SEGUNDO TROVÁRIO
O DEVER LENDO EM CADA PEGADA DO TRILHO
Escolha aleatoriamente um número entre 142 e 283, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
142 - O dever lendo em cada pegada do trilho
O dever lendo em cada pegada do trilho,
O poema de métrica certa
E rima a apontar da meta o brilho
Os actos ata do sonho ao cadilho
De modo que a manhã seja manhã de descoberta.
Para com quem sou é o dever,
Para com quem és e o mundo além,
De tudo e todos respeitando o ser
E o Ser do Todo em tudo e todos por igual também.
No dever cumprido
Me desvendo
Como tendo sentido.
E tanto mais me irei lendo
Quanto mais for sendo.
143 - Problemas
Os problemas sexuais
Nem sempre andam junto às pernas,
Mas antes os principais
Moram entre os dois ouvidos.
Na atitude aonde adernas,
Nos preconceitos vividos
Por ti e pelos demais
Morrem as ocasiões
Dos anos de oiro vitais
E o pior dos aleijões
É o dos que sentem vergonha
De precisão tão medonha.
144 - Guerra
Após tudo dito e feito,
Na guerra tudo o que obremos
É de os outros ter no peito,
Fraternidade que temos.
Não é, pois, pelo país,
Nem pelo patriotismo,
Nem por programas servis
Montarem o automatismo,
Mas por mor do camarada
Que temos a nosso lado,
Pelo amigo de jornada,
A tê-lo vivo e arejado.
Todo o discurso altaneiro
Esbarra nisto e se enguiça:
O fundamento primeiro
É o desta simples premissa.
145 - Lições
A vida é uma aprendizagem
De lições encadeadas.
Temos de olhar à clivagem,
Atentos às aulas dadas.
Se tiver pena de mim
Bastará ver em redor:
Há sempre pior, ao fim,
Que a sina do meu pendor.
146 - Relâmpago
Como um relâmpago, a vida
Desaparece e aparece
Num instante, comedida.
Divirta-se na quermesse
E doutrem com qualquer ilha
Partilhe esta maravilha.
147 - Crescer
Crescer não é desistir.
Por que é que a criança olhamos
Nela antevendo o porvir,
Em germe, sem tronco ou ramos,
Com admiração gostosa
Pela inocência que goza,
A singela descoberta
Da vida em tudo o que a cerca?
É que uma parte de nós
Reconhece e sente a falta
Dessa parte e dos cipós
Que impelem para a ribalta.
A criança humanitária
Naturalmente é, sumária.
Já para o ser sem disfarce
Um adulto há-de esforçar-se.
Sempre, então, inspirador
Da criança é tal pendor.
E quem crescer então queira
A criança tem à beira.
148 - Devirei
Se eu tiver medo da morte,
Devirei mui cauteloso,
Preocupado da sorte,
Da vida de que então gozo,
Porque uma coisa qualquer
Pode, enfim, me acontecer.
Então, quão mais temo a morte
Mais temo a vida e, de esquivo,
De meu dia o que é o recorte,
É que, afinal, menos vivo.
149 - Poderei
Há muitas coisas deveras
Que não poderei mudar:
A ter sentido nas eras
Não posso a vida obrigar
Nem a ser justa, no fundo,
Bordando sonhos no mundo.
Mas sinto-me afortunado,
Basta-me olhar para a idade
Com que morre, em todo o lado,
Tanto jovem na cidade.
Serve-me então de lembrete:
Há uma sina e não repete.
Estou grato pelo aviso
Que é-me assim antecipado,
Tenho tempo de ter siso
Para agir bem avisado:
Não mais ignorando a morte,
Mais à vida atendo ao norte.
150 - Firme
Há-de sempre a informação
Ser a melhor terapia.
Quão mais alguém saberia
Mais firme pisara o chão,
Mais seguro se sentia.
Mesmo com notícias más:
Perene assusta a ignorância;
O conhecimento atrás
Dele acalma qualquer ânsia.
O pior, que mais mal faz,
Será sempre o não saber:
A paz ameaça em quenquer.
151 - Anseio
Optimista é quem transforma
Todo o anseio em desafio,
Confia encontrar a forma
De transpor da meta o fio
Que se interpõe no caminho.
Esta forma de esperança
Alimenta-se ao cadinho
De ter em si segurança.
Se inseguro houvera um dia,
Logo o rumo se esvaía.
O optimismo, de tão frágil,
Apoio quer forte e ágil.
Ao acaso nunca o deixe:
- Semeie, não se desleixe!
152 - Atitude
A atitude de esperança
Leva a desdramatizar
As adversidades, mansa,
Sem o peso lhes tirar,
E ao mesmo tempo a tentar
Nos impelirá de novo,
À luta por superar,
Sempre à espera dum renovo.
Por aqui nos distancia
Do que antes desistiria.
E ao que houver por alcançar
Sempre finda por chegar.
153 - Perspectiva
A perspectiva optimista
Que vemos mais proveitosa
Em contexto em que se arrisca
É a que induz-nos, ponderosa,
A esperar sempre o melhor
Mas prevenindo o pior.
Protegidos dos dois lados,
Levam-nos longe os rodados.
154 - Perseveraste
Perseveraste no empenho,
Trouxe-te isto a boa sorte.
Traz o que to lembre ao cenho,
Que a força em teu desempenho
À sorte é o que te deu norte.
155 - Benéfica
A benéfica auto-estima
É a dos êxitos frequentes,
Pequenos: aqui se anima
Sempre a esperança, entrementes,
No terreno desejável
Dum objectivo alcançável.
156 - Filtro
Quase todos conseguimos
Ver o ontem através
Dum filtro donde auferimos
Apenas, de lés a lés,
E sem qualquer atropelo,
A luz do bom e do belo.
Se o truque não funciona,
Irei recordar a infância
Como o que me traz à tona,
Não das ondas da ganância,
Mas de época sem magia
A que nem evoco um dia.
O aspirante à vida amarga
Vê o penoso do passado,
Valoriza a dura carga
De, jovem, se haver fanado,
Idade de oiro perdida
De vez até o fim da vida.
Converte-se cada dia
Numa fonte inesgotável
De mórbida nostalgia,
De aflição inconsolável.
E, em vez de viver a vida,
Vive ele a morte, em seguida.
157 - Pendor
O pendor mais proveitoso
E mais sensato da vida
Não lamenta, desgostoso,
A humanidade ferida
Sem ter em conta, primeiro,
Atributos que, na lida,
São positivo celeiro,
Mas antes vai ser aquele
Que a vida canta, leveiro,
Depois de quanto a atropele
Ter, atento, ponderado,
Negridão que enfim repele.
Depois de a enjeitar de lado,
Celebra a festa daquele
Pendor feliz arvorado.
158 - Contraditório
O optimismo não é nunca
Contraditório de ver
Do problema a garra adunca,
O pendor negro que junca
Uma situação qualquer.
Recusa a passividade,
Que se rejeite a estratégia
Que ajudar possa em verdade
A resolver como agrade
Os fados de forma egrégia.
O optimismo vem, então,
E melhora a situação.
159 - Doente
O doente positivo
A si fará bem e aos mais:
É sempre o antidepressivo
Do familiar furtivo,
Dos que o cuidam como tais.
E bem mais eficiente
Que remédio de doente.
160 - Porvir
Os seres humanos são
Criaturas vinculadas
Ao amanhã, porvir chão.
A nossa suposição,
Expectativas amadas
Sobre o futuro vão ter
Grande impacto no presente,
No estado em que aqui viver:
A esperança há-de exercer
Na cura um papel assente.
É por isto que um placebo
Mostra o pensar positivo
Indo além do que concebo:
É dele que em mim recebo
Quanto em mim for curativo.
Curando doença e vida,
Panaceia que em mim lida,
A esperança é um bem potente
Remédio de toda a gente.
161 - Dupla
Tem o nosso passaporte
Dupla nacionalidade:
Da saúde que transporte,
Da doença que me invade.
Muito embora prefiramos
Usar passaporte bom,
Mais tarde ou mais cedo usamos
Da doença a cor e o tom.
Este lugar inseguro,
Todavia, e doloroso,
Tolero-o com mais apuro
Com o alento laborioso,
O alívio, talvez a cura
Da esperança que mo augura,
De tal maneira é importante
Esperar um bem adiante.
162 - Empregados
Empregados optimistas
São sempre os mais populares
Nas empresas onde olhares.
Ocupam topos de listas
No trabalho a executar
E nos cargos superiores.
Ganham proventos maiores
Que os pessimistas, a par.
Apesar dos benefícios,
Poucos vemos procurar
Constantes estimular,
E menos com sacrifícios,
O seu pendor optimista,
A fim de que as laborais
Possibilidades reais
Melhorem no que se invista.
Os que esperam conseguir
Aquilo a que aspiram tendem,
No trabalho e no que rendem,
Mais firmes a prosseguir.
Durante mais tempo insistem
Do que quantos não esperam
Alcançar o que ponderam,
Logram mais metas que alistem.
São dois mundos contrastantes
Num e noutro o que garantes.
163 - Alimenta
O optimismo que é melhor
Não alimenta a tendência
De indiscriminado teor
De só pensar excelência.
Pensamento positivo
Promove a disposição
Esperançosa do aviso
Que melhor se ajuste então
À realidade que houver.
Sonhador idealista
Que não distingue sequer
Entre o atingível em vista
E qualquer meta impossível,
Que não avalia o risco
Da decisão corrigível
Chega, no olho com tal cisco,
A conclusões, nos juízos,
Que decerto estão erradas.
Na incerteza, os bons avisos
Nas perigosas estradas,
São de esperar o melhor
Sempre ao pior preparado.
Assim é que o lutador
Leva o flanco resguardado.
164 - Supre
Temperamento optimista
Melhor supre a adversidade
Que o pessimista que exista,
Desde a grave enfermidade
Até à mudança dura
Que a vida às vezes impõe,
Um divórcio que supura,
Bancarrota que supõe
Desemprego, emigração
Para um país estrangeiro…
Quem vive optimismo são
Talha ao fogo logo o aceiro.
165 - Aspecto
Um aspecto positivo
Duma atitude optimista
É que, a prazo, me motivo
A estimular toda a lista
De atingidos por desgraças,
Calamidades funestas,
A soltar amarras, graças
Às marés que trepem lestas,
A me livrar do rancor
De vítima anavalhada,
Toda a página de dor
A virar duma assentada,
A tomar em mãos o leme
Do barco da minha vida,
A seguir, não dor que geme,
Meta nova em toda a lida.
Além do mais o caminho
Da libertação alude
Ao que é bom, que é pão e vinho,
De alma e de corpo à saúde.
166 - Extroversão
Extroversão é vantagem
De quem for um optimista.
A palavra é uma viagem
Em que valido o que exista
No que sinto e desabafo.
Converso para exprimir
Minha emoção, solto o bafo,
É um saudável prosseguir
A organizar pensamentos
Ou a aliviar o medo.
Ao desafio dos ventos
Mais penosos a que cedo,
Todos nós bem precisamos
De nos ouvir em voz alta,
De ser ouvidos nos ramos
Em que faz o alento falta.
Nossas infelicidades
São para ser partilhadas.
A união de identidades,
Diálogo de mentes dadas,
Estimulam sentimentos
Rumo à universalidade:
Não sou único em momentos
De sofrer calamidade.
Animam a formular
As noções mais proveitosas
Para o stresse aliviar
Das horas antes brumosas.
167 - Defende
Muitas vezes quem acusa,
Mais que combater um erro
Ou defender a verdade,
Defende, nos modos que usa,
De poder seu parco aterro,
A sua tranquilidade
Ou, no ilusório fastígio,
Seu transitório prestígio.
Só que a capa de virtude,
Só quem quer dela se ilude.
168 - Medíocres
Tenhamos condescendência
Perante o triste destino,
Dos medíocres vivência:
Defender, sem fé nem tino,
Um prestígio com violência
Ou um valor que eles sabem
Que não têm nem lhes cabem?!
São, no fundo, uns desgraçados…
- Por quê dar-nos mais cuidados?
169 - Diferente
Uma maneira de ser
Não supera ou valiosa
Será mais que outra qualquer:
Só diferente é o que entrosa.
Não indica um estatuto
Superior nem inferior,
É um complementar produto
Ao cotio a se propor.
Tanto vale uma maneira
Como outra dela parceira.
170 - Momentos
Não só quando há males, mas se é bom também:
É mais importante acaso andar por perto
Se tudo bem corre que se o mal advém,
Mesmo se aqui busco um forte apoio certo.
Pode ser mais fácil encontrar pessoas
Bastante empenhadas, compassivas, ternas,
Em nossos malogros que cantando loas
A nos ajudarem, celebrando eternas
Aclamações do êxito que houver fecundo:
Há muita carência de aplaudir no mundo.
171 - Difícil
É difícil encontrar
Alguém que seja infeliz
Por atenção não prestar
Ao que noutrem tem raiz.
Os que, porém, não observam
De alma própria os movimentos
É que nunca se preservam
Dos infelizes momentos.
172 - Privados
O mais carregado de anos
E o que mais cedo morrer
Perdem o mesmo nos danos,
Que apenas privados ser
Podemos do que é o presente,
Único que possuímos:
Ninguém perde nunca um ente
Se o não tem da base aos cimos.
173 - Buscam
No campo, praia ou montanha
Quantos buscam o retiro!
Ninguém em si mesmo apanha
O ser único que afiro:
Em si próprio retirar-se
É que faz que não se esgarce.
Retiro a firmar ajuda
Só o ferrão que a mim se gruda.
174 - Força
Se a força das circunstâncias
Te deixar desamparado,
Reflecte, domina as ânsias,
Mantém tudo controlado.
Mais senhor é de harmonia
Quem frequente a tem em dia.
175 - Preservar
Não nos preservar é estranho
De nossa própria maldade,
O que é possível com ganho,
E após querer de verdade
Da doutrem nos preservar,
O que é impossível, a par.
176 - Consiste
Não é nunca na paixão
Mas antes é numa acção
Que consiste o bem e o mal,
Virtude e vício geral.
Paixão só desencaminha
Mas murcha os cachos na vinha.
177 - Mentir
Que ninguém possa dizer
Com verdade: "não és bom!"
Leva a mentir quem tiver
De ti tal opinião.
Pois de ti completamente
Apenas é dependente:
- Quem te impede, com que afecto,
De ser alguém bom e recto?
178 - Preferir-se
Como pode acontecer
Que cada um, apesar
De preferir-se a quenquer,
Menos há-de ponderar
A opinião que tiver
Dele próprio a respeito
Que a opinião de qualquer
Alheio que toma a peito?
179 - Perseverança
Perseverança, a fiel arma
Para vencer da escuridão
A imensa nuvem que desarma
A voz e o nosso coração,
Que não permite que o presente
Este passado varra ingente.
Quem alcançar perseverança
É que algum dia a luz alcança.
180 - Germinam
O terror por toda a parte,
O pânico, a confusão,
Germinam, do mal por arte,
O melhor que alguns terão
E o pior que o medo acarte.
181 - Talento
Da escuridão é a discórdia
O talento especial.
E combatê-la, afinal,
É da amizade a concórdia,
Da confiança os suportes,
Ambas igualmente fortes.
Não são nada (se objectivos
Idênticos são que assumes)
Adversas línguas, costumes,
Se corações nossos vivos
Mantemos e bem despertos,
Permanentemente abertos.
182 - Ensinar
Não é, não, prioritário
Ensinar o que sabemos,
Mas conduzir o primário
Saber que compreendemos
A ver que, até o mais credível,
Não é, de vez, infalível.
183 - Ferramentas
Ao tentar matar-te a ti
Foi ele quem te escolheu
E as ferramentas te deu
Do fado que hoje em ti vi:
Penetras-lhe o pensamento,
Das ambições o fermento.
Mas, apesar de o captares,
Nunca tens qualquer desejo
De copiar-lhe os patamares,
Tanto mal dele em ti vejo.
Protegido estás de vez
Pelo poder, ao invés,
De amar que é de teu desígnio.
E matar perde o fascínio.
184 - Diferente
Diferente é entrar na arena
Para a batalha de morte
Ou como ao vento uma pena
Ou tomando em mãos a sorte.
Para muitos não havia
Sequer uma diferença,
Mas tudo diferencia
Uma doutra a desavença,
Como numa mesma via
Se um ao norte e outro ao sul ia.
185 - Importante
Como é importante lutar,
Lutar sempre, sem descanso,
Não desistir nem parar,
Não se encantar num remanso!
Só assim se pode conter
O mal que o mundo tiver.
Que não logro eliminá-lo
Por inteiro, só travá-lo.
186 - Ataques
Aqueles que sobrevivem
A ataques do coração
Aos maus hábitos que arquivem
À partida voltarão
Que os levaram, aos baldões,
À sala de operações.
O medo da morte não
Basta por motivação
Para alterar arraigados
Hábitos inveterados.
Como em tudo o que se visa,
Tudo é do que se enraíza.
187 - Narizes
Como outro grupo de adultos,
Em vez de ver o que estava
Sob os narizes estultos,
Fingem que antes tudo andava
Tal e qual como quenquer
Queira que há-de acontecer.
Daqui vítimas provêm:
Perpétuo o mal nos mantêm.
De ancestrais o bem e o mal
São de triar por igual
Para àquele dizer sim
E a este varrer, por fim.
188 - Mesmo
Se alguém julga que haveria
A grande dicotomia
Entre quem houvera sido
E o que hoje aqui tem vivido,
A lonjura é bem maior
Se bem ao princípio for.
Talvez a vida não tenha
A ver com permanecer
O mesmo que se detenha,
Com sempre idêntico ser,
Mas, porventura, em lugar,
Antes com perseverar.
189 - Padrão
Como é que alguém planear
Logra com tanto cuidado,
Amanhãs a adivinhar,
E depois a ninharia,
O insignificante dado,
Altera o padrão que havia?
Não volta o mesmo então nunca
A ser o que o trilho junca.
E a vida que se sonhou
Noutra sempre é que findou.
190 - Respostas
A paisagem aprecia,
Ganha uns gramas nos petiscos…
O que a vida denuncia
É que as respostas aos iscos
Surgem, peixe de quimera,
Quando alguém menos espera,
Brotam de tais profundezas
Que as não alcançam nem rezas.
Ao rigor foge excessivo:
O excesso mata o que é vivo.
191 - Preferem
Preferem a agitação
Uns tantos; outros, a calma.
Há bastante, em profusão,
Das duas, em corpo e alma,
No mundo, para que colha
Cada qual a que ele escolha.
E há sempre tempo bastante
Para que cada pessoa
De ideias mude adiante
Sem andar na vida à toa.
De ambas gosta a maioria,
Pende do pendor do dia.
E assim é que o equilíbrio
Se encontrará sem ludíbrio.
192 - Dá-te
Dá-te tempo, tempo dá-te
Para de ideias mudares,
Para também te lembrares
Que nada que em ti se abate,
Bom ou mau, se o tempo o apura,
Nunca para sempre dura.
193 - Passo
A tua felicidade
Como surge é de aceitar.
Não deves, pois, questionar
Cada passo que te agrade:
É que a dúvida aniquila
Cada bem que se perfila.
194 - Cama
Como a vida é uma batalha,
A cama é aquele lugar
Onde deverá reinar
A trégua de quem trabalha.
O sono único momento
De paz incondicional
É, nem que do mundo o vento
Desabe em hausto final.
Apenas então serei
Da vitalidade rei.
195 - Treina-te
Treina-te a nunca levar
Problema algum para a cama,
Problemas a não comprar
Que teus não sejam na trama.
Mundo às costas não carregues,
Tens limites. Pois não sejas
Alto herói donde escorregues.
Colhe o sono por que almejas
Sereno, por semear
Um dia tranquilo, a par.
196 - Ansiedade
O pensamento inquietante
Gera ansiedade e nos stressa
A vida inteira, constante.
Aniquila peça a peça
O cientista brilhante,
Desanima o religioso,
Destrona o rei mais impante
Com seu jeito tenebroso.
- Trata o inquieto pensamento,
Que ele nunca voa ao vento.
197 - Máquina
Máquina de trabalhar
De que nos adianta ser
Se perdemos, ao passar,
Quem mais amamos, sem ver
A beleza que há no mundo,
Se nem teremos sequer
O benefício fecundo
Duma noite de lazer,
A dormir, maravilhosa,
Na paz que a vida não goza?
198 - Arte
Para ter arte de ouvir,
Só se for sem preconceito:
Ao lugar doutrem hei-de ir
Vestir-lhe a pele com jeito.
Ouvir-lhe-ei o que emitir
E não o que eu queira ouvir.
199 - Debate
Fala, debate e discute
Aberta e silentemente
Contigo o que em ti percute,
Interioriza-te em mente.
Sê sempre o teu grande amigo:
Analisa se tens tido
Tempo de pôr ao abrigo
Toda a gente que há sofrido,
Mas do tempo gasto a esmo
Nenhum há para ti mesmo.
E, se assim for, a medida
Requer que mudes de vida.
200 - Preço
Errarás por muitas vezes,
É o preço duma conquista.
Saberás que tais reveses
Pesam bem pouco na lista,
Que mais grave do que errar
É conter-se e não tentar.
É deixar de vez adiado
De tolhido, o nosso fado.
201 - Requerido
Para ser empreendedor
Requerido é trabalhar
Perda, frustração e dor.
É preciso superar
A dor do parto da vida
E usá-la para esculpir
Uma pessoa à medida
Nas fontes que houver de haurir.
No fim, estátua perfeita,
É onde a vida se ajeita.
202 - Líder
Um pequeno líder vê
Os grandes erros em curso,
O grande líder prevê
Do pequeno erro o transcurso.
Um pequeno líder vê
A casa desmoronar-se,
O grande líder provê
De ínfima fenda o disfarce,
Previne a todo o momento
O final desabamento.
Entre o grande e o pequeno
É que a mim me escolho pleno.
203 - Aquecer
Não use, a aquecer, madeira,
Que há-de esgotar-se, entrementes,
A pilha que tem à beira.
Antes vá plantar sementes,
Já que, feita a sementeira,
Na selva há-de ter pendentes
Lenhas para a vida inteira.
204 - Controla
Controla tu teu destino
E não sejas controlado
Por ele, sê paladino!
Faz sempre crescer ao lado,
Entre toda a novidade,
A tua oportunidade!
205 - Muda
Só nunca muda de ideias
Quem ideias não tiver.
Muda-as tu, mesmo às mancheias,
Quando tal se requerer.
Verdade é o que importa a eito,
Não um vago preconceito.
206 - Reconhecer
Vivo aqui num labirinto.
É preciso ter coragem
Para os erros meus que sinto
Reconhecer na triagem
E ter sensibilidade
Para, do que noto e notas,
Colher com frontalidade
O que corrigir as rotas.
207 - Teme
Nunca temas os fracassos,
Antes teme não tentar.
Não engordes mais os traços
Dos frustrados que andem no ar.
Tem-te em pé bem preparado
Para qualquer desafio
Social que brote ao lado
Ou laboral, com ousio.
Destes fortes a vitória
É que nos deixa memória.
208 - Saber
Ter qualidade de vida
É saber valorizar
O sorriso que convida
E a tristeza vinda a par.
É humildade no sucesso,
Tirar lições dos fracassos,
Aplausos em que tropeço
Agradecer, mesmo escassos,
Mais no que é simples saber,
No anónimo, que se esconde
O tesoiro-mor que houver
Que a alegria corresponde.
209 - Conquistar
A ciência conquistou
Do átomo ao imenso espaço
E a conquistar não levou
Do nosso imo nem um passo:
Ter qualidade de vida
É miragem no deserto,
Bela mas inatingida,
Longe sempre e nunca perto.
210 - Ideias
Aprende a ideias expor,
Não a impô-las a ninguém,
Do que pensas mesa pôr
Como das crenças também,
Mas sem jamais coagir
Dela a se servir alguém.
Exposto o que então surgir,
Que outrem o que lhe convém
Seja livre de escolher,
- É dele o trilho de ser.
211 - Antes
Pensar antes de reagir
Interior é inteligência