NONO TROVÁRIO
É AMOR APENAS QUANTO SOU
Escolha aleatoriamente um número entre 1110 e 1206, inclusive.
Leia o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1110 - É amor apenas quanto sou
É amor apenas quanto sou,
Embora irregular no que lhe assino.
Em métrica irregular a mão lhe dou
E assim me vou
Com ele à sintonia a que me inclino.
Em versos rimados no atropelo,
Trocando o passo no desencontro silabado,
O poema cose o elo
Ao amor a que hei-de ser predestinado.
São laços em que ferverá paixão,
Corre o leite da fraternidade,
Das amizades o salutar cachão.
O poema aqui me invade
As mais úberes terras que me grade.
1111 - Mesmo
Vêem ao mesmo tempo as mesmas pessoas,
A ouvir e contar as mesmas falas.
Em conjunto compram as boroas,
Saem em conjunto para conjuntas galas,
Como em conjunto ficam em casa
Soprando a mesma chama à mesma brasa.
O casal devém louco hospício de ideias,
Descobertas, opiniões,
Internamento de notícias a adoentar as ceias,
Acamadas relações:
Nem há mais nada, sequer,
Um ao outro a dizer.
Quando já não houver que contar,
Contam e recontam obsessivamente
Os mesmos pequenos nadas sem luar
Na noite do desencanto que se mente.
O derradeiro recurso
É doutrem falar mal,
O discurso
De julgar, comparar, criticar
Em frenesim terminal.
Nada que valorize
O casal que espalhe a revitalizadora notícia,
Na mal disfarçada sevícia
Que vise.
De crítica em crítica,
Cada qual reforça a ideia
Paralítica
Com que acometa,
Agrilhoado à mórbida cadeia,
Contra o resto do planeta.
1112 - Novidade
Se cada qual
Tiver a liberdade de partir,
Dentro dum casal,
Para um lugar diferente a descobrir,
Haverá sempre novidades a contar
Dum mundo novo singular.
Se cada qual do outro o regresso
Costuma celebrar,
Se de itinerários o excesso
Aprendeu a valorizar,
Tais marinheiras estratégias,
Evitando que o casal dele próprio ande à roda,
São no mapa da vida roteiros
De vias régias
Para a nupcial boda
Em inesgotáveis píncaros soalheiros.
1113 - Encarar
Quanto mais encarar as inóspitas diferenças
Como riquezas para o casal,
Tanto mais o casal tirará delas.
E as iluminadas sentenças,
Afinal,
Devirão matriz
Duma vida que será bem mais feliz
Em todas as janelas.
O outro revela-se, vivo,
Tem novas para contar
E nelas se partilhar,
Festivo.
Enquanto dormias ou te banhavas de sol,
Ela leu um livro, falou a um vizinho,
Correu dos telefonemas o rol…
É agir sobre a vida, adivinho,
Mesmo a mais quotidiana
A estalar de secura,
Para a transformar, de plana,
Numa pequena aventura.
1114 - Receberem
Muitos deixam de dar
Por não receberem em retorno
O que era de esperar.
Mas será que em torno
Da macieira obrigado
Tudo grita em todo o lado?
E a macieira, ante a ignorância malsã,
Deixa de produzir maçã?
Oferecer, comunicar, transmitir
São a gesta humana
Que gerar laços nos há-de permitir
E manter, semana a semana.
Sem tal criação
O meio ambiente enfraquece,
Falho de alimentação,
E, murcho, lentamente fenece.
Somente
Aquele que dá
Constantemente
Certo está
Da alegria
De receber algum dia.
1115 - Muda
Muda sempre a nervosa colectividade
E cada vez mais depressa.
Mas a busca do amor por igual nos invade,
Idêntica nos atravessa,
Ainda que não revista, por norma,
A mesma forma.
O confronto com a doença,
Com a morte,
O desejo de criar vida própria sem avença,
A urgência de avançar, com boa ou má sorte,
A frustração,
- Vive-os cada geração.
Embora os usos e costumes se transformem,
Os corpos envelheçam,
Dentro de nós dormem
Perenidades que jamais tropeçam:
O coração dos homens é imutável
E este é o tesoiro
De manancial inesgotável
A transmitir a prata e o oiro
De mão em mão,
Geração a geração.
1116 - Generoso
Se a natureza lhe deu de generoso o dom,
As mãos nasceram-lhe abertas,
Tanto quanto o coração.
E, embora em horas incertas
As mãos lhe estejam vazias,
O coração, a compensar,
Estará cheio todos os dias
E permite-lhe dar.
1117 - Enlaçam
Uns aos outros nunca nós nos possuímos:
Os homens e as mulheres
Não se fundem da vida nos escorregadios limos.
Se não há galinha-mestra de capoeira,
Também não há, do amor nos haveres,
De capoeira o galo que a todos enfileira.
Também é amor o poder e a autoridade:
Só como bem-servir qualquer deles persuade.
1118 - Amigo
O amigo capaz de silêncio connosco
Em hora de desespero e confusão,
Capaz de connosco estar no fosco
Momento de dor e aflição,
Que tolera não conhecer, não curar, não sanar,
E nos acolhe na realidade
De nossa impotência singular
- Este é um amigo de verdade.
1119 - Víveres
Os indivíduos não são para cercar-se,
Sem víveres fortaleza,
Mas antes para deles cada qual acercar-se
E entrar lá dentro, porque os preza.
Não é de ficar à espera
Uma eternidade
De que morram, de era em era,
Dentro da solitária cidade.
Se antes de nos matar isto nos mata,
Aquilo o nó da morte até desata.
1120 - Corpo
Meu corpo adulto, para a criança
Vive pejado de magia,
Não da aparência que alcança
Mas do que pode operar cada dia:
Levá-la às cavalitas
Quando ela está fatigada demais
Para vir a pé, balançando as fitas,
Dos caminhos da vida pelos pedregais;
Esconder-lhe os chocolates
Na prateleira
Para ela não os atingir com os dislates
De lambareira;
Salvá-la do gatinho
Quando ele arma das garras o trabuco,
Assanhado, no caminho,
Feito gato maluco…
E a criança é que tem razão:
Para quê preocupar-me tanto
Com o encanto ou desencanto
Da aparência que tenho ou não?
1121 - Algo
Deus é tudo:
Quando algo olhas da natureza,
Estás a ver, mudo,
De Deus a grandeza
Extasiada
Numa faceta de nada.
Ora, como da natureza somos parte,
Mais que filhos seus,
Nós, destarte,
Também somos Deus!
Isto é que no outro o amor
Descobre como apaixonado fulgor.
1122 - Fome
Porque têm fome de amor,
De amor, e o não encontram nunca,
O acessório a tudo irão antepor,
Os carros, as casas, roupas, jóias,
O lixo que tudo junca
Em mil frustrantes tramóias.
E tudo são meros substitutos:
Não têm amor e procuram produtos.
Ora, o vazio, assim,
Não tem fim, não tem fim, não tem fim…
1123 - Pressa
Nada satisfaz duradoiramente
Quando nada é deveras importante:
Todos com pressa correrão na procura fremente
Do que jamais encontram adiante.
Quando compram o que querem,
Descobrem-se vazios:
O que compraram conferem,
Por entre fastios,
Que não era, afinal,
O que tinham por ideal.
Querem amor,
Não querem coisas, não.
As coisas são um sucedâneo menor,
Acessórios de zircão
Que mascaram, afinal,
O diamante crucial.
E, sem este,
Na vida sem amor
Grassa, fatal, um odor
De peste.
1124 - Ofertarei
O amor, quando é verdadeiro,
É preocupar-me mais
Da plenitude com o aceiro,
Venturas reais
Que ofertarei a quem amo,
Mais que com a felicidade
Que a mim próprio teço e enramo,
Seja a dor qual for que invade
(Repare eu nisso ou não repare)
As opções com que na vida me depare.
1125 - Orfanato
Num mundo onde o mal triunfa
Grande parte das vezes,
Dos miúdos dum orfanato a alegre trunfa
É um valor
Bem maior
Que o de crianças que nunca viveram reveses.
É que somos nós, não eles, a requerer
Salvação no que ali se alcança.
O orfanato é mais que um lugar qualquer,
- É a esperança.
1126 - Trata
A vida do que trata é da oportunidade
De a nós próprios nos encontrarmos,
A seguir
A nos disponibilizarmos
De verdade
Outrem a servir.
1127 - Milénios
Durante milénios, os marinheiros
Navegaram pela estrela Polar.
Sempre olhámos as estrelas como luzeiros
Em busca de nos orientar,
Indicadores certeiros
Do rumo ao lar.
Alguns acreditam, por este signo,
Que elas lhes ditam o próprio destino.
1128 - Trocando
Servimo-nos mutuamente
Duma forma simples e directa,
Trocando o eu pelo outro regularmente,
E desta forma vislumbrando, discreta,
A Intimidade eterna que transcende
O eu e o outro, por igual,
Tanto o eu que me prende
Quanto o meu, sempre irreal.
Então, no horizonte, após,
Desponta o nós.
1129 - Ferida
A ferida acolhe do amor,
O amor verdadeiro dói,
Torna-nos, com pudor,
Por inteiro vulneráveis
E abertos, enquanto nos rói.
O amor verdadeiro levar-nos -á,
Inevitáveis,
Os passos muito para além de nós,
Irá
Devastar-nos, até perdermos a voz.
Se o amor não nos despedaça,
Não conhecemos o amor,
É uma trapaça,
Não tem fulgor.
Despedaçados, porém,
Mortos os dois,
É sempre o Além
Que somos depois.
1130 - Esponja
Ser uma esponja meramente
Leva a sentir-nos inúteis e desamparados
Por não fazermos nada, simplesmente:
Somos apenas presença ali presente,
Inerme perante os desolados.
É o que tantos terão
Tanta dificuldade em aprender:
Deixar de tentar resolver
Cada questão,
De tentar contra a lesão
Melhorá-la,
Estar apenas presente
Quando o sofrimento abala
Algum querido ente.
Por isto é que ninguém
Em doenças crónicas anda interessado
Porque não podemos nada também
Ante a lesão do lesionado:
Só podemos ali ficar,
Estar, apenas estar…
Quando cuidamos que devemos
Algo fazer para ajudar
E descobrimos que o que faremos
Não ajuda nada, a par,
Ficamos, sejam quais forem os cuidados,
Deveras desarmados.
Que podemos fazer entrementes?
Nada, apenas estar presentes.
Contudo,
Por mais estranho que pareça,
É isto que toca tudo,
É por isto que me transmudo
Da raiz até à cabeça.
1131 - Sofrimento
Como poderei pedir
Que meu sofrimento acabe
Com o mundo inteiro de dor a fremir,
Esta minha outra família
Que de egoísta dor minha vigília
Menoscabe?
A consciência de minha dor
Consciente da dor deles me mantém,
Mantém-me o coração aberto ao sofredor
E às marés de mágoa que contém.
Já não ignora nem resiste
À dor universal que me toca a pele:
O sofrimento existe,
Tenhamos compaixão dele!
1132 - Uno
Um só mulher e homem foram outrora
Mas em dois findaram divididos.
À busca e desejo do todo, agora,
Chamamos amor.
Do uno ao fulgor
Vivemos eternamente referidos.
1133 - Absorver
Nossa indisponibilidade
Para doutrem absorver o sofrimento
No nosso nos enclausura em soledade.
Não poderemos escapar ao tormento
Porque em nosso eu nos encerra:
Imposto um ponto final, não há mais terra.
A partilha é nosso fado
Para que o juízo final
Venha encontrar-nos num estado
De aniquilação total
De nosso ego excerbado,
De modo que eu não seja tomado
E entregue às mãos da atrocidade
De minha mesquinha identidade.
1134 - Decisão
O homem baseia
A decisão a que é atreito
Na ideia
De regra, lei, julgamento e direito.
A mulher, valorizando o coração,
Vai pelo sentimento, o laço, a relação.
Nem um nem outro é melhor
Agente:
Nenhum resultado é inferior,
Apenas diferente.
Quando, perante o mesmo evento,
Um com outro se integra,
O rapaz passará por cima do sentimento
Para salvar a regra,
A rapariga passará por cima da regra,
Para salvar o sentimento.
Quando se coordenam, porém, a meio
Acertarão
Então
Em cheio.
1135 - Pratica
Pratica a ferida do amor,
Não podes evitar ser ferido,
Mas limita-te a observar a ferida em seu teor,
Não te contraias, continua a amar, decidido.
Se ferido apenas fores,
Continuarás a abrir-te à urgência dos amores,
E hás-de continuar
A abrir-te à necessidade de amar.
1136 - Trilho
O amor é um trilho antigo
E por isto venerável
De transcender o estreito postigo
Do eu separado, degradável,
E de saltar, sem nada a que se arrime,
Rumo ao sublime.
Damos as mãos na ponta dos ramos,
Fechamos os olhos e saltamos.
1137 - Deixa
Deixa ir, deixa com Deus!
Em lugar
De a ti e aos outros tentar mudar
Por primários fitos teus,
Tenta a ti e aos outros perdoar.
Se não consegues perdoar a alguém,
Que teu ego to impede,
Ao Espírito pede,
Ao que dentro de ti se encontra e que então vem
Perdoar aos outros e a ti te perdoar
Também.
Este é o teu voo
Então singular:
Deus é o amor no qual perdoo.
1138 - Entre
Entre mim e o outro a distinção
Rígida e apressada
É que me bloqueia do caminho a função,
Me impede de ser deveras bom
Para mim próprio, em cada jornada.
À distinção preso,
Se bom for para os mais, sinto-me privado,
Se o for para mim próprio, coeso,
Sinto-me mesquinho e malvado.
E é tão mais fácil abdicar disto,
Apreciar o gesto de dar
Que a mim e aos outros avisto
Em comum a nos beneficiar!
É no concreto
Que vemos o caminho alternativo
Como é recto
E definitivo.
1139 - Contextos
Em contextos de liberdade individual,
Toma-se em âmbitos reduzidos
Qualquer decisão fundamental,
No seio familiar, no laço do casal,
Num grupo de amigos escolhidos,
Entre sócios duma sociedade,
Não nos amplos ambientes,
Alargados, indiferentes,
Da nacional comunidade.
A cultura da liberdade individual
Fomenta a crença
De que o indivíduo é o responsável principal
Do êxito ou fracasso que lhe pertença.
Os miúdos rápido aprendem a viver no tom
De que depender doutrem é mau
E ser independente é bom
E a salvo transpõem este vau.
Os adultos atendem às agruras do semelhante
Por vocação pessoal,
Não tanto por exigência cultural
Do meio em que vivem, instante a instante.
Aqui os infelizes são os primeiros
Responsáveis das próprias desventuras
E, devendo ser da libertação os pioneiros
A colectividade não se ocupa de mesuras,
Nem intervém
Para ajudar em primeiro lugar ninguém.
Então todos se tendem a ajustar
A modelos de vida
Que lhes permitam o mais possível controlar
Os destinos e tudo os convida
Aos maiores esforços
Para assegurar,
Definitivos,
Que dos eventos os positivos escorços
Hão-de superar
Perenemente os negativos.
1140 - Benefício
O benefício emocional de falar!
Pelo vínculo entre palavra e emoção,
Falar é desabafar,
Libertar a preocupação,
Experimentar
Agradáveis sentimentos
Que acompanham a comunicação
Entre quem é querido, ao sabor dos ventos.
Evocar, ordenar, verbalizar
Nossos pensamentos
Num ambiente acolhedor
É sempre tão gratificante
Como um acto de amor.
Por isso tantos, pelo dia solitário adiante,
Quando não encontram humano interlocutor,
Falam ao cão, ao gato, ao pardal
Ou à planta que regam no quintal.
E quantos se sentem melhor,
Doutrem apesar da falta,
Quando, num sozinho e pobre amor,
Consigo falam em voz alta!
1141 - Pilha
Ante a casa esbarrondada
Numa pilha de escombros,
A criança murmura à mãe desesperada,
Afagando-lhe os ombros:
"Mamã, tudo perdemos,
Não há esquivas,
- Mas, repara, ainda a sorte temos
De estarmos ambas vivas!"
1142 - Fala
Fala apenas do divórcio, fala apenas.
A gente pensa que vai ser um alívio
E nalguns casos é.
Um alívio de coisas pequenas.
Mas há tanta coisa sem oblívio
Que fazia parte de nossa vida,
Ali sem arredar pé,
E que se quebra, irremediável, à despedida!
Tudo falsos acenos:
O próprio alívio, inesperado,
Nos primeiros tempos, ao menos,
Precisa de ser aliviado.
1143 - Opções
Amar alguém
Implica encorajar e apoiar
Também
As opções próprias que tomar.
E jamais violar a fronteira
De que é dele ali a palavra derradeira.
Um passo além, o amante a sério quer
O que o amado quiser.
Então o amor a dualidade desempata
E os dois num finalmente ata.
1144 - Seguir
Nunca sabemos nada sobre ninguém.
Já é difícil seguir nosso próprio rasto,
Quanto mais o doutrem, imo além.
Quando se trata doutrem, para o verdejante pasto
Que no imo dele exista,
Não temos uma única pista.
1145 - Contaram
Tenho a certeza
De que me contaram a verdade,
A verdade neles presa,
Tal como a viam em luminosa obscuridade.
Mesmo assim,
A verdade, enfim.
Nenhum deles pretendeu enganar-me,
Nenhum deles mentiu intencionalmente,
O que obriga a que eu desarme
As mãos e a mente.
Não há verdade universal
Para eles mas também,
Afinal,
Para mais ninguém.
Não há réu nem vítima
E a única reacção
Defensável e legítima
É a compaixão.
1146 - Âncoras
As âncoras emocionais
Mais valiosas e eficazes
Dependem duma cadeia de apoios tais
Que solidamente devenham fortes e tenazes
Em laços instrumentais
Em vez dos esquivos
Laços afectivos.
Ou o amor ali chega
Ou no pó se derrete
Do fogo que o acomete
E então só uma amizade no esquife pega
E cumpre a função instrumental
De que aquele dera sinal.
O amigo, o irmão presta o serviço
De que nutro então meu viço.
1147 - Esmagam
Independência e individualismo
Esmagam a humildade.
Se como membro da comunidade
Operar cismo,
Ela é tão requerida
No que entrança
Como a auto-estima atingida
E a autoconfiança.
Três madeixas
Com que sólido atarás quanto enfeixas.
1148 - Crise
As épocas de crise genuína
Revelam os amigos verdadeiros.
Estar bem na vida, porém, nos inclina
A nunca descobrirmos, certeiros,
Se contamos, no abrigo,
Com algum verdadeiro amigo.
No melhor da vida há sempre um revés
Que nos pega de través.
Só então se nos revela
Onde há um buraco negro e onde, uma estrela.
1149 - Culturas
Em culturas menos individualistas,
Menos ricas, entre familiares com mais cipós,
As listas
De irmãos são parte de "nós".
Nas mais individualistas em que o "eu"
Importa mais que o "nós" que seles,
Os irmãos não são troféu,
Os irmãos são "eles".
1150 - Contexto
No contexto da amizade
Entre o homem e a mulher,
"Gosto de ti" diz só esta verdade,
Não outra verdade qualquer.
Na relação romântica sexual
"Amo-te" é "amo-nos" também, logo após
Ou porventura, afinal,
"Amo a minha ideia de nós".
Esta absorção exclusiva
Da plenitude
É que a torna tão esquiva
E faz que tanto nos ilude.
1151 - Encantamentos
Encantamentos de amor não existem,
Enguiços não há do coração,
Que mais poderoso é que quantas magias se alistem
Na escuridão.
A luxúria podemos despertá-la
Com um piscar de olhos,
O desejo com um sorriso abala
A saltar por cima dos escolhos.
Mas o amor é o amor e, no secreto, íntimo lugar,
Não há nada tão profundo que o possa afectar.
1152 - Sabes
Sabes melhor que ninguém
O que te convém
Ou não.
Chega, porém,
A ocasião
Em que a cabeça está a dizer
E o resto de ti nem ouvir quer.
Pode um homem devir criança
Quando se trata duma mulher,
Querendo o que não deve ter,
Pegando em mais do que alcança,
Em mais do que o peso singular
Com que pode lidar.
O paradoxo em si
De teus deveres
É que saber o que não é bom para ti
Não te impede de o quereres.
1153 - Jóia
Guarda tua jóia até entenderes
A quem a deves dar.
Quando a ofereceres,
Oferece também palavras a acompanhar:
São mais mágicas do que a jóia
Em que tua mão se apoia.
E tua vida desliza
Quando nelas se fertiliza.
1154 - Cuida
Teu amor cuida que sabe o que há em ti,
Mas ainda não escavou à fundura requerida.
Cuidado, para não lhe mostrar demais aí,
Nem depressa demais, mas antes à medida.
Para não assustar,
Vai devagar.
A fundura
Requer o tempo que depura.
1155 - Brotem
Não é riqueza, posição nem imortalidade
O que ela quer de mim,
Mas promessas, juras, palavras de verdade
Que do coração brotem do confim.
Por que é difícil "amo-te" dizer?
Ficamos mudos
Como um túmulo qualquer,
Só porque aquilo remove todos os escudos.
Ora, no abandono de criança
É que a plenitude nos alcança.
1156 - Descansa
Descansa quanto precisares,
Que há por aí muito sossego,
Mas não te mantenhas à distância dos lares
Por tempo demais sem apego,
Apenas a observar, infecundo,
O resto do mundo.
A vida que declinas,
Frio,
É bem mais curta do que imaginas
E acabarás vazio.
1157 - Fábulas
Amor à primeira vista,
Em fábulas muito usado,
Coração que reconhece coração…
À primeira vista é uma atracção
Que se regista,
Um tiro disparado.
Amor, não,
Não bastam tão
Dúbios sinais:
O amor exige mais tempo e muito mais.
Sem prescindir
Fatalmente
De àquele lume ir
Atear o archote ardente
Permanentemente,
Senão deixa o fogo algum dia se extinguir.
1158 - Sabedoria
Com a sabedoria da idade
O que foi feito importa compreender:
Quantas vezes foi rejeitado o amor pelo formal dever
Meramente por não se confiar, em perenidade,
No apelo são
Do próprio coração?
1159 - Traz
Traz amor,
Não tragas pedras preciosas!
Fala de amor,
Não de paixão, ânsia ou constância saborosas!
Talvez então
Acabe por prevalecer
O coração
Sobre a rotina do dever.
Se fores orgulhoso demais,
Ela então
Findará cega aos sinais
De seu próprio coração.
E a oportunidade perdida
Como é que alguma vez poderá ser reavida?
1160 - Solidão
A solidão é tranquilizadora
Mas poderá devir sufocante
E deixa-nos esquecidos do dia e da hora,
Adiante.
Quando preciso de consultar o calendário,
Chegou o momento de abrir a porta do solário.
1161 - Importante
A palavra é importante para a mulher,
Importante para todos.
Quando não é dita sequer,
Deixa lacunas espalhadas pelo melhor dos bodos,
Lacunas profundas e escuras
Donde proliferam dúvidas e fracassos.
Não deve ser dita apenas quando apuras
Que recusada fere tanto como os insultos mais crassos.
Se queres deveras abrir o dia,
É a palavra que o anuncia.
1162 - Insignificante
Que bom estar apaixonado,
Mesmo que doa!
Não se pode sentir insignificante, de lado,
Se estiver apaixonada uma pessoa.
Tornou-se, de repente, o fecundo,
Centro do mundo.
1163 - Simples
Uma amizade,
Que simples era!
Do campo ou da cidade
Não dependera,
Nem, do analfabeto à Universidade,
De onde estudara quem a merecera,
Nem do que faria, singular,
Para a vida ganhar,
Nem de onde desabrochado,
Fora criado.
Apenas conta, de boa fé,
Quem o amigo é,
O que a quenquer
Tem a dizer,
Como, defronte presente,
Afinal se sente.
1164 - Apareçam
Um lar,
Um lugar
Onde aqueles de quem eu gosto
E que gostam de mim
Apareçam com o verdadeiro rosto
Sempre que queiram, que o dia não tem fim.
Onde sintam a liberdade
À vontade.
Talvez, no fim de contas,
Não seja solidão
Para onde apontas,
Mas o que encontras neste chão:
Companheirismo cada dia,
Riso,
Descontraída alegria
E romance com o siso
Da enorme festa duma falta de juízo.
1165 - Parente
É uma magia,
Parente estreita das lendas de fadas e feitiços,
Cavalos alados da fantasia:
Sou aceite aqui, do amor atado com os liços,
Não pelo que faço,
Nem pelo lugar donde venho,
Nem pela escola onde colhi meu traço
De desenho.
Sou aceite e aqui estou
Por quem sou!
Por quem estou finalmente
A permitir-me ser no presente,
O que é, mesmo hesitante,
Deveras o mais importante.
1166 - Aquele
Aquele homem é dela, é seu
Enquanto durar,
Para acariciar, possuir, saborear.
Era a ela que ele queria,
Fatia
De céu,
Era a ela que ele procurava,
Era ela quem faria
O coração dele disparar
Do peito na caverna cava.
Da mulher,
Jucundo,
Ou de quenquer,
Este é o maior poder
Que há no mundo.
1167 - Comando
Por que não poderei fazer o que adoro
Sem impor restrições?
Por que não viver num lugar
Que seja mais o lar
Onde moro
Do que um fardo de senões?
Ao olhar da quotidiana lida
O escarcéu,
Quem está no comando da minha vida
Senão eu?
1168 - Antes
Antes, era o desespero por escapar,
Ver algo, o que quer que fora
Que não fora de contemplar
Todos os dias que a vida lhe demora.
A inquietação era o estrado
A que andava acostumado
E chegara a apreciar.
Todavia, era
Como se houvera,
A andar de lado a lado,
Dentro dele uma pantera
Presa, rosnando,
Pronta a cravar as garras,
Atacando
Quem mais amava, no perímetro das amarras.
Viajar fora o melhor
Que poderia ter feito
Por mor
Dele próprio, ao próprio jeito,
Sem falar
De quem lhe era familiar.
A inquietação persistia,
Sempre no íntimo se agitaria,
Mas o rosnido,
As pegadas intermináveis
Dum lado para o outro, sem sentido,
Terminaram, amáveis,
Num familiar balido.