SEGUNDO  TROVÁRIO

 

 

TAMBÉM  O  SABOR  DOS  DIAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 107 e 240 inclusive.

 

Descubra o poema correspondentcomo uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

107 – Também o sabor dos dias

 

Também o sabor dos dias

Com as normas do bom senso

Vou tocando nas magias

Que despertam energias

No que opero, digo e penso.

 

Canto o sabor de cotio

Que a cada nada nos prende,

Que, distraído, confio

Que por si próprio nos rende.

 

Num verso mui regular,

De ritmo e rima sabidos,

Da regra vou pôr-me a par,

 

Vou por todos os sentidos

Ler meus rumos consabidos.

 

 

 

108 – Disciplina

 

Disciplina que funcione

Da atitude consistente

Provém com que eu a alimente,

Que minha conduta abone.

 

De contrário o que eu arrisco

Implementar é um padrão

De errática condução

Do educando sempre arisco.

 

Então eu contribuí

Mesmo inadvertidamente

Para instável ser em si

O que devera ser gente.

 

 

109 – Elevamos

 

Nunca elevamos os olhos

Sem certa malignidade.

Ao baixá-los aos trambolhos

É que há paixão e piedade…

 

- Nossa fada malfazeja

É sempre a maldita inveja.

 

 

110 – Amear

 

Se vires um dedo

A amear o horizonte

De vez perde o medo:

Não olhes o dedo,

Olha o que ele aponte!

 

Cristão integrista,

Perdes-te na lista

Daquilo que lês;

 

Fundamentalista,

Corão sacralista

É só quanto vês:

 

- Em vez duma ponte

Trancaste o horizonte.

 

 

111 – Inteiro

 

Por inteiro no lugar

Te mantém que tu escolheres.

Dividido, um reino, a par,

Logo perde os seus haveres.

 

Um humano dividido

Já não consegue enfrentar

Dignamente o muro erguido

Na vida que palmilhar.

 

Um combate tido a meias

Não são vitórias, são teias.

 

 

112 – Desato

 

Há na vida dum problema

O dia de ser tão grande

Que pode ser detectado.

Foi tão pequeno, por lema,

Que pôde quem nele mande

Resolvê-lo num bocado.

 

Desato os nós dos sarilhos

Pegando-os pelos atilhos

E já não pelo cordame

Que as mãos me corte e me trame.

 

 

113 – Avesso

 

Por que havemos de aguardar

Que a vida dê uma estalada

Bem do avesso a nos virar

Para pararmos na estrada?

 

Pensar na valia inteira

De tudo aquilo que temos:

Olhos de ver a soalheira,

Ouvidos onde ouviremos

 

Os melros e as sinfonias,

Mãos de fazer uma festa,

Saúde todos os dias,

A família que nos resta,

 

Os amigos, o dinheiro

De beber o Verão todo

Numa tarde onde emparceiro

Com um copo como engodo…

 

Preciso é apenas querer

Mudar o rumo de vida,

Mesmo num nada qualquer,

- E eis-nos com nova medida.

 

 

114 – Problema

 

O problema é a prepotência:

Cada qual pretende impor

Aos mais a própria vivência,

Do mundo o que vê no alvor,

 

Tal como se fora dele

Aquele mundo existira:

Quer que os mais, dele na pele,

Vejam tal qual ele vira.

 

E que não sejam senão

Como ele os vê do seu chão.

 

O problema é a prepotência:

Mata-os logo em sua essência.

 

 

115 – Burocrática

 

Burocrática atmosfera

É actividade mortal

Para o que vive e que espera

Do esforço um prémio real.

 

Coloca um ponto final

Sob o papel, sob a tinta

(Dela supremo fanal),

Tanto ao temor que se pinta

 

Como a qualquer esperança.

Na burocracia a brisa

Pára como quem se cansa,

Num miasma se eterniza.

 

 

116 – Fina

 

Entre Deus e nós existe

Uma fina intimidade.

Isto é espiritualidade:

Deus a agir no que eu despiste.

 

O invés da religião:

- De nós em Deus uma acção.

 

Sempre a tentativa fruste

Da minha superstição:

O perene falso ajuste

Em lugar da comunhão.

 

Se me abandono na entrega

É que ao fim Deus se me lega.

 

 

117 – Máquina

 

Não há máquina capaz

Do que for centelha humana:

De espírito, compaixão,

Nenhuma as vezes nos faz,

Como amor, compreensão

Nenhuma delas emana.

 

Não há máquina capaz

Do que for centelha humana.

 

 

118 – Corto

 

O mundo foi-nos criado

Para cada um de nós.

Finda uma vida, de lado,

Corto o mundo inteiro após,

O mundo como existia

Para aquele que o vivia.

 

E depois de o apagar

Não há como o recriar:

 

Cerrada aquela janela,

Cerro a paisagem que é dela.

 

 

119 – Aprende

 

Liga-te a quem for mais nobre,

Os melhores livros lê,

Vê o poder que te recobre…

Mas aprende em solidão

O que é que ser feliz é:

Doutrem aí não há mão,

Só tu em ti tomas pé.

 

 

120 – Tontice

 

Quão tarde aprendo na vida

A  tontice de insistir

Que ando certo, se a medida

Sempre é um erro a me iludir!

 

Quanta perda de energia

Que já não gera magia!

 

 

121 – Acostuma

 

Antes me fizeras mal,

Já que o mal põe-me ao teu nível.

A esmola acostuma, real,

À desgraça mais punível.

 

E desgraça o desgraçado

E degrada-o, dependente,

Dependente de seu fado,

Das drogas a mais cogente.

 

Superioridade tua

Cria o bem, teu solidéu.

Em mim o azedume acua,

Todo o azedume que é o meu.

 

Para sempre classifica

Quem dum lado e do outro fica.

 

 

122 – Perigosa

 

Servir-se do poder como?

Que perigosa ilusão!

Serve-se ele, quando o tomo,

De mim, tem-me ali à mão.

 

E, quando aspiro ao poder

Com o fim de fazer bem,

Mais à mão me ele irá ter,

Mais me domará também.

 

Só trepar ao pedestal

É já de si mesmo um mal.

 

O poder só serviria

Em mão que o detestaria,

O pedestal submergindo:

- Em vez de mandar, servindo.

 

 

123 – Inferiorizar

 

Da superioridade

Tua ninguém tu esmagues,

Que sempre derivar há-de

De inferiorizar os mais

Que assim tu então estragues

Com o brilho dos cristais.

 

Mas esmagar não te deixes

Da tua inferioridade

Pretensa, de que te queixes.

Não é senão a ilusão

Da superioridade

Dos outros que a não terão.

 

Para manter o equilíbrio

Urge evitar o ludíbrio.

 

 

124 – Retribuas

 

Não retribuas o mal

Que o malvado te houver feito

Com tua moeda igual.

 

Não o imites no trejeito,

Não o copies, já que ele

Te imitará de igual jeito

 

Em quanto imitaste dele

E o cadeado não parte

Nunca mais no que o impele.

 

Antes inventa com arte

Outro rumo ao trilho andado.

O inédito assim reparte

 

E crê, crê no inesperado.

 

 

125 – Dois

 

Ninguém serve a dois senhores:

Ou a Deus ou ao dinheiro,

Amor-próprio ou amores

Fraternos – um é o cimeiro.

 

É a lição que a economia

Nos não mostra em nenhum dia.

 

Depois o mundo terceiro

Põe as bombas no primeiro.

 

E atacam o terrorismo,

Não o que lhe dá o baptismo:

Vem do cimeiro valor,

Um dá paz, o outro, terror.

 

 

126 – Crêem

 

Crêem, por conservação,

Que os homens, feitos Estados,

São monstros sem coração

E que em lugar de cuidados,

Mais rendível e realista

É mantê-los dominados

Dos medos por toda a lista,

Mais ainda pela bomba,

Um inferno que persista…

- E ali quenquer logo tomba.

 

Mais vale isto que confiar

Que em todos nós há uma pomba

Toda a vida a desejar

A humanidade ideal

A que era bom se entregar:

- A dum homem convivial.

 

 

127 – Desapareceu

 

Desapareceu no rico

O homem que devia ser

E não é. E em troca fico

Com este monstro a crescer,

De humano só com salpicos.

Ai dos ricos! Ai dos ricos!

 

 

128 – Povos

 

Também com povos verdade

É o que ocorre à natureza:

O Inverno uma eternidade

Não durará com certeza,

 

Nem morte que não germine,

Em seu discreto alçapão,

O inverso com que combine,

O alvor da ressurreição.

 

Também connosco há uma espera:

Que após haja a Primavera!

 

 

129 – Preciso

 

Preciso é que os povos cresçam,

Que os governos diminuam,

Que estes se rejuvenesçam:

Saudáveis são os que actuam

 

Como dos povos parteiras,

Nunca como pais nem mães,

Nem como donos de esteiras

(Povos-cama de seus cães),

 

Nem como patrões daqueles

A que esfolarão as peles.

 

Governo a servir, parteiro,

Gera um mundo novo inteiro.

 

 

130 – Cooperarem

 

Os governos arrogantes

Bem como os autoritários,

Como os mais, menos gritantes,

 

Nunca chegam, arbitrários,

A gostar dos povos deles.

Em lugar de solidários

 

Cooperarem com eles

Alegremente actuantes,

Dando a palavra aos imbeles,

 

Como compete aos mandantes,

Os governos fazem tudo

A distraí-los, constantes,

 

A anestesiar, tornar mudo,

Divertir, neutralizar,

A domá-los, sobretudo.

 

Nem hesitam em usar

Violência e repressão

Se o povo reivindicar,

 

Se impacientes mostras dão

Os cidadãos que refilam,

Clamam por justiça em vão

 

E às vidas que se perfilam

Querem melhor condição:

A todos os aniquilam.

 

 

131 – Gosta

 

Não gosta de religião,

De templos, nem sacerdotes,