O  SABOR  DOS  DIAS

 

 

 

PRIMEIRO  TROVÁRIO

  

O  AMOR  CANTO  EM   VERSO   BREVE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1 e 106 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 – O sabor dos dias

 

O amor canto em verso breve,

Também o sabor dos dias,

Desvendo o rio que leve

Ao mar fundo que me eleve

Do invulgar às gelosias.

 

O afecto na quadra viso

Tal do cotio o que for

Ao sonho que nem diviso,

O insólito a me propor.

 

Laços canto em metro incerto,

Dos dias o desencontro,

Dos cumes o longe aberto.

 

Já nos trovários me encontro,

Tudo, ao rir, é reencontro.

 

 

2 – O amor canto em verso breve

 

O amor canto em verso breve

De métrica regular

Com rima que nos eleve

Ao par, dum amor o leve

Espelho do similar.

 

Em todas as dimensões,

Em todas as conjunturas,

É o laço das emoções

Com as vontades mais puras.

 

E é das ausências castigo,

Na lógica das traições

Dos corações sem abrigo.

 

O amor são tantos baldões

- E nós crendo-o sem senões!

 

 

3 – Três

 

Há três coisas que a um adulto

A criança há-de ensinar:

Feliz e contente andar

Sem motivo, mesmo estulto;

 

Com algo andar ocupado

Agora e constantemente;

Exigir mui veemente

O que tiver desejado.

 

Com todas as três, enfim,

Enche a vida adulta assim.

 

 

4 – Pai

 

Quenquer pode ser amigo

De meus filhos, porém eu

Único posso e me obrigo

A ser pai que têm de seu.

 

Sou quem tem de os ajudar

A crescer, devir adultos

Independentes e, a par,

A compreenderem, cultos,

 

As regras como os limites.

Os amigos podem ter

Acaso, quaisquer palpites,

Que só um pai tem o saber.

 

 

5 – Relações

 

Relações optimizadas

Com meus filhos posso ter

Mesmo (e só) se demarcadas

Nos limites a reter.

 

Limites dão à criança

A segurança a sentir.

Mais bem qualquer lar alcança

Se bem cedo os imprimir.

 

 

6 – Casamento

 

O casamento é espantoso:

Dois que lançam dados juntos,

Uma e outra vez, no gozo

Do terror que há nos assuntos

E do entusiasmo encontrado

De ignorar o resultado!

 

Diariamente bate à porta

A sorte, a oportunidade.

Uns ouvem-na no que exorta,

Outros, não, se não agrade.

Não basta ouvi-la, porém,

Mas deixá-la entrar também,

 

Saudá-la, torná-la amiga

E cooperar com ela.

Ter a própria sorte obriga

A abrir larga uma janela.

O casamento, espantoso,

Fisga o peixe mais gostoso.

 

 

7 – Acordos

 

A tendência a discutir

Em redor, sem resolver,

Dentro dos casais porvir

Do lar é dar a perder.

 

Discutir bem, diferenças

Permite expor logo então,

Leva a acordos as sentenças,

Fortalece a relação.

 

Não discutir não é, pois,

O que torna o lar feliz,

Mas discutir bem. Depois

Pouco importa o que alguém diz.

 

 

8 – Invés

 

O invés da privacidade,

Não é invasão, é abertura:

O privado, de verdade,

É aquilo que me inaugura.

 

É o que partilhar permite

Esperanças, fantasias,

Sonhos, medos, um palpite,

Nos faz sentir alegrias

 

Porque podemos expor

Equívocos e defeitos

E continuar, sem temor,

Ao amor a ser atreitos.

 

A privacidade é espaço

Entre nós e os mais queridos

Onde sei de qualquer laço

E não há quaisquer arguidos.

 

 

9 – Medo

 

Quero o coração em paz,

Com alguém com quem viver

Sem ter medo de o perder

Um dia após, se lhe apraz.

 

O tempo então devagar

Em silêncio ficaria:

Resta para conversar

Toda a vida, dia a dia.

 

 

10 – Pobres

 

Dois pobres enamorados:

Só o relógio é o que ele tem,

Ela, uns cabelos doirados

E ambos o amor que convém.

 

Querem trocar um presente.

Ele o seu relógio vende

E de pedras compra um pente

Que aos cabelos dela rende.

 

Ela vende a cabeleira,

Do dinheiro uma corrente

Compra para ser parceira

Do relógio, no amor crente.

 

E, na festa de noivado

Ao relógio já vendido

Ela a corrente há ofertado,

Ele, o pente oferecido

Ao cabelo já cortado.

 

Assim é o amor da gente:

Em contrapé da corrente.

 

Mas, por isso, que ternura:

É uma ingenuidade pura!

 

 

11 – Perfeito

 

Não é o amor encontrar

Uma pessoa perfeita.

É o perfeito retratar

Na imperfeita que o tocar

E torná-la então a eleita.

 

O amor é a combinação

Duma atracção instintiva

Com a decidida opção

De lhe dar ocasião

A que de vez então viva.

 

E no correr deste leito

É o rio sempre imperfeito.

 

 

12 – Artes

 

Provam as artes que mais

Somos do que os animais.

 

O amor, porém, é que prova

E as artes são a palavra

Com que o amor tudo inova

À medida que nos lavra.

 

Que o amor é o outro lado

A ser quase desvelado.

 

 

13 – Através

 

Através de ti sabia

Admirar o mundo inteiro.

Hoje, sem ti, parecia

Que o que vejo, a que me abeiro,

Nem sequer existiria:

Sem ti é que eu encegueiro

E tudo perde a magia,

Esvaziado e leveiro,

Véu de seda que se esfia,

E nu fico ao nevoeiro.

 

 

14 – Espaço

 

Nunca sabemos ao certo

Qual o espaço que ocupamos

Na vida dos outros: perto

Ou longe, o que ali meçamos

Deixa o mistério encoberto.

Contudo, da névoa emerge

O afecto que cultivemos

E o melhor laço converge

De, ante os muros que nós vemos,

Desejarmos preservar

A relação que aflorar.

Não uma emoção que manda,

Volátil e caprichosa,

Mas vontade que a comanda,

Fiel e sempre operosa.

 

 

15 – Talentos

 

A mulher casa também

Com talentos do marido.

Não se impressiona, porém,

Mais tarde com tal tecido,

Mas sempre há-de fazer crer

Que aquilo que pretender

Não é mais que ir no sentido

Do que lhe é dali devido.

 

 

16 – Blandícias

 

Blandícias de amor carnal

Mais poder no solitário

Têm do que no normal

Que se atar comunitário.

 

A mais rude tentação

Do encontro duma mulher

Não vem: a imaginação

Duma ausente ela requer.

 

O delicioso atractivo

De longe se exerce mais

Do que de perto ou ao vivo,

Na magia dos sinais.

 

 

17 – Indivíduo

 

O indivíduo é um capital

Que permanente requer,

De tão reduzido ser,

Ser restaurado, afinal,

Mediante a relação

Com outrem, de mão na mão.

 

Fora disto é o desperdício

Dum mero inútil resquício.

 

 

18 – Portas

 

Não é isto o casamento,

Duas portas em dois mundos,

Ida e vinda nos fecundos

Caminhos do entrosamento?

 

De tal modo que fechados

Nunca mais enlouqueçamos

Nos trilhos dos mesmos tramos,

Sala de espelhos blindados.

 

É por isto que sentimos

A precisão de casar:

A abrir-nos outro lugar

Um outro além pressentimos.

 

 

19 – Queixar-me

 

Queixar-me da solidão?

Só lograrei que me escutem

Quando enfim meu coração

Línguas falar que percutem

O íntimo da multidão

E então o amor executem

Semeando todo o chão.

 

 

20 – Triste

 

Que triste viver no meio

Duma família, dum lar,

A conversar, conversar,

Sem ninguém ver o entremeio!

 

A frase atirada ao ar

Tal bola jogada à toa.

Tudo bem, foi bola boa,

Então, se alguém a apanhar;

 

Se não, vai cair ao chão

E atira-se outra em lugar.

Fale-se o que se falar

Parece haver no desvão

 

Entre eles dupla vidraça:

- Ninguém vê o outro que passa.

 

 

21 – Aprender

 

A nova oportunidade

De aprender a ser deveras

É aceitar como, em verdade,

Pode alguém doutras esferas

Provir e ser diferente

Quando eu amo, impenitente.

 

 

Como pensar e sentir

Pode de forma diversa

Da minha quem vejo vir

Com gosto que nunca versa

O que prefiro em meu dia

E auras novas principia.

 

Diz o que eu nunca direi

E não vê nunca o que vejo…

Único é quem amo: a lei

É que é doutro mundo o ensejo,

Não uma cópia de mim,

Ao decalque porá fim.

 

 

22 – Procures

 

Amigos sem ter defeitos

Não os procures jamais,

Que a vida então, pelos jeitos,

Perdes sem amigos tais.

 

E defeitos não procures

Nos amigos, de caminho,

Que, a pouco e pouco, o que augures

É que acabarás sozinho.

 

 

23 – Quando

 

Quando um diz: “agora não!”

Quando o outro demonstra afecto,

Casados não ficarão

Partilhando comum tecto.

 

Se estiveres ocupado,

Aos pedidos de atenção

Responde: “ando atrapalhado,

Mas diz qual a pretensão.”

 

Disputas que principiam

Por “és sempre” e  por “tu nunca”

Um ao outro desafiam,

Logo o lar é uma espelunca.

 

Em vez da crítica vaga,

Explica o que te irritou.

Se o alvo és tu desta adaga,

Pára a escalada que alçou.

 

Levar os olhos aos céus

Quando o parceiro conversa,

Negativos escarcéus

Cumula em tudo o que versa.

 

O teu gesto negativo

Com positivos emenda:

Afaga e sorri mui vivo…

Talvez teu lar não se ofenda.

 

 

24 – Corações

 

Em toda a comunidade

Há trabalhos por fazer,

Como toda a nação há-de

Por curar feridas ter.

 

Ao lado destes senões

Anda o remédio singelo:

Em todos os corações

Há poder para fazê-lo.

 

 

25 – Ciúme

 

Amor sem ciúme algum

Não é nunca amor nenhum.

 

Ciúme quem não sentir

Não ama, anda-se a mentir.

 

Mas o ciúme também

Falta de estima por quem

 

Se amar sempre significa: