mim se gruda.

 

 

174 - Força

 

Se a força das circunstâncias

Te deixar desamparado,

Reflecte, domina as ânsias,

Mantém tudo controlado.

 

Mais senhor é de harmonia

Quem frequente a tem em dia.

 

 

175 - Preservar

 

Não nos preservar é estranho

De nossa própria maldade,

O que é possível com ganho,

E após querer de verdade

Da doutrem nos preservar,

O que é impossível, a par.

 

 

176 - Consiste

 

Não é nunca na paixão

Mas antes é numa acção

 

Que consiste o bem e o mal,

Virtude e vício geral.

 

Paixão só desencaminha

Mas murcha os cachos na vinha.

 

 

177 - Mentir

 

Que ninguém possa dizer

Com verdade: "não és bom!"

Leva a mentir quem tiver

De ti tal opinião.

 

Pois de ti completamente

Apenas é dependente:

 

- Quem te impede, com que afecto,

De ser alguém bom e recto?

 

 

178 - Preferir-se

 

Como pode acontecer

Que cada um, apesar

De preferir-se a quenquer,

Menos há-de ponderar

 

A opinião que tiver

Dele próprio a respeito

Que a opinião de qualquer

Alheio que toma a peito?

 

 

179 - Perseverança

 

Perseverança, a fiel arma

Para vencer da escuridão

A imensa nuvem que desarma

A voz e o nosso coração,

 

Que não permite que o presente

Este passado varra ingente.

 

Quem alcançar perseverança

É que algum dia a luz alcança.

 

 

180 - Germinam

 

O terror por toda a parte,

O pânico, a confusão,

Germinam, do mal por arte,

O melhor que alguns terão

E o pior que o medo acarte.

 

 

181 - Talento

 

Da escuridão é a discórdia

O talento especial.

E combatê-la, afinal,

É da amizade a concórdia,

Da confiança os suportes,

Ambas igualmente fortes.

 

Não são nada (se objectivos

Idênticos são que assumes)

Adversas línguas, costumes,

Se corações nossos vivos

Mantemos e bem despertos,

Permanentemente abertos.

 

 

182 - Ensinar

 

Não é, não, prioritário

Ensinar o que sabemos,

Mas conduzir o primário

Saber que compreendemos

A ver que, até o mais credível,

Não é, de vez, infalível.

 

 

183 - Ferramentas

 

Ao tentar matar-te a ti

Foi ele quem te escolheu

E as ferramentas te deu

Do fado que hoje em ti vi:

Penetras-lhe o pensamento,

Das ambições o fermento.

 

Mas, apesar de o captares,

Nunca tens qualquer desejo

De copiar-lhe os patamares,

Tanto mal dele em ti vejo.

Protegido estás de vez

Pelo poder, ao invés,

 

De amar que é de teu desígnio.

E matar perde o fascínio.

 

 

184 - Diferente

 

Diferente é entrar na arena

Para a batalha de morte

Ou como ao vento uma pena

Ou tomando em mãos a sorte.

 

Para muitos não havia

Sequer uma diferença,

Mas tudo diferencia

Uma doutra a desavença,

 

Como numa mesma via

Se um ao norte e outro ao sul ia.

 

 

185 - Importante

 

Como é importante lutar,

Lutar sempre, sem descanso,

Não desistir nem parar,

Não se encantar num remanso!

 

Só assim se pode conter

O mal que o mundo tiver.

 

Que não logro eliminá-lo

Por inteiro, só travá-lo.

 

 

186 - Ataques

 

Aqueles que sobrevivem

A ataques do coração

Aos maus hábitos que arquivem

À partida voltarão

Que os levaram, aos baldões,

À sala de operações.

 

O medo da morte não

Basta por motivação

 

Para alterar arraigados

Hábitos inveterados.

 

Como em tudo o que se visa,

Tudo é do que se enraíza.

 

 

187 - Narizes

 

Como outro grupo de adultos,

Em vez de ver o que estava

Sob os narizes estultos,

Fingem que antes tudo andava

Tal e qual como quenquer

Queira que há-de acontecer.

 

Daqui vítimas provêm:

Perpétuo o mal nos mantêm.

 

De ancestrais o bem e o mal

São de triar por igual

 

Para àquele dizer sim

E a este varrer, por fim.

 

 

188 - Mesmo

 

Se alguém julga que haveria

A grande dicotomia

 

Entre quem houvera sido

E o que hoje aqui tem vivido,

 

A lonjura é bem maior

Se bem ao princípio for.

 

Talvez a vida não tenha

A ver com permanecer

O mesmo que se detenha,

Com sempre idêntico ser,

 

Mas, porventura, em lugar,

Antes com perseverar.

 

 

189 - Padrão

 

Como é que alguém planear

Logra com tanto cuidado,

Amanhãs a adivinhar,

 

E depois a ninharia,

O insignificante dado,

Altera o padrão que havia?

 

Não volta o mesmo então nunca

A ser o que o trilho junca.

 

E a vida que se sonhou

Noutra sempre é que findou.

 

 

190 - Respostas

 

A paisagem aprecia,

Ganha uns gramas nos petiscos…

O que a vida denuncia

É que as respostas aos iscos

Surgem, peixe de quimera,

Quando alguém menos espera,

 

Brotam de tais profundezas

Que as não alcançam nem rezas.

 

Ao rigor foge excessivo:

O excesso mata o que é vivo.

 

 

191 - Preferem

 

Preferem a agitação

Uns tantos; outros, a calma.

Há bastante, em profusão,

Das duas, em corpo e alma,

No mundo, para que colha

Cada qual a que ele escolha.

 

E há sempre tempo bastante

Para que cada pessoa

De ideias mude adiante

Sem andar na vida à toa.

De ambas gosta a maioria,

Pende do pendor do dia.

 

E assim é que o equilíbrio

Se encontrará sem ludíbrio.

 

 

192 - Dá-te

 

Dá-te tempo, tempo dá-te

Para de ideias mudares,

Para também te lembrares

Que nada que em ti se abate,

Bom ou mau, se o tempo o apura,

Nunca para sempre dura.

 

 

193 - Passo

 

A tua felicidade

Como surge é de aceitar.

Não deves, pois, questionar

Cada passo que te agrade:

É que a dúvida aniquila

Cada bem que se perfila.

 

 

194 - Cama

 

Como a vida é uma batalha,

A cama é aquele lugar

Onde deverá reinar

A trégua de quem trabalha.

 

O sono único momento

De paz incondicional

É, nem que do mundo o vento

Desabe em hausto final.

 

Apenas então serei

Da vitalidade rei.

 

 

195 - Treina-te

 

Treina-te a nunca levar

Problema algum para a cama,

Problemas a não comprar

Que teus não sejam na trama.

 

Mundo às costas não carregues,

Tens limites. Pois não sejas

Alto herói donde escorregues.

Colhe o sono por que almejas

 

Sereno, por semear

Um dia tranquilo, a par.

 

 

196 - Ansiedade

 

O pensamento inquietante

Gera ansiedade e nos stressa

A vida inteira, constante.

Aniquila peça a peça

 

O cientista brilhante,

Desanima o religioso,

Destrona o rei mais impante

Com seu jeito tenebroso.

 

- Trata o inquieto pensamento,

Que ele nunca voa ao vento.

 

 

197 - Máquina

 

Máquina de trabalhar

De que nos adianta ser

Se perdemos, ao passar,

Quem mais amamos, sem ver

 

A beleza que há no mundo,

Se nem teremos sequer

O benefício fecundo

Duma noite de lazer,

 

A dormir, maravilhosa,

Na paz que a vida não goza?

 

 

198 - Arte

 

Para ter arte de ouvir,

Só se for sem preconceito:

Ao lugar doutrem hei-de ir

Vestir-lhe a pele com jeito.

Ouvir-lhe-ei o que emitir

E não o que eu queira ouvir.

 

 

199 - Debate

 

Fala, debate e discute

Aberta e silentemente

Contigo o que em ti percute,

Interioriza-te em mente.

 

Sê sempre o teu grande amigo:

Analisa se tens tido

Tempo de pôr ao abrigo

Toda a gente que há sofrido,

 

Mas do tempo gasto a esmo

Nenhum há para ti mesmo.

 

E, se assim for, a medida

Requer que mudes de vida.

 

 

200 - Preço

 

Errarás por muitas vezes,

É o preço duma conquista.

Saberás que tais reveses

Pesam bem pouco na lista,

 

Que mais grave do que errar

É conter-se e não tentar.

 

É deixar de vez adiado

De tolhido, o nosso fado.

 

 

201 - Requerido

 

Para ser empreendedor

Requerido é trabalhar

Perda, frustração e dor.

É preciso superar

 

A dor do parto da vida

E usá-la para esculpir

Uma pessoa à medida

Nas fontes que houver de haurir.

 

No fim, estátua perfeita,

É onde a vida se ajeita.

 

 

202 - Líder

 

Um pequeno líder vê

Os grandes erros em curso,

O grande líder prevê

Do pequeno erro o transcurso.

 

Um pequeno líder vê

A casa desmoronar-se,

O grande líder provê

De ínfima fenda o disfarce,

 

Previne a todo o momento

O final desabamento.

 

Entre o grande e o pequeno

É que a mim me escolho pleno.

 

 

203 - Aquecer

 

Não use, a aquecer, madeira,

Que há-de esgotar-se, entrementes,

A pilha que tem à beira.

Antes vá plantar sementes,

Já que, feita a sementeira,

Na selva há-de ter pendentes

Lenhas para a vida inteira.

 

 

204 - Controla

 

Controla tu teu destino

E não sejas controlado

Por ele, sê paladino!

Faz sempre crescer ao lado,

Entre toda a novidade,

A tua oportunidade!

 

 

205 - Muda

 

Só nunca muda de ideias

Quem ideias não tiver.

Muda-as tu, mesmo às mancheias,

Quando tal se requerer.

Verdade é o que importa a eito,

Não um vago preconceito.

 

 

206 - Reconhecer

 

Vivo aqui num labirinto.

É preciso ter coragem

Para os erros meus que sinto

Reconhecer na triagem

 

E ter sensibilidade

Para, do que noto e notas,

Colher com frontalidade

O que corrigir as rotas.

 

 

207 - Teme

 

Nunca temas os fracassos,

Antes teme não tentar.

Não engordes mais os traços

Dos frustrados que andem no ar.

 

Tem-te em pé bem preparado

Para qualquer desafio

Social que brote ao lado

Ou laboral, com ousio.

 

Destes fortes a vitória

É que nos deixa memória.

 

 

208 - Saber

 

Ter qualidade de vida

É saber valorizar

O sorriso que convida

E a tristeza vinda a par.

 

É humildade no sucesso,

Tirar lições dos fracassos,

Aplausos em que tropeço

Agradecer, mesmo escassos,

 

Mais no que é simples saber,

No anónimo, que se esconde

O tesoiro-mor que houver

Que a alegria corresponde.

 

 

209 - Conquistar

 

A ciência conquistou

Do átomo ao imenso espaço

E a conquistar não levou

Do nosso imo nem um passo:

 

Ter qualidade de vida

É miragem no deserto,

Bela mas inatingida,

Longe sempre e nunca perto.

 

 

210 - Ideias

 

Aprende a ideias expor,

Não a impô-las a ninguém,

Do que pensas mesa pôr

Como das crenças também,

 

Mas sem jamais coagir

Dela a se servir alguém.

Exposto o que então surgir,

Que outrem o que lhe convém

 

Seja livre de escolher,

- É dele o trilho de ser.

 

 

211 - Antes

 

Pensar antes de reagir

Interior é inteligência