TERCEIRO TROVÁRIO
DO SER AUSCULTANDO O FULGOR
Escolha aleatoriamente um número entre 284 e 430, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
284 - Do ser auscultando o fulgor
Do ser auscultando o fulgor,
O poema o capta aqui no metro certo,
Na rima que com ele rimar for,
De modo que o capturado pendor
Nos mostre que a lonjura anda, enfim, perto.
Apalpo do ser a estrutura,
Olho onde me acena
E o que ali apura
Que me salva ou condena.
No pendor correcto
Ao reparar, sinto
Que sobre mim, afinal, há sempre um tecto.
No poema não minto:
- Para um salto é um breve plinto.
285 - Invejar
Quem invejar toda a gente,
Este aqui, porque é bonito,
Aquele, porque é potente,
Não dispõe de requisito
Onde embeber a raiz
Quando queira ser feliz.
286 - Animais
Os sentimentos podem ser
Como animais dos mais selvagens.
Subestimamos em qualquer
Ferocidades, vis imagens,
Mas mal a jaula nós lhe abrimos
Logo nas garras nos ferimos.
287 - Aceitação
Na maioria das culturas
A aceitação do que é fatal
Saúde é boa que depuras,
Mas não assim na Ocidental:
Quando algo mau acontecer,
Cuidam que alguém tem de pagar
E logo atacam já quenquer,
Haja ou não haja que atacar.
Não há fronteiras ao poder,
Incha o balão de tal orgulho
Que o Ocidente anda a morrer,
Picado o grão deste gorgulho.
288 - Estranha
A morte é estranha no aspecto
De fazer vir ao de cima
Melhor e pior, directo,
Do que as pessoas anima.
Lança luz sobre a verdade,
Empresta à vida uma rara
Transparência que a invade
Ofuscantemente clara.
Ambiguidade e mentira
Só deste lado se mira.
289 - Maior
Teremos de compreender,
Enquanto somente humanos,
Que deveras há um poder
Maior que nossos enganos
E que, por onde quer que anda,
Tudo ele, tudo, comanda.
É de nos sentir amados
E com ele em ligação,
Nunca em porquês enredados.
Cedo ou tarde, após virão,
Separadamente ou juntas,
As respostas às perguntas.
290 - Catástrofes
As catástrofes obrigam
Todos a nos perguntarmos
Que laços à vida ligam,
Em que é importante pegarmos,
Como podemos marcar
Nossa diferença, a par.
Provocam a introspecção,
É sempre a oportunidade
De entender que fica à mão
Mudar, em qualquer idade,
Mudar o curso das vidas:
Nunca é tarde em tais medidas.
A pior coisa a fazer
Da vida é desperdiçá-la.
Tanto sonho a infância a ter,
(Como o riso alegra a sala!)
E o adulto a se atolar
Nos créditos a pagar!...
Esqueço que há mais na vida,
Esqueço-me de que posso
Ser o que queira, em seguida,
E que a idade, em vez dum fosso
Onde se atole meu lema,
É um salto além do problema.
291 - Esgota
Quando alguém é só dador,
Pode esgotar-se depressa;
Se é, porém, só receptor,
Esgota os mais peça a peça.
Cada qual sempre requer
A energia devolvida
Para equilíbrio manter
A adubar fecundo a vida.
292 - Cancro
Como é que teu cancro escolhes
Usar, a tua doença?
- É a pergunta onde recolhes
O amor à vida que vença:
Ficas a olhar, em tal hora,
Para o que fazer agora.
Vais sentir-te autorizado,
Ali apoiado ao vivo,
A ter o abismo enfrentado
Dum modo que é positivo.
Quem pergunta tal pergunta
Vê-te a doença que assunta,
Não verá nela o castigo
Pelo que hás feito de errado,
Antes porto sem abrigo
Com o cais dificultado,
Passível de treinamento
- E te incita a tal intento.
293 - Parte
Há sempre uma parte em mim
Que é tal qual uma criança
Na casa branca das fadas:
As regras não são, enfim,
Talhadas do que me alcança,
Nunca me são destinadas,
Que eu não sou como outra gente
Mas deveras diferente.
Ora, o que ando a descobrir
Pela doença e derrota
É que diferente a ir
Não irei nem sou na rota,
Meus problemas são problemas
Que dos demais serão temas,
Todos se terão batido
Com eles, séculos fora.
E o sentimento sentido
Que daí vem, não demora,
É duma nova humildade
Que à aceitação persuade
Das coisas tal como são,
De que está bem tudo ser
Comum neste comum chão.
E que agradável é haver
De ligação um sentido
Aos outros com que hei vivido,
Como se todos a parte
Fôramos dum ser total
A lidar com tais questões
E a crescer, crescer, destarte,
Através de rumo igual
Em quaisquer ocasiões!
Não ser diferente, à entrada,
É não segregar-me em nada.
294 - Ego
Jamais o vero sujeito
Um ego poderá ser:
Este é um objecto em meu peito,
Posso consciência ter
Dele, como posso recto
Vê-lo tal qualquer objecto.
Mesmo se algumas das partes
Dele forem inconscientes,
Todas podem, sem apartes,
À consciência advir presentes:
Um ego pode ser visto,
Conhecido, a partir disto.
Consequentemente um ego
Não é o vero observador,
Conhecedor em sossego,
Não é Testemunha-mor.
É apenas amontoado
De objectos, do que é mentado,
De ideias e de conceitos,
De símbolos e de imagens
Com que erradamente atreitos
Somos, após as triagens,
A nos identificarmos,
De nós sem mais nos cuidarmos.
Primeiro identificamo-nos
Com esses objectos todos
E depois como algo usamo-nos,
Óculos de olhar os modos
Que o mundo tem e, assim sendo,
Tudo vamos distorcendo.
295 - Cai
Perante a iluminação
Cai por terra o corpo-mente.
Assim é que os sinto então:
Um doutra cortado rente,
Separado, é uma ilusão
Que se esfuma de repente.
Vejo o corpo, é muito real
E, comparativamente,
Irreal sou eu, afinal.
Mas o iluminado sente
Que é mais vivo, no total,
Que o mero corpo presente,
Pareço quase acordar
E tudo o mais, como um sonho.
É o outro lado a mostrar
Que tudo de que disponho
Tem outra fundura a par:
- O além-raia que me imponho.
296 - Condenação
O pecado, toda a morte,
Condenação ou inferno
Nada mais é que o transporte
Dum ego frio onde hiberno,
Do amor-próprio operações,
Variações de ultra-estima,
De si gesto aos tropeções
Que de Deus nos elimina,
E acaba tudo no inferno,
O campo-santo do eterno.
O diabo vês sem véu:
- Olha aí teu próprio eu!
Mais inferno que um apego
Não há pelo eu surdo e cego,
Nenhum outro Paraíso
Do que um altruísmo liso.
Todo o inferno apenas arde
Dum ego inchado no alarde.
297 - Pequeno
Do pequeno ego dar cabo,
A renúncia de morrermos
Para o eu curto onde acabo,
Separado aí nos ermos,
Este eu de auto-contracção
Onde nem ar tenho à mão…
Se quisermos descobrir
Nossa identidade ao Todo,
Não nos vamos confundir
Dum ego-a-sós com o engodo:
Desfazer a confusão
Com ele é urgente missão.
Esta Queda pode ser
Invertida de repente,
Basta-me compreender
Que, no real existente,
Ela nunca, pelas eras,
Chega a acontecer deveras:
É que apenas Deus existe,
Eu separado é ilusão.
Mas há muito quem persiste,
É gradual a inversão.
Porém, há sempre esta via
De alcançar o que queria.
Quando apropriadamente
Seguida, o nosso caído
Estado agora presente
Rápido é reconvertido
Em estado iluminado,
Do inferno ao céu elevado.
É um voo do solitário
Ao Solitário sem véu,
Ou seja, o rumo primário,
O voo do eu ao Eu.
Seja qual for o caminho,
É o retorno ao vero Ninho.
298 - Outro
Onde quer que o outro exista,
Existe fatal o medo.
Se divido, ordeno em lista
E de terror me embebedo.
A inconsútil consciência
Perderá de vista a essência.
Sujeito perante objecto,
Um eu perante outro eu
São o contexto concreto
Que o medo desperta meu
Porque outrem existe agora
E magoa, não demora.
Do medo o ressentimento
Cresce logo, inevitável.
Se identificar-me tento
Com este eu tão vulnerável,
Então outros vão magoá-lo,
Irão feri-lo, insultá-lo.
Depois a existência do ego
É mantida por insultos
Emocionais que me lego,
Mil vergões em mim sepultos
Que o eu carrega consigo
Por estrutura de abrigo.
Colecciona activamente
As injúrias, as feridas,
A ressenti-las em mente,
Porque sem elas vividas
Tal ego, perdida a estrada,
Literalmente era nada.
299 - Busca
"Voltemos à realidade!"
Mas quem isto pontifica
O que busca de verdade
Só empírico-científica
Realidade justifica
E crê que isto escapa à crítica.
É o que, enfim, percepcionado
Pode ser pelos sentidos
Ou instrumento adequado,
São dados vistos, medidos.
Tudo o que estiver lá fora
Deste mundo tão estreito,
Qualquer alma, onde ela mora,
O espírito, o Deus do peito,
A ponta da eternidade,
Não tem cientificidade
E, portanto, como tal,
Tem rótulo de irreal.
A vida a estudar ciência
Para no fim concluir,
Pese-lhe embora a evidência,
Que este é um reino a se sumir,
De perda maior que o ganho,
De limitado e tacanho!
Nós somos de corpo e mente,
De matéria e também de alma
E de espírito em semente.
Lida a ciência e nos acalma
Com o corpo e a matéria.
Com a mente a prova é séria,
Fica-lhe pobre a abordagem.
Ignora após por inteiro
Das almas qualquer clivagem
E o espírito cimeiro
Fatal dela é ultrapassagem.
Enfim, ao campo da crença
Não há percepção que o vença.
300 - Surpresas
Os pessimistas só podem
Ter surpresas agradáveis.
Pessimismo defensivo
É o daqueles que sacodem
Esperas pouco fiáveis,
A se preparar ao vivo
Para a possibilidade
De fracasso que os invade.
Expectativas mui baixas
Em difíceis situações
Têm o objectivo esperto
De optimizar o que encaixas,
De te adaptar aos baldões
Do que mal te corra, incerto.
É uma táctica optimista
Que estimular tem em vista
Toda a força positiva
Da atitude negativa.
Muda o medo, de malsão,
Numa benéfica acção.
301 - Inimigo
Grande inimigo de quem
Esmagado é pelo acaso
Não é quão grave lhe advém
Uma conjuntura a prazo,
Mas o temor aziago
Imaginário que pago.
No medo mora o inimigo
Que a atribuir ando ao perigo.
302 - Medíocres
Os medíocres estão,
Obviamente, no poder.
Sempre estirveram, então,
Dum modo ou doutro qualquer.
A democracia em vista,
Tanto a que é parlamentar
Como a presidencialista,
Como a ditadura, a par,
Tudo é mediocracia,
Mediania apagada
Em que o génio se entibia
E a moral sai alquebrada.
Então, quem é superior
Na santidade ou no crime
Tarde ou cedo há-de supor
Que se, incómodo, elimine.
Será sempre escandaloso,
Marginal do mal ou bem.
- É sempre contra que entroso
Qualquer porvir que haja além.
303 - Futebol
Vais ao futebol, aos treinos,
Só pelo jogo, exercício?
Na distinção entre reinos
Só lucrarás benefício,
Enquanto o jogo for jogo
Como outro jogo qualquer.
Quando, porém, pegar fogo,
Uma obsessão devier,
Se mudar em religião,
For maneira de existir
E de pensar o teu chão,
Então passarás a ir
Ao compasso do rebanho
E, perdido no exercício,
Mísero serás um anho
Pronto para o sacrifício.
304 - Inexorável
Toda a história duma ideia
É história duma tragédia:
A da inexorável teia
Dos eventos sobre a nédia
Hecatombe dos projectos
Que o homem sonhou por tectos.
Nossos ancestrais sorriem
Dos que a ideia mais vigiem.
305 - Condena
Quando se condena alguém
Por divergir, em quem julga,
Da crença que ele sustém,
Cabe ver que é que promulga.
Quanto tal condenação
Terá de amor à verdade
E quanto carrega então
De amor só da potestade,
Só do poder de julgar
Ou defesa enganatória
De autoritário ditar
Ou culto da própria glória…
Se fizermos esta pausa,
Rápido repararemos
Que isto é o que está sempre em causa
E amor ao vero não vemos.
306 - Abalar
A verdade da doutrina
Pode não ser entendida
Por quem ante ela se inclina,
Mormente quando, em seguida,
Ela lhe abalar as crenças
Em que alicerça o poder.
Logo lhe troca as sentenças
E uma mentira prefere.
Esta é a trágica memória
Que dos ideais conta a história.
307 - Doutrina
Quem pretende defender
Doutrina de fé correcta
Nem fé defende sequer
Mas apenas a concreta
Doutrina cujo respeito
Lhe garante a segurança
E o poder que toma a peito
Ser uma meta que alcança.
Da vida neste desvio
Se atola o fluxo do rio.
308 - Incómoda
Ama o homem a verdade
Quando ela se manifesta,
Quer o manifesto agrade
Ou não, no que então lhe empresta.
Incómoda pontifica
E quem a proclama objecto
De abjecção vai ser, que implica
Ódios atrair do tecto.
E a verdade impessoal,
Sempre vaga e desossada,
É a mentira que então vale,
Dura, a tolher-nos a estrada.
309 - Impacto
A felicidade tem impacto vivo
Na saúde e pode positiva ser
Na esperança activa de viver que activo,
Aumentando firme o limiar que houver.
A felicidade ou a saúde tendem
A ter um impacto positivo então
Na capacidade de lidar que rendem
Ante os compromissos que na vida vão.
E ser responsável do que aqui me ocorre,
Se feliz, saudável, mais alegre corre.
Então eficaz vou lograr ser e firme
Sempre que eu entenda ao que é vital abrir-me.
310 - Fado
O fado de cada um
Vive implicado no todo,
Como o implica, de igual modo,
Como tecido comum.
E a todo o racional ente
É conforme à natureza
Tê-lo então como parente
Que se cuida e que se preza.
É uma outra parte de mim
Que ato ao nó de meu confim.
311 - Repara
Repara que cada um
Apenas vive o presente,
Bem menos que tempo algum,
Pequeno infinitamente.
O resto, ou já se viveu
Ou será futuro incerto.
De cada o instante de seu
É mínimo, visto ao perto.
Mínimo é o canto onde vive,
Mínima a maior das glórias
Póstumas que o tempo esquive
Ao desgaste das memórias.
É devido à sucessão
Apenas destes pigmeus
Que mal nascem, morrerão,
Sem se vislumbrar sem véus,
Bem longe de conhecer
Alguém que é morto há já muito.
E pouco importa sequer
Outro ser o nosso intuito.
312 - Imortais
Supõe imortais aqueles
Que se lembrarem de ti
Com memórias a que apeles
- Que te faz isto por si?
Se morto, de nada serve.
Mas, se vivo, a tal penhor
Que a memória te conserve
A que serve dar louvor?
Será que é mesmo a vanglória
O fito de tua história?
E que, num sopro de vento,
Se esvaia, ao fim, teu intento?
313 - Objectos
Quando os objectos pareçam
Os mais dignos de confiança,
Despoja-os, nem que te impeçam
Pelo valor que os entrança,
Arranca-lhes a roupagem
De que se orgulham, impantes.
Orgulho é mentida imagem
E, quando crês que garantes
Aplicar-te ao que é mais sério,
É que então te mistifica,
Fácil te impõe seu mistério
E ao fútil em ti se aplica.
314 - Insólito
Tudo é mutável deveras,
Também é tudo habitual,
Não há que temer esferas
De insólito, nem sinal.
Os dois lados existentes
Serão sempre equivalentes.
315 - Acabrunharão
Nem futuro nem passado
Te acabrunharão a sério,
É o presente que a teu lado
Exerce em ti todo o império.
Minga o agora ao infinito
Se o circunscreves em si.
Erra o intelecto o fito
Quando cai no frenesi
De acreditar-se incapaz
De a sós o enfrentar veraz.
316 - Externo
Se um dado externo te aflige,
Ele não é quem produz
A turvação que em ti vige,
Mas o juízo que luz,
Que emites dele a respeito:
De ti depende apagá-lo,
Tal como tomá-lo a peito.
Se o que te provoca abalo
É de espírito um estado,
Que te impede de alterar
De ver o modo enganado?
Se é por não executar
Um desígnio desejável,
Por que não dobrar esforços
A fim de o tornar viável,
Em vez de aflitos escorços?
E se algo mais forte o impede,
Não te aflijas, não é tua
A culpa do que não cede
E que a perda traz à rua.
317 - Temer
Aquele que teme a dor
Há-de temer algum dia
Algum evento maior
Dos que o mundo propicia.
É já, de alguma maneira,
Ante o mundo, uma impiedade.
E a quem do prazer se abeira
A injustiça o persuade:
Há-de colher sempre à testa
Impiedade manifesta.
Em qualquer das duas vias
Nunca feliz te haverias.
318 - Contra
Aquele que peca, peca
Contra si próprio também.
Quem injustiça faz peca,
A si logo a faz, porém:
Torna-se, no fundo vau,
A si mesmo um homem mau.
319 - Anda
Tudo anda em transformação,
Tu não findas de mudar,
De perecer em função.
Da mesma maneira, a par,
Assim é com o disperso
E todo inteiro Universo.
320 - Terra
Em breve nos cobrirá
A todos a terra chã,
Depois transformar-se-á
Sem fim, da noite à manhã.
E dela os novos aspectos
Transformar-se-ão sem fim
Em inescrutáveis tectos
E estes noutros, sempre assim…
Ao considerar as vagas
Encadeadas das mudanças,
Na indiferença te apagas
Por quanto mortal entranças.
321 - Implora
Um implora nestes termos:
- Por favor, esta mulher!
Outro evita actos enfermos:
- De a cobiçar vou-me abster.
- Finde esta importunidade! -
É a prece dum, na procela.
E outro: - Que a necessidade
Eu nem tenha do fim dela!
Um não quer perder o filho,
Outro nem tremer à ideia
Quer de perder tal cadilho
Numa vida dele cheia.
E são os mais desprendidos,
Por dentro mais libertados,
Que podem riscos vividos
Enfrentar mais denodados.
322 - País
O país velho, medievo,
Embrutecido pelo medo,
Perpetuado no coevo
Costume atávico do credo,
Pujante, em força, sobrevive,
Revoluções calcando aos pés
De pensamento a que se esquive
Ou de política de viés,
De científica aventura
À descoberta de horizontes,
Tal como um magma, na textura,
Potente e lento arrasa as pontes.
Ele é o senhor incontestado
De terras, rios, absoluto,
De aldeias, vilas, do povoado,
Lugares, quintas, seu reduto,
Das almas todas hesitantes
Entre o anúncio da bondade
Que é divinal por uns instantes
E a maldição da eternidade.
O velho reino é beliscado
Pela oratória do porvir
Na pele apenas que há tocado.
E continua parvo a ir
Sujeito a gosto a toda a algema
Duma ignorância que procura
Esconjurar o fim que tema
Pelo feitiço com que dura.
323 - Agir
Um homem contrariamente
Pode agir ao que a moral
Lhe impetra ao afecto e à mente,
Mas quanto à fundamental
Lei que o Cosmos implemente
E que é sempre universal,
Como ir contra nunca tem:
Livre ali não há ninguém.
324 - Livre
Na livre população
A esperança pesa mais
Do que o medo do papão.
Mas se à força a sujeitais
É o medo, pelo contrário,
O móbil do querer vário.
A primeira tem o culto
Da vida que se lhe oferta;
Foge a segunda ao insulto
De escapar a morte certa.
Uma por si quer viver,
Outra acata obedecer.
Uma é livre, a outra, escrava.
A guerra assenta em domínio,
Escravos tem quem a trava,
Não, nos súbditos, fascínio.
Fora tudo é quase igual?
- Inverso dentro é o sinal.
325 - Paz
Se a paz for de servidão,
De barbárie, solidão,
Nada lamentável faz
Mais um homem que esta paz.
Decerto entre pais e filhos
Mais disputas e sarilhos
Há-de haver, de azedos travos,
Que entre um senhor e os escravos,
Mas não importa à família
Que a autoridade, em quezília,
De escravos seja domínio,
Sem de amor qualquer fascínio.
Não é paz, é a servidão
Que quer o poder na mão
Dum único governante.
Não existe paz no instante
Que é de guerra mera ausência,
Mas apenas na excelência
Da concórdia, férteis calmas,
Colheitas da união de almas.
326 - Tornar-se
Os homens, logo que libertos
Do vão terror por leve paz,
Irão tornar-se, não despertos,
Nem em ninguém mais capaz,
Antes se tornam, pouco a pouco,
Noutros selvagens, barbaria,
Tal como outrora o mundo louco,
E o que eram torna cada dia.
Em vez de seres mais humanos,
Civilizados, bem morais,
É da moleza nos enganos
E na preguiça que os vês mais.
Já não procuram sobrepor-se
Estes àqueles por virtude
Mas pelo fausto e luxo que orce
A mais poeira que os ilude.
Dos pátrios usos se desgostam
E os estrangeiros adoptando,
Não são aquilo em que hoje apostam,
Breve em escravos vão mudando.
E sempre a guerra principia,
De mão em mão armas passando,
Em quem por dentro se traía
E a tudo vem contaminando.
327 - Mote
O mote dos que ambicionam
Qualquer poder absoluto
Foi que os dons sempre os abonam,
Mantendo bens e produto
Da cidade sempre em mente,
Mas vistos secretamente.
E, quanto mais tudo encobre
Pretexto de utilidade,
Mais perigoso é o que sobre:
Mais a escondida verdade
É que a implantar tenderão
Eles sempre a escravidão.
328 - Alcance
Tenho sempre a sensação
De que há qualquer coisa ali
Mesmo ao alcance da mão,
Mas que está, mal eu a vi,
Sempre a escapar de raspão…
- É a Vida: que frustração!
329 - Céu
Apesar de ameaçador,
Sempre é estranhamente belo
Aquele céu de terror.
Como um desastre, atropelo,
Horrendo embora no efeito,
Pode assumir um trejeito
Que vai desdobrar-se em cena
De inenarrável beleza!
Um hotel em chamas pena
Alanceia na surpresa,
Mas que comoção invade
Quem lhe observa a majestade!
É uma a medida humana,
Outra, o mundo a que se irmana.
330 - Preocupo
Se me preocupo mais
Com tua felicidade
Que com os feitos finais
De aprenderes a verdade,
Mais com paz podre a fruir
Que com planos de porvir,
Mais com tua vida a andar
Que com as que se perderem
Se o plano acaso falhar
- Actos que de mim vierem
São os que os da escuridão
Mentores aguardarão.
Como, ante o sol, o luar
De quem é sombra de amar:
A nossa força, em verdade,
É a nossa fragilidade.
331 - Criam
Hão-de ser sempre os tiranos
Que criam seu inimigo.
Como receiam os danos,
Dos que oprimem o perigo!
Saberão que, tarde ou cedo,
Das vítimas incontáveis
Uma se erguerá sem medo
Com gestos irreparáveis
A ripostar contra a sina
De escravo a que se destina.
332 - Crenças
Novas crenças enfatizam
A vivência pessoal,
O interior priorizam,
Do imo o encontro em cada qual:
Muitas vezes não são mais
Que de Deus alguns sinais.
Acolhem quem desconfia
Das grandes religiões,
Do tradicional a via,
Da moral os aleijões,
Tamanha pompa e riqueza
Onde o escândalo só reza.
As novas crenças ofertam
Fuga ao frio ritual,
Da lenda infantil despertam,
Querem cunho pessoal,
Melhor a si se entender
O imo fundo ao percorrer.
São um rumo iniciático
E à vida dão senso prático.
333 - Único
De único Deus todos falam,
Só pode tal Deus ser um.
O rumo por onde abalam,
Certo para qualquer um,
Então é deixar fluir
As múltiplas expressões
Da fé que cada sentir,
Sem violência nem pressões:
Cada, ao ser com todos Uno,
É que então de Deus é aluno.
334 - Sofrem
Apenas sofrem os vivos,
Eles só de culpa se enchem
E de remorsos furtivos,
De perguntas que os preenchem
Para as quais, quão mais se aposta,
Mais iludida é a resposta.
335 - Trabalho
Se vem o trabalho à mão
Sempre em primeiro lugar,
Logo de perto a ambição
O segue, sempre a trepar.
O que é um triste comentário
Duma vida por fadário.
O trabalho é parte enorme
Daquilo que então se for,
Que cremos que nos conforme.
Rompendo com este ardor,
Se propositadamente,
Sinto-me um sobrevivente
À deriva, solitário,
Sozinho num mar imenso
De falta do bem primário
Da teia a que não pertenço.
É o castigo de invertido
Ter, afinal, meu sentido.
Prémio de consolação
É que, ao fim, tenho razão.
336 - Imo
Bom para o imo é parar
Para olhar de vez em quando
Para quanto perdurar.
E o que vem deste comando
É que quão mais velhos somos
Tão mais atentos olhamos.
E assim mais de nós dispomos
Quão menos nos agitamos.
337 - Memórias
Tipo de recordação
Sempre de algum modo é a fé.
Tuas memórias então
De estima dignas até
Hão-de ser, mesmo se moem:
Não deixes que te magoem.
Com tempo verás que são
O que a teus pés gera o chão.