TERCEIRO  TROVÁRIO

 

 

 

DO  SER  AUSCULTANDO  O  FULGOR

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 284 e 430, inclusive.

Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

284 - Do ser auscultando o fulgor

 

Do ser auscultando o fulgor,

O poema o capta aqui no metro certo,

Na rima que com ele rimar for,

De modo que o capturado pendor

Nos mostre que a lonjura anda, enfim, perto.

 

Apalpo do ser a estrutura,

Olho onde me acena

E o que ali apura

Que me salva ou condena.

 

No pendor correcto

Ao reparar, sinto

Que sobre mim, afinal, há sempre um tecto.

 

No poema não minto:

- Para um salto é um breve plinto.

 

 


285 - Invejar

 

Quem invejar toda a gente,

Este aqui, porque é bonito,

Aquele, porque é potente,

Não dispõe de requisito

Onde embeber a raiz

Quando queira ser feliz.

 

 

286 - Animais

 

Os sentimentos podem ser

Como animais dos mais selvagens.

Subestimamos em qualquer

Ferocidades, vis imagens,

Mas mal a jaula nós lhe abrimos

Logo nas garras nos ferimos.

 

 

287 - Aceitação

 

Na maioria das culturas

A aceitação do que é fatal

Saúde é boa que depuras,

Mas não assim na Ocidental:

 

Quando algo mau acontecer,

Cuidam que alguém tem de pagar

E logo atacam já quenquer,

Haja ou não haja que atacar.

 

Não há fronteiras ao poder,

Incha o balão de tal orgulho

Que o Ocidente anda a morrer,

Picado o grão deste gorgulho.

 

 

288 - Estranha

 

A morte é estranha no aspecto

De fazer vir ao de cima

Melhor e pior, directo,

Do que as pessoas anima.

 

Lança luz sobre a verdade,

Empresta à vida uma rara

Transparência que a invade

Ofuscantemente clara.

 

Ambiguidade e mentira

Só deste lado se mira.

 

 

289 - Maior

 

Teremos de compreender,

Enquanto somente humanos,

Que deveras há um poder

Maior que nossos enganos

E que, por onde quer que anda,

Tudo ele, tudo, comanda.

 

É de nos sentir amados

E com ele em ligação,

Nunca em porquês enredados.

Cedo ou tarde, após virão,

Separadamente ou juntas,

As respostas às perguntas.

 

 

290 - Catástrofes

 

As catástrofes obrigam

Todos a nos perguntarmos

Que laços à vida ligam,

Em que é importante pegarmos,

Como podemos marcar

Nossa diferença, a par.

 

Provocam a introspecção,

É sempre a oportunidade

De entender que fica à mão

Mudar, em qualquer idade,

Mudar o curso das vidas:

Nunca é tarde em tais medidas.

 

A pior coisa a fazer

Da vida é desperdiçá-la.

Tanto sonho a infância a ter,

(Como o riso alegra a sala!)

E o adulto a se atolar

Nos créditos a pagar!...

 

Esqueço que há mais na vida,

Esqueço-me de que posso

Ser o que queira, em seguida,

E que a idade, em vez dum fosso

Onde se atole meu lema,

É um salto além do problema.

 

 

291 - Esgota

 

Quando alguém é só dador,

Pode esgotar-se depressa;

Se é, porém, só receptor,

Esgota os mais peça a peça.

 

Cada qual sempre requer

A energia devolvida

Para equilíbrio manter

A adubar fecundo a vida.

 

 

292 - Cancro

 

Como é que teu cancro escolhes

Usar, a tua doença?

- É a pergunta onde recolhes

O amor à vida que vença:

Ficas a olhar, em tal hora,

Para o que fazer agora.

 

Vais sentir-te autorizado,

Ali apoiado ao vivo,

A ter o abismo enfrentado

Dum modo que é positivo.

Quem pergunta tal pergunta

Vê-te a doença que assunta,

 

Não verá nela o castigo

Pelo que hás feito de errado,

Antes porto sem abrigo

Com o cais dificultado,

Passível de treinamento

- E te incita a tal intento.

 

 

293 - Parte

 

Há sempre uma parte em mim

Que é tal qual uma criança

Na casa branca das fadas:

As regras não são, enfim,

Talhadas do que me alcança,

Nunca me são destinadas,

Que eu não sou como outra gente

Mas deveras diferente.

 

Ora, o que ando a descobrir

Pela doença e derrota

É que diferente a ir

Não irei nem sou na rota,

Meus problemas são problemas

Que dos demais serão temas,

 

Todos se terão batido

Com eles, séculos fora.

E o sentimento sentido

Que daí vem, não demora,

É duma nova humildade

Que à aceitação persuade

 

Das coisas tal como são,

De que está bem tudo ser

Comum neste comum chão.

E que agradável é haver

De ligação um sentido

Aos outros com que hei vivido,

 

Como se todos a parte

Fôramos dum ser total

A lidar com tais questões

E a crescer, crescer, destarte,

Através de rumo igual

Em quaisquer ocasiões!

Não ser diferente, à entrada,

É não segregar-me em nada.

 

 

294 - Ego

 

Jamais o vero sujeito

Um ego poderá ser:

Este é um objecto em meu peito,

Posso consciência ter

Dele, como posso recto

Vê-lo tal qualquer objecto.

 

Mesmo se algumas das partes

Dele forem inconscientes,

Todas podem, sem apartes,

À consciência advir presentes:

Um ego pode ser visto,

Conhecido, a partir disto.

 

Consequentemente um ego

Não é o vero observador,

Conhecedor em sossego,

Não é Testemunha-mor.

É apenas amontoado

De objectos, do que é mentado,

 

De ideias e de conceitos,

De símbolos e de imagens

Com que erradamente atreitos

Somos, após as triagens,

A nos identificarmos,

De nós sem mais nos cuidarmos.

 

Primeiro identificamo-nos

Com esses objectos todos

E depois como algo usamo-nos,

Óculos de olhar os modos

Que o mundo tem e, assim sendo,

Tudo vamos distorcendo.

 

 

295 - Cai

 

Perante a iluminação

Cai por terra o corpo-mente.

Assim é que os sinto então:

Um doutra cortado rente,

Separado, é uma ilusão

Que se esfuma de repente.

 

Vejo o corpo, é muito real

E, comparativamente,

Irreal sou eu, afinal.

Mas o iluminado sente

Que é mais vivo, no total,

Que o mero corpo presente,

 

Pareço quase acordar

E tudo o mais, como um sonho.

É o outro lado a mostrar

Que tudo de que disponho

Tem outra fundura a par:

- O além-raia que me imponho.

 

 

296 - Condenação

 

O pecado, toda a morte,

Condenação ou inferno

Nada mais é que o transporte

Dum ego frio onde hiberno,

 

Do amor-próprio operações,

Variações de ultra-estima,

De si gesto aos tropeções

Que de Deus nos elimina,

 

E acaba tudo no inferno,

O campo-santo do eterno.

 

O diabo vês sem véu:

- Olha aí teu próprio eu!

 

Mais inferno que um apego

Não há pelo eu surdo e cego,

 

Nenhum outro Paraíso

Do que um altruísmo liso.

 

Todo o inferno apenas arde

Dum ego inchado no alarde.

 

 

297 - Pequeno

 

Do pequeno ego dar cabo,

A renúncia de morrermos

Para o eu curto onde acabo,

Separado aí nos ermos,

Este eu de auto-contracção

Onde nem ar tenho à mão…

 

Se quisermos descobrir

Nossa identidade ao Todo,

Não nos vamos confundir

Dum ego-a-sós com o engodo:

Desfazer a confusão

Com ele é urgente missão.

 

Esta Queda pode ser

Invertida de repente,

Basta-me compreender

Que, no real existente,

Ela nunca, pelas eras,

Chega a acontecer deveras:

 

É que apenas Deus existe,

Eu separado é ilusão.

Mas há muito quem persiste,

É gradual a inversão.

Porém, há sempre esta via

De alcançar o que queria.

 

Quando apropriadamente

Seguida, o nosso caído

Estado agora presente

Rápido é reconvertido

Em estado iluminado,

Do inferno ao céu elevado.

 

É um voo do solitário

Ao Solitário sem véu,

Ou seja, o rumo primário,

O voo do eu ao Eu.

Seja qual for o caminho,

É o retorno ao vero Ninho.

 

 

298 - Outro

 

Onde quer que o outro exista,

Existe fatal o medo.

Se divido, ordeno em lista

E de terror me embebedo.

A inconsútil consciência

Perderá de vista a essência.

 

Sujeito perante objecto,

Um eu perante outro eu

São o contexto concreto

Que o medo desperta meu

Porque outrem existe agora

E magoa, não demora.

 

Do medo o ressentimento

Cresce logo, inevitável.

Se identificar-me tento

Com este eu tão vulnerável,

Então outros vão magoá-lo,

Irão feri-lo, insultá-lo.

 

Depois a existência do ego

É mantida por insultos

Emocionais que me lego,

Mil vergões em mim sepultos

Que o eu carrega consigo

Por estrutura de abrigo.

 

Colecciona activamente

As injúrias, as feridas,

A ressenti-las em mente,

Porque sem elas vividas

Tal ego, perdida a estrada,

Literalmente era nada.

 

 

299 - Busca

 

"Voltemos à realidade!"

Mas quem isto pontifica

O que busca de verdade

Só empírico-científica

Realidade justifica

E crê que isto escapa à crítica.

 

É o que, enfim, percepcionado

Pode ser pelos sentidos

Ou instrumento adequado,

São dados vistos, medidos.

 

Tudo o que estiver lá fora

Deste mundo tão estreito,

Qualquer alma, onde ela mora,

O espírito, o Deus do peito,

A ponta da eternidade,

Não tem cientificidade

 

E, portanto, como tal,

Tem rótulo de irreal.

 

A vida a estudar ciência

Para no fim concluir,

Pese-lhe embora a evidência,

Que este é um reino a se sumir,

De perda maior que o ganho,

De limitado e tacanho!

 

Nós somos de corpo e mente,

De matéria e também de alma

E de espírito em semente.

Lida a ciência e nos acalma

Com o corpo e a matéria.

Com a mente a prova é séria,

 

Fica-lhe pobre a abordagem.

Ignora após por inteiro

Das almas qualquer clivagem

E o espírito cimeiro

Fatal dela é ultrapassagem.

Enfim, ao campo da crença

Não há percepção que o vença.

 

 

300 - Surpresas

 

Os pessimistas só podem

Ter surpresas agradáveis.

Pessimismo defensivo

É o daqueles que sacodem

Esperas pouco fiáveis,

A se preparar ao vivo

Para a possibilidade

De fracasso que os invade.

 

Expectativas mui baixas

Em difíceis situações

Têm o objectivo esperto

De optimizar o que encaixas,

De te adaptar aos baldões

Do que mal te corra, incerto.

É uma táctica optimista

Que estimular tem em vista

 

Toda a força positiva

Da atitude negativa.

 

Muda o medo, de malsão,

Numa benéfica acção.

 

 

301 - Inimigo

 

Grande inimigo de quem

Esmagado é pelo acaso

Não é quão grave lhe advém

Uma conjuntura a prazo,

Mas o temor aziago

Imaginário que pago.

 

No medo mora o inimigo

Que a atribuir ando ao perigo.

 

 

302 - Medíocres

 

Os medíocres estão,

Obviamente, no poder.

Sempre estirveram, então,

Dum modo ou doutro qualquer.

 

A democracia em vista,

Tanto a que é parlamentar

Como a presidencialista,

Como a ditadura, a par,

 

Tudo é mediocracia,

Mediania apagada

Em que o génio se entibia

E a moral sai alquebrada.

 

Então, quem é superior

Na santidade ou no crime

Tarde ou cedo há-de supor

Que se, incómodo, elimine.

 

Será sempre escandaloso,

Marginal do mal ou bem.

- É sempre contra que entroso

Qualquer porvir que haja além.

 

 

303 - Futebol

 

Vais ao futebol, aos treinos,

Só pelo jogo, exercício?

Na distinção entre reinos

Só lucrarás benefício,

 

Enquanto o jogo for jogo

Como outro jogo qualquer.

Quando, porém, pegar fogo,

Uma obsessão devier,

 

Se mudar em religião,

For maneira de existir

E de pensar o teu chão,

Então passarás a ir

 

Ao compasso do rebanho

E, perdido no exercício,

Mísero serás um anho

Pronto para o sacrifício.

 

 

304 - Inexorável

 

Toda a história duma ideia

É história duma tragédia:

A da inexorável teia

Dos eventos sobre a nédia

 

Hecatombe dos projectos

Que o homem sonhou por tectos.

 

Nossos ancestrais sorriem

Dos que a ideia mais vigiem.

 

 

305 - Condena

 

Quando se condena alguém

Por divergir, em quem julga,

Da crença que ele sustém,

Cabe ver que é que promulga.

 

Quanto tal condenação

Terá de amor à verdade

E quanto carrega então

De amor só da potestade,

 

Só do poder de julgar

Ou defesa enganatória

De autoritário ditar

Ou culto da própria glória…

 

Se fizermos esta pausa,

Rápido repararemos

Que isto é o que está sempre em causa

E amor ao vero não vemos.

 

 

306 - Abalar

 

A verdade da doutrina

Pode não ser entendida

Por quem ante ela se inclina,

Mormente quando, em seguida,

 

Ela lhe abalar as crenças

Em que alicerça o poder.

Logo lhe troca as sentenças

E uma mentira prefere.

 

Esta é a trágica memória

Que dos ideais conta a história.

 

 

307 - Doutrina

 

Quem pretende defender

Doutrina de fé correcta

Nem fé defende sequer

Mas apenas a concreta

 

Doutrina cujo respeito

Lhe garante a segurança

E o poder que toma a peito

Ser uma meta que alcança.

 

Da vida neste desvio

Se atola o fluxo do rio.

 

 

308 - Incómoda

 

Ama o homem a verdade

Quando ela se manifesta,

Quer o manifesto agrade

Ou não, no que então lhe empresta.

 

Incómoda pontifica

E quem a proclama objecto

De abjecção vai ser, que implica

Ódios atrair do tecto.

 

E a verdade impessoal,

Sempre vaga e desossada,

É a mentira que então vale,

Dura, a tolher-nos a estrada.

 

 

309 - Impacto

 

A felicidade tem impacto vivo

Na saúde e pode positiva ser

Na esperança activa de viver que activo,

Aumentando firme o limiar que houver.

 

A felicidade ou a saúde tendem

A ter um impacto positivo então

Na capacidade de lidar que rendem

Ante os compromissos que na vida vão.

 

E ser responsável do que aqui me ocorre,

Se feliz, saudável, mais alegre corre.

 

Então eficaz vou lograr ser e firme

Sempre que eu entenda ao que é vital abrir-me.

 

 

310 - Fado

 

O fado de cada um

Vive implicado no todo,

Como o implica, de igual modo,

Como tecido comum.

 

E a todo o racional ente

É conforme à natureza

Tê-lo então como parente

Que se cuida e que se preza.

 

É uma outra parte de mim

Que ato ao nó de meu confim.

 

 

311 - Repara

 

Repara que cada um

Apenas vive o presente,

Bem menos que tempo algum,

Pequeno infinitamente.

 

O resto, ou já se viveu

Ou será futuro incerto.

De cada o instante de seu

É mínimo, visto ao perto.

 

Mínimo é o canto onde vive,

Mínima a maior das glórias

Póstumas que o tempo esquive

Ao desgaste das memórias.

 

É devido à sucessão

Apenas destes pigmeus

Que mal nascem, morrerão,

Sem se vislumbrar sem véus,

 

Bem longe de conhecer

Alguém que é morto há já muito.

E pouco importa sequer

Outro ser o nosso intuito.

 

 

312 - Imortais

 

Supõe imortais aqueles

Que se lembrarem de ti

Com memórias a que apeles

- Que te faz isto por si?

 

Se morto, de nada serve.

Mas, se vivo, a tal penhor

Que a memória te conserve

A que serve dar louvor?

 

Será que é mesmo a vanglória

O fito de tua história?

 

E que, num sopro de vento,

Se esvaia, ao fim, teu intento?

 

 

313 - Objectos

 

Quando os objectos pareçam

Os mais dignos de confiança,

Despoja-os, nem que te impeçam

Pelo valor que os entrança,

 

Arranca-lhes a roupagem

De que se orgulham, impantes.

Orgulho é mentida imagem

E, quando crês que garantes

 

Aplicar-te ao que é mais sério,

É que então te mistifica,

Fácil te impõe seu mistério

E ao fútil em ti se aplica.

 

 

314 - Insólito

 

Tudo é mutável deveras,

Também é tudo habitual,

Não há que temer esferas

De insólito, nem sinal.

Os dois lados existentes

Serão sempre equivalentes.

 

 

315 - Acabrunharão

 

Nem futuro nem passado

Te acabrunharão a sério,

É o presente que a teu lado

Exerce em ti todo o império.

 

Minga o agora ao infinito

Se o circunscreves em si.

Erra o intelecto o fito

Quando cai no frenesi

 

De acreditar-se incapaz

De a sós o enfrentar veraz.

 

 

316 - Externo

 

Se um dado externo te aflige,

Ele não é quem produz

A turvação que em ti vige,

Mas o juízo que luz,

 

Que emites dele a respeito:

De ti depende apagá-lo,

Tal como tomá-lo a peito.

Se o que te provoca abalo

 

É de espírito um estado,

Que te impede de alterar

De ver o modo enganado?

Se é por não executar

 

Um desígnio desejável,

Por que não dobrar esforços

A fim de o tornar viável,

Em vez de aflitos escorços?

 

E se algo mais forte o impede,

Não te aflijas, não é tua

A culpa do que não cede

E que a perda traz à rua.

 

 

317 - Temer

 

Aquele que teme a dor

Há-de temer algum dia

Algum evento maior

Dos que o mundo propicia.

 

É já, de alguma maneira,

Ante o mundo, uma impiedade.

E a quem do prazer se abeira

A injustiça o persuade:

 

Há-de colher sempre à testa

Impiedade manifesta.

 

Em qualquer das duas vias

Nunca feliz te haverias.

 

 

318 - Contra

 

Aquele que peca, peca

Contra si próprio também.

Quem injustiça faz peca,

A si logo a faz, porém:

Torna-se, no fundo vau,

A si mesmo um homem mau.

 

 

319 - Anda

 

Tudo anda em transformação,

Tu não findas de mudar,

De perecer em função.

Da mesma maneira, a par,

Assim é com o disperso

E todo inteiro Universo.

 

 

320 - Terra

 

Em breve nos cobrirá

A todos a terra chã,

Depois transformar-se-á

Sem fim, da noite à manhã.

 

E dela os novos aspectos

Transformar-se-ão sem fim

Em inescrutáveis tectos

E estes noutros, sempre assim…

 

Ao considerar as vagas

Encadeadas das mudanças,

Na indiferença te apagas

Por quanto mortal entranças.

 

 

321 - Implora

 

Um implora nestes termos:

- Por favor, esta mulher!

Outro evita actos enfermos:

- De a cobiçar vou-me abster.

 

- Finde esta importunidade! -

É a prece dum, na procela.

E outro: - Que a necessidade

Eu nem tenha do fim dela!

 

Um não quer perder o filho,

Outro nem tremer à ideia

Quer de perder tal cadilho

Numa vida dele cheia.

 

E são os mais desprendidos,

Por dentro mais libertados,

Que podem riscos vividos

Enfrentar mais denodados.

 

 

322 - País

 

O país velho, medievo,

Embrutecido pelo medo,

Perpetuado no coevo

Costume atávico do credo,

 

Pujante, em força, sobrevive,

Revoluções calcando aos pés

De pensamento a que se esquive

Ou de política de viés,

 

De científica aventura

À descoberta de horizontes,

Tal como um magma, na textura,

Potente e lento arrasa as pontes.

 

Ele é o senhor incontestado

De terras, rios, absoluto,

De aldeias, vilas, do povoado,

Lugares, quintas, seu reduto,

 

Das almas todas hesitantes

Entre o anúncio da bondade

Que é divinal por uns instantes

E a maldição da eternidade.

 

O velho reino é beliscado

Pela oratória do porvir

Na pele apenas que há tocado.

E continua parvo a ir

 

Sujeito a gosto a toda a algema

Duma ignorância que procura

Esconjurar o fim que tema

Pelo feitiço com que dura.

 

 

323 - Agir

 

Um homem contrariamente

Pode agir ao que a moral

Lhe impetra ao afecto e à mente,

Mas quanto à fundamental

Lei que o Cosmos implemente

E que é sempre universal,

 

Como ir contra nunca tem:

Livre ali não há ninguém.

 

 

324 - Livre

 

Na livre população

A esperança pesa mais

Do que o medo do papão.

Mas se à força a sujeitais

É o medo, pelo contrário,

O móbil do querer vário.

 

A primeira tem o culto

Da vida que se lhe oferta;

Foge a segunda ao insulto

De escapar a morte certa.

Uma por si quer viver,

Outra acata obedecer.

 

Uma é livre, a outra, escrava.

A guerra assenta em domínio,

Escravos tem quem a trava,

Não, nos súbditos, fascínio.

 

Fora tudo é quase igual?

- Inverso dentro é o sinal.

 

 

325 - Paz

 

Se a paz for de servidão,

De barbárie, solidão,

 

Nada lamentável faz

Mais um homem que esta paz.

 

Decerto entre pais e filhos

Mais disputas e sarilhos

 

Há-de haver, de azedos travos,

Que entre um senhor e os escravos,

 

Mas não importa à família

Que a autoridade, em quezília,

 

De escravos seja domínio,

Sem de amor qualquer fascínio.

 

Não é paz, é a servidão

Que quer o poder na mão

 

Dum único governante.

Não existe paz no instante

 

Que é de guerra mera ausência,

Mas apenas na excelência

 

Da concórdia, férteis calmas,

Colheitas da união de almas.

 

 

326 - Tornar-se

 

Os homens, logo que libertos

Do vão terror por leve paz,

Irão tornar-se, não despertos,

Nem em ninguém mais capaz,

 

Antes se tornam, pouco a pouco,

Noutros selvagens, barbaria,

Tal como outrora o mundo louco,

E o que eram torna cada dia.

 

Em vez de seres mais humanos,

Civilizados, bem morais,

É da moleza nos enganos

E na preguiça que os vês mais.

 

Já não procuram sobrepor-se

Estes àqueles por virtude

Mas pelo fausto e luxo que orce

A mais poeira que os ilude.

 

Dos pátrios usos se desgostam

E os estrangeiros adoptando,

Não são aquilo em que hoje apostam,

Breve em escravos vão mudando.

 

E sempre a guerra principia,

De mão em mão armas passando,

Em quem por dentro se traía

E a tudo vem contaminando.

 

 

327 - Mote

 

O mote dos que ambicionam

Qualquer poder absoluto

Foi que os dons sempre os abonam,

Mantendo bens e produto

Da cidade sempre em mente,

Mas vistos secretamente.

 

E, quanto mais tudo encobre

Pretexto de utilidade,

Mais perigoso é o que sobre:

Mais a escondida verdade

É que a implantar tenderão

Eles sempre a escravidão.

 

 

328 - Alcance

 

Tenho sempre a sensação

De que há qualquer coisa ali

Mesmo ao alcance da mão,

Mas que está, mal eu a vi,

Sempre a escapar de raspão…

- É a Vida: que frustração!

 

 

329 - Céu

 

Apesar de ameaçador,

Sempre é estranhamente belo

Aquele céu de terror.

Como um desastre, atropelo,

Horrendo embora no efeito,

Pode assumir um trejeito

 

Que vai desdobrar-se em cena

De inenarrável beleza!

Um hotel em chamas pena

Alanceia na surpresa,

Mas que comoção invade

Quem lhe observa a majestade!

 

É uma a medida humana,

Outra, o mundo a que se irmana.

 

 

330 - Preocupo

 

Se me preocupo mais

Com tua felicidade

Que com os feitos finais

De aprenderes a verdade,

Mais com paz podre a fruir

Que com planos de porvir,

 

Mais com tua vida a andar

Que com as que se perderem

Se o plano acaso falhar

- Actos que de mim vierem

São os que os da escuridão

Mentores aguardarão.

 

Como, ante o sol, o luar

De quem é sombra de amar:

 

A nossa força, em verdade,

É a nossa fragilidade.

 

 

331 - Criam

 

Hão-de ser sempre os tiranos

Que criam seu inimigo.

Como receiam os danos,

Dos que oprimem o perigo!

 

Saberão que, tarde ou cedo,

Das vítimas incontáveis

Uma se erguerá sem medo

Com gestos irreparáveis

 

A ripostar contra a sina

De escravo a que se destina.

 

 

332 - Crenças

 

Novas crenças enfatizam

A vivência pessoal,

O interior priorizam,

Do imo o encontro em cada qual:

Muitas vezes não são mais

Que de Deus alguns sinais.

 

Acolhem quem desconfia

Das grandes religiões,

Do tradicional a via,

Da moral os aleijões,

Tamanha pompa e riqueza

Onde o escândalo só reza.

 

As novas crenças ofertam

Fuga ao frio ritual,

Da lenda infantil despertam,

Querem cunho pessoal,

Melhor a si se entender

O imo fundo ao percorrer.

 

São um rumo iniciático

E à vida dão senso prático.

 

 

333 - Único

 

De único Deus todos falam,

Só pode tal Deus ser um.

O rumo por onde abalam,

Certo para qualquer um,

 

Então é deixar fluir

As múltiplas expressões

Da fé que cada sentir,

Sem violência nem pressões:

 

Cada, ao ser com todos Uno,

É que então de Deus é aluno.

 

 

334 - Sofrem

 

Apenas sofrem os vivos,

Eles só de culpa se enchem

E de remorsos furtivos,

De perguntas que os preenchem

Para as quais, quão mais se aposta,

Mais iludida é a resposta.

 

 

335 - Trabalho

 

Se vem o trabalho à mão

Sempre em primeiro lugar,

Logo de perto a ambição

O segue, sempre a trepar.

O que é um triste comentário

Duma vida por fadário.

O trabalho é parte enorme

Daquilo que então se for,

Que cremos que nos conforme.

Rompendo com este ardor,

Se propositadamente,

Sinto-me um sobrevivente

 

À deriva, solitário,

Sozinho num mar imenso

De falta do bem primário

Da teia a que não pertenço.

É o castigo de invertido

Ter, afinal, meu sentido.

 

Prémio de consolação

É que, ao fim, tenho razão.

 

 

336 - Imo

 

Bom para o imo é parar

Para olhar de vez em quando

Para quanto perdurar.

E o que vem deste comando

 

É que quão mais velhos somos

Tão mais atentos olhamos.

E assim mais de nós dispomos

Quão menos nos agitamos.

 

 

337 - Memórias

 

Tipo de recordação

Sempre de algum modo é a fé.

Tuas memórias então

De estima dignas até

Hão-de ser, mesmo se moem:

Não deixes que te magoem.

 

Com tempo verás que são

O que a teus pés gera o chão.